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May 01, 2016
Temos de acreditar (primeira parte)
Patrícia colocou o resto das coisas em sua bolsa. Era uma bolsa quase do tamanho dela, que foi do seu pai, na época em que ele serviu ao exército. Não havia selecionado nada de importante. Nada que fizesse falta a sua família. Alguns pães, um pedaço de queijo, bolachas, biscoitos, uma maçã. Havia também uma faca, gardanapos, mudas de roupa... Ela estava longe de estar preparada. Quaisquer viagens em que o que ficou para trás são pontes partidas, são sempre as mais longas de sua vida. E ela amava sua família. Mas não amava apenas ela.
Pietro estava ferido. Menos que o homem a seus pés. Ele sangrava e sussurava algo. Fora Pietro quem o matou e sabia bem disso. Não sentia que tivesse outra escolha. Soube que estava sendo seguido já por alguns quarteirões antes dali, e percebeu que teria de emboscar o homem.
- Comunista!
Era essa palavra que escapava da boca do morto, com o pouco de ar que conseguia raptar do pulmão perfurado.
Pietro não sabia o que a palavra queria dizer, mas se agachou junto ao homem e, num gesto de misericórdia, lhe ceifou o resto de vida com um beijo.
Juntou suas coisas e pegou a arma que o homem portava, correndo para o local de encontro que havia sido marcado dias atrás. Ele precisava sair da cidade antes da primeira luz do dia: os professores iriam soar o alarme se soubessem que não estava no alojamento e, se o que lhe falaram era verdade, a cidade inteira estaria em alerta.
Alcione fecha a porta atrás de si. A fumaça atinge seu rosto com o cheiro de lar. Sentia saudades. A música ainda não chega a essa parte do túnel, exceto por um tênue sussuro. Alcione navega na escuridão coberta de carne em que as pessoas disputam espaço com os escombros e com o mangue que invadiu o lugar. Mais fumaça e agora música. A escuridão só se desfacela pelo brilho das pulseiras e brincos que dão as pessoas que entram. Vermelho, laranja, amarelo verde, azul e púrpura, dardejam por entre as opressivas trevas. As bandas tocam no escuro, só elas com permissão de usar óculos de baixa-luminosidade. Alcione quase tropeça em dois corpos que se devoram no meio do salão, ávidos por um amor verdadeiro e descartável.
A gaiola de faraday se engancha em um arbusto e Patrícia sente o puxão doloroso na orelha e que segue, agudo, por dentro de sua pele, até a base do pescoço. Ela pega o celular, também envolto em uma rede de metal, e usa ele como espelho para desenlaçar a rede que enrolou em volta de seu brinco. Seu impulso é de tirar tudo ali mesmo, mas sabe que precisa de ajuda e que poderia morrer, ali, sozinha, no meio de uma mata de espinhos, em terra improdutiva. Está longe de ser o destino que deseja para si. Enquanto prossegue se libertando, escuta as gravações que fez nas noites anteriores, justamente para esses momentos de raiva e dúvida, esperando se acalmar ao som de sua voz. A sua própria voz lhe lembrando que ela não está sozinha.
O cheiro que lhe apertava o tronco era novo. Ele pensava assim: nada além de um doce perfume. Apanharam Pietro na hora marcada, mas não haviam imaginado que ele estivesse machucado. Rasgaram sua camisa, que já havia sido arruinada pela faca do inspetor escolar, e fizeram um torniquete em seu braço. Ela o fez, o aroma doce. O carro seguia no escuro. Um modelo automático e incapaz de saber o que carregava. Havia sido enganado e levava justamente aquilo que devia caçar: jovens que queriam apenas se divertir.
- Você é uma rosa?
Perguntou grogue ao aroma.
- Não somos todas?
E o aroma lhe beijou a face e se aconchegou junto dele, enquanto seguiam pelo escuro.
O hino brasileiro começou a soar lá fora, as pessoas se levantam, assustadas. Mas é só o toque de amanhecer. Não são muitos os que ainda estão lá. Restos de festa entre uma ruína da cidade, cansados demais de tanta felicidade. Os que conseguem, ajudam os que ainda estão dormindo a se levantarem para saírem para seus locais de transporte para o trabalho. Alcione fica para trás. Não há lugar na luz que lhe deseje bem, não aí, não na cidade patrulhada. Sai com os últimos membros da festa, por entre as plantas do denso manguezal para a barca que vai levar eles para fora da cidade. E sem perder tempo, ainda no barco, alguém lhe empurra um console e Alcione começa a semana de trabalho com pé-direito, esmagando com a sola de sapato os sensores logo após se guardar os seus registros, preparando as pessoas que sofreram cirurgias nessa noite, para que possam também ser livre no futuro.
Encontram Patrícia no início da manhã. Eles sorriem e se abraçam. Ela não conhece nenhum dos seus irmãos e irmãs e isso não importa. Ela conhece seus corações. Não é a primeira vez que monta em um cavalo e oferece uma maçã ao animal que se mostra dócil. Eles cavalgam por algumas horas e chegam a um acampamento camuflado. Lhe convidam para comer e lhe dão uma lista de tarefas para que ela escolha o que quer fazer. Todos a acolhem bem e ela descansa boa parte do dia. No começo da noite, soltam balões com pequenos aparelhos amarrados a eles. Ela conta quase cem deles.
O instinto de Pietro é pular da cama e correr para o chuveiro, evitando se atrasar para a aula. A dor da vara batendo em suas mãos e em suas costas, parece ter inscrito o impulso em seu córtex. Mas ao se mover, sente a dor e ouve o seu próprio grunhido.
- Calma, campeã! Vamos com calma.
O sorriso lhe recepciona do outro lado da cama. Pietro relaxa.
- Tome, beba isso e tome esses comprimidos.
Ele obedece. Ele foi treinado a vida toda para obedecer, essa parte é fácil. Difícil foi ter feito o que fez ontem. Mas não pode se permitir a duvidar de si quando não há dúvida sobre quem é. Ele sabe o que precisava fazer, apenas lamenta pelo homem que matou.
- Estou seguro aqui?
- Está sim, Pietro.
- Demora?
- O que lhe disseram?
- Que a primeira cirurgia é rápida.
- Você está anestesiado. Coloque a mão, com cuidado, no lado esquerdo da sua cabeça.
Não estava lá. Haviam mesmo tirado o sensor. Pietro sorriu, aliviado.
- O que vocês fazem com ele?
- Depende.
