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August 24, 2024

Folclores

 André continua morto. Mas infelizmente, ainda paga aluguel. É a única razão para manter um celular ao seu lado, mesmo que longe o suficiente para fingir que é como os antigos telefones, algo que ele poderia se distanciar e ignorar. 

Antes de ver quem ligou para ele de madrugada, André levanta, toma um banho frio, faz um enxágue bucal com algo que não seja listerine (muito caro) e prepara um ovo pro café da manhã (com apenas sal, manteiga está pela hora da morte (e ele sabe, ele já morreu)). 

O gato mia da varanda do apartamento, oferecendo a ele uma comida mais consistente, mas André já assumiu que ratos, pelo menos do Recife Antigo, não devem ter sido aprovados pela vigilância sanitária. Ele faz um sinal de agradecimento, come o ovo e pega o celular para ir ao jardim ver o que o gato quer. Na sua pata esquerda está amarrado um pedaço de papel, mas ele verifica o celular antes de ler, decidindo ordenar as más notícias pela sua ordem de importância. 

"Olá, Sr. André, tudo bem? Meu nome é Carolina, eu sou assistente de Paulo Miguel Netto, da Netto Construtora. Ele gostaria de conversar pessoalmente com o senhor e entrevistá-lo a respeito de um serviço."

“E talvez”, pensa André, “nem tenha sido uma má notícia no fim das contas”. 

Junto com a mensagem, um endereço. "Ela mandou a mensagem depois da meia-noite? Acho que vou poder cobrar caro", pensou André, pegando o gato-pergaminho e o abrindo: "Precisamos conversar. Padaria da sua rua. Vou estar vestindo uma mulher de vestido verde e tênis vermelhos". 

Depois de ler a mensagem, André pegou sua chaves, canetas, um caderno de bolso, colocou o celular em um bolso escondido na parte interior da calça, se equipou com a pochet pega-ladrão, saiu do apartamento, fechando a porta e o cadeado do lado de fora. 

Chegou a padaria após alguns minutos de massacre solar, desapontado com os vereadores que não colocaram ainda ar-condicionado na cidade. Logo viu que uma mulher com a descrição enviada pelo Cavaleiro, estava lá. Ele não a reconhece, mas se aproxima e senta-se na mesma mesa. 

- Bom dia, Cavaleiro.

  A mulher termina de beber o café à sua frente e olha atentamente para André. Parece perdida por alguns momentos. Seu batom está borrado e olhos marejados. Por um momento, atira seu braço na direção de André e parecia que ia gritar, mas como que agarrada por uma imensa força invisível, congela e relaxa. 

- Desculpe, André. Ela é nova.  

- Eu compreendo, Cavaleiro. O que houve? 

- Vi algo nas estrelas que me incomodou. Era sobre você. Achei melhor lhe alertar pessoalmente, André. Pois vi também uma oportunidade. 

- Eu sei que sem enigmas você não conseguiria sequer proferir uma frase, Cavaleiro, mas nem todo mundo vive de sonhos e tenho um cliente para ver. 

A velha múmia o olha com fúria por trás dos olhos da mulher. André teria medo se já não estivesse morto. 

- Não irei me demorar, Fantasma. 

A mulher abre uma daquelas bolsas ecológicas de supermercado e mostra pra André o conteúdo: oito vasos canópicos. André arregalou os olhos pensando no que tudo isso implicava e antes de abrir a boca, o Cavaleiro continuou: 

- Não escrevi instruções, terá de pedir isso aos gatos. Ainda sabe como? 

- Não me ofenda! 

- Bom. Ainda há esperança. Em breve você irá se encontrar com vilões da pior estirpe! Ladrões de tumbas! 

- Figurativamente...?    

- Antes fosse! Ouça enquanto caminha nas ruas, entenderá o que digo. Leve os vasos. É uma oportunidade, André! 

- Está bem, não se agite. Não quero ela lhe escapando e fazendo um escândalo aqui. Quem é essa, afinal?  

- Matava gatos na vizinhança.

- Entendo. E obrigado, Cavaleiro. Eu assumo que, nos vasos...?  

- Meus cavalos. Uma oportunidade, André. Por duas vezes, anulará o mal e fará o bem. Quem sabe, seu coração se torna mais leve? 

- Duvido. Ando comendo muito processado. E farei o possível, amigo. Tenho saudades deles. Até mais ver. 

- André! - disse a mulher, se virando pra ele - Não esqueça de levar uma espada! 

O cavaleiro continuou a comer a refeição pela boca da mulher, que havia sido interrompida pela visita de André. "Velho maluco", pensou André, "eu não tenho uma espada!". 

Ele seguiu até Boa Viagem, chegando ao prédio da construtora, quase ao meio dia. A demora não foi culpa do ônibus, do motorista, nem do engenheiro de trânsito, sequer do prefeito, e muito menos do absurdo número de carros por habitante da cidade, que uma dia teria de iniciar um financiamento coletivo para trazer o próprio Cerberus para Recife, afinal, as coisas ainda não pareciam ser claras o suficiente, né? 

O saguão do prédio era acolhedor, diferente do que André esperava. Em geral, esses prédios anti-sequestro têm o mesmo calor humano que tubarões. Não teve problemas em entrar e logo estava no último andar. E sequer esperou muito. 

Carolina o recepcionou e o apresentou a Paulo Miguel Netto. O empresário sorriu de forma sincera durante toda a reunião, mas para André, era claro que tinha vários esqueletos no armário. Bem, não necessariamente esqueletos, mas estava acompanhado de vários fantasmas. Isso não era comum, especialmente como se comportavam. Eles olhavam André com curiosidade, mas não falaram nada durante toda a reunião, o que era… Peculiar. Não pareciam também com raiva, mas André checou seus bolsos e só com o tato, percebeu a cabeça de alho que carregava contra mal olhado, ressequida. Depois disso, fez tudo para apressar sua saída dali. 

O caso, disse o empresário e a assistente, era simples: a construção de um novo shopping, O Recife Novo, fora interrompida. Máquinas pareciam quebrar sem motivo, os trabalhadores relataram pesadelos e visões, animais atacavam os engenheiros (um foi mordido por um timbu e um outro, açoitado por pombos até sair do local), e até o clima no local imediato, parecia pior que o do resto da cidade. O empresário sangrava dinheiro com essa demora e isso lhe era intolerável.   

Eles lhe deram um contato, o do médium que havia lhe indicado ao empresário, mas seu nome não era um que André recordava ter conhecido: Migueli Moura. Ele mandou mensagem para Moura e combinaram de se encontrar durante a noite, na construção. Queria ver o local com os próprios olhos e entender o que estava acontecendo. 

Saiu feliz e quase cantarolando um “Friday, I'm in love”, pois com o adiantamento do serviço, que ainda não era muito claro, talvez um exorcismo, o morto-vivo foi até outra padaria para jantar. Não iria esbanjar, nunca se sabe o dia de amanhã, mas saber que vários amanhãs estavam seguros lhe deixava mais tranquilo. Procurou um estabelecimento  mais adequado aos seus padrões do que a de um príncipe egípcio, e pediu um café com leite e um sanduíche. 

Antes de ir para o encontro, ainda com a pesada sacola, lembrou da recomendação do egípcio e finalmente entendeu o que ele quis dizer. Procurou pelas ruas e prédios, pediu licença a um porteiro e se armou. 

