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August 15, 2024

Mito

 O homem-agulha olhou para o céu como que esperando uma resposta. Passou horas assim, mal parecia respirar. Não era incomum. Juin´yuet o observava enquanto fazia as tarefas na fazenda. À noite, o homem-agulha entrava e comia da ração que seu pai pedia que deixasse separada pra ele. 

Não havia nada de bonito nele. Seu crânio alongado e fino pescoço eram quase do tamanho do comprimento do braço de Juin´yuet, que já era adulto fazia duas primaveras. Levava a ração ao pequeno orifício que lhe servia de boca, com longos e delicados dedos, segmentados em sete partes. Dois pares de olhos acompanhavam a comida, enquanto outros dois pares olhavam para Juin´yuet, espelhando suas curiosidade. 

O homem-agulha era uma novidade na fazenda. Estavam com eles desde o último mormaço, apenas 3 semanas atrás. Juin´yuet, já os tinha visto antes, na cidade e na fazenda de Volsge, quando ia ver Redbllom, mas nunca durante tanto tempo, e vivendo e comendo com eles. 

Juin´yuet desviou os olhos e voltou a comer. Seu pai e sua pequena irmã brincavam de quem iria comer mais. Com a morte da mãe, ela ficou muito triste e perdeu muito peso. Preocupado, seu pai começou a fazer brincadeiras assim e lhe dava toda a atenção que podia. 

Basf´ehi se juntou a eles pouco depois, trazendo um prato da mesma comida que ele havia preparado para jantar, mas com um "tempero especial", que ele colocava apenas para si e nunca dividia com ninguém. Juin´yuet uma vez perguntou o que era, mas mesmo antes que o velho capataz lhe desse a resposta, viu o olhar de reprovação de seu pai. Mas Basf´ehi, com um sorriso zombeteiro, apenas disse que não poderia lhe falar até que eu pudesse caçar um Johhtoun. A ideia de um homem caçando um Johhtoun me pareceu tão ridícula que sorri e não o importunei mais. 

A vida na fazenda era tranquila, mesmo exigindo muito trabalho. Basf´ehi, Juin´yuet e os outros homens acordavam cedo para recolher as meusblianes antes do sol nascer, ou perderiam a colheita. Eram colocadas em recipientes escuros, lacrados, e seguiam para vender na cidade ou para um dos lagos próximos se fosse vender em um dos outros mundos. Suas irmãs passavam o dia cantando. Juin´sien estava quase na idade do exame e Juin´uluan, mesmo nova, devia praticar desde cedo. Quando seu pai ia pra outro mundo, a fazenda ficava sob o mando de  Basf´ehi, já que essas viagens levavam alguns dias.  Juin´yuet nunca entrou num dos lagos, mas Juin´sien já havia viajado várias vezes e lhe contava as histórias dos outros mundos, seus povos, seus animais, suas plantas, suas cores e seus cantos. 

O homem-agulha, diferente deles, tinha uma diferente rotina. Apesar de fazer suas refeições na mesma sala que eles, morava em outro local, um prédio longo, esguio, que parecia um silo de grãos, próximo da casa principal da fazenda, mas no lado oposto aonde eram criados os animais, que tinham medo da criatura. Ele parecia trabalhar quando bem entendesse, mas havia, sim, um ritmo, um ritual, que lhe ordenava as tarefas: o operar das máquinas de clima e o recém comprado escavador. 

Rocha-Derretida fabricava e vendia escavadores que podiam ser operados por pessoas, mas nada se comparava aos usados pelos homens-agulha. E máquinas como a de controle do clima, só eram operadas por eles. 

- Yuet-boon, Yuet-boon!

Um dia veio Juin´uluan lhe perguntar: 

- Por que você mesmo ou papai, não cutucam a máquina do clima como o homem-agulha? 

Antes que Juin´yuet pudesse responder, Basf´ehi andou apressado por trás da menina, lhe pegou pela cintura lhe levantando e a colocando no colo enquanto ele mesmo sentava ao lado de Juin´yuet, que estava estudando para os exames de verão. 