Disse o mesmo aroma da noite anterior. Ela ajusta o curativo do seu braço e continua:
- Aqui, nada. Mas mandamos para o interior, em que eles são levados por balões. O único efeito prático é confudir as máquinas do regime, mas... É de certa forma, engraçado.
Ela sorri e ele também.
- E as outras? Quero dizer, as outras cirurgias?
- Demoram um pouco mais e você tem de passar por outro processos. Mas vai dar tudo certo, lhe prometo. Já escolheu um nome?
- Obrigado. E sim, é Débora.
A arma estava carregada e Patrícia sentia um enorme desconforto ao segurar ela assim, apoiada em seu ombro. Ela nunca havia atirado antes em sua vida, mas foi a tarefa que escolheu.
Os balões haviam partido algumas horas atrás. Da direção para onde foram, vieram drones. Eles não possuiam armas, apenas câmeras. O regime não usava mais drones armados: no passado, foram usados contra os próprios soldados, seguidas vezes, até que se mostraram uma arma mais eficaz nas mãos dos inimigos. Os disparos de morteiros não demoraram, mas Patrícia e os outros já haviam montado nos cavalos e, na escuridão, cavalgavam para o embate. Os drones foram hackeados logo após as primeiras explosões e usado como observadores avançados para armas como essa usada por Patrícia: teleguiando o míssil em direção aos soldados. Não houve explosão precedendo o avanço da força irregular de cavalaria. Diferente dos morteiros, pulsos-eletromagnéticos, purpurina, gases não letais e New Order, atingiram o grupo a frente.
- Tell me, how do I feel! Tell me now, How do I feel!
Gritavam as bombas de som em meio aos soldados do regime. Alguns ainda mantiveram a compostura e conseguiram disparar suas armas mesmo sem visibilidade, cobertos por confete e purpurina.
Foi um massacre. Ninguém ficou ferido.
Alcione olhava para os canais de notícias que reproduziam, cada um com suas palavras, as mesmas ideias. O massacre aos inimigos do regime, o louvor aos amigos do regime. A crise energética e ecológica eram largamente ignoradas, ou quando algum desastre que não poderia ser ignorado, ocorria, culpavam gente como Alcione: aqueles que se desligaram do sistema e lutam contra ele. Alcione fazia muito pouco, sabia. Dava liberdade a pessoas que iriam permanecer escravizadas, mas não se atrevia a tomar para si a escolha de outros. Alcione e os outros a sua volta, representavam uma alternativa. A violência e o medo eram as armas do regime. Estas, deviam ser derrotadas com o uso da esperança e do humor. E pensando nisso, Alcione colocou em curso um ataque planejado meses a fio, que alterava em tempo real, as notícias. Não hackearam a Central de Informações, mas substituiram o sinal com outro sobreposto, quase idêntico, modificando apenas elementos pontuais. Mito III, o ditador, teve seu nome substituído por: O Ridículo. Eles esperavam que, por algumas semanas, os sistemas de comunicação fossem interrompidos. Afinal, a interferência tinha um caráter rizomático, e cada caixa de interferência tinha de ser retirada fisicamente - podendo ser também rapidamente substituída. E podia ser que todo o esforço não adiantasse de muito: mas valia a piada.
Débora descobriu que, como ela, todas as garotas que estavam lá também tinham passado pela mesma coisa. Quando a República Democrática Laica do Brasil se tornou o novo nome oficial do país, não demorou muito para que as cirurgias e até a ideia de mudança de sexo, fossem consideradas ilegais.
- Está pensativa hoje, não é?
Eileen nunca estava distante. Ela era responsável por administrar parte do centro cirurgico clandestino. Um de muitos, Débora ouviu dizer. Claro, nem todos envolviam mudança de sexo. Alguns, e esses eram os mais frágeis, eram as clínicas de aborto. Débora, agora trabalhando com a atradução de cartas e documentos do grupo, sabia que haviam também pelo menos algumas maternidades, onde pessoas podiam nascer fora do regime. Ela chorou quando descobriu isso.
- Sim, sempre.
Ela não conseguia se conter e agora sempre sorria quando via Eileen. Aqui foram, não haviam barreiras para seu amor.
- Tudo certo para o próximo carregamento?
- Sim, sim. Acabei de confirmar as datas, horários e coordenadas.
- Você quer ir dessa vez?
- Sim, sim, quero muito, claro!
- Tá. Então temos de ver o maiô que caiba em você.
- Olá.
- Oi.
O nome dele era Estevão. Patrícia tinha nocauteado ele semanas atrás e, assim como os outros que ela tirou de combate, ficou sob sua responsabilidade. Estevão havia escolhido ficar com eles quando lhe foi dada a opção. Não foi o único que ficou, mas era dele de quem Patrícia gostava mais.
- Como você está, Estevão? Tem gostado daqui?
- Tenho, tenho sim. Você sabe disso.
- O que é isso que você está fazendo?
- Com o fuzil?
- Sim, sim, com a arma.
- Estou fazendo algo errado? Achei que você tinha pedido voluntários para transformar os fuzis em ferramentas.
- Não, não. Calma! Só foi uma pergunta. Então, o que você está fazendo?
Patrícia sorri, sentando ao lado de Estevão. O novo acampamento fica ao lado de um açude, dentro de uma propriedade particular. Os batedores recolheram o equipamento dos morcegos semanas atrás e concluíram que o latifúndio é tão grande, que essa parte quase nunca é visitada. ELes informaram ao grupo e levaram os minúsculos radares para colocarem em animais das próximas regiões para onde eles planejavam ir. Patrícia gostava dali, O vento fresco que sibilava por entre as árvores, a forma como a lua batia na água e iluminava o acampamento que utilizava um sistema de superfíces refletoras para iluminar os pontos de trabalho a noite.
Enquanto ela pensava essas coisas, ele produzia sua resposta:
- Estou transformando uma arma, em uma ferramenta.
- Você está transformando algo. Tudo aqui acaba transformado em alguma outra coisa.
- É, eu notei isso.
- Um dia, eu vou sair desse grupo para eu mesma, me transformar.
- Como assim?
- Eu nunca me senti feliz com esse corpo, Estevão. Desde que me entendo por gente.
- Entendo.
Eles ficaram em silêncio por um bom tempo. A arma, desmontada, ficava cada vez mais solitária e fria, enquanto a atenção deles se voltava para o açude e as estrelas.
- Eu posso ir com você?
