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August 28, 2013

X


Procurar um X. Fácil falar, fácil falar.
Ele olha para mais um par de coxas, roliças, se abrem com gosto.
Os pelos negros, encrespados, parecem lhe encarar de volta.
A casa, na Avenida Xisto Ferreira, número 10, lhe parecia tão promissora quanto qualquer uma.
Mas Xeila? Tinha de ser ela, certo?
Ela termina de tirar a calcinha e seu pau amolece.
"Porra".

O amigo teve melhor sorte.

- Tudo bem?
- Tudo.
- Vocês fazem tatuagem, né?
- Aparentemente, é o que diz na minha vidraça, né?
- Bem, eu tenho uma coisa para pedir, mas não sei se vocês fazem, pode ser ilegal.
- Sim?
- Bem, queria saber se vocês fizeram alguma tatuagem específica...
- Específica como?
- Olha, não sou um tarado, é um caso de conhecimento.
- Sei...
- Bem, alguma cliente fez uma tatuagem na virilha, um X?
- 50 reais.
- Como?
- 50 reais e te respondo.
- Mas só pra dar a resposta?
- 50 reais.
O dinheiro muda de mãos e Fernando agradece que Márcio tenha ido procurar de outra forma.
- Tenho sim, na verdade três clientes. Tatuagem na xoxota, hoje em dia, é mais popular que tatoo no braço de marombeiro.
- Tem como me dizer o nome, endereço?
- Vocês são todos iguais.
- Ei, não sou nenhum tarado, cara, é só uma investigação, juro.
- Sei. Olha, por 250 te mostro até a foto da buceta dela, antes de depois.
- Só quero nome e endereço.
- Estão espera aí.
O homem alto, de tatuagem que cobrem os braços fortes, entra na loja que já estava fechando.
O homem baixo, com cicatrizes que marcam suas costas acompanhando toda a espinha, entra na loja fechando a porta atrás de si.
- Ei, eu disse para esperar lá fora.
- Eu não tenho 250.
- Então se foda, porra. Volte quando quiser, agora saia da minha loja. Que coisa escrota!
- Escroto mesmo.
O tatuador cai no chão, urrando, sentindo suas bolas se espremidas por dedos invisíveis.
- Onde está o livro de fotos e onde acho os endereços?
O homem aponta.
- Pega pra mim, por favor.
Ele se arrasta devagar.
Fernando esfrega o pedaço de couro com menos afinco, deixa o homem respirar.
- A-aqui.
Pega o álbum de fotografias, todas impressas em papel fotográfico, e o pequeno caderninho de endereço.
- Aprecio sua diligência e obrigado por não ter nada disso num maldito computador. Agora, os 50 de volta.
O homem espicha o braço e entrega a nota, sendo chutado no rosto, pescoço e peito.
- Valeu.
Diz Fernando, saindo da loja e entrando no carro velho.

O celular toca. Xuxa atende.
- E aí?
- Talvez, cara. E você?
- Na trilha, na trilha.
- Tá bom. Me ligue quanto tiver algo.
- Feito.
Xuxa guarda o aparelho no bolso da camisa e continua esperando.
A mulher sai. Seu rosto gordo, uma enorme lua branca, é palco de um delicado balé de lágrima, mas a poesia se quebra com o arreganhar da boca e o alto choro.
- Calma, filha, ele depois vai voltar.
Diz a mulher pequena, com o rosto magro, de pele seca e esticada, que se vê em grande contraste em relação aos vivos olhos de menina, de um cintilante azul escuro.
- Madame Xi?
Os olhos de xibiu se espalham pelo seu corpo. Ele se sente avaliado, pesado, e logo, preparado para o matadouro.
"Que profissional", ele pensa, em verdadeira e profunda admiração.
- Sim, querido?
O querido é pelo terno, pelo corte caro, pela fala macia? Xuxa não sabe, mas sabe se fingir de peixe.
- Eu quero saber se minha mulher está me traindo.
A gorda lhe lança um olhar enquanto sai pela porta.
"Não há santos nessa cidade", ele lembra e fica tentando a dar uma piscadela. Sempre gostou de sentir a carne cedendo entre seu dedos e estocadas, mas se contém. Aqui, é só mais um besta.
- Quer que eu leia sua mão, tire as cartas?
- Serviço completo. Eu posso pagar.
As pequenas e rápidas turquesas parecem ter seu próprio sorriso, mas os lábios ressequidos nada mostram.
"Assim eu lhe amo, moça!", pensa Xuxa, que entra pela cortina de contas para uma sala mais escura.
- Sente, não tenha medo.
Ele senta na cadeira que balança um pouco com seu peso. As pernas musculosas de Xuxa o apoiam melhor que a madeira e assim, se deixa sentir-se mais seguro.
- Qual o nome dela?
- Xerazade. Com X.
Os olhos quase que a traem.
- Xerazade?
- Isso.
- Que mais pode me dizer dela?
- O que a senhora precisa saber?
- Qual a idade dela?
Um tremular de xilofone se apresenta nos lábios dela. "É ela...", ele sabe.
- Mãe?
- Como?
- Mãe, sou eu.
- Como?
"Eu estou assustando ela, calma, Xuxa...", ele tira do paletó os papéis.
- Mãe, sou eu, Xerazade. Eu posso provar.
- NãO!
A velha corre para dentro da casa. Xuxa se levanta, cansado da farsa, retira as lentes de contato que escondem os olhos turquesa.

- Ela tá no Clube Xavante.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Você está bem? Como foi com sua mãe?
- Não foi bom.
- Ela resistiu?
Xuxa desliga e olha para o banco de passageiro, de onde olhos mortos, repousando em um lenço limpo, o acusam.

Os quatro homens se encontram na porta do loca. Chove, mas a água evita molhar qualquer um deles, esquivando-se com nojo.
O mais velho deles, tosse.
- Tomou seu xarope?
- Tomei, Márcio. É mesmo aqui, Xuxa?
- É sim, tenho certeza. Eu trouxe... Os olhos dela.
- Estão apontando pra cá? Tem certeza?
- Xerxes, seu filho fez tudo que devia ter feito.
A baba marrom que embeleza os lábios do homem, é menos desprezível que o olhar que lança para baixo.
- Xô, Fernando. Não pedi sua opinião.
- Mas vai ter. Ainda não acredito bem em sua história.
- Se quer ficar rico, melhor acreditar.
- Xuxa, você tá legal?
- Para de paparicar ele, Fernando. Ele tem um pau, lembra?
- Seu filho da puta!
Xuxa volta para o carro. Márcio pigarreira.
- Xuxa, fica aqui. Xerxes, então, que fazemos?
- Você trouxe o que pedi?
- Claro.
Márcio abre o saco, dentro, envelhecidas, balas xaxá.
- Pai?
- Que é, Xuxa?
- É ela?
Xerxes olha com cuidado. O cartaz de xerox não ajuda, mas ele ainda assim a reconhece.
- Sim, Xuxa, é sua irmã gêmea.
O homem de gosto refinado, fita o cartaz, encantado, ignorando os seios e vagina estrelados, e se perdendo no rosto espelhado.
- Bela adormecida.
A voz de Márcio espanta Xuxa, que sente algo sendo empurrado para dentro de sua mão. É uma bala com embalagem amarela.
- Mantém na mão esquerda e não abra.
E os quatro entram no Xavante, sem perceber os raios e trovões que atingem a cidade com fúria, como que abortados do céu.