- Seu irmão não é velho o suficiente para lhe contar isso, mas eu posso, eu estava lá!

Juin´yuet sorriu com a mentira de Basf´ehi e os olhos arregalados de Juin´uluan que agora parecia querer também perguntar qual a idade do velho capataz, mas ele começou a lhe responder antes que tivesse tempo de lançar mais uma pergunta: 

- Já olhou pro céu, pequena Uluan? Já se perguntou como ele rachou? (vendo que a menina fazia sim com a cabeça, o velho continuou) Foram os homens-agulha! (Juin´uluan olhou agora para os lados, procurando com receio o homem-agulha) Não se assuste! Eles não fizeram por mal. Quando os deuses que nos fizeram vieram pra Belisen´Tur, eles precisaram de alguém para mudar o mundo por eles. Os deuses, Uluan, não podiam tocar as rochas ou mesmo respirar o ar! Eles eram refinados demais para isso! Do mesmo jeito que criaram a nós para cantar, fizeram os homens-agulha para manipular as máquinas que precisavam conseguir as coisas do mundo! 

- É verdade, Yuet-boon?

- É sim, Uluan. Foi assim que minha professora disse.   

- E as máquinas dos homens-agulha que foram criados pelos deuses, Uluan, os reconhecem como família. Se eu, voçê ou Yuet, tentarmos manipular o bicho-animal do clima, eles nos comem! 

- É verdade, Yuet-boon?

- É sim, Uluan. Papai não disse para você não chegar perto de Jujuba? 

- Disse sim, Yuet-boon! 

- Foi por isso, pequena! - continuou Basf´ehi - Não devemos chegar perto de Jujuba ou qualquer goblinoso, por mais apetitoso que pareçam! 

- Eeeeeca! - disse Juin´uluan, indo brincar em outro lugar enquanto Juin´yuet voltou a estudar e Basf´ehi seguiu para a cozinha, onde iria preparar a comida com os outros homens. 

Distante da fazenda, o homem-agulha entrava em na Máquina do Clima, que a família de Juin´yuet nomeou de Jujuba há mais tempo do que seu próprio pai lembrava. 

O longo corpo do homem agulha atravessava a outra criatura e manipulava controles biológicos que eram invisíveis aos olhos humanos, com seus dedos hábeis e disparos químicos. 

O animal máquina, por sua vez, lançava microorganismos na atmosfera que iriam ser levados para o vento, e combinados às nuvens, as dispersariam, evitando chuvas fortes que poderiam prejudicar as meusblianes, de quem os homens extraiam um líquido hipersensível à luz ultravioleta e que servia como popular forma de combustível em boa parte dos mundos. 

O homem agulha preferia estar com Jujuba a manipular a escavadeira. Esta era, de fato, uma máquina, criada por tecnologia esquecida milhares de anos atrás, quando o nono mundo jorrou revolta contra os anciãos. 

Jujuba, para o homem-agulha, cheirava como cheiravam seus criadores. Especialmente quando eles, os homens-agulha, os mataram. Um cheiro doce e sexual, proibido e saboroso. 

O antiquíssimo homem-agulha ficou mais um tempo dentro de Jujuba, apreciando as memórias da carnificina mais do que o longo tempo que se seguiu em que escavizaram os humanos, e então, escorreu pra foram na criatura gelatinosa para ir jantar com os animais barulhentos, seus irmãos.  