Patrícia respirou fundo para quebrar o medo, antes de perguntar:
- Você quer mesmo?
- Eu quero estar onde você estiver.
Eles se beijaram pela primeira vez e terminaram, juntos o trabalho daquela noite.
A chuva parecia explodir sobre o prédio. Alcione terminou de montar a rede inibidora e estava indo ajudar o pessoal do som quando ouviu o hino nacional. Balas passaram raspando, poucos centímetros de seu corpo. Todos sabiam: se não fossem mortos, seriam torturados. O regime não era dado a sutilezas, não haveria voz de prisão, ninguém teria advogados. A Lei de Terrorismo garantia ao exército exercer sua força, ignorando qualquer garantia legal. Em efeito, elas não existiam a partir do momento em que alguém se colocasse contra o regime. Alcione, mergulhou na lama e tentava nadar para longe, mas ouviu, da Avenida Boa Viagem, o hino. "Eles acionaram a guarda-costeira!", pensou.
Mudou de estratégia. Se fosse adiante, seria vítima do cerco. Agarrou os braços de Mel e Luka, que tentavam fugir na mesma direção. Houve um pouco de confusão e perceberam para onde ir. Voltaram, sob cobertura da chuva, de volta ao local onde estavam preparando a festa.
Os soldados ainda estavam lá. O local, agora iluminado por holofotes, seria difícil de ser alcançado. Alcione gesticulou em direção a Mel e Luka. Conversaram em Libras, protegendo-se da luz com o uso de escombros de um prédio, parte da decoração local depois dos tsunamis que o governo negou terem ocorrido. Ironicamente, boa parte dos prédios iriam ser destruídos para fazerem prédios ainda maiores, e que, teoricamente, poderiam sobreviver ao avanço do mar...
Combinaram de chamar a atenção deles para partes diferentes do mangue e das ruínas. Os barcos da guarda costeira não tinham como chegar até esse ponto da Domingos Ferreira. Alcione queria fazer duas coisas: pegar seu celular com os dados das pessoas que operaram na última festa, impedindo que fossem capturadas e torturadas, e tentar salvar os integrantes dessa célula de resistência que ainda não tinham sido mortos ainda.
Mergulhou, tateando pela parede da ruína, até achar umas das entradas que usaram para colocar equipamentos. Iriam fazer a em um prédio abandonado e bombearam ar para salas que não eram facilmente acessíveis. Contava com a dificuldade dos agentes do regime em pensarem de maneira não-linear. Eles deviam imaginar que a festa seria ao ar livre, por baixo das lonas que utilizaram para proteger equipamento mais sensível, antes de transportá-lo para dentro do prédio. A célula de Alcione era nômade, carregando tudo consigo.
Ao chegar em um dos salões, viu seu computador. Ainda estava seguro. Podia deletar os dados dos operados que tiveram seus sensores substituídos, mas isso só atrasaria os sistemas de rastreio que mantinham os cidadões sobre vigilância boa parte do tempo. Precisava fugir dali com esses dados. Não ouviu tiros do lado de fora e esperou que Mel e Luka estivessem bem. ELe não sabia se seu plano ia funcionar, mas tinha que tentar enquanto ainda tinha tempo e ligou a música.
- Every time I think of you. I get a shot right through into a bolt of blue
O som fez ribombar o prédio. Alcione esperou terminar a primeira estrofe e eletrificou a enorme malha metálica que cobria a superfície. Iria queimar tudo, duraria poucos segundos, mas esperava que fosse o suficiente.
Ouviu gritos e disparos de armas. Pegou seu computador e indo pelo corredores do prédio, chegou rapidamente ao topo e viu o caos de soldados do chão e lutando sobre os membros da célula que ainda estavam vivos. Mel havia morrido, pode ver, mas cairia de joelhos e rezaria depois. O importante era agir enquanto não chegavam reforços. Seu punho quase quebrou batendo no capacete de um dos soldados que lutava com Luka pela sua arma. Ouviu mais tiros e sabia que a batalha ainda estava perdida.
- Temos de fugir! Vamos!
Luka gritava sob a torrente. Alcione não conseguia se decidir. Uma bala decidiu por si. Em um momento, olhava para a Luka e a lua azul que teimava em surgir por detrás das nuvens negras. No outro segundo, enquando seu corpo caia, viu os braços do soldado, apontando de novo o rifle e disparando. E não viu mais nada.
Débora, Eileen e mais duas companheiras testemunhavam a mesma lua. Estavam alertas: ouviram o hino sendo tocado pela guarda costeira, mas perceberam que os barcos estavam distantes do ponto de encontro. O maiô incomodava Débora um pouco, nunca havia vestido um traje assim, e o mar, furioso, também era uma experiência nova, mas como os outros alunos em sua escola, havia sido obrigada a aprender a nadar e bem. O regime criava antes de tudo, soldados e trabalhadores braçais, e a força física era o atributo masculino mais fomentado nas novas cepas. Débora, por mais assustada que estivesse, sabia que estaria segura se não tentasse nadar em direção ao mar.
- Ainda demoram?
Perguntou Débora, cuidadosa em não beber a água do mar.
- Não. E não acredito que se atrasem por causa do mar. Eles devem ter planejado esse horários de acordo com a previsão do tempo.
Eileen, como sempre, usava vermelho. Ela se apoiava em um trenó aquático e carregava uma bolsa que seria levada pelo nosso contato. Maria e Sara se apoiavam do outro lado da bóia. Sara, dentre elas, era a única que andava armada.
- Olhe! Golfinhos!
Gritou Déborah. As outras sorriram.
- Sim, são nossos contatos.
Disse Eileen, nadando em direção a eles. Os golfinhos pareciam animados e claramente foram modificados, com buracos para plugs em suas cabeças.
Presos a eles haviam caixas pretas que Eileen e as outras carregavam para o trenó, que Débora tentava manter estabilizado junto ao prédio.
- Para onde eles vão agora?
Débora perguntou quando entregaram a bolsa aos golfinhos.
- Acredito que para um submarino.
- E quem manda esses suprimentos?
- Quem não manda? Existem várias ONGs ao redor do mundo que dão apoio ao Brasil e mais especificamente, a grupos como nós.
Ouviram tiros e música, muito, muito alta.
- Isso foi perto daqui, Eileen.
- Eu percebi, Sara, mas o que você sugere? Não podemos arriscar os suprimentos.
- Esperem aqui. Volto logo.
- Não! Não vou deixar você ir sozinha. Débora, fique aqui com o trenó. Vamos, meninas!