Eles sentam, numa mesa próxima da porta. O local é escuro, quente, úmido.
Uma mulher se aproxima da mesa. Não há beleza em sua face, mas um desejo selvagem percorre todos os homens.
- São as balas.
Diz Xerxes, numa voz trêmula.
A mulher se inclina sobre a mesa, mostrando a carne, observando os fregueses.
- Olá. Os senhores querem beber alguma coisa?
- Xerez.
Márcio se adianta, evitando a confusão causada pela resposta de Xerxes.
- Qualquer vinho forte que vocês tenha, uma garrafa de cerveja, qualquer uma e se tiver vodka, eu quero uma dose, qualquer uma também.
Ela vai embora, rebolando, mas volta logo com a bebida e se senta na mesa com eles.
- Ximena trabalha aqui, né?
Ela olha para Xuxa.
- Você é irmão dela?
- Porra, Xuxa, é uma puta, não precisa ir como se estivesse de xaveco. Olha, qual teu nome? Aliás, não importa. Ximena trabalha aqui?
A mulher olha irritada, mas vê a nota de 50 deslizando pela mesa.
- Sim, mas você só pode falar com ela depois do show.
- A gente espera, pode ir.
- Vocês não querem mesmo nada?
Todos queriam. Xerxes, ligeiramente mais controlado que os demais, fez que não com a cabeça. Desapontada, ela se levantou e foi para outra mesa.
- Ximena não vai mesmo enxergar a gente?
- Não, não vai, Xuxa. Desapontado?
- Um pouco, pai.
Fernando segura o punho de Xerxes a poucos centímetros do rosto de Xuxa. O velho dá uma rabissaca e livra o braço. Seu olhar diz tudo e só reforça o quão desesperado está para ter que estar ali com com filho. O episódio lembra a eles o que está em jogo, com o peso de seus destinos sendo colocado na balança, se calam, nenhuma das mulheres que se despe, bonitas ou feias, arranca de nenhum deles, nem o mais breve comentário.

Ximena surge, vindo por trás da xilogravura.
O corpo aparece e começa a fazer seu strip tease.
Os longos cabelos, ainda molhados e cheirando a xampu barato, se enlaçam em espiraladas cruzes.
Fixos olhares acompanham seus dedos, quando elas desce a calcinha, mostrado os pelos, que eles percebem, escondem a marca.
Xerxes derruba o forte vinho na mesa, puxa do bolso a bisnaga de xilocaína e por debaixo da mesa, a inscreve com um X.
Os clientes e empregados do local, caem, entre balbucios e gritos abafados, dormem.
E os quatro homens se levantam e vão em direção a prostituta que não os vê, apenas escuta seus passos.
Ela grita e esperneia quando as mãos a tocam, seguram firme e a amarram nas borda do estreito palco.
Um chute acerta o óculos de Fernando, que deixa cair sua bala.
- Cale a boca, Puta!
- Não fale assim com minha filha!
- Pai?
Xerxe abre a mão e deixa também cair o confeito, o que só o ajuda a terminar de prender uma das pernas dela.
- Filha, lembra de mim?
- Claro, pai! Mas o que o senhor tá fazendo?
- O que eu preciso fazer. Quem te mandou fazer a tatuagem?
- Você mesmo! O senhor está maluco?
- Agora tudo faz sentido, não é pai?
Xuxa deixa cair a bala.
- Xerazade?
- Ela sempre foi seu xodó.
- Vocês querem parar com essa merda? A marca tá aqui!
É márcio que agora livra sua mãe esquerda e já traz do bolso uma navalha.
- NÂO! Pai, você não pode fazer isso!
- Porquê, Ximena? Porquê mandei você fazer isso tudo? Eu lhe disse?
- Pai, não olha!
Mas é tarde. A Navalha recorta os pentelhos sobre o estranho e imperfeito X. E os quatro homens, olham excitados para o objetivo de suas vidas.

O Xá ordenou a morte do X.
O símbolo que marca o local, o ponto fulcral.
Dos magos, um se recusa e guarda a marca em sua própria pele, carregando-a foge.
Só para quando duas estrelas cadentes se entrecruzam no céu, sob um oásis.
Começa a viver lá, se casa com a filha de um pastor, escreve livro na areia.
Passa para seu filho a marca.
O mesmo vórtice de sentido e poder que Hitler não entendeu, foi passado de mão em mão, de carne em carne.
Um eixo onde a consciência do futuro e passado de quem o olha, se torna um só.

Os quatro xeiques se olham em roupas estranhas.
Ximena, que se aproveitou do momento de confusão, correu dos homens.
Inflamado por uma xenofobia repentina, um deles atira a navalha na mulher nua, antes de escorrer para baixo.
Escorrendo no tempo.
Os quatro, como peças em um jogo de xadrez, trocam de lugarem, avançam, recuam, tentam ganhar, perdem, as vezes, viram rainhas, em poucos momentos, tornam-se reis, que acuados, procuram o símbolo.
O X que os perturba no tempo, do espaço, da vida, que não para, mas vai e retorna.
Alexandria. No livro, Xerxes tem seu nome inscrito.
Os quatro estão juntos de novo, em volta do jogo importado.
- Xeque!
Xuxa diz, em um barbárico latim.
- Temos de continuar subindo.
- Eu estou feliz aqui, sou jovem, posso ir para onde eu queira, Fernando.
- Fácil para você então, Xerxes, mas você nos deve. Lembra o que prometeu? Lembra da carta que jogou fora?
Agora ele lembra. Lembra de tudo. Lembra que tinha o futuro em mãos e o descartou, e quando o percebeu, velho, já tinha deixado o vigor lhe levar tudo, mas a fixação o marcara, a bruxaria tornara o mundo a sua volta obcecado, pertencente ao X, que o tornou louco, que o fez sacrificar tanto por tão pouco.
- Eu não sou xexeiro.
- Então, velho, vamos. Olhe a marca.

Xerxes escreve a carta. Nela, os números de jogos de azar, informações sobre o futuro. A vida que ele, um menino então de apenas 10 anos, terá, será bem diferente. Talvez não case com Xênia, com quem terá duas filhas de olhos turquesa. Nem fará uma delas mudar tanto, sacrificando ela em nome do oculto. Nem abandonará todos quando perceber que tudo foi em vão. Talvez não conheça os homens que são sua presente companhia, guiados por corações sem escrúpulos, de certa forma, tão obcecados por ele.
Xerxes pode mudar o futuro. Pode mudar o mundo.
Não se surpreende com a escolha do Xá. Teria ele esse dilema? Matar-se para poder ter a vida de seus sonhos?
Tudo que o define é apenas um X em um mapa para uma criança achar um tesouro.
No local certo, ela poderá se tornar um monarca.
No local errado, está enterrado a vida que tem hoje, que só agora lhe percebe a importância.
Quem sabe, escreverá outra carta, dessa vez, para Ximena, onde lhe contará tudo e como garantir que sobreviva a ele, fazendo esquecer de sua família antes de maiores sacrifícios que, ele sabe, havia planejado.
Tudo se encaixa.
Os outros o olham apreensivos.
E tudo que ele precisa fazer é marcar um X.


