Ele sua.
Quente, escura, úmida.
Descrição da sala, ou da linha de seus pensamentos?
Que importa? São intercambiáveis.
A tela o alimenta com sua luz suja, desigual.
O sexo é mecânico.
Frio, claro, seco.
Tem cheiro de ecrã.
Jorra sobre ele como falsa porra.
Mas ele louva o ato com sincero desapego.
Faz dias.
Os filmes mudam.
Sempre.
Texturas mil, sobre formas quase sempre iguais.
Animados, o ciclo automato pouco muda.
Faz dias.
Intercalado ao falso ardor, o pornô cotidiano toma o espaço.
A mulher está na cozinha.
Ela está comendo.
Lavando.
O sorriso feminino devora a câmera.
O contraste do comum despido ao plástico despudor, não lhe escapa.
E o excita.
Faz dias.
Pouco resta dele.
Mas sobram odores.
Ele apodrece no chão da sala.
Comida, na cozinha.
Roupas se decompõem lentas, sem atenção, esquecidas.
O corpo nu, emoldurado pelo sofá, alterna suados espasmos e cansados delírios.
Faz dias...
A baba azeda, uma mosca, uma batida na porta.
Seus olhos se abrem sem força.
A batida é agora mais forte.
- Já vou.
Grita em débil sussurro.
outra batida.
Exausto, veste uma bermuda próxima da mão e abre a porta.
O estranhamento é mútuo.
Preparado para bater, o outro homem desiste em choque.
O braço cai e pende, em franco desânimo.
- Paulo?
- Roberto? Betão?
O dono do apartamento cai, despertando com a água fria.
- Paulo, acorda! Você está bem?
Ele não quer responder. Mas bebe da água do chuveiro. Queria afogar-se.
-Paulo, porra! Reage!
Beto segura o amigo, maior que ele, um dia, foi maior que ambos.
- Homem, o que houve? Você está péssimo. Parece que alguma coisa morreu no teu apartamento.
- Foi?
- Foi, cara.
- Fui eu. Eu morri aqui.
- Paulo? Ei, Paulo, acorda! Paulo!
Paulo acorda.
E está sozinho.
Como companheiro só lhe resta o cheiro de cloro.
Como uma bruma invisível que recobre o apartamento antes fétido, o odor de eucalipto lhe parece mais amoral.
Acordado, ele volta então para o mundo em desalinho.
E anda para a sala, e lá, vê nos retratos, toda a incompletude.
O casal parece feliz.
Mas ele nota em cada retrato, cada foto, cada desenho que ele fizera de ambos, no carvão, um desencontro.
Esse lhe parecia pontuado então, pelo último bilhete que ela lhe deixara.
As palavras, ele preferia não ler.
Como último gesto, derradeiro movimento do fogão, deixou-o lamber em suas chamas, a carta fechada.
E lento, mas apaixonado, obcecado Paulo, se deixou consumir.
O resultado Beto viu.
O amigo, nem o mais próximo, nem o mais fiel, notou sua falta.
Sobre a mesa, lhe deixou comida, promessas de volta, pedidos de calma.
Paulo olha, lê, não come, apenas senta.
Ele não continua os gestos que fizera antes.
Ele foi despertado do transe.
Desejo amargo.
Foi ralo abaixo.
Cansado, faminto, sedento, espera.
Beto, como prometido, volta.
Ele desperta Paulo, o ajuda a sentar a mesa.
Pela primeira vez, Paulo nota, há um brilho de reconhecimento no homem.
A um esmaecer compartilhado, que acaba unindo ambos, nesse pequeno momento.
No apartamento morto.
- Paulo, eu nunca te falei isso. Mas sofri muito, muito mesmo. Rosa. Lembra dela?
- Não.
- Pois é, nem eu. Nenhum de meus amigos lembra dela. Nem a família dela. Nem ninguém. Nem mesmo o filho dela. Eu não sei se quero compartilhar isso com você, Paulo, não sei o que aconteceu com Rosa. Só soube que ela existiu por que ela existiu. Ela está nas fotos, em filmes, está no meu diário, SMS, email... Mas não na memória das pessoas. Rosa não é mais.
- E você acha que eu...
- Sim, Paulo, eu acho que você pode fazer o mesmo com Alice.
- E como você fez isso, Beto?
- Promete manter segredo?
- Prometo.
- Fiz com LeTHe.
- Leite?