As três nadaram em direção aos disparos. Nervosa, Débora esperou ansiosa. Ouviu mais tiros. Queria ir com as outras, mas não tinha como largar o trenó nesse tempo. Ouviu novamente o hino nacional e ficou com medo. O que ela faria se os barcos viessem em sua direção? Não poderia abandonar as outras.
Enfim, ela viu as outras voltando. Mas onde estava Eileen? Elas traziam mais gente, mas não viu Eileen, seu maiô vermelho.
- Eileen! Eileen!
Sara e Maria a olharam com tristeza. Cada uma trazia mais uma pessoa. O hino nacional tocava mais alto, mais próximo.
- Onde está Eileen?! Eileen!
- Pare de gritar!
Gritou de volta maria.
- Pare de gritar, Débora. Me ajuda a colocar esse pessoal amarrado no trenó. Temos de ir.
- Não vou a canto nenhum sem saber onde está Eileen!
- Ela morreu, porra! Morreu! Vamos!
- Não!!
Antes que as outras meninas pudessem fazer algo, Débora nadou na direção de onde vieram.
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August 01, 2013
L
Não há lucidez em seus olhos. Lindaci já está muito além disso. Ela pisa com cuidado. A perna ainda não está pronta. As fitas negras circulam sobre e sob a pele, próximas ao pé direito. O curto vestido negro a deixa observá-las. São lindas. E causam terror em seu reino. Ela se senta no trono e aguarda. Não nota o tempo passando, ou se o nota, o ignora. Vidrada, observa as fitas realizando sua mágica, sem nunca sequer piscar os olhos.
Laísa era a única que se aproximava. Pingava colírio em seus olhos. Sentia e cuidava de seu estado letárgico. Alguns, diriam em quase que absoluto silêncio, lunático.
Lindaci só volta a mover-se quando surge a Lua, brilhando sobre si e seu fortim. Uma coluna de luz que pairava sobre a torre, como um holofote, um farol celeste que anunciava a todos que ela era o que restava do velho mundo. Ela era a palavra, o poder, a ordem. E estava louca.
Laísa não ficava durante a noite. De que adiantaria? A tirana do castelo não lhe reconhecia mais. Foram amigas, irmãs, amantes, um amor lésbico que provocou escândalos. Isso, antes do mundo acabar. Tudo era tão complicado antes do mundo acabar, tudo era tão ridiculamente simples e fácil.
Ela se move pela cidade sem pressa, sem medo. Ela sabe que murmuram também a seu respeito. Não se importam mais com quem ela dorme, não se importam mais com seus talentos para o teatro, importam-se apenas com suas passadas e o medo que sentem quando se aproxima. O demônio, o monstro. Lhe tratam como se um leproso nos séculos passados estivesse caminhando pelas ruas. E tudo que ela fez errado foi amar.
Victor termina de comer o pão meio azedo e segue para o fortim. Quer ver a rainha com os próprios olhos. Rainha. Ele conheceu Lindaci antes, jovem, promissora, uma cientista de carreira que tentava aperfeiçoar remédios com base em levonorgestrel. Quem poderia dizer que ela ia experimentar em si mesma? Nela, na amante e mais três amigas? Quem imaginaria o resultado. Ele ainda se sente usado. E o larápio é ele.
Lindaci caminha pelo castelo sem que ninguém fale com ela. O silêncio é tudo que ela quer, durante boa parte do tempo. Todos, eventualmente, aprenderam a respeitar seus desejos. Deixam sobre uma ou outra mesa os dados que precisa ver, leis que pode assinar, e toda a burocracia que uma governante tem de lidar. Ela não se importa tanto. Não mais. Sente falta de Laísa, mas de que adianta? Tudo que restou é uma lembrança. "Lindaci, Eu quero ser livre junto. Não tornar duas pessoas prisioneiras entre si. Esse não é o caminho pra se amar". Uma filosofia tão simples, que reverberava com seu espírito e ainda assim, ela a traiu. Ela precisava mesmo de Victor? Que sentia por ele? A pontada na perna a desperta das divagações. A fita negra flutua, correndo junto a seu corpo, subindo pela perna, passeando pelo tronco e esperando, paciente, que ela abra a boca. A fita negra entra e desce pela sua garganta, e como sempre, a sensação é como se vomitasse para dentro de si. Ela odeia. E deve o que restou do mundo a cada uma delas.
Laísa chega a sua casa. Ninguém vai até esse ponto, todos temem os animais que foram soltos do zoológico. Animais que ela entende e que aprenderam a reagir próximos a ele. As pessoas tem o que temer. Ela sobe a grande pula lá dentro do local dos bichos. O primata vem logo em sua direção. Um gorila divide espaço com ela, seu pequeno animal de estimação. Ela afaga sua cabeça e se deita, cansada, ignorando o cheiro e a lama. Sente tanta dor. É um elemento constante em seu viver. Lembra do dia em que cresceu, quando o pólo magnético se inverteu e por uma fração de segundo, houve uma nova gama de radiações cobrindo o planeta. Todas as cinco foram transformadas. Lindaci pareceu não se alterar, mas isso era só o que podia ser percebido por fora. Laísa? Ela explodiu em músculo. Massa muscular que precisava ser reposta, ossos que se quebravam com facilidade, força que mal podia controlar. Dor, tanta dor. O que os aparelhos de geoengenharia não destruíram, enlouquecidos que foram pela mudança magnética, ela e as outras fizeram em pedaços. Lindaci quase a matou. Lembra dos olhos chorosos, enquanto faixas negras eram expelidas de sua boca, algumas cortando, outras a segurando, envenenando... Uma nova injúria. E ainda a amava a despeito disso. E o bicho-papão vai de novo dormir, chorando, enquanto escuta dentro de si, músculos e ossos, movendo sob a carne, quebrando e regenerando, quebrando e regenerando, quebrando e regenerando.
O bandido sorri. Tinha certeza que seria recebido no castelo, mas não tão bem. Lhe oferecem até mesmo um banho. Um banho! O fortim é, como dizem, um paraíso. A terra devastada a sua volta, onde as pessoas tentam sobreviver em uma cidade que parece teu sido cortada no talo. Nada que tivesse mais de um andar sobreviveu aos desastres naturais, exceto o fortim. Ele lembra das fitas negras no chão. Ele as pisou sem medo, sentindo elas quentes sob seus pés. Vivas. Uma parte de Lindaci, sempre prontas a se levantar no ar e proteger o fortim do que quer que fosse. Salvadora, tirana, tomada por loucura, dizem seus "súditos". Sua tarefa aqui é tão simples: reconquistá-la. Exatamente como os conspiradores suspiraram em seu ouvido bom. Ele só vê justiça nisso, em tomar para si o que é seu, se tornar o Rei do que restou desse mundo, o único prédio que restou em quilômetros de distância, talvez o único que ainda reste no mundo. E poder, enfim, voltar a tomar banho, com água quente e limpa, todos os dias.