June 19, 2021

Pérola


Pai e filho saíram para caçar. Passaram dias entre as árvores de copas altas. Durante esse tempo, comiam animais pequenos, frutas, nozes, cogumelos. Era uma aventura ao paladar, mesmo que sem refinamento. Juntos, carregavam bolsas com pedaços de animais maiores de volta para a vila.
Caminhavam juntos, mas o garoto, distraído por um som de galho partido e farfalhar, se separa do pai por um minuto.
Um ninho. A árvore de onde caíra, ainda estremecia. Mas Lisandro não prestou atenção nisso. Ele só tinha olhos para a única sobrevivente.
Ela, parecia ter caído do ovo em seus mãos. Tão pequena, frágil!
Procurou seu pai na mesma hora, assustado e maravilhado com a coisinha em suas mãos.
O homem, mais velho, de barba cinza, notou o menino e fez gestos para que ele andasse em silêncio.
Lisandro, alerta, olhou para as árvores a sua volta e não viu nada, mas obedeceu ao pai.
O homem, experiente, não movia um músculo. Lisandro, porém, ouviu um som nítido, mas delicado como o desabrochar de flores, escapando dos lábios do pai.
"Um canto!", ele se viu pensando, espantado.
Só notou a mudança quando completa: ele e o pai, agora eram corpo de floresta, como se cascas de árvore, flores, folhas, e a terra rica, tivessem se esgueirado e os encoberto.
O pai não havia visto a pequena coruja, e ela continuava ali, como um pálido brilho nas mãos do menino.
Lisandro então notou o movimento. Constante, mas lento. Como uma enorme serpente, a coisa se movia pela folhagem.
Ela circundava os dois, percebendo que estavam lá, mas sem conseguir enxergar nenhum deles. O canto do pai os havia escondido.
Foi quando pérola,fez um pequeno, minúsculo som.
Lisandro só entendeu mais tarde o que aconteceu.
Em um instante, o Come-Come pulou sobre ele e a pequena coruja.
O pai, mal teve tempo de se jogar, o empurrando para longe.
O tronco do predador, era enorme, a ponto de, quando se atirou sobre Lisandro, destruir uma árvore que estava atrás do menino.
Os Come-Come, como a tribo os chamava, tinha ódio deles. Não sabiam o motivo, mas caçavam vorazmente, e pedra ou tronco, rio ou raio, nada sobrevivia a sua passagem.
O homem gritava com Lisandro, para que ele saísse do transe do medo e usasse também suas pernas para correr, o jogando no chão.
Colocando pérola em uma túvia, que não passava de uma caixinha com alças, em que ele costumava usar para colher amoras, se pôs a correr.
O pai parecia guiar seus pés com assovios, e não tardou, mandou Lisandro em uma direção, a da vila, enquanto ia para o centro da floresta, levando com ele o Come-Come.
Lisandro chegou cansado e sua mãe, ao lado de guardiões de ossos, nos portões de cristal da vila, o esperava.
Ele desabou nos braços dela, cansado e com medo.
Junto com ela, esperou pelo seu pai.
A noite não demorou. Os sons dos animais, plantas e rios, pareciam retornar depois do susto.
Estava com fome, mas não desgrudava os olhos da escuridão.
Quando seu pai finalmente chegou, sua mãe soltou um suspiro de alívio, como se, até ali, não tivesse respirado uma vez sequer.
O pai a abraçou de um lado e colocou a mãe na cabeça do menino.
- O que você tem aí? Perguntou, cansado, talvez ferido, apontando para a túvia.
Lisandro abriu a caixinha e os olhinhos da coruja olharam para o pai.
- Uma corujinha. Disse o menino tímido, por debaixo da constatação, uma pergunta implícita e que pais, ao longo de toda a história, em cada um dos 9 mundos, já escutou: "posso ficar com ela?"
- Que nome vai dar pra ela? Perguntou a mãe, já sabendo, pelo sorriso do pai, que não iria impedir o menino de cuidar da ave.
Lisandro olhou para ela por um momento e disparou: Pérola!
"Um nome de sorte", disse o pai, "afinal, ainda estamos vivos!".
Sorrindo, deixando os guardiões de ossos fecharem os portões, voltaram a seu casa para finalmente jantar. A última das residências na vila dos banidos.

July 31, 2017

Honra

Honra

Seu nome era Matilda. Joheb acariava seus pêlos negros na manhã do último dia de verão. Tinha por ela mais carinho do que por muitos de seus parentes. Estiveram juntos, quase que desde que nasceram.

