March 31, 2017

Amarelo

Amarelo


Eu ainda visito seu perfil e penso em todas as coisas que nunca dissemos um para o outro. Não que tivéssemos o que dizer. O egoísmo é meu. Não que tivéssemos importância um para outro. Certamente não tive para você.

Se estou soando amarga, é por já saber o que sou. Gosto da cerveja da sexta que não vamos mais tomar. Nós poderíamos conversar de novo para você me dizer o quão horrível eu sou ou ironizar meus gostos. Mas a gente não pode, né? Pois eu sei o que sou. Aquela que te deixava falar, sem saber se iria ou não e nunca fomos.

Eu poderia envelhecer e odiar cada dia dessa vida. Mas admito que sinto sim, falta de meus cabelos. O calor no peito do coração que ficou mais duro que uma pedra. Ou assim pensava e assim, que ironia!, assim ficou. Aprendi a sentir falta do que tinha como certo apenas quando perdi todas as certezas. Menos uma: nada é certo. Tudo se enverga diante do que vemos, nada se enxerga como quando queremos.

E você vê os shows que nunca verei, escuta os que não posso ouvir, reclama dos que nunca irei sentir. Eu ainda visito o seu perfil. Aquele cotidiano besta, desconjuntado que queria ser meu. "Te abdico", algo em mim um dia disse.

Parecia fácil, tínhamos tanto em comum. Mas nada era fácil, não é por isso que sou assim? E das coisas que dissemos, que bom que me perdoou. Mas você pode me esquecer? É a lacuna. Não é? Não existe a quem perdoar. Não existe ninguém para te perdoar. É só um buraco que te olha mais profundamente, quando mais fundo vai teu olhar para dentro dele. Um questionar que te questiona, esbraveja num sussuro incansável: "de quem é a culpa?"

Eu me sumi de você e você continua aqui. Visito o seu perfil e sei. Poderia deixar de ir, assombrar outro lugar, deixar seus 1 e 0 só para ti. Puxar a mim de sua memória, das suas histórias, do seu histórico. Devorar esse ectoplasma que a ninguém pertence. Mas qual direito tenho? Quem advoga no espaço das ausências? Não há mais, não poderia sequer, como engendrar pior pena...

Mas não deixaria seu quarto menos escuro, tão quente quanto minha tumba. Eu escorro pela sua cama e lambo com sal suas lembranças, que conta que fecha? Que carne que sara? Que vida que segue? Eu dizia que queria uma solução, mas só queria que sentissem falta de mim.

Me deitaram calma, repousada. Era um dia lindo, eu estava linda. Minha pele branca, esticada sobre meus ossos. Onde estava você? Nem soube, não foi? Quanto tempo depois me visitou? O quanto sentiu? Era só um perfil. As sombras das sobras de uma conversa em um mundo que não tem começo meio e fim.

Frágil, mas leve era meu pesar. Olhei para mim e me julguei. Poderia você?

Mas sabe, eu ainda vivo um pouco, quando nas poucas vezes você visita o meu perfil e as lágrimas correm do seu rosto, pensando nas coisas que nunca dissêmos um para o outro. E me agarro a esse sal. O egoísmo é meu.

May 01, 2016

Temos de acreditar (primeira parte)


Patrícia colocou o resto das coisas em sua bolsa. Era uma bolsa quase do tamanho dela, que foi do seu pai, na época em que ele serviu ao exército. Não havia selecionado nada de importante. Nada que fizesse falta a sua família. Alguns pães, um pedaço de queijo, bolachas, biscoitos, uma maçã. Havia também uma faca, gardanapos, mudas de roupa... Ela estava longe de estar preparada. Quaisquer viagens em que o que ficou para trás são pontes partidas, são sempre as mais longas de sua vida. E ela amava sua família. Mas não amava apenas ela.

Pietro estava ferido. Menos que o homem a seus pés. Ele sangrava e sussurava algo. Fora Pietro quem o matou e sabia bem disso. Não sentia que tivesse outra escolha. Soube que estava sendo seguido já por alguns quarteirões antes dali, e percebeu que teria de emboscar o homem.
- Comunista!
Era essa palavra que escapava da boca do morto, com o pouco de ar que conseguia raptar do pulmão perfurado.
Pietro não sabia o que a palavra queria dizer, mas se agachou junto ao homem e, num gesto de misericórdia, lhe ceifou o resto de vida com um beijo.
Juntou suas coisas e pegou a arma que o homem portava, correndo para o local de encontro que havia sido marcado dias atrás. Ele precisava sair da cidade antes da primeira luz do dia: os professores iriam soar o alarme se soubessem que não estava no alojamento e, se o que lhe falaram era verdade, a cidade inteira estaria em alerta.

Alcione fecha a porta atrás de si. A fumaça atinge seu rosto com o cheiro de lar. Sentia saudades. A música ainda não chega a essa parte do túnel, exceto por um tênue sussuro. Alcione navega na escuridão coberta de carne em que as pessoas disputam espaço com os escombros e com o mangue que invadiu o lugar. Mais fumaça e agora música. A escuridão só se desfacela pelo brilho das pulseiras e brincos que dão as pessoas que entram. Vermelho, laranja, amarelo verde, azul e púrpura, dardejam por entre as opressivas trevas. As bandas tocam no escuro, só elas com permissão de usar óculos de baixa-luminosidade. Alcione quase tropeça em dois corpos que se devoram no meio do salão, ávidos por um amor verdadeiro e descartável.

A gaiola de faraday se engancha em um arbusto e Patrícia sente o puxão doloroso na orelha e que segue, agudo, por dentro de sua pele, até a base do pescoço. Ela pega o celular, também envolto em uma rede de metal, e usa ele como espelho para desenlaçar a rede que enrolou em volta de seu brinco. Seu impulso é de tirar tudo ali mesmo, mas sabe que precisa de ajuda e que poderia morrer, ali, sozinha, no meio de uma mata de espinhos, em terra improdutiva. Está longe de ser o destino que deseja para si. Enquanto prossegue se libertando, escuta as gravações que fez nas noites anteriores, justamente para esses momentos de raiva e dúvida, esperando se acalmar ao som de sua voz. A sua própria voz lhe lembrando que ela não está sozinha.