A mulher desce as escadas. Os guardas a olham, sem saber bem o que fazer. Não há segredo entre eles. São todos conspiradores. Todos esperavam que alguém pudesse controlar a bruxa. E ela sai, caminhando, sem que ninguém a impeça. Quem se atreveria? A Rainha acabou de sobreviver a uma batalha com a última das fúrias. Esta lhe arrancou a perna. A Rainha sobreviveu, e apenas dois dias depois, desce as escadas como se nada houvesse acontecido. Os guardas sobem as escadas com pressa. Desde que o mundo morreu, é a primeira vez que ela sai do fortim.
Quando chega nas ruas, antes de pisar na lama, algumas das fitas que cercam o fortim deslizam e a mantém milímetros do chão. Outras, formam um abóbada sobre sua cabeça, um guarda-chuva que a protege da fina chuva que cai. Há algo de lúdico na maneira como ela anda pelas ruas, cercada de olhares desconfiados, tristes, alguns francamente raivosos. Eles sabem: é a Rainha. E ela entende que eles não entendem. Para eles, ela sabe, pode até mesmo ser um símbolo do legado ruidoso e moribundo de uma ciência que não deu certo, e ainda assim uma tirana que guarda a si e tesouros do passado em seu palacete. Alguém se atreve a lhe atirar uma pedra, que é coletada no ar por uma das fitas e depositada com delicadeza, na lama. E Lindaci percorre a cidade sem mais incidentes, caminhando sobre as águas, que cobrem o Recife permanentemente, uma lâmina fria, marrom e talvez, eterna.
Victor espera numa sala pequena. Ele nota como tudo é limpo. Como há um misto de novo e velho, e escuta, vindo dos andares no subsolo, a fábricas, os matadouros, as plantações hidropônicas. Protegidos pelas fitas, o fortim se estende para baixo do que foi a cidade, duplicando ou até quadruplicando o tamanho do prédio de quase vinte andares. Ele já se imagina andando por esses corredores secos, checando suas riquezas, pensando em como restringir a distribuição dos bens aqueles que lhe humilharam. Com raiva, desenha em sua mente o nome de cada um dos que pretende punir, letra por letra, em fogo e sangue.
O guarda, vestido em uma armadura de sucata, pedaços de metal, plástico e madeira pintados de negro, o toca no ombro, o despertando para uma realidade que, para ele, é tão boa quanto o sonho. Ele pede para que o acompanhe e o leva até os conspiradores. Os ministros da Rainha.
- Senhores ministros! Que prazer!
- O que você fez?
- O que eu fiz?
- Sim, o que você fez! A Rainha deixou o fortim! Você quer nos matar a todos?
- Eu não tive nada haver com isso!
- Calicanti, o que o ladrão fez ou não, não importa.
- O senhor está certo, Barbos. Guardas!
- Senhores, eu repito, eu não fiz nada!
- Exatamente.
E os guardas levam Victor. E em meio ao som das riquezas sendo construídas, cercadas de um grande vazio de mundo, o som cheio que escapa em um grito do ladrão se abafa em um quarto pequeno, escuro e sujo.
Os conspiradores debatem. Perderam seu coringa. Seria possível prender Lindaci e a obrigar a manter a segurança do fortim? A maior parte acredita que não. Decidem matá-la. Apostam na esperança de que o fortim resista por si só, mas temem que era erga um novo com ela como tirana.
Os guardas saem em busca da Rainha, sabendo que os sobreviventes, serão os senhores do amanhã.
O vento se torna mais forte a cada momento. Lindacy vê timbus, longos como lontras, correndo amedrontados a sua frente. Ela se pergunta se seria levada pelos ventos. Se valeria a pela. Carregada como os lírios destruídos pelo ciclone. Vento e chuva parecem seguir seus passos. Os pombos restantes, levam lapadas de vento que quase os derrubam do ar no qual se agarram com as asas sujas. O antigo zoológico esconde por debaixo da lama as pegadas da donzela. O Monstro se levanta de seu fosso, sentido o cheiro da Bruna. Pensa se não é chegado seu momento, enquanto seus ossos se partem no que deveria ser o mais corriqueiro dos movimentos. Alguns, diante da força de seu movimento, ultrapassam a superfície de sua pele, um afundar ao contrário. A dor não a impede de, com um salto, erguer a glória titânica de seu corpo fora do covil dos leões.
O ciclone chega em seu encalço. Parece medir forças com as duas mulheres. Três forças da natureza, liberadas por erros da racionalidade.
Os guardas, covardes por natureza, se veem pressionados a prosseguir e só param na entrada do zoológico, onde buscam abrigo nos poucos e baixos prédios que restam. Por frestas e escombros, observam as mulheres que são agora fustigadas pelo ar cortadiço. Uma delas abre a boca para o ar, uma boca que se estende, que pede mais do que grita. A outra, facilmente confundida com um prédio, é abrigo para os animais restantes, é guarida, mãe, que os nutre com calor e barra deles a tempestade, mas por vontade que por força física. Logo, o ciclone é cercado por outro, parecido com enorme cabo que se estende do único e último dos grandes monumentos a uma civilização morta, uma enorme, negra fita. Girando dentro do ciclone em sentido oposto, a fita vai sendo acrescida de mais e mais parte de si, que desesperadas, correm do fortim.
No que resta da noite, o ar se acalma. As fitas então deitam sob o zoológico, circundando sua dona. O colosso, segurando em seus braços alguns de seus filhos mortos, a olha com tristeza. A pequena e negra figura, envolta em sua própria atmosfera de um cintilante e rodopiante cetim, se aproxima e lhe estende a mão. A massa de carne se move, ferida. Apenas um toque. Apenas um. Toque.
Os guardas saem de seus buracos e avançam. Os animais sobrevivente, de imediato, cercam as mulheres. Sob os pés dos homens armados, as fitas se erguem. Alguns largam suas espadas e cajados e correm. Outro, em ganância e arrogância, esperam, formando um grupo mais compacto e planejando, sem dar-se conta do que enxergam por trás das fitas, além dos animais.