- Não, LeTHe. Acho que químicos tem senso de humor. Só que, o que desenvolvemos a química não pode explicar por si só. Ninguém mais no laboratório queria tocar nisso, então tirei de lá. Ainda sobrou um pouco, Paulo. Tá aqui, ó...
E paulo tira do bolso uma caixa transparente e dentro dela, um fino tubo de ensaio e o coloca na mesa.
- É isso. Mas se você tomar... Não sei. Eu sei que eu não tava bem. Quase morri por conta de Rosa. Mas fica faltando algo, sabe? É como se, aquela pessoa estivesse sempre num... Ponto cego da memória. Bem, espero que você tome a melhor decisão possível, Paulo. Aqui tá pelo menos uma rota de saída, tá?
- Obrigado, Betão.
- Não, não me agradeça por isso. Por isso, não.
Roberto se levanta e sai do apartamento, sem se despedir.
Paulo olha o tubo de ensaio e não lhe parece nada excepcional.
Parece água.
Desconfia que seja um placebo contra sua depressão.
Paulo pega a caixa e senta no sofá.
Ele teme ligar a televisão e ligar o vídeo e olhar para ela.
Dela, pouco restou. Exceto essa compulsão de gastar-se, de não deixar que nada de si, sobre. De perder-se em uma agonia latente.
LeTHe não lhe parece tão má ideia.
Seria tão ruim, esquecer de alguém que te abandona, por mais que conheça teus sentimentos, que saiba de seus anseios, que poderia reconhecer-te entre vários?
Mas os detalhes de uma vida a dois que lhe impregna, esquecidos... O que irá lhe restar?
Ele não quer lhe fazer mal.
Por mais descartado, como lenço usado, ele não quer lhe fazer mal.
Não deseja que ela seja esquecida pelo mundo, como ela parece ter esquecido o amor dos dois.
Ele pega o tubo de ensaio. Olha para ele e é como água.
Como água de um rio qualquer, onde se pode deixar levar, como a água de um rio de memórias, que o banha e afaga, afoga.
E ele sabe.
Apesar do ordálio, não consegue negar aquilo que ele viveu.
Escuta então o metal ranger.
E mais uma vez, alimenta o fogão.
Voltando então pra sala, sentando no sofá, ligando a TV e enfim, se entregando.
Ao telejornal.
E a vida.
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September 22, 2013
July 10, 2013
Branca
O trecho é de violento prateado.
Nada o apaga, para, ou o afugenta.
Que se curva, em flexível tensão.
O caminho que faz é visível para todos.
Uma marca do tempo, que parece marcar seus passos, que vibram seu corpo com as passadas duras, fortes.
Ela olha para eles.
Os mais jovens, os mais velhos.
Busca vontades, forças, só acha hábito.
O sol é de um dia que mal nasceu, e assim, revela melhor a dor, os sulcos.
A pele se estica, mas não cede.
Os pássaros caçoam, os peixes se escondem, o lagarto assente.
E todos seguem o mesmo cortejo, numa linha sem volta.
Minutos, horas, dias, desperdiçados na construção de um muro que falha, numa verdade que se parte com o calor dos anos.
Ela sua. Derrete. Cheira o gosto de lágrimas que sua pele chora.
O apartamento é seco.
A rua barulha próxima, sem trégua ou barreira.
Ela já não dorme. Que importa o som do mundo?
A água cai sem compaixão ou alívio.
É só água.
Só mais um gesto habitual, em uma relação infinita de ordinários dias.
No espelho, o fio de prata que desaba seu espírito.
A hora chega, tempo esmaga, enclausurada fica, na circunstância da vida, sem voltas, 100 voltas, 110 volts, ligada, tomada, olha pro outro lado.
Tão fácil, não?
A cama é vazia e enorme.
Um mundo ali, que parece nunca querer parir-se de existência, desaba na escuridão da noite, que simplesmente desdenha a luz dos sorrisos passados.
Ela se mexe, geme dormindo, acorda suada, no frio da aurora.
Mais um, morreu, se foi.
E o brilho metálico na cabeça, só avança.
July 07, 2013
Exsomnis Et Bellum
O som das bombas fazem o prédio dançar.
Não há nada excitante no movimento, nada belo.
Da alta janela, ele olha para a cidade coberta de fumaça.
Percebe, o quanto está só.
Afinal, eles foram embora.
Não houve despedida.
Não tiveram tempo. Foram com pressa.