August 08, 2013

Q


Q: Bem vindos ao Quiprocó! Estamos hoje com Ricardo Veronese Sakamoto, que vai nos falar sobre o seu novo livro: "O Cometa do Futuro". Sakamoto, o livro foi lançado faz uma semana e está sofrendo duras críticas, ao mesmo tempo que tornou-se um dos livros mais vendidos dos últimos 20 anos. Do que trata o livro?

R: Olá, Quenia. E pode me chamar de Ricardo. Meu livro trata, fundamentalmente, de liberdade.

Q: Então há uma mensagem filosófica nele? Seus opositores clamam que não passa de besteirol, extraído direito de cultos fatalistas do século 20, misturado com noções infantis de Sociologia e Economia.

R: É natural que digam isso. No próprio livro eu digo que diriam isso. O sistema vai sempre lutar contra algo que tente alterá-lo de forma fundamental, e é essa a proposta de meu livro. As pessoas precisam libertar-se do que são, de como vivem e abraçar o futuro antes que sejam exterminadas por ele.

Q: Você viu o futuro?

R: De fato, sim, vi. Inclusive essa entrevista. Tem um pedaço de papel e lápis?

Q: Quê?

R: Lápis e papel. Eu sei que alguém da produção pode trazer, pois eu vi isso também no futuro.

Q: Produção, alguém pode? Obrigada, Milton. Aqui, Ricardo. O que pretende fazer com isso?

R: Eu vou escrever no pedaço de papel as perguntas que você fará adiante. Me dê um momento.

Q: Não sabia que você era mágico além de escritor.

R: Não sou. Mas quando acabarmos a entrevista, você vai preferir que eu fosse sim, um mágico.

Q: Terminou? Estou curiosa.

R: Sim. Pode prosseguir.

Q: Você clama que sabe o futuro. Então, por qual motivo não adianta todas as respostas da entrevista já que sabe todas as perguntas?

R: Se eu o fizesse, não seria o futuro. As perguntas nunca seriam feitas.

Q: Esperto, Senhor Sakamoto. Bem, já que isso parece ser o ponto do seu livro, sendo o maior objeto das críticas, como você conseguir esse poder extraordinário?

R: Foi em um sonho. No sonho, eu andava por uma espécie de biblioteca. Mas era uma biblioteca como nenhuma outra. Nela havia o conhecimento, não só da nossa espécie, mas de todas as espécies, de todos os tempos, e de espécies além de nosso alcance hoje, anos-luz de onde estamos. E Deus era o bibliotecário.

Q: Você falou com Deus?

R: Em termos. E sua mensagem é meu livro.

Q: Então, o senhor não apenas deseja remodelar nossa sociedade, que muitos chamam de uma utopia, em nome de uma mensagem em um sonho no qual falou com... Pausa dramática... Deus. É isso?

R: Sim. E a mensagem é tão real, significante para nossa vida hoje, causou tanto incômodo aos poderosos, que serei assassinado após o show.

Q: Que fatalismo divino, Ricardo! E um complexo de messias! Estou louca para ler seu livro! Vai vender mais quando for relançado postumamente?

R: Não. Ele será censurado, cópias serão confiscadas, e apenas algumas pessoas irão carregar a mensagem. Não sei se será o suficiente, o futuro, e esse é um ponto importante, tem uma certa incerteza.

Q: Então todo o seu trabalho e seu (risos), desculpe, sacrifício, pode ter sido em vão?

R: Sim. Mas é necessário. Quenia, nosso sistema não é auto-sustentável. Pior que isso, nosso sistema não promove uma evolução. É importante que nossa sociedade evolua, que a humanidade se torne transhumana nos próximos anos. Ou enfrentaremos o extermínio em 2062.

Q: O que o senhor está propondo é ilegal. Há motivos claros para que o uso de certas tecnologias, se bem entendendo o que chama de transhumanismo, não caia nas mãos de todos. Como evitar que as pessoas façam mal uso de clonagem, implantes, replicadores, nanotecnologia, entre outros?

R: As pessoas devem fazer mal uso. É através do erro que nasce a evolução, Quenia. Todo o conceito utópico de uma sociedade ordeira, nos impede de ir além. Não foi para isso que fomos criados. Não somos um "quase", não evoluímos como bípedes em vez de quirópodes para permanecermos aqui, negando nosso legado. Nem nós, nem outras espécies.

Q: Que nossa sociedade preserva. O senhor prega o extermínio de espécies que não podem suportar a ânsia de progresso do homem?

R: Não, eu não prego. Eu vi. Em alguns casos, sim, espécies e etnias deixarão de existir. Seja o quati ou os quirquizes, mas elas serão exterminadas de toda forma pois nós corremos o risco de não evoluírmos a tempo.

Q: A tempo de quê?

R: Da vinda de Deus.

Q: Bem, nosso tempo acabou, Ricardo.

R: Espere. Veja o que escrevi.

Q: Que saco! Produção, isso é alguma brincadeira? O papel já estava escrito? Como assim, não tinha nada no papel?

R: Quenia, obrigado. Eu sei que você lembrará de mim. Agora, eu tenho um último encontro.

Q: Então, você não é louco?

R: Agora você sabe que não.

É hoje.
O que vai restar de mim quando chegar a manhã, eu não sei.
Não amarrei todos os fios soltos da narrativa de minha vida.
Quem pôde fazer isso?
Até que nível isso importa?
Como isso satisfaria Deus?
Hoje é 3 de Abril de 2062 e a raça humana como eu conheço vai morrer.

Ainda lembro do corpo de Ricardo. Dois tiros no peito, um na cabeça. Eu estava apenas dois metros de distância onde ele foi alvejado. O homem usava um capuz e saiu correndo. Eu ainda estava tremendo depois da entrevista. Era tudo tão absurdo. Eu corri na direção oposta a do assassino e lembrando do que ele disse, tirei dinheiro em um caixa eletrônico e comprei várias cópias de seus livros, tendo cuidado para não ser filmada na loja. Comprei também dois livros com dinheiro eletrônico. Fugi para casa.
Comecei a ler. Meus dedos mal conseguiam virar as páginas. Ainda tremia e não conseguia me controlar. O livro, porém, fluiu. Fluiu para dentro de mim, como um encanto. Nem parecia estar mais consciente. Vi a nossa sociedade como nunca havia visto antes, toda sua imperfeição, um moedor de carne que nos condena a ter triturado de nossas vidas toda a vontade, o desejo de mudança, o ímpeto de querer mais. E vi o sonho, antes de dormir. Um sonho de uma sociedade em que o indivíduo trabalha para o todo, sem ser acorrentado pelo todo. Um sonho. E adormeci.
Meus olhos se enchiam de luz. Uma luz pulsante, perdida em um mar de escuridão e ao mesmo tempo, cegante. Um Quasar. Perto dele, despertando enquanto eu vagava no sono, um objeto. Ele começou a se mover. Ele refletia e consumia a luz, ele navegava nos ventos solares e se deixava puxar pela gravidade de astros distantes. Quando se aproximava de meus olhos, vi o quanto era magnífico, uma estrutura gigante de quartzo, um templo no espaço. Deus.
Eu acordei assustada. Ele gritou comigo.