Mais tarde, quando desceu do uber (agora tinha algum dinheiro) na entrada para a área de construção, um caminho mal iluminado de barro, um declive, André logo foi cercado por vários gatos. E ele odiava o que tinha de fazer em seguida, pois iria arruinar a sua roupa, mas deitou no chão e deixou os gatos lhe cobrirem, comendo fios do seu cabelo, esfregando seus focinhos nas suas mãos e com suas garras, escrevendo instruções sobre ele, como quem amassa pão. Depois de comungarem com o fantasma, os gatos se esconderam nas trevas enquanto ele descia para a área onde estava a construção, com a sacola de compras e a roupa, agora, suja de terra e rasgada. Super na moda. 

Não havia seguranças na parte de baixo. André não gostou disso. A despeito das circunstâncias, havia maquinário, equipamento e materiais, que poderiam ser roubados. Foram instaladas câmeras, e eram evidentes - além de haverem placas lá fora indicando a vigilância do local, caso essas passassem despercebidas. Mas só as câmeras, de fato, não afasta ninguém sem pelo menos um segurança.  

E ele começou a ter companhia. Não eram muitos, mas eram velhos, mais do que isso, antigos. Ele gesticulou para que o pequeno grupo se aproximasse, mas falavam uma língua que não conhecia. “Indígenas?”, ele se perguntou. Era difícil enxergar eles, suas formas eram inconstantes e indefinidas. Haviam morrido a muito tempo. Tentou sinalizar que não iria lhes fazer mal, mas não sabia com certeza se entenderam. Haviam entre eles alguns mais fortes, mas estes estavam desconfiados apesar de serem, sim, amedrontadores. Sombras que exalavam uma força palpável e… Poltergáistica. 

André decidiu prosseguir, aparentemente eles não o viam como uma ameaça e Moura devia estar logo adiante. Um gerador fornecia luz e aqui e acolá havia lâmpadas acesas. Uma espécie de barracão estava acesso. Acendeu um cigarro de fumo e deu duas tragadas que o fizeram tossir e continuou a caminhar, agora naquela direção. 

Um homem alto, magro, lhe abriu a porta quando se aproximou do barracão. Olhou para ele espantado. 

- André? - perguntou o homem, com um tom de incredulidade.

- Sim, eu mesmo. Eu escorreguei, caí e rolei um pouco o caminho abaixo, mas estou bem, não se preocupe.

- Tem certeza? Mas entre, e puxe uma cadeira. 

André entrou e fez exatamente isso. O Barracão era bem iluminado por dentro e havia mais duas portas dentro dele. De uma delas, veio uma sensação que lhe lembrou Netto. Ele levou o cigarro novamente a boca e tragou novamente, tossindo. Ele realmente odiava fumar.   

- Obrigado. Imagino que você seja Moura? 

- Sim, sim! André, você não tem ideia do prazer que tenho em lhe conhecer! - disse o homem, sentado em outra cadeira, do outro lado da pequena mesa. O espaço não era grande, e havia ferramentas e material de construção por todo o lado, no chão, encostadas nas paredes ou em estantes improvisadas.

- Como assim? 

- Eu sou uma espécie de connoisseur a seu respeito. - O homem sorria. Parecia ser um fã genuíno. 

- Connoisseur? - André ainda estava tentando entender o que seria um especialista em si mesmo e não gostava da ideia. Sempre fora reservado e as atividades de seu grupo, assim pensava, secretas, mesmo que estas exigissem contato com pessoas fora dele e uma boca a boca em um submundo que lida com o oculto. 

- Sim, eu sou um especialista em se tratando de você!

- Eu sei o que é um connoisseur! - Disse André irritado. “Diabos, nem uso instagram, eu sei ler!”, pensou para si mesmo. 

- Perdão, André! Não quis ofender! - O homem chegou a se levantar por um momento, talvez com medo que André fizesse o mesmo ou fosse embora. 

- Não, está tudo bem. Pode me explicar o que está acontecendo aqui? 

- Claro, sem dúvida! 

Moura, entre explicações e um olhar para André que o fazia sentir-se como um peru de natal antes da ceia, detalhou o que sabia: haviam escavado um cemitério indígena. De fato, não um “cemitério”, mas um local de batalha entre duas tribos, em que os mortos foram tantos, que não sobrou quem recolhe-se os corpos e todos ficaram ali para serem comidos por animais e apodrecer. Coisa que não faz diferença para muitos mortos, mas estes ficaram furiosos! E o desrespeito de ter o que ainda restava deles sendo despojado, até pulverizado por máquinas, em nada melhorou a relação da empreiteira com eles.  

Enquanto Moura explicava, André pensava em toda a situação. Algumas coisas não faziam ainda sentido para ele. Esperava encontrar um grande perigo, mas Moura, ao contrário, era um “fã”, em suas próprias palavras. “Será que o egípcio, em sua ânsia por ver novamente seus cavalos, teria se precipitado?“, pensou. Não seria a primeira vez, mas havia algo errado. Ele sabia disso desde a visita ao escritório. Seria bom se o egípicio pudesse vir com ele, mas o ritual que iria realizar, atrairia a atenção sobrenatural a qual a velha múmia realmente não queria que estivesse sobre si. 

Ele não achava que pudesse culpar o velho sacerdote. Talvez, pensou, essa seja a nossa grande vulnerabilidade, quanto mais vivemos mais temos medo de morrer. Afinal, os jovens têm potencial, mas nós temos História. E quanto mais essa se acumula, sabemos que quando finalmente for nosso fim, teremos de encarar questões desagradáveis: “será que algo valeu a pena?”, “será que fez sentindo tanta luta e esforço para, como qualquer outro, virar pó ou ser dissolvido no ar, evaporado como ordinário líquido ou extinguir qual simples vela?”... 

E André sentiu, no limite do reconhecível, algo que percebeu antes. Tão tênue que teve dificuldade de reconhecer mesmo em memória recente. Um cheiro, um mal estar, nada excepcional, mas que lhe causava o sentimento de estranheza que teve no escritório da Netto Construtora. Sem pensar muito, enquanto Moura esperava que ele dissesse algo, tirou de seu bolso mais fumo e começou a enrolar em um cigarro. 

O outro homem não gostou disso. Ficou alerta e um pouco do verniz de civilidade esmaeceu.  

- O que você está tentando fazer, André? 

- O que você acha? Eu não sei quem você é, mas eu sei que não se trata apenas de tirar os fantasmas daqui, exorcizar eles ou ajudar eles a encontrarem seus caminhos. Tem algo mais e nisso tudo e está atrás daquela porta. 

Nisso, a porta abriu, e fantasmas saíram, cercando a assistente de Paulo do empresário. 

-  Carolina?

- Olá de novo, André. 

Ela faz um gesto rápido com a mão e André logo está cercado de fantasmas que o seguram pelos braços. 

- O que é isso? O que querem comigo? - Enquanto grita e se debate, André chama pelos espíritos que passou a invocar na última hora, espíritos de vício, sedentos, espíritos confusos e furiosos. A sua volta começa a se criar um pandemônio. 

André não sabe como Carolina controlou os espíritos e o que quer com ele. Mas pra ele, está claro quem são os vilões que o Cavalo lhe alertou a respeito. Assim que consegue se desvencilhar, ele se atira no chão e tenta empurrar a mesa contra Carolina e Moura. A luta entre os fantasmas se intensifica, e ele se vê desviando de objetos voando pela salva e fora dela, atingindo a ele e também a Carolina e Moura. 

-  Você é louco, você vai nos matar!

- Talvez, mas o que vocês queriam comigo não parecia ser melhor, Moura!