"Narciso vai viver melhor em Lumina", disse Leandro na última vez que o vi, falando dos preparativos para a viagem, dos planos que tinha para o filho.
De Mônica ele já não sabia.
A esposa desconfiada, com uma eterna camada de falsa simpatia.
E, de um dia para o outro, sumiram.
Antes, nas suas últimas semanas, deles, só via as caixas de coisas jogadas fora.
Algumas, muito boas. Pensou em pegar uma ou outra, mas um certo pudor, um preconceito de catar algo do lixo do outro, o impediu.
Vizinhos por quase dez anos.
Nunca foram amigos, é verdade.
Muito trabalho.
Todos trabalham. Todos pagam o dízimo.
O andar está vazio, exceto por ele.
Os outros apartamentos foram sendo deixados a medida que os sons do conflito se aproximaram.
Ele ficou ali.
O descartado.
Uma caixa, com suas qualidades, mas que ninguém quer levar nessa próxima viagem.
Um nativo em uma cidade de horrores.
E ele, sabia, queria ficar aqui.
Dependia disso.
Ou quase.
O que o fazia ficar na cidade arruinada, quando seus amigos e vizinhos partiram? Quando sua família o havia abandonado?
Pretendia buscar uma redenção para o asfalto partido, banhado em sangue conterrâneo e estrangeiro?
Uma bomba cai perto.
O prédio, rebola.
Para ele, daqui, parecia natural como uma estação do ano.
A cada década, alguma das famílias regentes tem seus números inflados e é "diminuida" pelas outras.
Uma batalha física, política e espiritual, marcando e re-demarcando a cidade amaldiçoada a milênios.
Os pecados dos pais, como em todas as histórias, estão sempre presentes.
A guerra nas ruas é esporádica, mas insensível, não polpando aqueles que escolhem não se envolver.
Ele nunca pegou em armas.
Hordas de uma das famílias se aproxima.
Saqueiam o que encontram, matam aqueles que resistem ou não.
Ele sempre se escondeu.
Uma fuga honesta, na qual se permanece onde está, esperando soarem os alarmes dos ônibus que o levarão ao trabalho.
Ele lembra da história.
Seus ossos ainda marcam a cidade, como gigantescas torres de marfim e ferro enegrecido que não corrói.
A morte do demônio, destruído pelos heróis que, para impedir que ele ressuscitasse, devoraram seu corpo, amaldiçoando a si e suas famílias, obrigados a sempre devorar os outros.
A horda chega perto.
Vão nos andares de baixo. Nunca chegam no seu andar.
Nunca.
Ele não tem medo.
Trabalha no centro, onde lhe devoram todo dia.
Não vai mudar.
Essa é sua cidade.
E afinal, quem não tem problemas?
July 05, 2013
010000010110110101101111011100100000110100001010
Dr. RUMBLE olha para eles e dá seu enorme discurso. Fala de como foi humilhado pelos "humanos", como o bullying o tornou o vilão que é hoje. Ele chora lágrimas cibernéticas e antes que os heróis possam agir, liga a sua Máquina Demoníaca Tectônica Dos Infernos TM.
- Engraçado, né?
- Sabe que também acho?
Os dois olham para o vulcão.
A lava vem deslizando, rápida.
Não há muito tempo.
Eles são atingidos quase que simultaneamente.
- E aí, vamos tentar de novo?
- Eu topo.
DeathSkye22 e MajorDOOM entram de novo na sala de Dr. RUMBLE.
Ela mata os adds enquanto ele tenta curar ela, dois adds chegam perto de matá-la, mas ele coloca mais coisas no build além dos poderes de um healer e a ajuda a eliminar eles.
- LOL
- Hehe.
Os dois passam quase 40 minutos até chegarem de novo a sala de Dr. RUMBLE, que pretende destruir a terra com seus vulcões.
A luta é cansativa, exigindo muita atenção.
Planejada para ser realizada por grupos de jogadores, os dois conseguem, sozinhos, derrotar o mob.
Mas vencer o vilão não termina o raid.
Eles precisam escapar da ilha, parte em que, até agora, falharam.
Novamente se encontram na praia, esperando o submarino da Força de Proteção Terrestre.
Dessa vez, chegam a tempo e o incandescente rio de bits não os mata.
/e crazy_dance
- LOL
Os dois avatares olham um para o outro. DeathSkye22, a loira de shorts curtos, segurando a enorme arma, enquanto MajorDOOM brinca com seu kit de primeiros socorros.