Os anos seguintes foram horríveis, pelos menos os cinco primeiros. Eu poderia voltar. Eu poderia ser re-adaptada. Eu poderia ter meu emprego, consumir o que todos consomem, dizer as mesmas coisas, respirar o mesmo ar, comer a mesma comida, frequentar a mesma Igreja. Mas não podia. Eu decidi me matar. O suicídio foi, sem dúvida, a melhor saída.
Deixei para trás minhas amizades, vivia nas poucas bibliotecas restantes, na porta de livrarias, fazia cópias dos exemplares que tinha e os distribuía, até mesmo nas sarjetas.
Mas é difícil vencer o sistema quando se está nas sombras, pois nas sombras é onde ele sempre atuou. Nos acordos escusos, nos meandros dos contratos, um quasímodo que se move sem ser notado, mas que comanda dentro de seu universo grotesco, o princípio, o meio e os fins da catedral.
Por mais inútil que tenha parecido minha luta, me tornei inimiga do estado. Me caçavam, tive de correr, me esconder. Percebi que os locais onde ia eram vigiados. Passei a viajar mais, ir mais longe. Estava cansada.
Um dia, em uma cidade que mal conhecia, fui cercada. Homens e mulheres encapuzados. Tive medo. Lembrei de Ricardo. Corri. Corri. Corri. Mas eram 5 anos de exaustão, em que eu me via só contra tudo. E cai. Então vi a mão estendida.
Eles não eram sequer os primeiros, apenas os mais próximos. Os querubins. Era assim que se chamavam, anjos, mensageiros, sem que eu soubesse, faziam o mesmo que eu, seguiam meu exemplo, sonhavam comigo. Tinham visto Deus.
Me levaram para um quarto, um local tão fora do sistema quanto possível. Passei alguns dias lá. O primeiro tempo de descanso em anos. Tive comida de qualidade. Era irreal. Lembro de ter comido queijo fresco. E voltei a ter sonhos. E voltei preparada.

Nos anos seguintes, nossa religião cresceu. Nem todos eram bons, alguns queriam apenas a liberdade que prometíamos. Nem todos queriam uma igualdade pela individualidade. Afinal, como fazer eles entenderem? Empatia não esborra do silício ou brota em árvores. Nem todos sonhavam os mesmos sonhos.
Crescemos, vivendo nossa quaresma, crescemos. Os governos passaram a ser mais brutos, os irmãos cristãos mais verdadeiros com sua herança histórica, os empresários se tornaram mais temerosos. Mas todos estavam, em algum nível quociente, certos de que algo iria acontecer em 2062 após a passagem do cometa.
Nessa querela, quanto mais próximo do momento da chegada de Deus, o governo mais nos temia. Fomos colocados em "quarentena". Fomos, diziam eles, envenenados por um vírus alienígena. Éramos espiões.
Mas nada, nada do que vaziam, pode impedir que vissem Deus no primeiro de Abril de 2062. Ele chegava magistralmente em seu carro celeste. Seu brilho, uma luz clara e fria, iluminava a noite. O seu espiral acompanha nossa órbita, como que usando a terra como escudo contra o sol. Ou protegendo o nosso sol de sua onipotência.
Em 2 de Abril, chegou a lua e de lá, deixou que partes de si se implantassem na superfície do satélite. Estendeu então sua quintessência até nós. Mas não só. Sua mensagem foi sentida por todos. Cada um podia ouvir a voz de Deus.

Hoje, 3 de Abril de 2062, quatro minutos antes da aurora, quando Deus e o Sol serão um.
Ele vai nos queimar, provocar um dilúvio, nos elevar a um novo estado, nos carregar para encontrar nossos irmãos nas estrelas?
Não sei. Mas todos os profetas estavam certos. Haverá um julgamento, e cada um, individualmente, será um réu e só poderá temer pelos seus atos.