- Moura, vamos embora daqui! - gritou Carolina, tentando empurrar a mesa, que André agora usava para manter eles presos no barracão.    

O pandemônio começou a diminuir. Os fantasmas que ele chamou queimaram rapidamente a sua raiva nos gestos de fúria que trouxe caos ao barracão. Mas Carolina também perdeu fantasmas, talvez ele conseguisse resistir a ponto de saber o que estava acontecendo. 

- Afinal, o que queriam comigo, Moura? 

- Não é óbvio, André? Você. Não queríamos, ainda queremos. E seus fantasmas se foram, não? Não tenho suas habilidades, mas sinto que a presença se foi, quase que completa. Vamos comer você e nos tornar imortais como você! 

“Necromancia, canibalismo? Acho que foi bingo.” - Pensou André começando a recitar um canto egípcio e tirando da bolsa a espada de são jorge. Os fantasmas logo se afastaram dele ao ver as folhas, o que também lhe custou algo. Afinal, ele não era apenas de carne e ossos, mas também de ectoplasma. 

- Pare ele agora, Moura, antes que seja tarde dem… - A boca de Carolina permaneceu aberta, mas o som foi instantaneamente interrompido, enquanto André finalmente se levantava e continuava a cantar na língua que os gatos lhe implantaram na mente.

Os fantasmas ficaram confusos sem Carolina para lhes guiar, mas ficaram no local até André, quando pode pausar o canto, os espantou com a folha de espada de são jorge, a jogando no chão assim que eles se foram. 

Posicionou então Moura e Carolina no chão, que não lhe resistiram e colocou os vasos canópicos próximos a eles. Retirou enquanto pronunciava encantamentos, os fígados, pulmões, estômagos e intestinos dos cavalos, Manoel e Natália, ao lado que seriam seus novos recipientes.   

André sentia suas próprias forças sendo usadas no ritual e sua própria foma fluir, perdendo um pouco de sua qualidade humana, se indefinindo. Não era à toa que o egípcio temia o ritual. Ele sentia a fome do local onde os cavalos estavam e a resistência em lhes deixar partir, para voltar para o mundo material. Ele sentia que lutava contra bestas de lendas que muito precediam até mesmo os homens, mas não podia fraquejar ou seria, ele mesmo, sugado para esse reino de morte, onde todo dia seria devorado. 

Quase ao amanhecer, terminou o ritual. Moura e Carolina agora se levantavam como Natália e Manoel, mortos anos atrás pelo Papa Figo. Confusos, mas agradecidos, levantaram sem esforço o corpo de André, que parecia querer de liquefazer e escapar pelas suas mãos. 

- Obrigado, André - Disse Manoel. Natália, chorava em silêncio, ainda mal acreditando que fora chamada de volta do inferno, mas lhe tomava as mãos e deixava a carne, quase líquida, com carinho.  - Ainda mora no mesmo lugar? - Perguntou Manoel, que teve com resposta de André um débil balançar de cabeça. - Entendi que sim - disse Manoel, sorrindo com a boca de Moura, que a cada segundo, passa a se assemelhar a sua. 

Saindo do barracão, dois gatos passaram a acompanhar de perto o grupo. E André nesse momento, parecia não notar, mas os fantasmas de antes, já não estavam lá. Quem sabe, ele teria outro dia a oportunidade de os ajudar a achar seus próprios caminhos, e com sorte, fazendo isso, poderia garantir um ou dois meses de aluguel.

August 15, 2024

Mito

 O homem-agulha olhou para o céu como que esperando uma resposta. Passou horas assim, mal parecia respirar. Não era incomum. Juin´yuet o observava enquanto fazia as tarefas na fazenda. À noite, o homem-agulha entrava e comia da ração que seu pai pedia que deixasse separada pra ele. 

Não havia nada de bonito nele. Seu crânio alongado e fino pescoço eram quase do tamanho do comprimento do braço de Juin´yuet, que já era adulto fazia duas primaveras. Levava a ração ao pequeno orifício que lhe servia de boca, com longos e delicados dedos, segmentados em sete partes. Dois pares de olhos acompanhavam a comida, enquanto outros dois pares olhavam para Juin´yuet, espelhando suas curiosidade. 

O homem-agulha era uma novidade na fazenda. Estavam com eles desde o último mormaço, apenas 3 semanas atrás. Juin´yuet, já os tinha visto antes, na cidade e na fazenda de Volsge, quando ia ver Redbllom, mas nunca durante tanto tempo, e vivendo e comendo com eles. 

Juin´yuet desviou os olhos e voltou a comer. Seu pai e sua pequena irmã brincavam de quem iria comer mais. Com a morte da mãe, ela ficou muito triste e perdeu muito peso. Preocupado, seu pai começou a fazer brincadeiras assim e lhe dava toda a atenção que podia. 

Basf´ehi se juntou a eles pouco depois, trazendo um prato da mesma comida que ele havia preparado para jantar, mas com um "tempero especial", que ele colocava apenas para si e nunca dividia com ninguém. Juin´yuet uma vez perguntou o que era, mas mesmo antes que o velho capataz lhe desse a resposta, viu o olhar de reprovação de seu pai. Mas Basf´ehi, com um sorriso zombeteiro, apenas disse que não poderia lhe falar até que eu pudesse caçar um Johhtoun. A ideia de um homem caçando um Johhtoun me pareceu tão ridícula que sorri e não o importunei mais. 

A vida na fazenda era tranquila, mesmo exigindo muito trabalho. Basf´ehi, Juin´yuet e os outros homens acordavam cedo para recolher as meusblianes antes do sol nascer, ou perderiam a colheita. Eram colocadas em recipientes escuros, lacrados, e seguiam para vender na cidade ou para um dos lagos próximos se fosse vender em um dos outros mundos. Suas irmãs passavam o dia cantando. Juin´sien estava quase na idade do exame e Juin´uluan, mesmo nova, devia praticar desde cedo. Quando seu pai ia pra outro mundo, a fazenda ficava sob o mando de  Basf´ehi, já que essas viagens levavam alguns dias.  Juin´yuet nunca entrou num dos lagos, mas Juin´sien já havia viajado várias vezes e lhe contava as histórias dos outros mundos, seus povos, seus animais, suas plantas, suas cores e seus cantos. 

O homem-agulha, diferente deles, tinha uma diferente rotina. Apesar de fazer suas refeições na mesma sala que eles, morava em outro local, um prédio longo, esguio, que parecia um silo de grãos, próximo da casa principal da fazenda, mas no lado oposto aonde eram criados os animais, que tinham medo da criatura. Ele parecia trabalhar quando bem entendesse, mas havia, sim, um ritmo, um ritual, que lhe ordenava as tarefas: o operar das máquinas de clima e o recém comprado escavador. 

Rocha-Derretida fabricava e vendia escavadores que podiam ser operados por pessoas, mas nada se comparava aos usados pelos homens-agulha. E máquinas como a de controle do clima, só eram operadas por eles. 

- Yuet-boon, Yuet-boon!

Um dia veio Juin´uluan lhe perguntar: 

- Por que você mesmo ou papai, não cutucam a máquina do clima como o homem-agulha? 

Antes que Juin´yuet pudesse responder, Basf´ehi andou apressado por trás da menina, lhe pegou pela cintura lhe levantando e a colocando no colo enquanto ele mesmo sentava ao lado de Juin´yuet, que estava estudando para os exames de verão. 

- Seu irmão não é velho o suficiente para lhe contar isso, mas eu posso, eu estava lá!