- Sabe, a gente devia casar?
- Sabe que também acho?
Log off.
Paulo, que joga com DeathSkye22 e Aline, famosa em vários servers como MajorDoom, então se encontram fora de seus apartamentos vizinhos e se beijam.
Super Log on.
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July 04, 2013
Exsomnis Et Laboris
Ele sabe que vai morrer.
Todos sabem.
Cada um deles em seu canto, sentados ou em pé, terão o mesmo destino, mesmo que sigam por caminhos diferentes.
Suas faces, sem exceção, são marcadas por uma expressão de fatalidade.
Apáticos, se agarram as barras presas ao teto, que trepidam com o movimento.
O carro se move d e v a g a r.
Não há por que ter pressa.
O fim será o mesmo de todo cotidiano.
A capital é ensolarada e suja.
Urina corre por debaixo da cidade em suas agonizantes veias e artérias, congestionadas com restos humanos.
E ali que desce, no centro, no fulcro da miséria, uma pústula aberta no tecido cicatrizado de uma cidade doente.
Ele caminha pela avenida do desassossego.
Nada há que lhe interesse.
Os outros mortos pouco dizem ou mostram.
Os bens que os consomem são privados.
Horrores e suplícios. Distintos, particulares.
Baratos, de incalculável valor para cada eu.
A haste cinza rompe o mundo na esquina da desesperança.
Fere o olho de quem a vê, ameaçando o céu azul e sem nuvens.
O Marco Zero demarca a falta de limites.
Nenhum sacrifício é o bastante. São todos, servidos sem dignidade ou trégua.
E ele entra no prédio. Mortos balançam a cabeça quando ele passa por eles.
O elevador range com sons que lembram línguas esquecidas.
O óleo cor de sangue, pinga do topo da caixa, que pulsa, pulsa, pulsa, imune aos corpos estranhos que o parasitam na viagem.
Desce em um dos últimos andares, tão ruim quanto os primeiros. Porém, mais perto do fim.
Lá, ele é devorado.
O processo é lento, de uma brutal gentileza.
Sangue, sêmen, suor, ar expirado, lágrimas, são colhidos, medidos, carregados por entre um estranho tagarelar que enche os andares superiores, que disparado pelas paredes sujas, cortam toda concentração e fuga.
Fora, aves batem contra a construção sem janelas. O calor escapa por tubos, acompanhado do cheiro de carniça. Antes da noite chegar, a cobertura é aberta, onde os trabalhadores mais antigos são servidos vivos para os diretores.
O que deles resta, é dado as pássaros que chicoteiam a estrutura em frenesi, servindo as massas que, ao redor do prédio, as recolhem quando caem.
Não chegou a hora dele ainda.
Se afasta do prédio negro de fuligem, com passos que, dentro de seu exaurido limite, são apressados.
Sabe que logo sairão do local também os mais novos, e com eles, talvez chegue caos e morte.
Ele não sabe o quão se importa, se é que se importa. Talvez seja hábito. Os pés se movem rápidos, não lhe pedem licença.
Ele vê o ponto.
Outros mortos o esperam.
Não há vendedores aqui. É outra rua.
Não resta dúvida, é aqui onde seus pés param.
É aqui onde deve aguardar.
Todos sabem disso.
E em fila, em meio aos restos dos que não aguentaram mais, aguardam.
Com a noite, outras figuras aladas.
Estes não discriminam entre os mortos e os vivos.
Mas não há luta.
Não há resistência.
Os que estão aí, não habitam o primeiro ou segundo andares das torres de trabalho.
Jovens chegam em breve.
Eles não entendem ainda o mundo.
Como bons arautos, os cães ladram sua vinda.
Alguns, agora massacrados, não melhores que os cães meio-mortos que os mordem os calcanhares.
E amedrontados, afugentam as aves.
Tem melhor sorte que os que estavam antes, um deles sem o olho, arrancado pelo predador, que não o distinguiu de outro tipo de morto.
O carro chega. É o mesmo, ou são todos idênticos, que importa?
Ele sobe, ou é empurrado. Não sabe ao certo.
A visão turva, a exaustão aguda, a noite sem luar, fazem do veículo o estômago de uma besta que, mesmo os levando para casa, lhes digere os sonhos.
June 12, 2013
Papel e Cortiça
Eram seis.
Cada uma das janelas, sem moldura ou candura, escancara o antigo presente.