Seus braços mergulham na carne. A boca de Lindaci perfura delicadamente a carne de Laísa. Parecem-se fundir-se em carne que se ama e que tinha saudade de si. Só lhe resta, fora da pele courácea, os cabelos longos e negros. Os soldados restantes, avançam. Cortam fitas, matam animais. Chegam mesmo a desafiar a carne, até que o mundo se revolta contra eles. Serpentes lhe sobem pelas pernas, fitas se atiram como navalhas e por mais que seu metal abra caminho pelo corpo do monstro, seu coração está sempre fora de seu alcance e logo, logo, o sangue dos soldados se mistura a chuva e seus corpos são esquecidos na lama.
As duas permanecem uma na outra por horas. O sol, em seu ponto mais alto, parece as trazer de volta. Lindaci abandona o beijo, mas agarrada as suas mãos, traz a amante. Laísa, coberta pelas fitas, é Afrodite renascida.
As duas sorriem, sentido o luminoso lânguido dia.
E ouvindo, longe, o cair da torre.
Marcas de um novo dia.
July 22, 2013
D
As sandálias protegem pouco do calor, um calor gostoso, que lhe escorre a saudade de casa. Diego ama Damasco. Ama cada escombro, cada rosto árabe que vê. Ama até mesmo o medo. É um estado delirante, um devaneio cálido, de um trêmulo cambalear de fim de tarde, onde o povo tenta ainda viver, em meio aos mortos, os tiros e explosões.
As ruas perambulam sob suas pernas. Começam a passar mais rápido, uma mistura de cinza e marrom, brilhos metálicos, e agora sobem e descem, parecem parar, e ele enfim, cai, desesperado. No lampejo de lucidez, se vê sangrando, mas não vê Daniel.
Pega na bolsa uma peça de roupa limpa e coloca com cuidado por dentro da blusa. Precisa se achar. Tanta dor. Por quanto tempo andou por aí? Suas roupas parecem ter sobrevivido ao dilúvio de sangue. Que cheiro horrível, que sede. Diego sabe que não deve beber agora. Em um bolso, pega um analgésico e antibiótico e os aplica rápido, ainda na sombra. Por entre os prédios surrados, enxerga uma praça próxima. Um diáfano de tijolos torturados.
Não perde tempo, qualquer lado pode aparecer e sabe que a luta adquiriu um caráter insano. Não sabe de quanto lhe vale o passaporte. Na sua experiência, muito pouco. Daniel devia estar logo atrás. Estava antes dos disparos. Espera mais um pouco e se sentindo seguro, tira a roupa. O colete, ela percebe, salvou sua vida mais uma vez. Beija a peça de kevlar e a coloca de novo, escondendo os cabelos longos. Após vestido, ele olha para a rua novamente. Precisa encontrá-lo logo, antes que caia a noite.
Continua andando pelos restos de Al Qahira. Dores e sol danados, o fazem andar devagar e ele teme. Pouco se respeita nessas situações. Lembra de Kosovo e o que passou por lá. Ainda jovem, idealista, quase morreu em meio a guerra civil. Lembra da horrível disenteria, dos corpos queimados, dos estupros constantes, onde até a terra parecia amedrontada. Mas em Kosovo foi onde o conheceu, o homem alto, barbudo, cabelos longos e óculos quadrados. Foi numa trincheira. Diego estava cansado, assim como todos lá. Passavam o tempo jogando dados. Todos já tinha ouvido falar dele, ninguém o respeitava. Todos riram dele quando se sentou na mesa. Chamaram ele de trapaceiro. Diego sorria. O homem não gostou. Seu soco arrancou quatro dentes. Acordei no dia seguinte e passei mais de um mês caçando ele. Ele o achou em uma caverna, perto de Tirava, na Caverna Negra. Podia ser mais apropriado? O fuzil disparou em suas costas. E de novo, e de novo. E o homem se levantou e olhou para Diego, sem preocupar-se com o sangue, o cheiro da pólvora, o som que deixaram ambos surdos. Com gestos, propôs um jogo. Mostrou a Diabo seus dentes e com uma esquerda mão vermelha, as balas que havia disparado. Pediu dados. Trêmulo, Diego os forneceu. O Diabo sentou numa pedra e o chamou para perto, e por nove dias, jogaram na escuridão onde apenas os olhos do inferno iluminavam a rocha. E Diego perdeu, balas e dentes.
Perdido num momento de demência, só reparou por pouco que já andava por si só em direção a praça. Sabia onde estava Daniel. Tão próximo, e ainda assim, a tantas balas de distância. Tinha de ser cauteloso. Não gostava de pensar no Diabo, sempre lhe perdia o fio do mundo. Um drama pessoal que não o largava. Talvez se não tivesse demonstrado tanto desdém?
A comprida praça ainda tinha árvores. Ele se esgueirava o melhor que podia. Ouvia tiros o tempo todo. E, logo um pouco mais adiante, o cemitério de Bab el Saghir. E ele estava lá. Não, não só Daniel, mas também o Diabo. Diego tinha certeza. Ainda o sentia em si, como os dentes que voltaram a sua boca. Tinha medo. Lembrou quando o Diabo lhe devolveu as roupas, fazendo-a prometer que seria sempre dele. Dúvida e medo. Teria coragem de vê-lo de novo? Teria coragem de voltar ao Brasil e dizer a família de Daniel que perdera o rapaz, horas depois de o achar na cidade moribunda? Ele seguiu em frente, segurando a pequena pistola como um crucifixo, e a sabendo tão inútil quanto.
Ele sentia o Diabo.
- Feliz em te ver, mesmo com esses olhos de diadorim.
Diego girou nos calcanhares e quase caiu. Estava no Recife, mas não era Recife. Era uma cidade de morte, onde abutres disputavam o ar, substituindo os podres pombos da sua cidade mãe. E tudo cheirava a Damasco queimada.
- Lindo, não? Um dia eu olhei pra cidade e suspirei no ouvindo de seus fundadores: delenda.
Diego não achava graça. Respirando fundo, apontou a pistola.
- Vai matar o rapaz? Depois de tudo que lhe despertou?
O Diabo sabia. Claro que sabia. "Seus dentes e sua vida, mas você será minha", ela ouviu junto de seu pescoço, um suspiro em bafo quente, saindo da caverna fria de seu coração.