Juin´yuet sorriu com a mentira de Basf´ehi e os olhos arregalados de Juin´uluan que agora parecia querer também perguntar qual a idade do velho capataz, mas ele começou a lhe responder antes que tivesse tempo de lançar mais uma pergunta: 

- Já olhou pro céu, pequena Uluan? Já se perguntou como ele rachou? (vendo que a menina fazia sim com a cabeça, o velho continuou) Foram os homens-agulha! (Juin´uluan olhou agora para os lados, procurando com receio o homem-agulha) Não se assuste! Eles não fizeram por mal. Quando os deuses que nos fizeram vieram pra Belisen´Tur, eles precisaram de alguém para mudar o mundo por eles. Os deuses, Uluan, não podiam tocar as rochas ou mesmo respirar o ar! Eles eram refinados demais para isso! Do mesmo jeito que criaram a nós para cantar, fizeram os homens-agulha para manipular as máquinas que precisavam conseguir as coisas do mundo! 

- É verdade, Yuet-boon?

- É sim, Uluan. Foi assim que minha professora disse.   

- E as máquinas dos homens-agulha que foram criados pelos deuses, Uluan, os reconhecem como família. Se eu, voçê ou Yuet, tentarmos manipular o bicho-animal do clima, eles nos comem! 

- É verdade, Yuet-boon?

- É sim, Uluan. Papai não disse para você não chegar perto de Jujuba? 

- Disse sim, Yuet-boon! 

- Foi por isso, pequena! - continuou Basf´ehi - Não devemos chegar perto de Jujuba ou qualquer goblinoso, por mais apetitoso que pareçam! 

- Eeeeeca! - disse Juin´uluan, indo brincar em outro lugar enquanto Juin´yuet voltou a estudar e Basf´ehi seguiu para a cozinha, onde iria preparar a comida com os outros homens. 

Distante da fazenda, o homem-agulha entrava em na Máquina do Clima, que a família de Juin´yuet nomeou de Jujuba há mais tempo do que seu próprio pai lembrava. 

O longo corpo do homem agulha atravessava a outra criatura e manipulava controles biológicos que eram invisíveis aos olhos humanos, com seus dedos hábeis e disparos químicos. 

O animal máquina, por sua vez, lançava microorganismos na atmosfera que iriam ser levados para o vento, e combinados às nuvens, as dispersariam, evitando chuvas fortes que poderiam prejudicar as meusblianes, de quem os homens extraiam um líquido hipersensível à luz ultravioleta e que servia como popular forma de combustível em boa parte dos mundos. 

O homem agulha preferia estar com Jujuba a manipular a escavadeira. Esta era, de fato, uma máquina, criada por tecnologia esquecida milhares de anos atrás, quando o nono mundo jorrou revolta contra os anciãos. 

Jujuba, para o homem-agulha, cheirava como cheiravam seus criadores. Especialmente quando eles, os homens-agulha, os mataram. Um cheiro doce e sexual, proibido e saboroso. 

O antiquíssimo homem-agulha ficou mais um tempo dentro de Jujuba, apreciando as memórias da carnificina mais do que o longo tempo que se seguiu em que escavizaram os humanos, e então, escorreu pra foram na criatura gelatinosa para ir jantar com os animais barulhentos, seus irmãos.  






August 10, 2022

Por Trás de Olhos Azuis (conto, originalmente publicado na RedeRPG)

 

Por Trás de Olhos Azuis – Conto e Ficha do Personagem para Mago, o Despertar

1. Im not telling lies:

Aos 23 anos eu havia terminado o curso de direito. Graças a contatos de minha família, em menos de dois meses estava empregado na Brito e Marchuschi, um importante escritório de advocacia. Lá eu conheci Carolina, também advogada, ela acabou trabalhando comigo em muitos casos, um complementando o outro de acordo com suas deficiências. Eu sou excelente na pesquisa processual, construção de uma defesa bem elaborada, estudo da posição dos magistrados, jurisprudência, etc. Carolina por outro lado, era carismática, intimidadora, capaz de argumentar com perfeita retórica e astúcia. Eu era o estrategista, ela reinava no plano tático.

Aos 25 anos estava casado com ela. Morávamos em um enorme apartamento em Boa Viagem. Eu não achava enorme na época. Na verdade, admito, nem a apreciava tanto. Claro que a amava, mas no fundo, achava que havia casado cedo demais, que outras mulheres podiam me fazer mais feliz.

Aos 27 me tornei viúvo. Ela morreu em um acidente de carro. Morta por um bêbado que ignorou o sinal vermelho. O Tempra praticamente foi partido ao meio. De acordo com os legistas, sua morte foi instantânea.

2. No one knows what it’s like, To be the bad man

Era um domingo. Desses domingos quentes e longos. Havia trabalhado muito a semana toda, preparando material para um caso em que o processo já continha mais de 300 folhas. Não queria sair de casa e o gato anunciou claramente que estava com fome.

Carolina se ofereceu a ir a um supermercado comprar a ração. Não hesitei em mostrar alívio, mas prometi preparar o almoço, indo para a cozinha enquanto ela deixava o apartamento.

Ela não havia saído por mais de quinze minutos. Lembro de ter olhado para a água fervendo, onde eu havia jogado tempero. Virei-me para pegar a carne, ainda com sangue.

Meu despertar não durou mais que um segundo. Meu despertar foi longo e doloroso.

Em um momento estava na cozinha, de bermuda, camisa de malha, chinelos. No outro, estava em um penhasco sinuoso, nu, um vento carregado com poeira e pequenas lascas de pedra, arranhando e fazendo mesmo sangrar a minha pele.

A minha frente, a Torre. Feita de ferro, erguendo-se da terra no topo do penhasco como um elemento natural. Não podia distinguir onde terminava a rocha e começava o ferro. O ferro negro da torre se estendia centenas de metros acima do chão, formando em sua subida uma manopla, como um braço de um gigante que, enterrado, tentava alcançar o céu. Mesmo longe, eu via palavras gravadas no metal.

Havia três caminhos para chegar aos pés da torre. Mal os podia ver, com o vento arrebatador que cuspia pó em meu rosto. Mas sabia a jornada que cada um deles me conduzia, sendo esta para e além da torre.

A minha direita, o caminho levava para o esquecimento. Eu ligaria para Carolina, ela iria para o carro, livrando-a por segundos, de estar no local onde o caminhão a mataria. Pediria para ela trazer vinho. Ela voltaria a salvo. Teríamos filhos. Abriríamos nosso próprio escritório. Morreria antes dela, ironicamente em um acidente de carro.

À esquerda, com minha mente eu alcançaria a dela, ordenando-a que parasse o carro. Compartilharia o poder com ela, num amor renovado, mas que logo se tornaria um jogo e em enfim, ela não passaria de mais uma escrava entre tantas, satisfazendo meus desejos mais monstruosos. Eu me tornaria mais influente e rico, moldando a vontade de meus inimigos, revelando seus segredos e os chantageando. Demônios de fariam companhia em minhas refeições, com Adormecidos e Despertos comendo dos restos jogados no chão. Louca, um dia Carolina me mataria em meu sono, vítima de demônios que eu mesmo despejaria sobre ela.

À frente, estranhamente, o caminho era mais longo. Nesse caminho não havia promessas de cobiça ou de fé. Nele também vi demônios, nele eu também me tornaria um assassino. Mas não seria escravo da minha mão esquerda, nem da placidez de um preguiçoso domingo.

Cheguei aos pés da torre e escrevi meu nome, pintando o metal com meu sangue, banhado como estava pelas pedras e poeira jogadas contra mim. O metal cedeu ao toque do sangue e meu nome ficara inscrito.