A água batia em seu corpo, o sal que lhe contornava a boca, em animado sol de janeiro. Ela o abraçava enquanto, ignorando a dor, amor, se estendia da praia para o apartamento e dias a dentro.
E tudo passa, como o retrato amarelando o mundo que fora.
Só o coração comporta as inadequadas lembranças de amor que se desperdiçou no oceano da vida.
A segunda foto é menos complicada. O tempo se estendia mais, pra outros carnavais. A menina alta, nem tão alta ficou. Sorrisos que se tornaram, revestiram-se de outras verdade e muitas mentiras. O retrato, não retrata. Esconde.
E todos se perdem.
Por anos.
O casamento da menina é como um salto, passando por cima de fases, de retratos desiguais, numa ordem que tudo ignora, exceto o que se sente. Ele estava lá, espectador, alheio aos pontos e vírgulas que viria a sentir. A foto é estranha, um obelisco voyerista, relacionando sua presença ao que não protagoniza.
Segredos de uma polaroid.
A relação inquieta se explica nos contornos da cortiça, quando no passado seguinte, se entende a sátira maneira de rir do destino, quando o casal é outro. Ele assume a frente, a mão dela é sua, o coração dele não é de ninguém e felizes casaram, por um curto para sempre. Mas foi bom.
O menino, também, mesmo que tenha sido alvo do rancor encalacrado, de culpa despertencida, de coração sem olhos que busca transfigurar no pequeno homem, o destino.
Pai e filho, ambos, iguais: sem mãe.
Ninguém lhes julgaria tristes pelo sorriso.
Mesmo na última foto.
Ele, careca, se apoia no filho.
Debilitado, não culpa o tempo, só o corpo.
As ânsias, o medo, o contar das horas, as viagens, as máquinas, o frio que lhe sente nu a cada sessão, são todos, momentos vãos, ignorados pela luz da câmara.
Ela capta amor.
Ele, careca, se apoia no filho.
Que tirando foi, os outros retratos, guardando nas caixas, levando no carro e montando, uma a uma na nova casa, na nova cidade, no outro caminho.
Juntos, re-organizam o mundo.
Cada qual, com tachas para colocar.
Espaços vazios para preencher.
Como bom mapa, o mural tem fim, limites.
Já eles, ainda não sabem os seus.
May 26, 2013
Ensaio
Tap Tap Tap
Seus pés tocam o palco em passos ritmados e leves.
As pernas fortes e ainda assim, belas, a carregam por entre a obscuridade solitária do teatro.
Seu público são cadeiras vazias, camarotes nus, coxias estáticas.
Tap Tap Tap
Ela decidiu ir só.
O espetáculo, em alguns dias, lhe é caro.
Tap Tap Tap
Suas pernas, dessa vez, não falham.
O joelho não cede.
Tap Tap Tap
Cansada, ela para.
Cecília senta, sua, com as pernas par fora do palco.
Pensa sobre o ontem e o amanhã.
No quanto teve de pagar pela beleza, arte, êxito.
E o teatro, como ele se avolumou em sua vida, tão mais, após sua queda.
Ah... A queda.
Um movimento corriqueiro, um deslize.
Como um pássaro que erra o bater de asas, sacudiu-se no ar...
Pensou que nunca iria dançar de novo.
Não queria dançar de novo.
Mas o teatro, foi mais forte.
A chamou de volta, retirou-a do descanso.
Tap Tap Tap
É ele.
O rapaz dança divinamente.
Cecília sente seu coração bater mais forte, a cada toque dos pés dele no palco.
Há medo e desejo, que parece expandir e contrair seu peito.
Perfeito.
Tap Tap Tap
Ele não a vê.
Concentrado na coreografia, esquece do teatro.
Não a percebe, bebendo-o com os olhos.
Tap Tap Tap
O rapaz para.
Cecília se levanta e fica a seu lado.
Ele a ignora, volta a dançar.
Tap Tap Tap
Ela o segue como sombra.
Parte de si, emprestada ao teatro.
Beleza que se espelha na busca por uma perfeição, que um deles sabe, não se pode alcançar em vida.
Tap Tap ...
Ele para. Olha a sua volta.
Nada vê.
Se prepara para dançar novamente, ensaia um giro e...
O cheiro de rosas o paralisa.
Ela se descuidou.
Assustado, o rapaz se apressa em sair...
Tap Tap Tap Tap TAP Tap TAP Tap TAP TA...
Ele congela.