O cheiro que lhe apertava o tronco era novo. Ele pensava assim: nada além de um doce perfume. Apanharam Pietro na hora marcada, mas não haviam imaginado que ele estivesse machucado. Rasgaram sua camisa, que já havia sido arruinada pela faca do inspetor escolar, e fizeram um torniquete em seu braço. Ela o fez, o aroma doce. O carro seguia no escuro. Um modelo automático e incapaz de saber o que carregava. Havia sido enganado e levava justamente aquilo que devia caçar: jovens que queriam apenas se divertir.
- Você é uma rosa?
Perguntou grogue ao aroma.
- Não somos todas?
E o aroma lhe beijou a face e se aconchegou junto dele, enquanto seguiam pelo escuro.

O hino brasileiro começou a soar lá fora, as pessoas se levantam, assustadas. Mas é só o toque de amanhecer. Não são muitos os que ainda estão lá. Restos de festa entre uma ruína da cidade, cansados demais de tanta felicidade. Os que conseguem, ajudam os que ainda estão dormindo a se levantarem para saírem para seus locais de transporte para o trabalho. Alcione fica para trás. Não há lugar na luz que lhe deseje bem, não aí, não na cidade patrulhada. Sai com os últimos membros da festa, por entre as plantas do denso manguezal para a barca que vai levar eles para fora da cidade. E sem perder tempo, ainda no barco, alguém lhe empurra um console e Alcione começa a semana de trabalho com pé-direito, esmagando com a sola de sapato os sensores logo após se guardar os seus registros, preparando as pessoas que sofreram cirurgias nessa noite, para que possam também ser livre no futuro.

Encontram Patrícia no início da manhã. Eles sorriem e se abraçam. Ela não conhece nenhum dos seus irmãos e irmãs e isso não importa. Ela conhece seus corações. Não é a primeira vez que monta em um cavalo e oferece uma maçã ao animal que se mostra dócil. Eles cavalgam por algumas horas e chegam a um acampamento camuflado. Lhe convidam para comer e lhe dão uma lista de tarefas para que ela escolha o que quer fazer. Todos a acolhem bem e ela descansa boa parte do dia. No começo da noite, soltam balões com pequenos aparelhos amarrados a eles. Ela conta quase cem deles.

O instinto de Pietro é pular da cama e correr para o chuveiro, evitando se atrasar para a aula. A dor da vara batendo em suas mãos e em suas costas, parece ter inscrito o impulso em seu córtex. Mas ao se mover, sente a dor e ouve o seu próprio grunhido.
- Calma, campeã! Vamos com calma.
O sorriso lhe recepciona do outro lado da cama. Pietro relaxa.
- Tome, beba isso e tome esses comprimidos.
Ele obedece. Ele foi treinado a vida toda para obedecer, essa parte é fácil. Difícil foi ter feito o que fez ontem. Mas não pode se permitir a duvidar de si quando não há dúvida sobre quem é. Ele sabe o que precisava fazer, apenas lamenta pelo homem que matou.
- Estou seguro aqui?
- Está sim, Pietro.
- Demora?
- O que lhe disseram?
- Que a primeira cirurgia é rápida.
- Você está anestesiado. Coloque a mão, com cuidado, no lado esquerdo da sua cabeça.
Não estava lá. Haviam mesmo tirado o sensor. Pietro sorriu, aliviado.
- O que vocês fazem com ele?
- Depende.
Disse o mesmo aroma da noite anterior. Ela ajusta o curativo do seu braço e continua:
- Aqui, nada. Mas mandamos para o interior, em que eles são levados por balões. O único efeito prático é confudir as máquinas do regime, mas... É de certa forma, engraçado.
Ela sorri e ele também.
- E as outras? Quero dizer, as outras cirurgias?
- Demoram um pouco mais e você tem de passar por outro processos. Mas vai dar tudo certo, lhe prometo. Já escolheu um nome?
- Obrigado. E sim, é Débora.

A arma estava carregada e Patrícia sentia um enorme desconforto ao segurar ela assim, apoiada em seu ombro. Ela nunca havia atirado antes em sua vida, mas foi a tarefa que escolheu.
Os balões haviam partido algumas horas atrás. Da direção para onde foram, vieram drones. Eles não possuiam armas, apenas câmeras. O regime não usava mais drones armados: no passado, foram usados contra os próprios soldados, seguidas vezes, até que se mostraram uma arma mais eficaz nas mãos dos inimigos. Os disparos de morteiros não demoraram, mas Patrícia e os outros já haviam montado nos cavalos e, na escuridão, cavalgavam para o embate. Os drones foram hackeados logo após as primeiras explosões e usado como observadores avançados para armas como essa usada por Patrícia: teleguiando o míssil em direção aos soldados. Não houve explosão precedendo o avanço da força irregular de cavalaria. Diferente dos morteiros, pulsos-eletromagnéticos, purpurina, gases não letais e New Order, atingiram o grupo a frente.
- Tell me, how do I feel! Tell me now, How do I feel!
Gritavam as bombas de som em meio aos soldados do regime. Alguns ainda mantiveram a compostura e conseguiram disparar suas armas mesmo sem visibilidade, cobertos por confete e purpurina.
Foi um massacre. Ninguém ficou ferido.

Alcione olhava para os canais de notícias que reproduziam, cada um com suas palavras, as mesmas ideias. O massacre aos inimigos do regime, o louvor aos amigos do regime. A crise energética e ecológica eram largamente ignoradas, ou quando algum desastre que não poderia ser ignorado, ocorria, culpavam gente como Alcione: aqueles que se desligaram do sistema e lutam contra ele. Alcione fazia muito pouco, sabia. Dava liberdade a pessoas que iriam permanecer escravizadas, mas não se atrevia a tomar para si a escolha de outros. Alcione e os outros a sua volta, representavam uma alternativa. A violência e o medo eram as armas do regime. Estas, deviam ser derrotadas com o uso da esperança e do humor. E pensando nisso, Alcione colocou em curso um ataque planejado meses a fio, que alterava em tempo real, as notícias. Não hackearam a Central de Informações, mas substituiram o sinal com outro sobreposto, quase idêntico, modificando apenas elementos pontuais. Mito III, o ditador, teve seu nome substituído por: O Ridículo. Eles esperavam que, por algumas semanas, os sistemas de comunicação fossem interrompidos. Afinal, a interferência tinha um caráter rizomático, e cada caixa de interferência tinha de ser retirada fisicamente - podendo ser também rapidamente substituída. E podia ser que todo o esforço não adiantasse de muito: mas valia a piada.