August 06, 2013

P


- PUTA-QUE-PARIUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!
- Que É?
- Deixa dessa punheta, eu preciso sair, porra!
- Você é grosso, hein? Peraí que tô saindo.
- Sempre essa putaria, hein?
- Porque você não se muda, pombas?
- E eu vou deixar minha irmã morando só num mundo escroto desses?
- Você é um charme mesmo. Vai, usa esse banheiro.
- Podexar.
Certíssimo e agora?
- Pat, vem cá.
- Que foi, Mau?
Ele olha pra ela, ela olha pra ele.
- Fala, pitomba!
- Tá, seguinte. Vou sair pra jantar hoje com essa menina. Ela é bonita, inteligente...
- ... Se vai sair com você, já sei que não é.
- Pô, sério, sem onda.
- O que você quer saber?
- Sei lá, Pat, tô inseguro.
- Sério? Você? Tem espaço pra isso tudo na caixa de ossos?
- Olha, não quer me ajudar, beleza, mas não sacaneia.
- Tá, o que você quer saber?
- Bem, além do que eu disse, ela é advogada e vamos jantar num restaurante.
- Não fale mal de advogados.
- Claro.
- Mau, to falando sério.
- Pô, eu sei, Pat! Quando falei mal de advogados.
Ela começa a mostrar os dedos, como que contando.
- Tá bom, tá bom. Não falar mal de advogados.
- Não seja pedante.
- EU?
- Mau, preciso te lembrar.
- Tá bom, tá bom.
- Sério, você se acha, irmãozinho. E consegue ser um saco, muitas vezes.
- Okay. E que mais?
- Ha, sei lá... Esse teu cabelo de playmobil a gente não tem como consertar. Vai vestido como?
- Calça jeans, camisa de malha, acho. Como me visto sempre.
- Humm... Tenho certeza que ela não vai gostar.
- Porquê?
- Olha, ela deve viver cercada de um monte de homem bonitão, cheiroso, de terno e gravata, que parecem prontos para ganhar um oscar. Taí, realmente não vejo um bom motivo para ela sair contigo.
- Você é perfídia.
- Pedante.
- Tá bom, tá bom. Mas eu não vou mesmo com outra roupa, tá? Eu prefiro que a pessoa me veja como sou.
- Tudo bem. Já acho um pecado ela se dar ao trabalho de te ver mesmo.
- Você é meu perfeito super ego, viu?
- Alguém tinha de ser, não é, mister Id?
Ela pisca o olho e sai. Ele fecha a porta e faz a barba. Nada exagerado, uma aparadinha. Se olha no espelho, alisa a barba e fala em voz alta, "My precious". veste a calça, escolhe uma sem remendos. Pega uma camisa qualquer, sem marca, sem dizeres, veste. Se olha de novo no espelho. Pensa em desistir. "Podia inventar uma história, sei lá, meio heroica, mas crível. Uma velhinha tropeçou num paralelepípedo, saltei do ônibus para ajudar ela, a polícia achou que eu estava tentando assaltar ela, quase me prende, e nesse pandemônio, depois de quase levar paulada, não pude ir, podia até emendar, né? Fiquei preso a noite, naquela gaiola sem poleiro", pensa ele, suando, com o celular na mão, e verificando, sem prestar muita atenção, nas mensagens.
"Não vou amarelar, sabe, mas vou de táxi", ele diz, pegando o elevador. Conta o dinheiro na carteira, tenta, em um cálculo rápido, fazer as conta do mês. Acha que está dentro do orçamento o gasto de hoje (nota do autor: Nope, tá não).
Sua rua não é movimentada, mas anda até uma avenida. Dá com as mão duas vezes, mas nenhum carro para. Começa a fica ansioso. E é fisgado pela lua. Está imensa. O táxi para na sua frente. Espera.
- É um plenilúnio.
Ele olha assustado, percebe que o taxista se esticou para lhe dizer isso e entra no carro.
- Desculpe, fiquei distraído.
- Não tem problema, rapaz, já fiquei assim antes. Não é todo dia que você vê isso. A lua encanta, sabe? Bem, deve saber. Vai pra onde?
- É pra perto, o senhor pega a Avenida de Ontem, dobra na Rua da Língua e pega a rua do antigo bondinho. Vou pro Chatô.
- Restaurante chique, né?
- Não, na verdade não. Mas a comida é boa, o local é...
- Entendi, entendi. Você é um desses sujeitos promíscuos, né?
- Como?
- Não me entenda não, também tive minha época. Pegava todas. Como motorista de táxi, ainda dou um jeito de pegar muitas. Vida boa, né?
- É, eu suponho.
- Eu até escrevi minhas desventuras em um livro, rapaz. Abra aí o porta luvas.
Abre, e é assaltado por uma enxurrada de livros finos, um punhado deles desliza pelas suas pernas e cai no chão do táxi.
- Mas rapaz, olha o que você fez!
- Desculpe, desculpe.
- Ainda tem aquele ali. Isso. Obrigado. Bem, rapaz, em suas mãos está minha obra prima. O Pirilampo Perdulário!
- Nome muito... Peculiar.
- Peculiaríssimo. Ríssimo!
- Do que se trata? A capa é meio estranha, borrada.
- É, foi uma foto erótica que fiz. É um romance erótico, rapaz. Um livro... Pernicioso.
- Legal.
- Não vai levar um?
- Não, não. Eu só tenho mesmo dinheiro pro jantar e para a corrida.
- Pena. Mas leve um assim mesmo. Cortesia pelo papo agradável. Não é todo dia que acho alguém tão interessante para conversar, passar o tempo, sabe? Nós somos muito solitários.
- Taxistas?
- Escritores.
- Sim, sim, claro. Olha, é aqui.
- O valor está no taxímetro.
- Sim, aqui, ó. Tudo trocadinho.
- Obrigado e... Vá fundo!
Mauro não consegue achar a melhor palavra para descrever a piscadela do homem, preferindo simplesmente esquecer que a viu.
Ele chegou cedo. O restaurante tinha um ar de certa parcimônia, minimalista até. Procurou por uma mesa no canto, de costas para a janela.
Ele sabia que ela logo ia chegar, mas tentava ficar em paz por algum momento, tentando não suar.
Ele odeia essa passividade...
Ele, ele, ele, ele. Um trapézio. "Talvez, se pensar mais nela, e menos em mim, quem sabe...", mas é interrompido. É o celular.
O SMS é curto: Estou chegando.
Ele não sabe se corre ou se fica. Ainda dá tempo. Como era mesmo a história da velhinha?
E ele vê o carro dela.
E os óculos dela.
Ele não sabe de onde veio a fixação, um resquício de mente primitiva e sapiosexual que nos impulsionou para uma evolução na escolha por parceiros e parceiras mais inteligentes?
No fundo de sua mente, sua irmã racha de rir.
Ela vem chegando perto.
Já pode sentir seu perfume.
- Olá.
- Olá.
E a coisa menos estranha da noite, começa a acontecer.