A mão dela, está sobre seu peito.
Afunda.
E está então sob seu peito.
Tap Tap Tap
Eles se movem.
Ele não respira.
Em seus olhares, se reconhecem.
E o fantasma, tímido, foge.
Para trás, fica Cecília.
Ela suspira.
Chora.
E, como da primeira vez que o viu, quando ele a aparou na queda, sente medo e alívio.
E ela sabe.
O teatro é mágico.
E assombrado.
E o espetáculo, oras, será maravilhoso.
Em toada
O ombro de Zé se levanta e abaixa. Ondas de um mar. Caravelas.
O bracos entram e saem. Nadando para a praia. Boa viagem.
O baque é forte e ressoa. É o baque que sangra. A mão, mão no tambor.
O suor é salgado. È água do mar. Que vai e volta.
O olhar de Zé. Cuspindo salgado com dente. O tambor batendo.
O coiso chega. Carregado do mar. Trazido no batuque sangrado.
Zé pega o revolver e olha o orixá no olho.
O pai de santo ainda grita, quando o revólver cospe firme.
Taram tantã. Taram tantã. Taram tantã.
O negrinho corre. O terreiro queima. É ódio, é vento.
O mote é medo. A batida quente. O corpo no chão se esborra.
O pé resvala na ladeira. O morro para trás vai ficando. O cheiro do mar permanece.
O cão nos seus joelhos morde. Zé sente fraqueza e dor. Se mija na ladeira estreita.
O orixá vem explodindo. Danado desrespeitado. Decidido, dando dor.
O negrinho se espreme no mundo. A sandália crua lhe pisa o peito. O ar se faz cimento.
Zé cospe na noite e grita: “Me liberta, maldita!”
O chão parece virar, de baque que ele leva nas pedras, mas livre fica das pernas.
Taram tantã. Taram tantã. Taram tantã.
Ele corre no ritmo do batuque. O deus que lhe socorre os pés, não é pior que o que lhe rasga os calcanhares. E tudo isso ele sabia, quando apostou o sangue para vingar seu irmão.
Quando ele chega no mar, o barco ainda não virou. As rochas parecem sustentar ele, em vez de quebrá-lo quando jogado pelas águas. Ainda pulando e correndo no ritmo do batuque, o negrinho se joga no ar, que o sacode e o faz rebolar.
Quase quebrado, no convés deslizante, ele liga o motor e o som, fazendo com o batuque seja escutado alto. O orixá o deixa passar. Indo então de encontro ao mar.
Taram tantã. Taram tantã. Taram tantã.
São dois dias antes.
Quatro dias depois.
- Ele matou Ricardinho, mãe!
- Meu filho, você vai se mexer com essa gente? Como?
- Não sei, mas vou, mãe.
Ele sai desengonçado. Amaldiçoado de dor. O irmão, morto sem dó, rolado ladeira sem enfim, sem olhos no fim do caminho.
A mãe do santo que ele procura, com quem já se deixou em loucura, o vê sem gosto ou amor, perdidos num passado sem cor.
A melodia do luto conquista, o que a lábia do lençol não sustenta e ela promete serviço, na guerra de que santos for!
Taram tantã.
Taram tantã.
Taram tantã.
Armado de pólvora e fé, o negrinho espera a maré, como santa mãe lhe instruiu.
Pecado maior não há, que dançar sem o passos dar, na ordem da África da rua.
Espera em um barco obrigado, animal lá sacrificado, para mais sangue fazer derramar.
Na noite chegada mansa, cantando a toada e fazendo dança, foi o pai de santo matar.
Taram tantã. Taram tantã. Taram tantã.
São sei dias antes.
Taram tantã.
A droga corrompe até a dança.
Taram tantã.
Que o terreiro dizia abençoar.
Taram tantã.
Ricardinho, irmão do negrinho, é avião por lá.
Obedece seu amor, o pai do lugar.
E cai como boi, pras piranha devorar.
Taram tantã. Taram tantã. Taram tantã.
As bala bate violenta, na carne penetra intenta, ao menino matar.
Uma dívida é feita então, pelo irmão, que há de se cobrar.
Taram tantã. Taram tantã. Taram tantã.
E na justiça do mundo, sagrada na noite, no fundo.
Sangrada nos irmãos de promessas, cobradas com juros de raiva. Foi.
20/25
Ele acorda.
No horário programado.
É um despertar calmo, induzido por drogas que o fazem despertar sem o choque do alarme.