Débora descobriu que, como ela, todas as garotas que estavam lá também tinham passado pela mesma coisa. Quando a República Democrática Laica do Brasil se tornou o novo nome oficial do país, não demorou muito para que as cirurgias e até a ideia de mudança de sexo, fossem consideradas ilegais.
- Está pensativa hoje, não é?
Eileen nunca estava distante. Ela era responsável por administrar parte do centro cirurgico clandestino. Um de muitos, Débora ouviu dizer. Claro, nem todos envolviam mudança de sexo. Alguns, e esses eram os mais frágeis, eram as clínicas de aborto. Débora, agora trabalhando com a atradução de cartas e documentos do grupo, sabia que haviam também pelo menos algumas maternidades, onde pessoas podiam nascer fora do regime. Ela chorou quando descobriu isso.
- Sim, sempre.
Ela não conseguia se conter e agora sempre sorria quando via Eileen. Aqui foram, não haviam barreiras para seu amor.
- Tudo certo para o próximo carregamento?
- Sim, sim. Acabei de confirmar as datas, horários e coordenadas.
- Você quer ir dessa vez?
- Sim, sim, quero muito, claro!
- Tá. Então temos de ver o maiô que caiba em você.

- Olá.
- Oi.
O nome dele era Estevão. Patrícia tinha nocauteado ele semanas atrás e, assim como os outros que ela tirou de combate, ficou sob sua responsabilidade. Estevão havia escolhido ficar com eles quando lhe foi dada a opção. Não foi o único que ficou, mas era dele de quem Patrícia gostava mais.
- Como você está, Estevão? Tem gostado daqui?
- Tenho, tenho sim. Você sabe disso.
- O que é isso que você está fazendo?
- Com o fuzil?
- Sim, sim, com a arma.
- Estou fazendo algo errado? Achei que você tinha pedido voluntários para transformar os fuzis em ferramentas.
- Não, não. Calma! Só foi uma pergunta. Então, o que você está fazendo?
Patrícia sorri, sentando ao lado de Estevão. O novo acampamento fica ao lado de um açude, dentro de uma propriedade particular. Os batedores recolheram o equipamento dos morcegos semanas atrás e concluíram que o latifúndio é tão grande, que essa parte quase nunca é visitada. ELes informaram ao grupo e levaram os minúsculos radares para colocarem em animais das próximas regiões para onde eles planejavam ir. Patrícia gostava dali, O vento fresco que sibilava por entre as árvores, a forma como a lua batia na água e iluminava o acampamento que utilizava um sistema de superfíces refletoras para iluminar os pontos de trabalho a noite.
Enquanto ela pensava essas coisas, ele produzia sua resposta:
- Estou transformando uma arma, em uma ferramenta.
- Você está transformando algo. Tudo aqui acaba transformado em alguma outra coisa.
- É, eu notei isso.
- Um dia, eu vou sair desse grupo para eu mesma, me transformar.
- Como assim?
- Eu nunca me senti feliz com esse corpo, Estevão. Desde que me entendo por gente.
- Entendo.
Eles ficaram em silêncio por um bom tempo. A arma, desmontada, ficava cada vez mais solitária e fria, enquanto a atenção deles se voltava para o açude e as estrelas.
- Eu posso ir com você?
Patrícia respirou fundo para quebrar o medo, antes de perguntar:
- Você quer mesmo?
- Eu quero estar onde você estiver.
Eles se beijaram pela primeira vez e terminaram, juntos o trabalho daquela noite.

A chuva parecia explodir sobre o prédio. Alcione terminou de montar a rede inibidora e estava indo ajudar o pessoal do som quando ouviu o hino nacional. Balas passaram raspando, poucos centímetros de seu corpo. Todos sabiam: se não fossem mortos, seriam torturados. O regime não era dado a sutilezas, não haveria voz de prisão, ninguém teria advogados. A Lei de Terrorismo garantia ao exército exercer sua força, ignorando qualquer garantia legal. Em efeito, elas não existiam a partir do momento em que alguém se colocasse contra o regime. Alcione, mergulhou na lama e tentava nadar para longe, mas ouviu, da Avenida Boa Viagem, o hino. "Eles acionaram a guarda-costeira!", pensou.
Mudou de estratégia. Se fosse adiante, seria vítima do cerco. Agarrou os braços de Mel e Luka, que tentavam fugir na mesma direção. Houve um pouco de confusão e perceberam para onde ir. Voltaram, sob cobertura da chuva, de volta ao local onde estavam preparando a festa.
Os soldados ainda estavam lá. O local, agora iluminado por holofotes, seria difícil de ser alcançado. Alcione gesticulou em direção a Mel e Luka. Conversaram em Libras, protegendo-se da luz com o uso de escombros de um prédio, parte da decoração local depois dos tsunamis que o governo negou terem ocorrido. Ironicamente, boa parte dos prédios iriam ser destruídos para fazerem prédios ainda maiores, e que, teoricamente, poderiam sobreviver ao avanço do mar...
Combinaram de chamar a atenção deles para partes diferentes do mangue e das ruínas. Os barcos da guarda costeira não tinham como chegar até esse ponto da Domingos Ferreira. Alcione queria fazer duas coisas: pegar seu celular com os dados das pessoas que operaram na última festa, impedindo que fossem capturadas e torturadas, e tentar salvar os integrantes dessa célula de resistência que ainda não tinham sido mortos ainda.
Mergulhou, tateando pela parede da ruína, até achar umas das entradas que usaram para colocar equipamentos. Iriam fazer a em um prédio abandonado e bombearam ar para salas que não eram facilmente acessíveis. Contava com a dificuldade dos agentes do regime em pensarem de maneira não-linear. Eles deviam imaginar que a festa seria ao ar livre, por baixo das lonas que utilizaram para proteger equipamento mais sensível, antes de transportá-lo para dentro do prédio. A célula de Alcione era nômade, carregando tudo consigo.
Ao chegar em um dos salões, viu seu computador. Ainda estava seguro. Podia deletar os dados dos operados que tiveram seus sensores substituídos, mas isso só atrasaria os sistemas de rastreio que mantinham os cidadões sobre vigilância boa parte do tempo. Precisava fugir dali com esses dados. Não ouviu tiros do lado de fora e esperou que Mel e Luka estivessem bem. ELe não sabia se seu plano ia funcionar, mas tinha que tentar enquanto ainda tinha tempo e ligou a música.
- Every time I think of you. I get a shot right through into a bolt of blue
O som fez ribombar o prédio. Alcione esperou terminar a primeira estrofe e eletrificou a enorme malha metálica que cobria a superfície. Iria queimar tudo, duraria poucos segundos, mas esperava que fosse o suficiente.
Ouviu gritos e disparos de armas. Pegou seu computador e indo pelo corredores do prédio, chegou rapidamente ao topo e viu o caos de soldados do chão e lutando sobre os membros da célula que ainda estavam vivos. Mel havia morrido, pode ver, mas cairia de joelhos e rezaria depois. O importante era agir enquanto não chegavam reforços. Seu punho quase quebrou batendo no capacete de um dos soldados que lutava com Luka pela sua arma. Ouviu mais tiros e sabia que a batalha ainda estava perdida.
- Temos de fugir! Vamos!
Luka gritava sob a torrente. Alcione não conseguia se decidir. Uma bala decidiu por si. Em um momento, olhava para a Luka e a lua azul que teimava em surgir por detrás das nuvens negras. No outro segundo, enquando seu corpo caia, viu os braços do soldado, apontando de novo o rifle e disparando. E não viu mais nada.