August 04, 2013

N


Ela me pediu em namoro. Foi uma coisa meio... Desmasculinizante. Essa palavra existe? Bem, FIAT PALAVRUX, ou algo assim. Agora foi. E enfim, sabe do que mais? Gostei. Eu nunca ia tomar a iniciativa. Burned fingers and all that, right?
Ela me chamou para sair hoje. Mas como neandertal, vou ficar por aqui, pintando nas paredes da casa. O meu rupestre pós-moderno, com animais que brotam da rocha. Seguir o conselho de Duda: Se há vontade de arte ou sexo, esqueça o resto e se ponha a trabalhar com finco  (tinha um ar aqui, né? Cadê Ana quando preciso dela para revisar meus pensamentos?).
O dia lindo e eu aqui, praticando o assassínio de litros de cerveja e de indefesas azeitonas. Espere, pausa.
Talvez eu devesse jogar uma azeitona no vaso, fotografar. Uma ode transfigurada do desperdício da ebriedade. A urina é o princípio da sobriedade.
Volto a minha parede, aos meus pasteis. Lembro de Naboo enquanto pinto. Aquela cidade chupada de Gondor. Ou é o inverso? É um horror de fractais em que tudo significada nada e nada faz sempre muito sentido.
Niiiiii! Niiii!
Os cavaleiros gritam as minhas costas. Isso é tão nostálgico. Eu era um grande nerd. Agora sou apenas um nerd grande. E porque diabos ela quer namorar comigo?
Pouso o pincel um momento. Respiro no narguilé. Nada narcótico. Nada que me desequilibre. Só vodka. Respiro vodka, bebo cerveja. Melhor dieta ever. Quem nunca? Okay, okay... Eu sei que ela nunca.  
O celular toca. Deve ser minha mãe. Olho o celular com desconfiança. Um produto noiado dessa era, um neurótico nonsense. Já disse pra mama: never ligue pra mim domingo de manhã. Eu adoro trabalhar domingo de manhã. Pelo menos quando não estou ressacado. Trabalhar com ressaca? Nunca.
Cansei de Monty Python. O que está rolando no Superplayer.fm? Vamos lá... "Para acordar". Caixas no máximo, pq vizinho que escuta brega não é de Deus e eu sei que eles querem nana e estão de ressaca. Ha!
Diabos, essa música?
I'm up all night to get lucky
We're up all night 'til the sun
So... DAFT!
Devia escutar algo dos anos 80. Sabe? Quando eu ainda não parecia um navio russo da guerra fria, ainda em uso. E ela me pediu em namoro.
Peraí, que essa ninfa ta troncha. Vamos lá, mais folhas. Um crisântemo, um nenúfar. Isso. Uma parede florida. Mas eu quero mar também. Me enxaguar. Noelia grudava em mim nisso, no meu senso de culpa interminável, na minha timidez incomensurável. Que dia crônico. Tome mais Netuno. Com ou sem tridente? Como pinto o moço? Com ou sem pinto? Bem, é minha parede. basta meu pinto por aqui.
Ei, é isso! Não, não, pinto não. Núpcias! Essa indistinta barreira que se mescla, o verde e o azul, Netuno e a Ninfa. Diabos, essa parede vai ficar bonita.
Bonita é a boca dela. Foco. Foco. Vai dizer que não sabe mais namorar? Err... Acho que não. Essa coisa com Camila me entortou um pouco. Peraí, vou ouvir Tribalistas. Tem uma letra tão Dandy Warhols, não sou de ninguém, bababá. Mas sou muito old fashion. Monogamicus Sapiens, a seu dispor.
E relaxo. É sempre bom, quando nesse ponto, se chega, sabe? Os músculos relaxam, o pincel desliza mais fácil na parede. As cores ficam mais difusas e me permite experimentar mais.
Já fui tão experimentado. Nunca sofri com críticas, mas a constante mudança de freguesia, que muitos homens louvam, me entristece um pouco. Vai ver é que meus temas são tão gregos. Ainda não expurguei de mim um ideal romântico.
Falando em expurgo, tenho de maneirar na naftalina. E esse cheiro misturado com a vodka, dá um barato, viu?
Come on now sugar
Bring it on bring it on yeah
Os hipster é que estão certos. O mundo acabou, só restam eles contra os zumbis. Se bem que, dependendo deles, procriar que é bom, nada, né?
To muito emo, cadê o coldplay?
Juro, escuto, mas não sou gay.
Ei! Yellow! Esses caras são uns gênios mesmo. Muito verde, muito azul, precisava deixar quebrar mais mesmo. Ela está loira. Pense em mulheres que sempre me deram trabalho, essas loiras. Mais do que as ruiva, admito. E torce pelo náutico. É muito nhandu pra pouca mosca.
Não sinto mais meus dedos. Ummm, campainha.
- Ooolá?
- Guto?
- Oi?
- Guto, é você, tá me ouvindo?
- Amélia?
- É, eu, Amélia. Posso subir?
...
- Guto?
- Pode, pode! Claro que pode! Venha!
Okay, sem pânico. Sala, sala. Recolher garrafas, jogar roupas sujas na sexta. Banheiro? Tem papel?
Rápido! Garrafas demais aqui.
Noc Noc.
Holy fuck jesus in a donkey!
- Um minuto!
Visto a camisa ou não visto a camisa? Camisa, camisa, relaxe. 4, 5,7. 7? Que é isso? Não pense, RESPIRE.
- Oi, Amélia! Que surpresa.
- É, eu sou assim. tava passando por aqui e resolvi passar por aqui.
Me sinto como um navio a deriva. E a tempestade loira entra sim, me invade.
Definitivamente, desmasculinizante. Mas, sendo sério comigo mesmo, depois de tudo, eu saberia como chegar nela?
- Que coisa linda!
Claro, ela está falando do mural.
- O que é?
- Eu não sei bem, pra ser sincero.
- Tem mais?
- Humm... Tem, ainda estou terminando.
- Não. Cerveja.
E ela pisca. Em outros tempos, outros mundos (Valeu, Silverberg!), eu teria beijado ela ali, na agora, na lata, sem átmos entre nós, só o abraço, o correr dos dedos, o toque dos lábios, um agarrar firme.
Mas estou tremendo, parecendo quando namorei com Cláudia. She was awesome, btw.
- Sim, sim. Cerveja, vodka. Licor também.
- Domingo. Prefiro cerveja. Posso pegar?
- Claro, a geladeira é ali.
Minha cozinha está um CAOS. Sério. Éris foi quem fez a faxina.
E ela gira nos calcanhares, Bud em punho.
- Você abre?
- Claro.
Ela bebe um pouco. A cerveja é um glitter. Não consigo tirar os olhos dos lábios mais perfeitos que já vi.
Sim, "mais perfeitos". Ela quebrou meus padrões. Pode isso, Arnaldo?
Ela chega mais perto. Meu coração, só tum tum tum.
- E aí, pensou a respeito?
Sabe? É nesses momentos em que se separa os homens dos meninos. Ou pelo menos é o que me digo para me redimir. E aí me visto de Noturno e respondo bem Vin Diesel:
- Não. Mas me dá um beijo assim mesmo.
Enfim, domingo legal.