Seu período de sono, é compatível com estudos que maximizam sua longevidade.
Jorge acorda para um mundo tranquilo.
- Bom dia. Deseja saber sua programação agora, ou após o desejum?
- Agora, por favor, Valéria.
- Há duas peças de teatro, trinta sessões de cinema, além de dois shows e uma apresentação circense. Especifico alguma?
- Algumas das peças, está marcada?
- Sim. “O Sonho de Narciso” começa em duas horas. Ainda há ingressos. Compro um?
- Reserve um, por favor. Pergunte a Cíntia se ela quer ir, por favor.
Seu café da manhã é preparado para suas necessidades, o que é evidente pelo seu corpo, que não exibe gordura em excesso, nem magreza. Ele escolheu não se exercitar muito, e mantém um corpo em forma, mas sem hipertrofia. Ele é feliz assim.
- Cíntia manda beijos e informa que, nesse horário, não é possível. Pergunta se pode se encontrar com o senhor a noite.
- Sim. Confirme. Compre, por favor, um ingresso. Ligue o carro para mim, por favor. Quero um banho quente. Vou vestir roupas no padrão salvo número cinco.
- Sim, senhor.
O Valet-E da casa obedece. Ela sente quando ele chega ao chuveiro e liga a água pouco antes dele entrar. Ela marca para os requisitos de AR de Jorge, apenas as roupas que ele deseja, efetivamente deixando as outras invisíveis para ele. Ele se veste e quando chega ao carro, está pronto para sair.
- O escritório informa que o senhor precisa de dois ciclos completos hoje para cumprir sua cota. Deseja programá-los para após o teatro?
- Sim, Valéria, por favor.
O carro leva Jorge sem grandes incidentes. Há um atraso em uma das vias, mas o sistema de navegação lhe dá informações atualizadas e lhe sugere rotas melhores e mais seguras. Ele chega e desce em frente do teatro. O sistema de estacionamento automatizado do local, guia o carro para uma vaga próxima.
No teatro, Jorge recebe convites, humanos e eletrônicos, baseados em seu profile, definidos como não invasivos pelo seu setup de AR. Ele entra, sem interferências, tendo sido checado desde que estacionou o carro.
A peça demora o tempo programa, 1h15min. É maravilhosa. O usa de hologramas e AR transporta o público para a cena. Narciso, muitas vezes, se torna, para cada espectador, ele mesmo. É uma catarse plena, de se ver, de fato, na história. Jorge chora, refletindo sobre sua vida, suas escolhas. Mas feliz e pensando em como ser uma pessoa ainda melhor, menos egoísta.
Na saída do teatro, o caminho é marcado em sua visão para que chegue ao carro. Ele abre a seu toque, já o tendo identificado a distância e conferindo sua identidade biometricamente. Ele resolve cochilar até o trabalho e deixa que o carro o leve em piloto-automático, com ar ligado e vidros com maior proteção contra luz.
Na fábrica, ele vai até seu grupo de trabalho, após vestir as roupas indicadas. Ele sempre sonhou em trabalhar ali e o faz a três anos. Ele entra na linha de montagem e começa a fazer pontos. A AR faz com que ele se veja em outro lugar, combatendo hordas de monstros, curando companheiros, enquanto realiza sua tarefa. Seu personagem virtual evolui, e com os pontos do dia, pode se beneficiar na empresa, dentro do jogo, ou mesmo, adicionar um bônus em dinheiro a seu salário pré-fixado. Ele fica um pouco além do horário da cota, mas é obrigado a sair trinta minutos depois. Há mais gente na fila de espera que deseja trabalhar.
Ele vai se encontrar com Cíntia na em Boa Viagem. Ela mandou instruções para ele através de seu Valet-E.
A praia, limpa e organizada, é dividida em setores. Ele procura um com comidas típicas e um rapaz o atende assim que desce do carro. Trocam IDs, ele informa que vai ser acompanhado. O rapaz o guia até um par de cadeiras onde olha o pôr-do-sol. Não precisava ser guiado até ali, uma linha de AR podia fazer isso, mas ele gosta do toque personalizado. E o comitê de turismo sabe disso, está nos seus bancos de dados.
Cíntia chega cinco minutos depois. Curte o momento com ele, sem se falar, apenas com emoticons, que, com o movimento de seus olhos e dedos, envia para ele que vê, no seu AR. Eles sorriem. Conversam sobre seus trabalhos, sobre leituras, filmes. Decidem ir para casa de Jorge, onde fazem amor e dormem.