A clareira se abria a sua frente. Ele a montava de maneira elegante. Ia a frente de seu exército, grande parte ainda escondido por entre as gigantescas árvores.

O inimigo a sua frente, proclamava revolução. "Liberdade", gritavam. Mas Joheb nunca tivera escravos. Não reconhecia a opressão contra a qual gritavam, sabia apenas que ameaçam a ele e seus entes queridos.

Erguido acima dos inimigos, que cavalgavam animais pequenos, alguns, rastejantes, Joheb não escondia seu desprezo, mas não tinha ódio. Não pelo soldado que iria morrer na lama. Não pelos animais que seriam mortos por metal e fogo.

Belise. Esse nome lhe dava insônia. Não por temor. Nunca temia nada. Mas ela fazia nações se voltarem contra a sua. Ele nutria um ódio por essa mulher, que parecia enraizado em cada momento desse dia. Sonhava com punições impossíveis e mortes terríveis.

Matilda estava inquieta. Não seria sua primeira batalha, dificilmente seria a última. Joheb mantivera sua mão nua sobre ela, um contato que, se não curava suas próprias inquietações, lhe reforçava o laço inquebrável eles.

Bandeiras, assovios e trompas prenunciavam o choque. Cantoras de ambos os lados agora podiam ser vistas na borda da clareira. Eram precisavam ver o inimigo. De ambas as posições, os troncos escondiam ar forças que iriam se destruir em breve.

Tão paralelos, tão distintos.

Do lado esquerdo de Joheb, Cristirano garantia que seu corpo estava bem costurado. Correntes substituíram a fina seda em algumas partes, evitando que fosse desmembrado nos primeiros golpes. Do outro lado, estavam Rikan, irmão de Belise e Hoffland. Ambos, atendidos por pajem, tinham sua armaduras reluzentes sendo testadas, com os jovens verificando se a casca metálica de fato garantiria sua sobrevivência para a próxima estação.

Cavaleiros de tribos e reinos diversos iam ainda surgindo, convocados pelas cores e sons que organizam o conflito. Nesse ponto, não havia similaridade. A massa de forças ao lado de Joheb era homogênea. Havia pouco interesse em distinguir-se do outro quando se está morto.

Silêncio. Finalmente. Joheb coloca sua manopla, levanta o braço. O ar é tenso. Os próprios animais da floresta parecem escolher silenciar-se e evitar a atenção do milhares de invasores. Seu punho desce e com os calcanhares, deixa Matilda ciente de seu papel.

A música enche o ar em volta das tropas. O ruído gutural de suas cantoras, cruza o espaço e encontra-se com a voz melodiosa das virgens. Raios, fogo, gelo, água, rocha e raízes. O mundo é distorcido pelo som e quebra-se em conjunto ao choque de metal e ossos, couro e madeira.

Joheb atira sua lança na direção de Rikan, mas esse defende-se com um escudo de luz. Cristirano e Hoffland, nota Joheb, já travam batalha pessoal, em um círculo de trevas que foram tentáculos que expulsam os que se aproximam. O necromance é avarento e irá buscar matar, tantos heróis quanto puder.

A lança de Rikan também erra, mas se finca em Matilda. Um graveto que parece brotar de uma sedosa vastidão negra. O corcel encouraçado se aproxima bravamente. Joheb, por debaixo das ataduras que lhe sustentam o que lhe resta de carne, sorri por entre seus vários caninos.

Rikan corta Matilda, que levanta-se sobre as patas traseiras, com velocidade surpreendente, jogando-se sobre o cavaleiro. Seus olhos parecem prever cada movimento to inimigo, e sem nunca ameaçar livrar-se de seu companheiro, ela despedaça a armadura do cavalo, que agora relinhaça, baba e se debate, em puro desespero.

Quando ela termina de matar o animal, Joheb desce e retira Rikan, desfalecido, debaixo da pobre criatura.

A noite avança. Seu exército cresce. Ele sorri ao ver a face perfeita de Rikan, uma cópia quase idêntica a de Belise. Os que sobrevivem ao combate, exceto por Rikan, ele deixa que vão embora, com mensagens para os reinos em revolta, com o local e hora de onde irá enfrentá-los novamente se coragem tiverem.