Vi-me na cozinha e senti distante a morte de minha esposa. A primeira pessoa que eu assassinei.

3. None of my pain and woe, Can show through

Ainda estava atordoado pela experiência, mas ao mesmo tempo, compreendia claramente o que se passava comigo, tomando como natural a situação e aceitando a nova percepção do universo, assim como a morte de Carolina.

Ainda naquele domingo, conheci Exsomnis, que viria a ser meu mentor pelos próximos dois anos. Ele disse que fora alertado por outro Desperto de que em breve aconteceria um despertar na minha vizinhança e que ele deveria ser o meu primeiro tutor.

Usando a viuvez como pretexto, passei os próximos dias isolado com Exsomnis, que me ensinou os primeiros passos no uso de minha Vontade, assim como me tutorou sobre nossa história e me apresentou aos conceitos da sociedade que vivia por trás do véu.

Logo conheci outros Despertos e escolhi participar dos Guardiões do Véu. Exsomnis patrocinou a minha entrada na ordem na qual ele era também um dos membros.

4. To be fated to telling only lies

Entrar para uma das Ordens não é tarefa fácil. Não é como entrar para um clube ou associação Adormecida e mesmo as iniciações em grupos místicos de Adormecidos empalidecem em comparação.

Entre meu aprendizado e minha aprovação para entrar na ordem, dois anos se passaram. Para fazer parte dos Guardiões do Véu é preciso antes de tudo, entender e galgar o Labirinto. O Labirinto é a maneira como nos referimos a miríade de cultos, sociedades secretas e grupos subversivos e conspirações, controladas, podadas e jogadas umas contra as outras pela Ordem.

Apenas hoje eu sei como se dá a iniciação, com cada membro dos Guardiões do Véu passando por três etapas de iniciação, são o Véu Cinza, Véu Escarlate e Véu Negro. O processo foi criado para que o aprendiz se torne um hábil espião, leal aos preceitos da ordem e capaz de matar por eles.

No princípio, minhas instruções eram simples. Fui apresentado ao conceito do Labirinto e recebi instruções para me infiltrar em um dos grupos, uma sociedade teosófica com laços com a loja maçom do Recife. A Ordem arranjou meu convite para os maçons, e dentro, comecei a deixar exposto um desejo de conhecer reais métodos de magia. Após seis meses, do convite e entrada na maçonaria, fui iniciado na Magna Veritas. O pequeno grupo era composto por não mais que quinze membros. O grupo tinha como líder, um Desperto chamado Golab.

A Ordem havia me avisado que eu poderia me encontrar com outros Despertos, mas minhas instruções eram claras: eu não devia revelar que era nada mais que um Adormecido curioso. Haviam também me preparado para essa eventualidade, camuflando a minha aura para não parecer nada além de um Adormecido.

Após um ano de “serviço infiltrado”, sem revelar que era um Desperto ou qualquer conhecimento sobre isso, passei para o “Véu Escarlate”. Recebi ordens para matar um agente da polícia federal, que sob ordens do Magna Veritas, iria expor um outro grupo do Labirinto. Mesmo sendo um membro do grupo, não fazia idéia do interesse em expor uma outra organização, não até mais tarde. Na verdade o conflito pelo que estava passando não me permitiu pensar muito a respeito na ocasião.

Ainda não estava em paz comigo mesmo após a morte de Carolina. Por outro lado, eu acreditava nos ideais da ordem, sabia da importância do Labirinto. Enfim, decidi seguir minhas instruções e de acordo com o plano, o matei usando o mínimo possível de magia. Não foi simples e ele percebeu que estava sendo seguido. Chegou a atirar contra mim, mas protegido por uma magia que me faz parecer em um local ligeiramente diferente de onde estou se for atacado, consegui esfaqueá-lo sem sequer ser ferido.

Logo depois e ainda sem fazer idéia do quando havia avançado, mas estando a Ordem ciente de que eu me tornara capaz de matar pelos Guardiões, passei para o “Véu Negro”.

Entre a morte do agente da polícia federal e novas instruções, passaram-se dois meses. Nesse meio tempo, comecei a explorar meu trauma em relação à morte de Carolina, inicialmente só, meditando e pensando a respeito, algumas vezes fazendo viagens astrais e por fim, comecei a freqüentar sessões de terapia.

Além de descobrir mais sobre mim mesmo, desvendava mais sobre o Magna Veritas a cada dia. Além dos rituais que eu participava com todos os membros, havia um círculo interno que lidava diretamente com Golab. Com o que fui espionando, acabei por montar um quebra-cabeça arrepiante. Em troca de todo tipo de favores, o círculo interno escolhia e levava vítimas que eram estupradas e espancadas até a morte, as vezes pelos membros do círculo interno na presença de Golab, as vezes por espíritos que Golab invocava, semelhantes a ele.

Quando minhas instruções chegaram, fiquei chocado. Minhas ordens diziam para eu revelar que sou um Desperto e ajudar Golab e o círculo interno. De acordo com minhas ordens, eu deveria tomar proveito da situação, me tornar mais poderoso graças a Golab, e assim futuramente poderia servir melhor a Ordem. Eu mal acreditava no que lia.

Decidi ignorar a mensagem. Não duvidava de sua autenticidade, mas não podia seguir o caminho que ela me apontava. Minha escolha já havia sido feita quando despertei e eu não voltaria atrás. Decidi eliminar Golab, o círculo interno e fugir da Ordem por quanto tempo fosse possível.

Orgulhoso de minha capacidade, subestimei meus inimigos. Confrontei o círculo interno quando se encontraram novamente com Golab. Hoje teria feito diferente. Pegaria um por um, me aproveitando do fato deles não saberem quase nada sobre mim. Mas não foi isso que fiz. Antes que me desse conta, Golab havia invocado dois Goetia, ambos muito semelhantes a ele, podendo facilmente se passar por irmãos, distintos apenas pelos enormes músculos do primeiro e pela face efeminada do segundo.

Fui salvo por membros da Ordem que surgiram e eliminaram Golab e os membros do círculo. De acordo com eles eu havia provado que poderia fazer parte do grupo após ir contra minhas últimas ordens. Após o ritual de iniciação, desmontei o resto do Magna Veritas e me infiltrei em outros grupos do Labirinto.

5. My love is vengeance, That’s never free

Após ter visto e enfrentado Golab, comecei a estudar demonologia. Procurei novamente Exsomnis, a quem eu não mais vi desde que me enfiltrei no Magna Veritas. Nossa conversa foi curta. Demonologia é uma espécie de tabu entre os Despertos, já que ao tratar do abismo, há o risco de levar o Desperto para um dos Caminhos da Mão Esquerda, como os Scelesti ou Tremere.

Por outro lado, acredito que conhecer as armas do inimigo é um princípio aceitável e até uma estratégia inteligente e insisti com ele. Após nova recusa, ele me indicou um outro Desperto, Narses. Ele não vive em Recife, mas em Uberaba, interior de Minas Gerais e assim acabei fazendo minha primeira viagem astral.

Enquanto Narses conversava comigo no Telemos, o universo de sonhos formado pelo nosso inconsciente coletivo, Exsomnis terminava por me ensinar o que sabia sobre a Arcana do Espaço. Novamente eu e meu antigo tutor nos separamos, dessa vez em termos menos amigáveis. Não consegui convencê-lo da natureza benéfica de meus estudos. Na verdade, ele percebeu que eu não lhe contara tudo.

Afinal, eu não havia esquecido Carolina.