Ele acorda.
O alarme toca com violência. O som, ele sabe, está dentro de sua cabeça, mas o mundo parece virado de cabeça pro ar.
Alguém hackeou seu AR enquanto invadiu a casa. A terceira invasão essa semana.
Ele pega a pistola, desliga o AR e salta para o chão. Embaixo da cama, um pequeno visor com um planta da casa, identificando o local dos invasores. O circuito é simples, não hackeável.
Jorge está acostumado e não perde tempo. Mata um sem que este saque o revólver, e manda mais dois projéteis na direção do outro.
- Pandora, ECM!
A casa obedece. O segundo assaltando deve estar sendo, por sua vez, assaltado. Seu AR sendo usado contra ele pela Slave-E de Jorge. O invasor perde apenas segundos para se ajustar, mas são os segundos que Jorge precisa para atravessar o corredor e matá-lo. Ele se apressa em copiar os IDs de ambos, comunicar a polícia que os matou em legítima defesa. Não deseja que um mandato seja expedito contra ele.
- Pandora, os IDs foram confirmados?
- Sim, senhor.
- O prédio está seguro?
- Há conflitos no terceiro e quinto andar.
- Ótimo. Nada sério então. Pandora, quanto tempo para meu turno?
- Ele começa em 27min.
- Merda. Tem água?
- Ainda em racionamento.
- Merda. Ônibus, algum que chegue logo?
- O itinerário foi hackeado. O planejamento é que um passe em 6min, mas não sei se lotado.
- Está bem, vou de carro.
- Tem certeza, senhor?
- Sim, tenho. Me avise sobre intrusos na garagem. Posso ligar o AR novamente?
- Não identifico mais interferências. Faço uma chamado para remoção dos corpos?
- Sim, mas mande recado para o zelador vir pegar aqui. O caminhão de lixo demorou muito da última fez.
- Bem observado, senhor.
Jorge entra no carro. Tem pouco combustível, não pode pagar para encher o tanque. Teve de comprar munição. Ele sai rápido, e seu carro segue uma rota de pequenos impulsos de velocidade, intercalados com minutes de engarrafamento. Há discussão nas ruas, algumas tentativas de assalto e roubo de carros. Mantém a arma sobre o colo, pronto para mais problemas.
Chega atrasado na fábrica. Sabe que pode perder seu direito de sábado, mas trabalha extra para garantir o descanso. O trabalho é monótono, cansativo. Há uma pequena pausa para o almoço, que ele come com pressa, evitando pensar no que comeu. Seu número é logo chamado, seu AR inundado pelo alerta amarelo de trabalho. Pouco depois de voltar a sua posição, é inundado de novo, dessa vez, o alerta é vermelho. Há uma tentativa de saquear a fábrica.
Jorge é rápido em aproveitar a oportunidade. Defender a fábrica é opcional, mas garante bônus. Ele mata dois saqueadores, garante seu sábado. E quem sabe, mais balas. Ele vai saber a noite, se sobreviver a ela.
Ele sobrevive, mas exausto. Não quis arriscar, as vezes os bônus não são computados e ficou até tarde no trabalho. Quando chega em casa, os corpos foram removidos, mas o apartamento ainda não foi limpo. Falta água.
Cansado, sujo, deita para dormir assim mesmo. Ele sabe, porém, que o dia ainda não acabou.
- Cidadão Jorge 34B57JKM4.
- Confirmo.
- O cidadão Jorge 34B57JKM4 eliminou quatro pessoas hoje?
- Confirmo.
- O cidadão Jorge 34B57JKM4 está ferido? Necessita de cuidados médicos?
- Não.
- O cidadão Jorge 34B57JKM4, deseja munição ou bônus em servições médicos?
- Munição.
- O cidadão Jorge 34B57JKM4 prefere receber pela manhã, ou nos próximos 45min., mediante redução da munição?
- Próximos 45 minutos.
- O Governo de Pernambuco e Secretaria de Ação Social agradece a atenção do cidadão Jorge 34B57JKM4. Sua munição chegará em breve. Pedimos que esteja alerta quando for entregue.
- Confirmo.
Jorge espera, deitado. Quando é avido pelo AR que a equipe chega, se arrasta cansado até a porta. Recebe a munição para a arma magnética e fecha a porta, indo, finalmente, dormir.
Ele acorda.
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