Só agora via Daniel. O rapaz também estava ferido, em muito pior estado que ele. Passou dois meses buscando por qualquer sinal do brasileiro, e após o encontrar, duas semanas atravessando juntos o país. Se apaixonara por ele. E naquele momento, no momento em que apercebera disso, sentiu o diabo sorrindo.
- Não, não vou matar mais ninguém.
A bala dispara da pistola de Diego, percorrendo um caminho escuro. A mão do diabo é mais rápida. Uma mão esquerda que insiste em ser vermelha, é dessa vez perfurada.
Diego cai ao chão, com o peito sangrando. Tossindo. Da pequena mochila, cai seu passaporte, que se abre numa foto quase irreconhecível, onde se lê seu nome de batismo: Drusa.
O Diabo cospe numa lápide, com visível nojo.
- Você não me serve morta. Mas eu ainda volto, nem que seja para um último jogo.
E ele caminha em passos largos, orgulhoso, mesmo com a mão gotejando sobre o chão que pertence aos mortos.
Com os cabelos longos soltos, o boné e lenço distantes, ela se levanta e corre para o rapaz.
- Daniel? Daniel?
O rapaz olha entorpecido, bebendo a luz e o sorriso, de um desmantelo de mundo.
- Eu morri?
- Eu espero que não.
E chorando, Drusa o aperta contra o peito e o ajuda a levantar-se. Para ambos saírem dali, deixando para trás as suas vidas.
July 07, 2013
Exsomnis Et Bellum
O som das bombas fazem o prédio dançar.
Não há nada excitante no movimento, nada belo.
Da alta janela, ele olha para a cidade coberta de fumaça.
Percebe, o quanto está só.
Afinal, eles foram embora.
Não houve despedida.
Não tiveram tempo. Foram com pressa.
"Narciso vai viver melhor em Lumina", disse Leandro na última vez que o vi, falando dos preparativos para a viagem, dos planos que tinha para o filho.
De Mônica ele já não sabia.
A esposa desconfiada, com uma eterna camada de falsa simpatia.
E, de um dia para o outro, sumiram.
Antes, nas suas últimas semanas, deles, só via as caixas de coisas jogadas fora.
Algumas, muito boas. Pensou em pegar uma ou outra, mas um certo pudor, um preconceito de catar algo do lixo do outro, o impediu.
Vizinhos por quase dez anos.
Nunca foram amigos, é verdade.
Muito trabalho.
Todos trabalham. Todos pagam o dízimo.
O andar está vazio, exceto por ele.
Os outros apartamentos foram sendo deixados a medida que os sons do conflito se aproximaram.
Ele ficou ali.
O descartado.
Uma caixa, com suas qualidades, mas que ninguém quer levar nessa próxima viagem.
Um nativo em uma cidade de horrores.
E ele, sabia, queria ficar aqui.
Dependia disso.
Ou quase.
O que o fazia ficar na cidade arruinada, quando seus amigos e vizinhos partiram? Quando sua família o havia abandonado?
Pretendia buscar uma redenção para o asfalto partido, banhado em sangue conterrâneo e estrangeiro?
Uma bomba cai perto.
O prédio, rebola.
Para ele, daqui, parecia natural como uma estação do ano.
A cada década, alguma das famílias regentes tem seus números inflados e é "diminuida" pelas outras.
Uma batalha física, política e espiritual, marcando e re-demarcando a cidade amaldiçoada a milênios.
Os pecados dos pais, como em todas as histórias, estão sempre presentes.
A guerra nas ruas é esporádica, mas insensível, não polpando aqueles que escolhem não se envolver.
Ele nunca pegou em armas.
Hordas de uma das famílias se aproxima.
Saqueiam o que encontram, matam aqueles que resistem ou não.
Ele sempre se escondeu.
Uma fuga honesta, na qual se permanece onde está, esperando soarem os alarmes dos ônibus que o levarão ao trabalho.
Ele lembra da história.
Seus ossos ainda marcam a cidade, como gigantescas torres de marfim e ferro enegrecido que não corrói.
A morte do demônio, destruído pelos heróis que, para impedir que ele ressuscitasse, devoraram seu corpo, amaldiçoando a si e suas famílias, obrigados a sempre devorar os outros.
A horda chega perto.
Vão nos andares de baixo. Nunca chegam no seu andar.
Nunca.
Ele não tem medo.
Trabalha no centro, onde lhe devoram todo dia.
Não vai mudar.
Essa é sua cidade.
E afinal, quem não tem problemas?
July 04, 2013
Exsomnis Et Laboris
Ele sabe que vai morrer.
Todos sabem.
Cada um deles em seu canto, sentados ou em pé, terão o mesmo destino, mesmo que sigam por caminhos diferentes.
Suas faces, sem exceção, são marcadas por uma expressão de fatalidade.
Apáticos, se agarram as barras presas ao teto, que trepidam com o movimento.
O carro se move d e v a g a r.
Não há por que ter pressa.
O fim será o mesmo de todo cotidiano.
A capital é ensolarada e suja.
Urina corre por debaixo da cidade em suas agonizantes veias e artérias, congestionadas com restos humanos.
E ali que desce, no centro, no fulcro da miséria, uma pústula aberta no tecido cicatrizado de uma cidade doente.
Ele caminha pela avenida do desassossego.
Nada há que lhe interesse.
Os outros mortos pouco dizem ou mostram.
Os bens que os consomem são privados.
Horrores e suplícios. Distintos, particulares.
Baratos, de incalculável valor para cada eu.
A haste cinza rompe o mundo na esquina da desesperança.
Fere o olho de quem a vê, ameaçando o céu azul e sem nuvens.
O Marco Zero demarca a falta de limites.
Nenhum sacrifício é o bastante. São todos, servidos sem dignidade ou trégua.
E ele entra no prédio. Mortos balançam a cabeça quando ele passa por eles.
O elevador range com sons que lembram línguas esquecidas.
O óleo cor de sangue, pinga do topo da caixa, que pulsa, pulsa, pulsa, imune aos corpos estranhos que o parasitam na viagem.
Desce em um dos últimos andares, tão ruim quanto os primeiros. Porém, mais perto do fim.
Lá, ele é devorado.
O processo é lento, de uma brutal gentileza.
Sangue, sêmen, suor, ar expirado, lágrimas, são colhidos, medidos, carregados por entre um estranho tagarelar que enche os andares superiores, que disparado pelas paredes sujas, cortam toda concentração e fuga.