July 27, 2013

H


- Você vai mesmo dar o vinho pro cavalo?
- Por quê não? Até a égua da sua mãe já invadiu minha adega, não foi?
- Que homem estúpido. Quer me lembrar por que casei com você?
- Sou rico?
- Meio rico, não?
- Hilária. O que veio fazer no meu haras, Priscila?
- Negociar?
- Como assim, Priscila?
- Eu quero Hera.
- Fora de questão.
- Eu lhe devolvo tudo.
- Tudo?
- Tudo.
Os dois entram no estábulo. Os cavalos respondem ao nervosismo de ambos com alguma agitação. Ela odeia o cheiro. Ele também. Hermes não entrava ali desde a separação, sequer aguenta olhar para os cavalos, especialmente, Hera.
- Então, Hermes? Eu só quero o cavalo. Ele é hediondo, nunca soube por que você o manteve.
Hera é hermafrodita e isso sempre enojou Priscila, mas não Isabela. Ela sempre citava a égua como motivo para fazer biologia. Ele tenta segurar as lagrimas, mas não consegue. Mantém o rosto em um ângulo longe do olhar de Priscila. Pigarreira.
- Isabela a amava. Não é razão suficiente?
- Como? Você está falando sério?
- Sim, estou.
Ele funga e leva um lenço ao rosto, apagando as lágrimas. Se vira para a ela, desafiando a raiva que, conhecendo-a por mais de 20 anos, sabe que irá aflorar.
- Você não vale nada, Hermes. É isso, não? Uma piada? Uma vingança?
- Não fique histérica. Cansei de você.
- Não antes de que eu tenha cansado de você, meu amor! NUNCA BOTEI UM PAR DE CORNOS TÃO BEM BOTADOS!
- Fina, Priscila, MUITO FINA! Eu ainda grito mais alto aqui e não tenho mais de aturar sua maldita voz.
Ela respira fundo, tentando se controlar. Mal o reconhece. tanto ódio, tanto ódio e queria perdoá-lo mas... Não, não consegue. Será que ele bateria nela? Teria coragem? Não. Depois do que ela fez ele ainda não fez nada com ela. Porquê não? Isso a fazia odiá-lo tanto, tanto...
- Está bem, Hermes. Que ódio tenho de você, viu?
- Estamos quites então.
- Olha, vamos sair daqui, está bem. Ei!
- Não, não por ali, você vem comigo.
- Não vou por aí, Hermes, pare!
Ele abre a porta que dá para um dos circuitos de treino do haras. Ela vê o canteiro de hortênsias. Não parece que o fim da vida de sua filha começou ali. Hera pariu a morte de sua menina.
- O que você quer provar, seu idiota?
- Nada. Só quero andar aqui com você. Você quer algo de mim, certo? Então faça por onde.
Eles caminham pelo circuito. Ambos estavam vendo a menina, quase uma mulher, cavalgando. Mas o salto foi imperfeito. Priscila passou horas olhando aquele salto. Ela lembrava de cada detalhe, de cada movimento do cabelo da filha, de casa flexão do músculo do animal. Ela acordava, as vezes, ouvindo o relinchar.
- Tão homem agora. Mas foi tão covarde.
- As pessoas lidam com a dor de forma diferente, Priscila.
- Pessoas, talvez. Que bosta de pai você foi, Hermes.
- Bosta de pai? EU DEI TUDO, TUDO que ela queria! Vai ficar me cobrando por dias em que não visitar a menina em coma? Ela nem saberia que eu estaria ali!
- Como você sabe? COMO? Covarde. Sempre foi. Eu devia saber disso.
- Devia mesmo, tirei você da sarjeta, Priscila. Te livrei de um namorado que te espancava. Fui mesmo um belo de um covarde.
Dois empregados do haras olham os dois, mas mudam de direção instantaneamente. Os gritos eram parte do cenário enquanto eram ainda casados e ninguém gostaria de estar no meio do fogo cruzado. Nunca houve vítimas, mas ninguém se arriscava. Todos sentiam falta da menina. Ela vivia ali, sempre que podia, Isabela visitava o haras.
- É, foi um GRANDE HOMEM, né, Hermes? Um GRANDE HOMEM! Lembra quando ela foi pra casa? Quando ela voltou do hospital?
- Eu ESTAVA LÁ!
- Sim, estava... Sempre via um motivo para esticar no trabalho, sequer olhava para a menina. Eu ficava o tempo todo...
- ... E ainda teve tempo de dar para metade da cidade, não?
- Você vivia bêbado e drogado! Aliás, como anda a merda de seu nariz?
- O que tem ele? Não fui eu que corri para pegar herpes, Priscila.
Ela joga a mão contra seu rosto. O tapa bate no queixo, sem jeito. Ele a olha com ódio. Vira as costas e começa a andar.
- Hermes, pare. Desculpe. Me perdoa.
- Não é o que tenho feito sempre? Você não entende, não é?
- Não, não entendo. Juro que tentei, mas não entendo.
- Eu amava Isabela, Priscila. Bota nessa merda de sua cabeça, eu não matei nossa filha.
- Eu sei, Hermes, eu sei...
Ela busca a bomba de ar. Sabe que não tem asma, todos os médicos já disseram a ela. Ela tem hipocondria. Desde a morte da filha, se vê morrendo. Ele segura sua mão. Tem pena dela. Tem pena do quanto ela envelheceu. Todos morremos quando Isabela caiu. Cada qual de um jeito.
Ele sabia disso.
- Me solta.
- Claro. Mas pare com isso. Deve ser hereditário, mas pare de imitar sua mãe.
- O que ela tem haver com isso?
- Tudo, não? Não é só a ela que você escuta?
- Ela esteve mais presente que você.
Ele sabe que é verdade. Ele não viu a filha nos últimos dias de vida. Bêbado, drogado, mal sabia onde estava. Atendeu o celular com vômito na boca, no dia em que ela morreu. A voz odiosa da sogra, anunciando a morte de seu sonho.
- Sabe... Fique com a égua.
- Eu transfiro seus bens de volta, amanhã mesmo, Hermes.
- Não. Hoje. Hoje é o último dia que nós nos falamos, Priscila. Tudo precisa ter um fim. Não quero nada de volta. E não quero mais ver você. Pegue a égua e vá embora. Pode pegar um das caminhonetes com trailer. Só, por favor, vá embora.
Ele dá as costas novamente e vai para a casa. Não quer mais saber de nada disso. Não aguenta mais. Não aguenta. Chega na casa, vai tomar um banho. Logo, sai do banheiro e deita no escuro.
Não demora, lá fora, ouve o tiro. Um relinchar. Mais um tiro. E exceto pelos gritos dos empregados, tudo está calmo, em silêncio. Vazio.

July 25, 2013

F


A receita era simples. E sabendo disso, adicionou, como na dose recomendada, o fermento. A receita era simples pois suas mãe mal sabia fritar ovos. Fato. Ele precisava do bolo logo e resolveu adiantar o tempo e logo abriu novamente a porta do forno. Lá estava o bolo. Fatiado. Como fazer um bolo já sair fatiado? Segredo. Algo que só ele e as focas sabiam. Tinham lhe contato com telex anteontem, alguns anos atrás.
- Oi, tudo bem?
- Tudo, e você?
- Conversa vai.
- Conversa vem.
- Qual tua idade?
- Eu?
- É, menino, qual tua idade?
- 40.
- Sério?
- Sério.
- Não dava mais de 30.
- Photoshop.
E aí eu como a flor que estava na cabeça dela e vejo raios vermelhos talhados no seu, filigranas de um crepúsculo de ontem.
- E então, doutor, é grave?
- Não sei, estou em greve.
FIAT LUX!
Porra, fiquei cego. Fodeo.
É "fudeu", burro.
E eu que sei? Como você sabe disse? Quem disse fudeo/u da primeira vez, escreveu também?
É um fogueira. Odeio São João. Fumaça, sabe? Que fresco. Sério? Sério. Tá muito meta isso aqui. E eu não sei?
- Mulher é um bicho burro da porra, né?
- É, mas só se você não comparar aos homens. Humanos estão todos no fundo do poço.
Falando em fábula, lembrei daquele piada que tinha numa tragédia. Mas já esqueci.
- Muito mais do mesmo.
- Legião?
- Não... Ha, não vou explicar.
E sobre o flagelo? Gelo? Sabe que está fodido, né? Não faz isso, me dá fornicoques!
- Eu já ia dizer fodeu.
- E não?
- O quê?
- Fudeu.
- Eu ia dizer isso.
- Volta o tempo e diz de novo.
- Fudeu.
Isso é um fiasco, eu tinha dito a vocês desde o começo! Mas não me disse nada! Tem como desligar ele? Só depois de comer meu bolo de faisão!
Eu resolvi flanquer as forças da frança, mas a IA entendeu bem o que eu estava fazendo e me encontrou logo antes de Paris. Vive Le Vichy France! Aí eu carreguei outro save e ganhei dos klingons.
[barulho de foca]
[barulho de foca]
O facínora escolheu, entre todas as horas, a meia-inteira. pagou então a meia entrada e furançando-se na fila, fuzilou todos. Estava feliz.
O que você fez? O que você fez? Não. Você. Fez. Sim. Você. Fez.
A cabeça gira em volta do falo, ouvindo o fado falado pelo fanho. Flameja, tudo, fogareia fulgurantemente.
O pinguim fuma o cabelo enquanto mastiga o tubarão.
- Sabe...
Diz o pinguim.
- ...Sabe?
E ele chama os mosquitos. Eles me picam todo e não posso matar nenhum, pois eles ajudam a fertilizar as plantas, faço parte de sua cadeia alimentar e não posso agredir seu habitat. Fico fraco.
Os búzios caem famintos e comem as cartas dos dados do zodíaco da palma da mão do cigano que lia chá.
- Já foi fábula.
E a foca frita.
Que houve com o flagelo? Farfalhante, fiu fiu! Onde está Fernanda? FÍGARO FÍGARO FIIIIIIIIGAROOOO!
Minha irmã dirige o carro por ruas fechadas. O carro balança muito. Ainda visto as roupas amarelas e o símbolo de perigo biológico me faz sentir sujo. Finjo que está tudo bem. Que não toquei no material. Mas ela chora, fungando.
- Eu não morri ainda, Fernanda.
- Cala a boca. Eles estão em você, Fábio.
Fazendo? Fogo. Sem cigarro, fuma o dedo mesmo. Assim, ó. Fuuuuu.... Que gostoso, que libido. Esse rei gosta mesmo é de cassetete, viu a esposa dele com um preso no quadril?
- Um preso no quadril?
- É.
O fantasma desceu da viatura. Faminto, fazia ronda. Com toda franqueza, achou ela gostosa. Fernanda fugiu. Fiquei, com o coração falhando, a mente febril e apertei o enredo, que levava pelo fio, um grande, enorme frio.
O flagelo, Fábio, pra onde ela foi com ele? F é a sexta letra, guiará por passagens tranquilas, refrigerante-a minha alma com coca. Ele não vai responder, ele ativou uma rotina que continuamente hackeia seus padrões de memória e cognição. Fim do Finado Franzino, que se Faça logo, Feito Homem, Porra, vamos a forra!
O fogo e ferro falavam em agulhas pontiagudas no pescoço peludo. Ela falavam de sonhos frenéticos, um fremir de foles feios, foliões finos, em um mundo fidedigno ao seu começo, selvagem e morto.
Nada tem sentido. Mais do mesmo. Fernanda, eu te amo. Foge. Vira Felino.
É inútil, mate-o.
Forte, faço de conta que não é o
BAM.
Fim.