Meus estudos com Narse me levaram a conhecer os demônios da psique chamados de Goetia, os mesmos que vi serem invocados por Golab. Narse, um Clavicularii, invocava os demônios de sua própria psique e os derrotava, provando a si mesmo que era capaz de lutar e vencer seus próprios demônios, em um sentido bastante literal.

Com ele, me abri sobre o que pensava da morte de Carolina, sobre minhas dúvidas e minha culpa. Após mais conversas a respeito, que me lembravam muito minhas sessões de terapia, ele me fez o convite para me tornar um Clavicularii, que aceitei após ter o aval da Ordem.

Não poderia dizer que foi fácil. O Legado dos Clavicularii é severo, uma necessidade para que se possa lidar com os próprios demônios sem ser corrompido ou mesmo dominado por eles. Tive de deixar o resto da minha vida em segundo plano, sendo repreendido no trabalho e abandonando o trabalho no Labirinto.

Porém, antes de chegar aos meus 30 anos, dominara meu Orgulho e me curara da culpa em relação a morte de Carolina. Aliás, para alívio de meus amigos e familiares Adormecidos.

Carolina, mesmo morta, eu finalmente vim a perceber, tomava emprestada uma sobrevida que não merecia. Finalmente me conformei com sua passagem e me senti mais completo e percebendo que devia voltar a ter uma vida social saudável.

Ainda mantenho o contato com Narses e nós falamos com freqüência, seja por telefone ou quando realizo viagens astrais até o Templo de Salomão em Telemos. Mas depois de atingir o primeiro patamar entre os Clavicularii e poder lançar sobre outras pessoas o meu Orgulho, por prudência, resolvi avançar com menos voracidade no Legado. Sinto que Narses não está satisfeito com a lentidão com que agora progrido, mas acho necessária.

Além de aprender sobre Goetia, Narses também abriu meus horizontes ao me ensinar sobre a Sombra, um mundo paralelo ao nosso no qual habitam os espíritos das coisas. De todas as coisas. Isso me abalou num misto de encanto e assombro, quase tão forte quanto meu Despertar. Isso me tornou também mais responsável, afinal, antes não me dava conta das repercussões de cada ação que tomamos. Hoje, ao saber que cada objeto, sentimento e idéia estão literalmente vivos, penso mais antes de agir.

Renovou-me também a importância que dou aos Guardiões.

6. But my dreams they aren’t as empty, As my conscience seems to be

Acredito que a Ordem mantenha todos os Despertos em uma rédea curta e os seus próprios membros, em uma rédea ainda mais curta. Assim que meu treinamento com Narse mostrou-se mais lento, fui contatado pela Ordem.

Eles haviam me vinculado a uma cabala chamada “Os Venezianos”. Todos os membros têm o nome de Sombra criados com derivados do latim, e Veneza é uma referência aos rios do Recife. A cabala, formado só por Guardiões do Véu, tinha como missão manter o véu intacto na cidade, coisa que fazemos muito bem.

Não que tenha sido amor à primeira vista. Apesar de conhecer Exsomnis a bastante tempo, sendo ele o meu primeiro mentor, as últimas vezes que nós nos falamos haviam sido, na falta de uma palavra mais adequada, frias. Além do mais, o fato do grupo ter sido criado por uma imposição da Ordem não ajudava muito, mesmo que todos os membros tenham sempre sido leais.

Além de mim e Exsomnis, ainda haviam Vexari, Lacrima, Velox, Cardea e Lupercus. Lupercus foi morto em nossa primeira missão, ironicamente por um Lobisomem. Cardea foi morta ao defender o sacrário da cabala quando fomos atacados por Banidores.

O restante se mantém na cabala. Assim como eu, Exsomnis e Vexari são também Mastigos. Exsomnis assumiu a liderança do grupo por antiguidade, mesmo não estando longe do restante de nós em termos de conhecimento dos Arcana. Vexari é a única mulher do grupo desde a morte de Cardea, mantendo-se sempre um pouco na defensiva. Não sei bem o que há por detrás de sua agressividade, mas ela acabou por se isolar dos membros da cabala, o que a torna um problema à médio prazo.

Lacrima e Velox são muito unidos e depositam o seu Despertar a um mandato divino, talvez por isso coloquem o dever para com a Ordem em um patamar quase religioso. Os dois formam a segunda dupla da cabala, que trabalha após eu e Vexari conseguirmos as informações sobre nossos alvos.

Estamos sem um Sanctum desde o ataque dos Banidores, o que torna a procura por um novo Hallow e a disposição do local onde se encontra a nossa maior prioridade.

7. I have hours, only lonely, Behind blue eyes

Não me arrependo de minhas escolhas. Continuo trabalhando na empresa, falo de forma reticente com minha família, não faço amizades entre os Adormecidos que não sejam por conveniência, mas não faria outra escolha se a chance se apresentasse.

Minha tarefa como Guardião é dura, mas necessária. O relacionamento com os membros da cabala não é fácil, mas todos agem prontamente quando chamados ao dever e não deixam de dividir o que sabem com os outros membros da cabala.

No entanto, me sinto só. De acordo com Narses, isso é um reflexo de Carolina, mas é também algo mais. Tenho uma necessidade de passar adiante o que sei e no meio de segredos e intrigas e responsabilidades em que vivo, isso não é possível.

Então iniciei minha busca por um discípulo, um aprendiz. Eu não sou capaz ainda de passar adiante os ensinamentos do Legado, mas ambos o Consilium e a Ordem sabem que sou voluntário para ensinar um recém Desperto. De acordo com Narses, minhas chances são boas. Clavicularii têm a fama de serem ótimos instrutores, devido à maneira rigorosa como vivemos.

Daniel Lacerda (Devoras)
Conceito:
 Claviculari, iniciante dos Guardiões
Senda: Mastigos.
Ordem: Os Guardiões do Véu.
Cabala: Os Venezianos.
Atributos Mentais: Inteligência 3, Raciocínio 2 e Perseverança 4.
Atributos Físicos: Força 2, Destreza 2 e Vigor 2.
Atributos Sociais: Presença 2, Manipulação 3 e Autocontrole 2.
Habilidades Mentais: Erudição (Direito) 4, Investigação 3, Ocultismo (Demonologia, Goécia) 4.
Habilidades Físicas: Briga 1, Dissimulação 1, Esportes 1, Furto 1.
Habilidades Sociais: Astúcia 1, Empatia 1, Expressão 1, Intimidação 1, Persuasão 1.
Vantagens: Língua Sublime 1, Recursos 1, Status na Ordem (Os Guardiões do Véu) 1.
Força de Vontade: 4.
Sabedoria: 7.
Virtude: Fé.
Vício: Avareza.
Iniciativa: 4.
Defesa: 2.
Deslocamento: 9.
Vitalidade: 7.
Gnose: 3.
Arcanos: Espaço 3, Espírito 2, Mente 3.
Clássicos: Impostor (Mente 3), Intocável (Espaço 2), Olhar de Exorcista (Espírito 1).
Mana máxima/Por turno: 12/3
Blindagem: 3 (“Intocável”, Espaço 2)
Legado: Clavicularii: Primeiro: Projeção Goética (do suplemento Legacies: the Sublime)
Instrumento Mágico Dedicado: Máscara de Ferro com tiras de couro para prendê-la no rosto.

35 Pontos de Experiência gastos da seguinte forma:

18 – Space 3
14 – Spirit 2
2 – Status: Guardians of the Veil 1
1 – Sobra 1 ponto de experiência.