Débora, Eileen e mais duas companheiras testemunhavam a mesma lua. Estavam alertas: ouviram o hino sendo tocado pela guarda costeira, mas perceberam que os barcos estavam distantes do ponto de encontro. O maiô incomodava Débora um pouco, nunca havia vestido um traje assim, e o mar, furioso, também era uma experiência nova, mas como os outros alunos em sua escola, havia sido obrigada a aprender a nadar e bem. O regime criava antes de tudo, soldados e trabalhadores braçais, e a força física era o atributo masculino mais fomentado nas novas cepas. Débora, por mais assustada que estivesse, sabia que estaria segura se não tentasse nadar em direção ao mar.
- Ainda demoram?
Perguntou Débora, cuidadosa em não beber a água do mar.
- Não. E não acredito que se atrasem por causa do mar. Eles devem ter planejado esse horários de acordo com a previsão do tempo.
Eileen, como sempre, usava vermelho. Ela se apoiava em um trenó aquático e carregava uma bolsa que seria levada pelo nosso contato. Maria e Sara se apoiavam do outro lado da bóia. Sara, dentre elas, era a única que andava armada.
- Olhe! Golfinhos!
Gritou Déborah. As outras sorriram.
- Sim, são nossos contatos.
Disse Eileen, nadando em direção a eles. Os golfinhos pareciam animados e claramente foram modificados, com buracos para plugs em suas cabeças.
Presos a eles haviam caixas pretas que Eileen e as outras carregavam para o trenó, que Débora tentava manter estabilizado junto ao prédio.
- Para onde eles vão agora?
Débora perguntou quando entregaram a bolsa aos golfinhos.
- Acredito que para um submarino.
- E quem manda esses suprimentos?
- Quem não manda? Existem várias ONGs ao redor do mundo que dão apoio ao Brasil e mais especificamente, a grupos como nós.
Ouviram tiros e música, muito, muito alta.
- Isso foi perto daqui, Eileen.
- Eu percebi, Sara, mas o que você sugere? Não podemos arriscar os suprimentos.
- Esperem aqui. Volto logo.
- Não! Não vou deixar você ir sozinha. Débora, fique aqui com o trenó. Vamos, meninas!
As três nadaram em direção aos disparos. Nervosa, Débora esperou ansiosa. Ouviu mais tiros. Queria ir com as outras, mas não tinha como largar o trenó nesse tempo. Ouviu novamente o hino nacional e ficou com medo. O que ela faria se os barcos viessem em sua direção? Não poderia abandonar as outras.
Enfim, ela viu as outras voltando. Mas onde estava Eileen? Elas traziam mais gente, mas não viu Eileen, seu maiô vermelho.
- Eileen! Eileen!
Sara e Maria a olharam com tristeza. Cada uma trazia mais uma pessoa. O hino nacional tocava mais alto, mais próximo.
- Onde está Eileen?! Eileen!
- Pare de gritar!
Gritou de volta maria.
- Pare de gritar, Débora. Me ajuda a colocar esse pessoal amarrado no trenó. Temos de ir.
- Não vou a canto nenhum sem saber onde está Eileen!
- Ela morreu, porra! Morreu! Vamos!
- Não!!
Antes que as outras meninas pudessem fazer algo, Débora nadou na direção de onde vieram.

August 21, 2015

G.2

Nosso último beijo ficou numa fotografia. Foi um amor gentrificado. Saia um para dar espaço a outro. Não me importa. Não nos importávamos mais. Não houve traição, mas uma troca acertada: ambos sabíamos que o fim já havia chegado. Apenas nos recusávamos a fechar a narrativa. Fechamos apenas as ruas. Gejú, escondido em sua janela, nos acompanhava pela televisão. Desocupados, olhavam a ocupação.

O ódio, com sua gula, nos beliscava com discursos vazios. Nos pedia currículo, acusava sem medo, a nossa delinquência. Dos novos ágoras, cuspiam com ódio nos seus monitores, telas. Demos gelo. Não se respondem aos cães, apenas se respeita seus dentes. E a polícia não ia tardar a aparecer. Que instituição deixa de abusar do poder quando se sonha gigante. E pequeno, o gárgula, com o ricto permanente, pensava nas mentiras que iria contar no amanhã.

Nosso último beijo ficou numa fotografia. Nem a memória o guardou. Nada ficou. O local virou escombros, que virou prédio, que virou túmulo. Nem a memória o guardou. A cidade involui. Girafas buscam o céu e topam na escuridão proposta, como se górgonas tivessem descoberto seus olhares para o mundo e tudo tornado pedra, escuridão e calor. Recifede, mais os gases agora são outros. Com o riso permanente de galhofa no rosto, o vilão que empesteia a cidade está bem empacotado, não se assemelha, em estética, o resto de comida podre e dejetos inumeráveis, largados no centro da cidade.