Matilda, porém, não verá mais batalhas. A lança, Cristirano lhe diz, estava envenenada. Joheb já esperava por isso. Ele pensa sob o quão baixos são seus inimigos. Quão covardes. Por um átimo pensa em vingar-se, mas lembra da tarefa que reservou para si anos atrás e mantém sua dignidade. A eles, ele levará a paz e civilização. Mesmo que para isso, tenha ainda de sujar muito os cravos de suas botas.

September 26, 2012

Corpos Celestes


O trabalho é cansativo. Foi planejado assim.
Eu sou da turma das 11.
O dois sóis brilham com raiva durante boa parte do tempo.
Ou sou apenas eu que imagino essa fúria?
A máquina apita.
Coloco mais da massa branca e fria em sua boca, aperto os botões na sequência, acompanhando processo pelo marcador de metal.
A linha de montagem segue até ser engolida pela escuridão.
Vejo as turmas das horas anteriores saindo, exaustas.
Na linha de montagem, continuamos firmes.
Os sóis, longínquos, pouco me aquecem.
E o frio é intenso.
Fazemos o trabalho do lado de fora.
Acho que é para lembrar que, se tentarmos fugir, não há para onde correr.
Onde ir no meio do dia que é negro, na neve que gela, na pradaria vazia?
Meus braços, dedos, seios, pés e até quadril, doem.
E surge então Lunara, o planeta do qual somos lua.
Antes de começarmos a suar, somos chamados para dentro.
11 horas disso, com rápido intervalo para almoço, banho e, ao fim, sauna.
Não há conversas. Não olhamos umas para as outras.
O apito da máquina não deixa e se ignorado, logo chegam os guardas.
Não há violência. É contra nossa cultura.
Mas qualquer é melhor do que ficar em nossa cela.
Para onde vou agora.
Vejo algumas meninas da turma das 12, uma delas, irritada, não faz nada na linha de montagem, apenas olha.
A máquina apita.
E apita.
Estridente, agora brilha e vejo dois guardas indo na direção dela.
Ela tenta dizer algo.
O guarda canta.
E ela cai, catatônica, na neve suja.

A sauna é barulhenta. Somos empurradas umas contra as outras.
A passagem aqui é rápida, apenas o suficiente para uma limpeza e aquecer nossos corpos.
Suadas, caímos na piscina de água morna.
O prazer é mínimo. Desconfio que só o fazem para nos deixar mais relaxadas.
Olho para minhas companheiras.
Mulheres de todas a idade.
Criminosas, somos todas. A nosso modo.
Todas, de alguma forma, buscaram a ciência.
Lembro de algumas das que estão aqui, de vista.
Mas eles são cuidadosos. Muito cuidadosos.
Não há nenhuma amiga no mesmo turno que eu.
E amigas não permanecem no mesmo turno ou prisão.
Não por muito tempo.

Da piscina, vamos para a pequena cela. Não é muito maior que um caixão.
Eu me deito e olho para o guarda.
Imagino se ele sente algum remorso.
Sua voz é linda.
E ao cantar, o cristal faz seu trabalho.

Não, não dormi.
Não é esse o grande castigo?
Por 13 horas estarei aqui, acordada.
Só.
Presa dentro de meus próprios pensamentos.
Absolutamente alheia ao que acontece com meu corpo.
Que sei, por experiência, será bem tratado.
Diferente da primeira noite.
Em Chuva de Estrelas, é raro, mas ainda há estupros.
E se fala o pior possível dos ecumênicos.
Mas não, nunca houve nada assim aqui.
Os guardas nunca sequer me tocaram.
E não precisam.
Nós nos quebramos o suficiente, sem ajuda alguma.