Por Haroldo Xavier Filho

August 09, 2022

Jovian Chronicles (publicado originalmente na Rede RPG / RPG em Revista)

 

Jovian Chronicles

É fã de anime e RPG? Gostava de Robotech, Piratas do Espaço, e especialmente Patrulha Estelar? Procura um sistema rápido e centrado no Roleplaying e não no Roll-Playing, e que ainda simule muito bem a luta de naves estelares, caças espaciais e robôs gigantes? Bem vindo ao universo de Jovian Chronicles.

“Japanese animation (or “anime”), on wich the Jovian Chronicles are partially inspired, is often based on four main elements: War, Death, Love, and Music. Your campaign may already contain the first three: just add a well chosen soundtrack” – Jovian Chronicles

“Luzes vermelhas, o alarme estridente. Pauline Lacroix fica atordoada por um momento, então salta do seu sono e corre para vestir seu uniforme.

‘Aqui é a tenente Juno,’, diz a voz clara e com um poderoso tom de autoridade que Pauline aprendeu a temer, e mais tarde a respeitar, ‘isso não é uma simulação, quatro corvetas de classe Bricriu e um porta-naves de escolta Tengu entraram na zona espacial de Nova Montreal. A casualidade entre civis ultrapassa pelo menos 500 mortos ou desaparecidos. O cruzador de mísseis, Veloz, está sendo atacado por um esquadrão de caças Wraith. É ai onde entramos, pilotos, entrem em suas exo-armaduras!’, gritava agora a tenente em sua voz não mais contida. Ela quase podia ver seu rosto de raiva.

Correr enquanto vestia o uniforme de voô não fora a melhor das idéias, mas não havia muita opção, havia? Não importava quanto treino tivéssemos, uma situação real de combate é assustadora demais. Os outros pilotos estavam no mesmo estado. ‘Todos somos verdes demais’, pensa Pauline, pulando para dentro de seu Pathfinder, e imediatamente ligando e checando sistemas.

Antes de pedir autorização para lançamento, Pauline faz uma rápida oração, e cruza os dedos. “

Background

O ano é 2210. A raça humana não está mais presa ao seu planeta natal, ela espalhou-se pelo sistema solar, ocupando Mercúrio, Vênus, Marte, a Lua, Júpiter e Saturno, penetrando no campo de asteróides como uma horda de pequenas formigas metálicas. A Terra está sob o domínio do governo militarista da CEGA (Central Earth Goverment and Administration – Governo e Administração Central da Terra). A Lua e Marte estão parcialmente controladas pelo mesmo, e os vários planetas e colônias do sistema solar estão sofrendo a tensão de um eventual avanço de suas forças. Mercúrio e sua frota de mercadores tenta permanecer neutro, Vênus acredita ser intocável pois exerce através do Banco de Vênus, uma enorme influência sobre a Terra e, em caso de conflito, prepara secretamente suas forças. Júpiter é talvez a única ex-colônia capaz de enfrentar diretamente suas forças e o centro do universo deste jogo.

Jovian Chronicles (Crônicas ‘Jupiterianas’, ou Jovianas), como outros RPGs da Dream Pod 9, têm um foco nos acontecimentos de uma esfera muito acima daquela normalmente tratada pelos players e carrega o universo com um tom “militarista” que permeia todo o livro. Demorei muito para ler esse livro, pois fiquei temeroso de ser mais um wargame que um RPG. Fiquei feliz em ter esta expectativa derrubada pelo mesmo.

O ambiente de JC é militarista sim, e trata especialmente de acontecimentos relevantes a todo o sistema solar, e não apenas ao planeta, estação, ou cidade no qual se passa o jogo. Mas essa é também uma de suas maiores forças. Aqui vemos um esforço enorme tanto em dar ao jogadores e mestres uma ambientação consistente, como de criar um terrivelmente intenso clima de ‘pré-guerra’, capaz de fazer os fãs de Babylon 5 simplesmente babarem com a expetativa de uma campanha épica de ficção científica. E apesar de toda esse grande esquema estar se delineando no horizonte, JC também não apenas suporta, mas reforça a opção de jogar com uma variedade imensa de papéis não-militares. Detalhes sobre as culturas de cada colônia, nova nação, sobre a própria Terra, e sobre os maiores grupos, são dados no livro. Além disso, cada uma dessas entradas é seguida por dicas de interpretação quando se é, ou quando se está tratando com um membro desses grupos e povos.

O clima de Anime em JC é outra constante dos jogos da Dream Pod 9 (Heavy Gear escancara isso, e mesmo Tribe 8 não rompe tão fortemente com o estilo). Não apenas a arte é extremamente evocativa, como a apresentacão e motivação das personagens apresentadas, com a devida dose de melodrama, humor e mesmo heroísmo juvenil tão típicos.

“O vácuo gelado cerca o Pathfinder Alpha de Pauline. Philip, Louis e Tamara são catapultados do Valiant logo após. Seu HUD (Head Up Display – Monitor Acima da Cabeça) praticamente brilha com tantos pontos e informação. Três dos Bricriu foram em direção ao Veloz, o quarto continua atacando Nova Montreal. O Tengu tenta manter o Valiant fora da ação principal e longe de defender a estação.

Nova Montreal queima. Pedaços enormes da estação se separam e são arrastados pela poderosa força gravitacional de Júpiter. Pauline fica congelada de horror por um momento. Então, controla-se novamente, e escolhe um dos Wraiths como alvo.

O Pathfinder é mais rápido e ela é habilidosa o suficiente. O treinamente dado pela tenente Helene Juno é pesado, cruel, e desgastante, mas vale cada segundo. Pauline sente isso agora quando seu Pathfinder agarra o Wraith pelas ‘costas’ e ela liga sua lança de plasma, rasgando a nave inimiga com alguns golpes.

Isso não a faz se sentir melhor. Ela deseja gritar quando vê uma nova secção da Nova Montreal mergulhando em Júpiter, mas luta contra isso e, quando se dá conta, percebe mais luzes no seu HUD.

O Tengu acabou de lançar seis exo-armaduras Wyvern”.

O Jogador

A criação de personagem tem uma quantidade de pontos variável, dependendo do tipo de campanha escolhida pelo mestre e jogadores, passando de uma campanha mais realística e brutal até uma cinemática. A ação de JC não se passa apenas no espaço, e os arquétipos apresentados para NPCs (que podem ser ligeiramente modificados para tornarem-se PCs) demonstram isso.

O processo de criação da personagem é fácil e não envolve diretamente a conceituação dela, como ocorre com Unknown Armies, Kult, Kindred of the East e mesmo o Tribe 8, também da Drem Pod 9. Mas isso não quer dizer que o processo seja simples, afinal a escolha de onde veio, onde vive e para onde vai a personagem, afeta diretamente a campanha e sua criação, e mesmo não sendo diretamente abordado na distribuição mecânica dos pontos (como é feita em Blue Planet), as dicas dadas na informações sobre cada planeta em relação aos personagens criados tendo eles em mente, são suficientemente inspiradoras.

Para diminuir a sensação de “vamos colocar os pontos e deixar a caracterização para depois”, o processo tenta ainda incorporar nele uma conceituação baseado em 20 perguntas sobre a personagem. Mas isso em si não reforça o conceito sobre a mecânica e a mesma tentativa pode ser vista em diversos outros RPGs, como Vampire ou Shadowrun.

Os pontos acabam então sendo distribuídos em atributos e perícias, sendo as perícias “bônus” dados nos testes. Analisaremos mais isto na parte de sistemas.