A motoserra ceifa mais uma vida. Talvez da floresta, logo também reste o nada, o papel estéril de uma fotografia. Logo, a própria serra, será mais obsoleta que um gramofone. Ninguém mais se importa com legados, não há nada para quem deixar, pois não haverá ninguém. O homem que conduz a máquina não é nada mais que outra peça. Dois anos para viver, se tivermos sorte, escreveu com giz o pesquisador, pó ante pó. Lá embaixo, distante de onde estou, continuam cortando árvores, e eles mesmo sabem: é inútil. A madeira não servira para nada, para ninguém, todos nós estaremos mortos. Seu gesto sequer irá, a esse ponto, apressar nossa extinção.

Não há ginecologista para curar a gonorreia que somos. Não há cura para a infertilidade do mundo. Os rios secaram como o gosto de seu beijo, a sombra de um prédio, vinte e cinco anos atrás, quando ainda viva era a cidade. E de prefeito em prefeito, as górgonas transformaram até o amor em pedra.

No maior deserto em linha reta, após um oceano abandonado, de verde barrento e sujo, que se pontua com o que restam das torres da avareza. Lá, jaz um ex-pântano, ex-cidade. Dizem que do que ficou, levantam gases que corrompem a memória, fazendo jus a sua história. O gato, que trouxe de lá, me arranha a perna pedindo comida. Penso quando vou ter de comer o gato, enquanto derramo o resto da garapa garganta adentro.

Nós deixamos que os gandulas conduzissem o jogo. Não é uma sensação gostosa. O sabor da derrota. Derrota de um povo, de um país, de uma espécie. É um vazio quase tão grande quanto a sua falta, de quem ficou pra trás, escolhendo um diferente inimigo, uma outra falsa esperança. Você plantando no sertão, uma tarefa inútil. Eu aqui, podando os que devoram as árvores. Temos menos de dois anos para viver. É galhofa. Temos bem menos. E cada um, perdido em seu ato mecânico. Você planta. Eu levanto o fuzil e miro, com cuidado, em quem ordena o uso das serras.

May 11, 2015

E.2


Estamos tão distantes de tudo. Um do outro, de nós mesmos. Não vamos nunca. nunc. nun. nu. n.
Estacionário. Suspenso. Levado para análise. Liberado. Solto.

E ele voltou. Em meio a festa, em meio ao nunca, quase engasgando. Olhou para as pessoas a sua volta que esperavam que ele concluísse o raciocínio, mas foi em vão. Se percebeu perdido e encontrado, desligado do mundo e ao mesmo tempo, mergulhado e tentando poder respirar dentro de, bem, tudo. Lembrou, nesse instante, agora, do que estava dizendo antes e poderia concordar e até voltar a conversa anterior, mas sentia-se eviscerado, tudo seu lhe parecia exposto. A estupefação lhe tomou conta. Havia um mundo ali! E ele saiu para a varanda.

Sentia o ar lhe tocar o rosto e lembrou de ambas, carícias e violências, ambas desferidas e sustentadas. Olhava a cidade de eucaliptos rochosos a seu redor. Uma era de ignorância, onde todos podiam se conectar, eletrodos todos de uma imaginação limitada, energúmenos possuídos pelas máquinas que carregam e as quais devotam suas vidas. Sentiu nojo de si e vomitou prédio abaixo.

Escória. Escória do mundo. Se vê parte de tudo e corre para o meio da festa, com olhos alucinados. Sente a ereção e o esperma que logo escorre. Sente tudo. Não há escrúpulos nas nuvens. Sente tudo. Busca o elevador, a escada, quer respirar. Sente tudo. Sabe-se extenso, tocando com tentáculos de percepção que nunca teve, tudo. Sente tudo. Cai, mas levanta, corre. Vomita de novo. Suas estranham parecem querer escapar, sua carne parece crescer, berrar contra si, uma elefantíase que busca independência. E no correr, cair, levantar, correr, ele escorrega pelas escadas, inchando e mudando.

A massa que chega ao térreo logo se torna de novo, homem. Mas um homem novo. Ele não reconhece a si. Não tem medos. Mas suas chagas estão aberta. Cada dor, cada memória, cada crime cometido e sofrido com seu eu e a realidade do outro. Ele escorrega para as sus e sente o sol queimar sua pele que fumaceia. Ele corre para o buraco mais próximo, se esconde nas sombras.

Ele sente que tudo que fez foi tão estúpido. Como foi cruel. Como se deixou enganar. Lhe brotam escrúpulos, ali mesmo nas sombras.

- Eita, mãe!
- O que é filha?
- O homem.
- Anda, é só um viciado.
- Viciado?

Ele escuta com vergonha. Pois fora. A esbórnia que fora sua vida até aquele momento, concentrada no vício de destruir outras vidas. Todos em seu meio faziam o mesmo. Sorriam em eventos beneficentes enquanto exploravam e matavam indiretamente. davam tapinhas nas costas uns dos outros, com as mesmas mãos que assinavam documentos que iriam desabrigar milhares. A empatia só não era ausente no que tangia o disfarçar de sua verdadeira natureza, uma imposição social de uma cultura em que as aparências alinhadas a uma ética religiosa, silenciosamente servia para justificá-los como eleitos em um mundo em que a grande massa era escrava de seus desejos. Encasquilhados em arranha-céus, no qual suas fundações se erguiam sobre ossos brancos de pardos e negros, eles bebiam e comiam o que negavam ao mundo.

Um intenso desejo de se confessar lhe enchia o ser, e vencendo o desejo da vergonha, e agora limpo das barreiras que sempre o tornaram evasivo a vida, andou o extenso caminho entre a sombra e a luz. Olhou para as pessoas na sua e começou a falar:
Estamos tão distantes de tudo. Um do outro, de nós mesmos. Não vamos nunca. nunc. nun. nu. n.
E seu corpo se ergueu no ar, e em mil partículas invisíveis ao olho nu se tornou.
Estacionário. Suspenso. Levado para análise. Decomposto. Excretado.
Irredimido.