Fora, aves batem contra a construção sem janelas. O calor escapa por tubos, acompanhado do cheiro de carniça. Antes da noite chegar, a cobertura é aberta, onde os trabalhadores mais antigos são servidos vivos para os diretores.
O que deles resta, é dado as pássaros que chicoteiam a estrutura em frenesi, servindo as massas que, ao redor do prédio, as recolhem quando caem.
Não chegou a hora dele ainda.
Se afasta do prédio negro de fuligem, com passos que, dentro de seu exaurido limite, são apressados.
Sabe que logo sairão do local também os mais novos, e com eles, talvez chegue caos e morte.
Ele não sabe o quão se importa, se é que se importa. Talvez seja hábito. Os pés se movem rápidos, não lhe pedem licença.
Ele vê o ponto.
Outros mortos o esperam.
Não há vendedores aqui. É outra rua.
Não resta dúvida, é aqui onde seus pés param.
É aqui onde deve aguardar.
Todos sabem disso.
E em fila, em meio aos restos dos que não aguentaram mais, aguardam.
Com a noite, outras figuras aladas.
Estes não discriminam entre os mortos e os vivos.
Mas não há luta.
Não há resistência.
Os que estão aí, não habitam o primeiro ou segundo andares das torres de trabalho.
Jovens chegam em breve.
Eles não entendem ainda o mundo.
Como bons arautos, os cães ladram sua vinda.
Alguns, agora massacrados, não melhores que os cães meio-mortos que os mordem os calcanhares.
E amedrontados, afugentam as aves.
Tem melhor sorte que os que estavam antes, um deles sem o olho, arrancado pelo predador, que não o distinguiu de outro tipo de morto.
O carro chega. É o mesmo, ou são todos idênticos, que importa?
Ele sobe, ou é empurrado. Não sabe ao certo.
A visão turva, a exaustão aguda, a noite sem luar, fazem do veículo o estômago de uma besta que, mesmo os levando para casa, lhes digere os sonhos.
June 21, 2012
Exsomnis
Era fumaça. Não havia melhor previsão de tempo para um dia de trabalho. Eu morava, na época, junto ao porto espacial. Nâo gostava, mas em Exsomnis, preço e segurança são uma combinação estranha. Em outras palavras, o bairro de Santa Camélia era barato por conta dos porto espacial, que causava todo tipo de incômodo, que ia desde de ânsia de vômito até alergias diversas, porém as razões para tanto, espantavam da mesma forma a maior parte dos predadores da cidade.
Eu não sou natural daqui. Vim de outro planeta, que você certamente não conhece. Um local pacato. Mas eu queria conhecer o centro do universo e Exsomnis É esse centro, a despeito do que dizem em Centralis ou Garvarom. Então, eu não sabia muito sobre a cidade, apenas que visitantes que pretendiam ter moradia fixa no planeta, tinham o péssimo hábito de serem devorados em poucas semanas. Exceto no bairro de Santa Camélia e logo percebi que o responsável, era o porto espacial.
Ora, quem já viu um porto espacial, já viu todos, certo? Uma estação orbital, ligada por um elevador espacial. Bem, não em Exsomnis. Pode parecer antiquado, mas tudo parte de dentro de sua órbita. O que tornaria outros mundos absolutamente quebrados, em Exsomnis tem custos minúsculos. Aqui, afinal, nada opera como nos outros mundos. Esqueça astrofísica. O aeroporto de Exsomnis é operado por uma das grandes famílias. Não lembro agora qual delas, mas o importante é que as naves simplesmente ignoram a gravidade. Como eles fazem? Um isto de macânica quântica com antiga alquimia terrana e magia vampírica, se metade do que dizem é verdade. E a vizinhança cerra os dentes cada vez que uma nave parte.
Foi assim, com os dentes cerrados, que saí para trabalhar. Era um dia qualquer, ou eu achava. Só mais tarde é que percebi o quanto era diferente, e pela primeira vez me perguntei, seriamente, se queria morar ali.
Havia outro motivo para eu sair do meu undo e vir para Exsomnis: emprego. Meus talentos são muito procurados, mas são quase inúteis em um local onde há tão pouco tráfego. Aqui, gente como eu pode fazer uma fortuna em alguns anos. Basta sobreviver por tempo suficiente. Em um local como esse, tradutores e intérpretes valem seu peso em...em...bem, qualquer coisa que queiram.
Chegar no centro de Exsomnis é fácil. Não é longe do porto espacial e não há muitos gárgulas na região. Eles realmente atrapalham o trânsito em boa parte da cidade. Já aqui, não. O que incomoda são outras coisa, entre elas, o cheiro de sangue. O centro da cidade é cercado de matadores e o canal em forma de heptagrama constantemente exibe o escarlate fluxo e refluxo do sangue despejado. De acorco com meu chefe, é um dos pontos mais seguros da cidade. Não apenas a tecnologia e magia arcana funciona para garantir que isso seja um santuário, como os predadores da cidade se contentam com os próprios matadouros. Você se alimenta de sangue, morte, força vital ou carne? Ora, para que chegar no centro? Eles ficam sim, ali, alguns quilômetros de distância.
Uma vez perguntei a meu chefe se não incomodava algum membro das sete famílias. Ele me olhou com olhos injetados de sangue e mostrou seus caninos quando respondia com um sonoro e longo: "não". Eu nunca mais falei com ele sobre Os Sete, ou sobre política, que é absolutamente o mesmo assunto.
As primeiras horas do dia, foram como qualquer outro. Gente, ou o que se passa por gente, vindo de todo lugar, precisando de serviços de intérprete e tradução para resolver contratos, negociar produtos e serviços, Coisa simples. Após o almoço... bem, falando em almoço, aprendi a ignorar o que como e simplesmente comer, da última vez que perguntei passei dias sem sequer olhar para um restaurante e me alimentado de importados, enfim meu chefe me garantiu que canibalismo é estritamente proibido em Exsomnis e que tudo foi uma piada de mau gosto...e após o almoço as coisas ficaram um pouco...hummm...complicadas?
Eu nunca tive problemas em traduzir nada. Não lembro, mas desde bebê, como todo tradutor, já nasci falando a língua dos meus pais. Ou pelo menos falaria se fisiologicamente fosse possível. Afinal, nos sabemos o que eu as pessoas querem dizer, o que elas querem sentir. Para nós, é tão natural quanto é, para alguém da família dos Terebrare, atravessar uma parede.
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