A noite é eterna ou assim parece.
Como resumir horas assim, quando não há pontos de referência?
Passo eu aqui presa, em mim mesma.
É horrível. Indescritível. Mesmo em momentos logo antes ou após o sono, há
referenciais palpáveis. Tato, som, cheiro.
Nesse caso, sou apenas uma consciência, plenamente desperta, que ignora tudo.
Só em mim mesma.
E pensar que usamos isso como punição por mais de 800 anos.
Nunca imaginei que fosse assim, tão cruel.

Em horas assim, lembro de minha mãe.
Ela não era ninguém.
Nos criou, colhendo rochas em Escarlana.
Nosso pai morreu ainda, colhendo pedras do céu.
O céu.
Rege quase tudo em Chão de Estrelas.
Onde moramos, do que e como iremos viver, nossas mortes.
A pedra, dizem, partiu meu pai ao meio.
Nunca o vi morto. Minha mãe não quis.
Odeio passar as noites assim. Lembrando de tudo. E não há mais nada a fazer.
Presa em mim em uma cela sem grades.
Não é assim que fazem nos outros mundos.
Sou que em Tiara, não é muito diferente daqui.
Tiara...nunca mais viajarei para lá se depender dos ecumênicos.
Tudo porque eu queria viajar. Não para os outros mundos, mas para a própria Lunara.
Lembro, quando morreu meu pai, jurei: um dia irei até o planeta do qual somos lua, descobrirei porque faz chover em nós as pedras do céu.
Tolo desejo de criança. Ou são, todos os desejos, tolos?
Não sei. Eu queria poder dormir.

Lembro como se fosse ontem.
Enxerguei algo na superfície de Lunara.
Era rotina. Observava, como se observou por séculos, sua superfície.
Astrônoma, era isso que mais fazia.
"Tentar compreender o universo além do canto", palavras de minha formatura em Ben-heran.
Compreender o universo.
Não passava porém, de algo todo. Meu trabalho consistia em realizar pesquisa para as ligas de coletores, identificando chuvas que cairiam em suas regiões, quando deveriam ir colher rochas, e quando não deveriam.
Lógico, essa informação era importante também para as cidades, para toda a logística, mas quem me pagava eram os coletores.
Mas naquele dia, o que vi foi diferente. Uma lente.
A lente parecia se mover na superfície, mas estava próxima ao que parecia ser, um corpo de água. Um grande, enorme lago. Quase tão grande quanto o de Tiara, eu diria, mas esse, tinha essa lente, que é só vista em ponto de passagem pequenos.
Lembro de meu espanto.
E lembro de ser detida, interrogada.
Mas isso foi depois do choque.
Olhei no dia seguinte e continuava lá.
Escrevi um relatório. Enviei ao corpo de maestros e para os professores de Ben-heran. Dois dias depois, houve a revolução.
Os ecumênicos tomaram o poder tão rápido, que houve pouca reação do governo. Sequer conseguiram fugir.
Eu, vermelha, braços pintados de azul, fui logo presa.
Os ecumênicos tem pouco amor do Escarlana, sua forte história em favor de um estado laico.
E meus diplomas, medalhas, notas, tatuadas nos meus braços, em nada ajudaram minha causa. Aos seus olhos, sou tão ruim quando uma suicida.

Vai fazer um ano. Eu sei. Eu leio os astros como palavras em pergaminhos frescos.
Certas verdades não se podem esconder.
Já vi algumas mulheres enlouquecerem.
As noites sem sono, o universo sem sonhos.
Elas enlouquecem e não-violentamente, a prisão nos mata.
Algumas se negam a comer. Outras, enfiam a cabeça onde deveria ir a matéria branca das máquinas. Outras, ainda, se afogam nas piscinas.
Engraçado..nenhuma tenta fugir para a noite e o frio. Nunca vi.
Não serei uma delas.
Nas noites em que estou, presa em mi mesma, eu sonho sem dormir.
E persevero.
Pois eu prometi a mim mesma: "Siri, um dia você sairá daqui e dirá a mundo o que muitos temem: não estamos sós."
E quem sabe, não irei eu mesma até Lunara, deixar para trás a lua e finalmente ver o mundo.