May 05, 2015

D.2



Um baleia metálica, nadando e cantando no universo mudo das estrelas. Dentro dela, uma diversa coleção de Jonas, cada qual com seu pecado e nenhum deles, tivera de pescar na vida.

Naid andava pelos corredores, com sua irritação típica. Pensava em Tatia e em seu rebolar. Quase chutava os gatos de Marcel que achava pelo caminho. O tilintar da nave, em toda a nave. Nada havia de dócil nos sons da nave moribunda. E lá estava ela. Inclinada sobre o painel. Ele se perguntava o quanto essa imbecil sabia sobre os dados que desfilavam a sua frente. Naid tinha vontade de lhe dar um dedada e danem-se as consequências, borbulhava na superfície de seus pensamentos um misto de raiva e tesão.
- Que taá fazendo, Tatia?
- Vendo u curso.
- Tendi disso? Dverdadi?
- Maromenos.
- Nem!
- Tendi sim. Óia.
Ela mexe nos controles manuais e um jorro de informação atinge ambos. Trajetória, último contato, status da nave, avarias... Naid não entenda nada, fica apenas confuso e se fixa em seu desejo por Tatia, que bate em sua mão quando ele a toca. Ambos correm pelos corredores, fazendo os gatos fugirem espantados. Marcel entra na sala quando percebe que já foram. Acompanha os olhares dos gatos, que por sua vez seguem a viscosidade transparente e inodora que desce pelas paredes.

Marcel é diferente deles e os teme. Lembra do destino de Daniel, que achou espalhado dois andares abaixo. Diante de si, porém, haviam apenas duas opções: fazer o melhor pelos idiotas, ou ser destruído pelos sistemas de segurança da nave. E ele sempre fora um covarde. Isso é que o tornou perfeito como tripulante, dentro da casta inferior, capaz de manipular as máquinas, realizar reparos e até, o que seria impensável para seus colegas: criar novas funcionalidades.

Os gatos foram clonados a partir de um animal de estimação original, que viera com ele e seu pai a bordo. Daniel amava o gato, Luno, quase tanto quanto gostava de Marcel. O destino dele não fora diferente de seu guardião, mas em momento distinto. A nave, Dinamarca, mantinha grande parte das pessoas em suspensão de vida, com apenas um pequeno grupo que despertava em situações de emergência ou em proximidade de planeta habitado. Mas a Automacia, permitira apenas poucos que não pertenciam aos Donos, que fossem em suas naves. Daniel, Luno e Marcel, viviam cercados por Donos, que incapazes de realizar as menores tarefas sem supervisão, e isso os deixava também frustrados, afinal, como um Capaz poderia ser melhor que os Donos no que quer que seja? Luno foi vítima de um grupo que não aceitou que os gato não os obedecesse. Daniel, duas paradas mais tardes, e três antes da atual, teve destino semelhante, não participando, fosse por sua vontade ou incapacidade, de brincadeiras dos Donos. Ele nunca soube ao certo como seu pai morrera, por quem fora assassinado. Dinamarca escondia os detalhes, como parte de sua programação para proteger os Donos.

Mas Marcel, agora, tinha seus gatos. Ele os havia idealizado, mas Daniel o havia ajudado na fase inicial do projeto. Os animais eram criados dentro da própria nave, nem gato nem máquinas, criados a partir de uma sessão isolada da produção de alimentos. Ambos trabalharam juntos por meses, no projeto mais longo de suas vidas na nave, em que ambos estiveram despertos ao mesmo tempo. Como doulas, extraiam os filhotes das entranhas da máquina.

E assim, Marcel se esgueira pelos corredores e dutos, na companhia dos gatos. Um guardião fantasma dos Donos. Diferente deles, compreende e vê tudo através de seus implantes, sem confusão ou hesitação. Um diorama que observa e participa, porém sem poder mudar os elementos. Ele sabe que não há diálogo entre os que trabalham e os que possuem. Mesmo sob forte edição, a percepção do que houve com seu pai foi clara: ele tentou lhes convencer de algo.

Em seu aposento, Marcel tenta evitar taxar a si mesmo de insano. Porém, pelo que viu através da nave, há uma chance, pequena, e ainda assim, possível, de acabar com essa interminável diáspora. Como nas outras vezes, foi acordado por um motivo específico. Dessa vez, Dinamarca de aproxima de um paneta habitado. Não é a primeira vez, ele sabe, mas esse é diferente.

Quando a Automacia começou o Grande Limpeza, os países do mundo ainda não envolvidos pelo Corpoverno Matrice se viram pressionados entre uma fuga ou extermínio. Poucas foram as arcas lançadas ao espaço, uma última fuga do preconceito e paranoia. Não muito depois, grupos menores fugiriam do sistema solar, de colônias feitas pela própria Automacia. A Revolta dos Ingratos, como foi conhecida, terminou os laços amigáveis, ou escravidão passiva, entre os Capazes e os Donos. A mãe de Marcel desapareceu em uma dessas naves. Pequenas, mas que levavam mais recursos do que sobreviventes, os "dromedários" foram lançadas como dardos para além do espaço próximo.

E a Dinamarca se aproximava de uma colônia, criada com os restos de uma dessas naves. Ele não pensava em sua mãe. O termo era usado com certa elasticidade semântica, já que ela apenas havia doado o óvulo a um dos vários bancos. Parte da maneira como o Corpoverno Matrice mantinha estável a população de Capazes. Os gatos acompanhavam Marcel enquanto ele planejava, caminhando pelo interior da nave. Eles o faziam isso não apenas fisicamente, mas aumentando a qualidade de processamento dos seus próprios implantes, tornando ele e os gatos, uma espécie de entidade única, com pensamento formado e mantido em uma nuvem. Sua ideia era criar uma dimensão através do processamento exponencial, uma singularidade contida e controlada por ele, sendo ele, para suplantar Dinamarca.

Não deveria ser tão difícil. A nave era pouco mais que uma carcaça. Os idiotas corriam pelos corredores, preocupados apenas consigo mesmos, resumidos pelo mesmo hedonismo para o qual haviam sido criados ainda na TerraTM. Seus pedidos faziam as máquinas guincharem, mas obedeciam. Era sua única diretriz... Afinal, "Apenas Obedeça", fora o grande lema da Automacia, e não surpreendente, impregnados foram todos os circuitos pelos Capazes leais ao sistema. Os recursos de Dinamarca, porém, eram limitados. Ela apenas obedecia, canibalizando a si mesma. De sua parte, Marcel decidiu acelerar o processo, era de fato, uma espécie de dádiva que os Donos nunca tivessem aprendido seus limites, que sua ganância tenha sido cultivada ao extremo, direito do berço. De partes ainda não recicladas, fazia mais gatos.