July 19, 2013

A


Ele levanta aos trancos. Na sala, olha para a mesa, abarrotada de remédios. Pega algo para dor, pega algo pra falta de ar, pega algo pra falta de amor. Ele ainda está desligado. Volta ao quarto, vai ao banheiro, urina e se atrapalha, percebendo que ainda tem os remédios em uma das mãos e os toma com água da torneira, enquanto com a outra mão, balança. Entra no chuveiro e toma um banho gelado, a água fere suas costas, pintadas de arranhões desde a noite passada.

Ainda abestado, abraça a parede e cambaleia para a cama. Estressado, cansado, confuso.
Aaaaaaaaaaaalelekleklekleklekleklek!
Aaaaaaaaaaaalelekleklekleklekleklek!
Aaaaaaaaaaaalelekleklekleklekleklek!
O alarme irrita, afugenta o resto do sono. Se veste ainda molhado e sai da casa, pegando mais remédios, tomando dois, sem saber bem o que são, assim, a seco. Ele está arrombado mesmo.
Aaaaaaaaaaaalelekleklekleklekleklek!
Aaaaaaaaaaaalelekleklekleklekleklek!
Ele desiste, fica online.

- Acordou, garanhão?
- Oi Adriana, tudo bem?
- Não. Liga essa porra direito. Precisamos de você em Aflitos.
- Tá bom.
- Tomou seu remédio?
Ele acha que sim.
- Claro, tomei. E você, tá medicada?
- Hilário. E não desliga isso de novo.

Ele veste a farda, pega o escudo e carrega as luvas no bolso da jaqueta. Os vizinhos olham com raiva, mas não falam nada. Uma ausência de respeito, um abundância de ódio. "Não pago essa merda como todos eles?", pensa, tomando mais cápsulas para a falta de amor. Desce pelo elevador, ainda contrariado, mas já passando. Para em dois andares antes de chegar ao estacionamento. A porta abre, mas as pessoas esperam, sem entrar. Apenas o olham com desgosto. No estacionamento, a moto começa a ligar quando ele se aproxima, a rota é planejada em um instante.

O trânsito está bom e ele corta caminho pelas calçadas, evitando atropelar algum vendedor. A rota muda, encrenca mais a frente. Ele não liga, insiste no trajeto. Dizem que é mal agouro, mas configura o azimute manualmente. Dois minutos depois, bota a moto por cima de manifestante.
- Aloka!
Ele olha para a direção do grito e vai em meio ao grupo.
- Assumção, volte!
- Adriana, aqui tá uma zona só, só anarquia!
- Aí ainda não está ruim. Temos guardas pra isso, mas estão invadindo a casa do prefeito. Quero você lá! Anda, porra!
Ele olha para os manifestantes em frente ao Clube Náutico e recolhe as luvas. Alguns começam a gritar, jogar pedras. Elas batem na barreira envolta dele e caem no chão, sem efeito. Mais gritos, urros. Monta na moto e segue em frente.

- Porra, que você tava fazendo, Assumção?
- Estou entendiado, porra. Tá boa a resposta pra você.
- Ei, tá parando de novo porquê?
- Água. Quero beber água. Posso?
Ele desce da moto em um posto. Abastece só, tira a máquina da mão de um atendente, paga. Ninguém fala com ele. Pega uma garrafa de água, bebe. O campo magnético da barreira deixa ele com sede. Ele aproveita e toma mais um remédio. Alergia, asma, amor. Uma baile de pílulas furta-cor. Ninguém no posto lhe dirige palavra, apenas aguardam que ele vá para voltarem a seus afazeres.

Em frente a casa do prefeito, ele chega tal qual cavaleiro. O prefeito brada um sermão, fala em Deus, chama os manifestantes de abominações. Ele já conhece o discurso. Branco, vestido de negro e amarelo, ele chegou pro apocalipse. Veste as luvas e começa a trabalhar. Os manifestantes correm, mas os outros policiais bloqueiam sua passagem, jogam gás, hackeiam sua AR causando confusão, batem e encurralam com canhões de som. As trombetas. Ele escorrega mais uma pílula para a boca e cai no pau.

Quinze minutos depois, monta na moto de novo. Os braços doem e escorrega um pouco no assento. Tem de limpar o sangue. Corre para casa, dessa vez, pela rua. A moto dispara como um azougue, um jato de prata no mar estacionado. Escuta Aperture no rádio, que afoga Adriana. Só volta a escutá-la quando para.
- ... e lhe congratulou pela ação de hoje.
- Bom. Olha, acho que algo passou pelo escudo, tem como mandar uma unidade?
- Hoje não. Amanhã eu mesma passo aí, viu garanhão? Tá bom assim?
- Tudo bem. Ainda vai precisar de mim?
- Tão amável. Você está bem, tigre?
Ele fica offline.

Desce da moto e pega uma mangueira. O zelador olha com raiva. "Só fiz meu trabalho", ele pensa. Lava a moto, se deixa molhar também, retirando a maior parte do sangue. Entra no apartamento e verifica duas vezes a fechadura e cadeados. Pensa nos olhos ametista da menina, no seu punho que lhe parte os dentes, quebra a face. Tira a roupa enquanto vai ao chuveiro, deixando as peças pela casa. Na água fria, se esfrega com força, e com raiva, rasga as próprias costas com gosto.