Enfim, a criação de personagem não é hiper-complexa. Podemos dizer até que é um processo rápido, mas jogadores e mestres devem cuidar para que esta, dependendo claro da natureza do jogo, seja mais voltada ao roleplaying ou roll-playing, já que tudo começa com a escolha da campanha e tipo das personagens permitidas.

“O reflexo do rosto de Pauline nos instrumentos não a deixava confiante. Ela sentia medo, e muito. E cada pedaço de suas expressão quando lia os indicadores com as informações sobre os Wyvern, não melhoravam em nada os prospectos do que poderia lhe acontecer.

Pauline tocava os controles agora com mais força. Uma coisa eram os Wraith, outra eram os Wyvern. Então ela viu três deles partirem para a área de suporte de vida de Nova Montreal…

‘Lacroix, detenha aqueles Wyvern! Philip, Louis, aproximem-se e deêm suporte a ela. Tamara, cuide dos Wraith restantes’, gritava a tenente em sua cabeça. Pauline deixou de lado o choque e o medo, sentindo a força da gravidade pressionando sua carne enquanto acelerava em direção aos Wyvern.

Dois se viraram para ela. Seus intintos mais que sua razão a fizeram guinar ao mesmo tempo que lançava seus mísseis, já travados em um dos Wyvern.

Trinta e duas toneladas de metal, plásticos e diversos outros materiais, se desviaram dos disparos das bazucas hipergólicas dos Wyvern ao comando de Pauline. Foi por pouco. Um dos Wyvern não tem a mesma sorte, e seus sistemas computam um alvo a menos.

Um sorriso nervoso surge em sua face suada e ela lança um segundo míssel contra o outro Wyvern, ao mesmo tempo que acelera para aproximar-se dos outros quatro. Mais alívio surge ao ver a tenente Juno aproximando-se dele e lançando por sua vez, seus mísseis”.

Mestre do Jogo

JC tem uma das mais bem estruturadas diagramações já vistas, tornando-o agradável de se ler e ao mesmo tempo dando um ar de “livro técnico”, obviamente ilusório, mas agradável quando se pensa no conteúdo e na harmonia dos conceitos.

O livro assusta um pouco se for apenas folheado. Parece ter regras demais em páginas demais. Esse efeito permanece até que finalmente cria-se coragem para ler o dito cujo.

Não apenas a história de abertura é extremamente envolvente, servindo mesmo como uma introdução para uma campanha, como o texto é agradável, útil não apenas por dar uma visão profunda e agradável do tema, como nos diversos conselhos de como ou não o universo do jogo deve ser encarado.

O livro é suficientemente completo para não precisar de suplementos, já vindo com uma quantidade boa de regras para todo tipo de ocasião, uma boa dose de ambientação e informações sobre caças espaciais, exo-armaduras e mesmo naves de grande porte. Os planetas e colônias são tratados com uma dose boa de detalhes e idéias, tanto para aventuras como para personagens. Similarmente eles também tratam das principais organizações, como a Guilda de Mercadores de Mercúrio, a Cruz Solar (uma espécie de Cruz Vermelha) e o Banco de Vênus.

É inclusa também uma campanha, ou melhor, uma idéia de campanha, com dados sobre as naves e personagens envolvidos. A arte do livro, totalmente baseada em animes, também ajuda o mestre a conceber melhor o jogo e passar acuradamente essa idéia aos jogadores.

“Mas ela não tem a mesma sorte uma segunda vez. Pauline sente o choque dos disparos sendo feitos contra ela. O HUD tremula, e ela vira-se com uma dose maior de raiva e desespero, mantendo a mesma direção, e girando sobre si mesma enquanto dispara o canhão de partículas no Wyvern a seu lado.

A falta de reação do atacante a deixa desconfiada por um momento e depois mais confiante: ele deve ter sido atingido internamente pela carga elétrica do seu disparo.

Ela vira novamente seu Pathfinder a tempo de ver Philip sendo atingido por dois dos Wyvern, que dando cobertura ao resto de seu grupo, pararam para enfrentar o time de Pauline. Os mísseis primeiro arrancam um braço da exo-armadura de Philip e depois atingem em cheio seu tórax.

‘Philip está fora de ação, concentre-se nos que fugiram, eu cuido desses dois!’, grita a tenente, e novamente Pauline acelera. Louis, que havia passado por ela, lança seus mísseis, atingindo um dos Wyverns restantes, que vira-se e se arremessa contra o Pathfinder dele.

Resta um e Pauline precisa detê-lo. Ela passa rápido por Louis e o piloto da CEGA, lutando no espaço com poderosos socos de suas armaduras.”

Sistema

O Silhouette System, usado pelos jogos da Dream Pod 9, consiste em lançar um número de D6 igual ao atributo, e somar ao bônus (valor) da perícia, comparando a uma dificuldade escolhida pelo mestre. O sistema é simples e rápido. As peculiaridades dele o tornam um pouco mais complexo e ele encanta pela forma como cuida do dano, sendo um sistema extremamente letal.

No JC vem também incluso todo um sistema para combates e uso de veículos, seja terrestre, aéreo, espacial, etc. Ele usa hexágonos como base, mas pode ser convertido para metros, se não forem ser usadas miniaturas, ou algo do tipo, mas apenas roleplaying.

O sistema é complexo, e poderia mesmo ser um wargame à parte. Mas não é pesado o suficiente para tornar as ações super lentas, e pode mesmo ser usado sem muitos problemas, durante uma sessão de jogo normal.

“Pauline prepara-se para derrubar o último, com seu Pathfinder o alcançando lentamente. Suas armas travam sobre ele, e ela escolhe atingir o compartimento do piloto, possivelmente o deixando inconsciente com o disparo do canhão de partículas.

Então ela sente a explosão nas costas de sua exo-armadura. Os sistemas fraquejam, piscam. Pauline sente o piloto preparar-se para explodir o sistema de suporte de vida, vê ele mirando a bazuca e imagina a milhares de pessoas mortas no vácuo. Ela não pode permitir isso.

Ela chora quando usa o restante de energia e força de seu Pathfinder em uma descarga única, o impulso e força espalham suas lágrimas pelo rosto e capacete. Ela alcança e tampa com a mão de sua exo-armadura a bazuca do Wyvern. Seu veículo morre nesse momento, a última fração de energia gasta nesse esforço desesperado.

Pauline estremece com a explosão que arrebenta metade de seu pathfinder e joga no vácuo o piloto do Wyvern. Ela cai então, tranquila, para o olho vermelho de Júpiter. Mais uma heroína na guerra inútil contra a CEGA.”

Conclusão

Dentre as poucas opções de Ficção Científica para RPG, JC se destaca pela sua complexidade e por seu incrível potencial. Diferente de Blue Planet, ele parece menos contido e mais da “síndrome de suplementos”, e com uma maior adaptabilidade para diversos tipos de campanhas do gênero.

Apesar do foco maior de JC ser no mundo dos animes, ele pode ser usado sem apelar sempre para esta estrutura, sendo um livro de RPG de Ficção Científica antes de qualquer outra coisa.

Nome: Jovian Chronicles
Autores: Marc-Alexandre Vézina e outros
Editora: Dream Pod 9
Número de Páginas: 232
ISBN: 1-896776-13-2
Site Oficial:
http://www.dp9.com/index.php?option=com_content&view=article&id=65&Itemid=108

Miniaturas:
http://www.starshipmodeler.com/other/dp9_jov.htm

Haroudo Xavier
Cedido à Equipe REDERPG
(Material original da RPG em Revista)