Quanto mais próxima da colônia, maior o equilíbrio de forças entre a nave e o pequeno motim. Marcel a ouvia lamentar a cada noite, através de sombrios dísticos:
Na estrela da direita, para onde vai o infinito
Se vai desdita luz, reflexo de minha semivida.

Então, a comunicação entre a colônia e Dinamarca, pode ser estabelecida. Em uma larga sala, ele se unio aos idiotas mais uma vez.
- Delícia! Delícia!
Urrava Tatia, agora grávida e imensa, enquanto a nave lhe oferecia guloseimas. Como crianças, os Donos se amontoavam em volta de uma mesa que lhes serviam comida de uma concha em seu centro. Marcel tentou lembrar que eles não eram melhores ou piores que quaisquer donos, fossem eles os que permaneceram ou os que foram expulsos. Afinal, dizimar o resto da humanidade nunca foi suficiente, e nos anos seguintes, os donos que tinham mais, lentamente clamavam das outras famílias, seus recursos, devoram o planeta. Eram deuses que haviam escapado do inferno para incendiar o mundo, de onde já não haviam os adoradores que lhe conduziriam a uma temperança.
Na tela central, o rosto de um mulher. Sua tez negra a tornavam uma estranha, e os Donos logo recolheram-se assustados entre os restos do banquete.
A sua língua era irreconhecível, mas foi logo traduzida, tanto por Dinamarca, quando pela nuvem felidae. Eram boas vindas. Marcel esperava algo diferente, indignação, talvez. Revolta. Os mesmos canhões que Europa e Estados Unidos apontaram para a massa de refugiados que seus impérios criaram. Mas, diferente disso, havia cordialidade, um sorriso. Calor. Eram humanos.

Mais firme que nunca, Marcel ordenou que Dinamarca destruísse os Donos em animação suspensa. A nave hesitou, mas se viu obrigada a obedecer: faliedae reprogramava qualquer tentativa de reagir. Para Marcel, não restava mais o que fazer, e pegou um dos talheres que os Donos não sabiam mais usar. Olhou para eles lembrando de Luno e Daniel.

Para a sua saudação, Twala só ouviu palavras mal traduzidas.
- Danosse!
- Doido!
E gritos. A nave então afastou-se. Dias depois, o planeta recebeu uma mensagem, um novo pedido de comunicação. Felidae pedia asilo e queria juntar-se a colônia.
E claro, os gatos foram aceitos.

May 03, 2015

C.2



Ela chegou cedo, escolheu um lugar para sentar e pousou o sobretudo sobre o colo. Usava uma saia negra, quase do mesmo tom que a blusa, que já estava um pouco gasta. Pensou se deveria fumar, mas se decidiu que, por hora, podia segurar um pouco o vício. E assim, lembrou de novo de verificar os dentes. Odiava as manchas de nicotina e quase que neuroticamente ia a dentista. Algumas vezes ela via a si mesma como o cadeado enferrujado do portão. Ela não seria perene, se tornaria cinzas.

Os homens a ignoravam. Nunca se apresentou a eles e depois de alguns incidentes, ninguém sequer sorria para ela. Faziam seu trabalho como se ela não estivesse ali, uma glamour de invisibilidade socialmente construído. Esperava paciente enquanto os ouvia cavar e enterrar. Sentia paz, algo que agradecia por baixo da sua sisudez. Seu cotidiano era frenético e essas reuniões, mesmos que tensas, traziam a ela um momento de quietude.

O rapaz chegou. Jorge. Ainda tinha o sotaque de Cuba e seu nome real devia ser Juan ou algo que equivalha. Ele sentou-se no banco de pedra a sua frente e deu um sorriso. Desses que não convencem, por pura educação. A polidez falsa de Jorge/Juan é ato tão comum nos dias de hoje. Não que a humanidade tenha progredido ou decaído, mas as maquinações, um conluio social pela aparência, deixou de ser um jogo específico e se tornou uma regra corriqueira que todos temos de seguir. Todos empunham punhais nesse convescote em que não se tirem guloseimas da cesta de piquenique, mas mentiras e meias-verdades.

Um casal passa por eles. Choram muito. A luz do poste lhes dá um contorno bonito. Emoldura sua dor, afastando as trevas. Ela sabe que não importa muito. A dor é uma constante que sempre a de vencer pelo cansaço. Não há mais otimismo quando se vive demais. Como alguém que mantém a esperança até o último segundo, mas o cadafalso há de lhe engolir sem pena. Não é sequer detalhe de um caprichoso destino: é o que é. Tudo há de morrer. E a vida é sempre atropelada em velocidade centáurea pelo tempo, que ignora esperanças e medo, e para quem não dá alento. Claro, existem alternativas, mas o preço, que preço...

A velha chega, carregando seu carrinho. Senta em um banco entra ela e Jorge/Juan. Morcegos passam próximos a sua cabeça, em voo torto, como cataventos perdidos no luar. A velha chupa as gengivas e Jorge/Juan parece um pouco incomodado. Eterno, um dia devem ter lhe prometido. Ela riria se não soubesse que ia despertar a atenção da velha. Adélia, sabia, era séria demais. Talvez um pouco descuidada, esperando apenas as pessoas passarem, antes de segurar um pouco acima de sua cabeça as codornas, que ia, devagar, oferecendo aos morcegos.

Mais um caixão passou. Como morre gente nessa cidade. Pactos pela paz, pela vida, tanto amor cristão, e os negros entram mortos como carregados em caminhão. A pá atinge a terra, um conlúvio, parte do aterro que vingou nesse cemitério. Ela se levanta para olhar o morto. Com o cheiro de seu sangue, ela caminha pela sua história, pela comida com coentro demais de sua mãe, pela coxinha de catupiry que comia antes de morrer. Navega pela memória do que devorou quem devoras. Sem querer, chora. Uma carpideira voluntária. Alguém chega a colocar um braço sobre seus ombros e retirar assustado um segundo depois. Ela se retira e volta para seu lugar. O homem olha para ela com medo, mordido pelo seu frio.

Mais um morto chegou. O canceroso olhou para Jorge/Juan, para Adélia, e enfim, para ela. A beijou no rosto, como que lhe raspando o resto do calor. O homem mais sedutor que ela conhecera, era o que menos se interessava por sexo. Mais velho que Adélia, segundo diziam. Foram um dia grandes amigos, antes do câncer lhe corromper a carne e ameaçar contaminar os outros, uma semivida contagiosa para os membros de seu conluio. Evan lhe segredou que fora castrado quando criança, e apesar de terem lhe usado muitas vezes, em suas palavras, enquanto lhe acariciava um seio, lhe disse: "nunca senti paixão por cu ou culhão".

Com a chegada de Evan, eles já podiam começar e ela juntou-se aos outros em fila, indo até uma cabana que ficava em um dos cantos do cemitério, por trás do crematório. O carcereiro os esperava nervoso. Tremia ao abrir a porta, ouvindo o barulho que vinha da jaula. A barras espessas tinham pouco espaço entre elas. Dentro, o quinto membro do grupo. Mais velho e estranho que qualquer um deles. Seu rosto uma mistura de face e focinho, com presas que ainda pareciam os caninos de qualquer um, com orelhas distintas que ninguém desejaria ter. Os braços afinavam e pareciam coberto por uma fina membrana. Oh, como ela se sentia feliz em ver aquilo.

Além do forno, por sobre as covas, por fora da cerca e muros, cães passeavam alucinados, rodeados de morcegos sedentos, que guinchavam em uníssono com seus uivos de orgulho e terror. De dentro do barraco escuro, em uma voz que mal soava humana, um sussurro: ouças eles! As crianças da noite! Que música elas fazem!

May 02, 2015

B.2



- E aí, cara? Como você está?
- Indo.
- Tá feliz?
- Bukovski, a gente se conhece desde... O casamento da tua irmã, né? Faz o quê? Quase 30 anos?
- É, é por aí.
- E você me pergunta se estou feliz? Você me conhece mesmo?
- Você é bisonhento mesmo.
- Chame do que quiser. Enfim, qual o lance? Não é todo dia que você resolve me arrastar para uma birosca e me perguntar se estou feliz.
- Birosca?
- Garçom! Me vê uma vodka! Da melhor que você tiver!
- Smirnoff?
- Serve! O que eu lhe disse?
- Tá. Olha, você não tá feliz, mas o que você tem hoje? Faz tempo que não te vejo assim.
- Assim como?
- Furioso.
- Elise acabou comigo.
- Oh, cara. Sério?
- Figurativamente, sim.
- Sinto saber disso. Mas agora entendi.
- Você nunca vai entender, Bukovski. Garçom, me vê mais uma!
- Acho que você precisa ficar sóbrio para o que vamos fazer.
- Vou ter de dirigir? Você pretende me bulinar?
- Não...
- Então eu posso beber.
- É, talvez você precise mesmo. Sabe aquele cara, o de Batatais?
- O idiota que me chamou de... Como era mesmo a palavra?
- Qual? Babaca?
- Não, não... Uma do arco da velha. Humm... Biltre!
- Lembrei. Foi depois de você bater nele, né?
- Acho que sim. Não é como se eu tivesse batido uma vez só. E o que tem ele?
- Ele não está mais lá, onde você o deixou.
- O que é que tá olhando, amigo? Tá querendo uma bimba, é? To acompanhado.
- Valter, deixa o cara.
- Ele tava curioso demais. Mas então, Bukovisk, desenterraram ele? Foi a polícia?
- Se fosse, Eu não ia precisar de você.
- Tá bom. Você dirige. Garçom! Fica com o troco! E isso cobre o copo também!
- Você quer que passe na sua casa?
- Não. Elise ainda tá lá. Que cheiro é esse?
- Bergamota. Você quer?
- Não. Eu odeio isso. Sempre me lembra da cirurgia, não sei porque.
- Que cirurgia?
- Uma Blefaroplastia. Cirurgia plástica.
- Você, Valter?
- Sim, besta. Eu. Levei pancada demais na cara, acho.
- Você era ainda mais feio?
- Não sou feito você, que tem essa beleza toda de berço.
- Viu aquele brilho?
- Sim, vi sim. Acha que é ele.
- É perto de onde você enterrou e se não foi bradicardia, brilha como todo retornado.
- Trouxe o retrato bizantino?
- Que bobagem é essa? Claro que sim!
- Então me dê cobertura.


O brutamontes desce do carro e é seguido pelo homem baixo que retira de uma carteira um retrato velho e enrugado esperando então o homem maior entrar e este sem olhar para trás retira do bolso um biliro que prende laminadas asas de borboleta e segue olhando para a coisa bruxuleante e se aproximando sem medo para então de repente dar um bote que a coisa se esquiva jogando sobre o homem um bombardeio de chamas azuis e roxas que ele recebe tentando bloquear com os braços mas que respingam na face e se vê obrigado a continuar a avançar investindo novamente contra a criatura que poderia se passar por um homem não fosse o acentuado crânio braquicéfalo e descarnado que balbucia enquanto é levado ao chão e caem ambos no piso da igreja com os ossos do retornado tilintando alto como uma baixela e sem dar tempo que a coisa reaja Valter lhe salpica o rosto com as asas mexendo elas numa bricolagem com suas mãos que quase se fundem ao fogo e luz do morto.

- Valter!
- Não, não chegue perto. Ele ainda brilha.
- Você quer que traga algo? Água? Vodka?
- Quanta beneficência!
- Não ria, homem! Temos de levar você para um hospital.
- Pra quê, Bukovski? Elise acabou comigo. Me deixe em paz.
- Não posso. Você sabe que não posso.
- Sua dívida está paga. Só não deixe ele retornar de novo. Não vou estar mais aqui.
- Valter...
- Diabos, se você chorar, juro, antes de morrer eu te bato. Daqui a pouco ele apaga. Faz direito dessa vez.
- Faço sim, Valter.
- Bukovski?
- O que é, Valter?
- Me traz o resto da vodka.