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August 24, 2024

Folclores

 André continua morto. Mas infelizmente, ainda paga aluguel. É a única razão para manter um celular ao seu lado, mesmo que longe o suficiente para fingir que é como os antigos telefones, algo que ele poderia se distanciar e ignorar. 

Antes de ver quem ligou para ele de madrugada, André levanta, toma um banho frio, faz um enxágue bucal com algo que não seja listerine (muito caro) e prepara um ovo pro café da manhã (com apenas sal, manteiga está pela hora da morte (e ele sabe, ele já morreu)). 

O gato mia da varanda do apartamento, oferecendo a ele uma comida mais consistente, mas André já assumiu que ratos, pelo menos do Recife Antigo, não devem ter sido aprovados pela vigilância sanitária. Ele faz um sinal de agradecimento, come o ovo e pega o celular para ir ao jardim ver o que o gato quer. Na sua pata esquerda está amarrado um pedaço de papel, mas ele verifica o celular antes de ler, decidindo ordenar as más notícias pela sua ordem de importância. 

"Olá, Sr. André, tudo bem? Meu nome é Carolina, eu sou assistente de Paulo Miguel Netto, da Netto Construtora. Ele gostaria de conversar pessoalmente com o senhor e entrevistá-lo a respeito de um serviço."

“E talvez”, pensa André, “nem tenha sido uma má notícia no fim das contas”. 

Junto com a mensagem, um endereço. "Ela mandou a mensagem depois da meia-noite? Acho que vou poder cobrar caro", pensou André, pegando o gato-pergaminho e o abrindo: "Precisamos conversar. Padaria da sua rua. Vou estar vestindo uma mulher de vestido verde e tênis vermelhos". 

Depois de ler a mensagem, André pegou sua chaves, canetas, um caderno de bolso, colocou o celular em um bolso escondido na parte interior da calça, se equipou com a pochet pega-ladrão, saiu do apartamento, fechando a porta e o cadeado do lado de fora. 

Chegou a padaria após alguns minutos de massacre solar, desapontado com os vereadores que não colocaram ainda ar-condicionado na cidade. Logo viu que uma mulher com a descrição enviada pelo Cavaleiro, estava lá. Ele não a reconhece, mas se aproxima e senta-se na mesma mesa. 

- Bom dia, Cavaleiro.

  A mulher termina de beber o café à sua frente e olha atentamente para André. Parece perdida por alguns momentos. Seu batom está borrado e olhos marejados. Por um momento, atira seu braço na direção de André e parecia que ia gritar, mas como que agarrada por uma imensa força invisível, congela e relaxa. 

- Desculpe, André. Ela é nova.  

- Eu compreendo, Cavaleiro. O que houve? 

- Vi algo nas estrelas que me incomodou. Era sobre você. Achei melhor lhe alertar pessoalmente, André. Pois vi também uma oportunidade. 

- Eu sei que sem enigmas você não conseguiria sequer proferir uma frase, Cavaleiro, mas nem todo mundo vive de sonhos e tenho um cliente para ver. 

A velha múmia o olha com fúria por trás dos olhos da mulher. André teria medo se já não estivesse morto. 

- Não irei me demorar, Fantasma. 

A mulher abre uma daquelas bolsas ecológicas de supermercado e mostra pra André o conteúdo: oito vasos canópicos. André arregalou os olhos pensando no que tudo isso implicava e antes de abrir a boca, o Cavaleiro continuou: 

- Não escrevi instruções, terá de pedir isso aos gatos. Ainda sabe como? 

- Não me ofenda! 

- Bom. Ainda há esperança. Em breve você irá se encontrar com vilões da pior estirpe! Ladrões de tumbas! 

- Figurativamente...?    

- Antes fosse! Ouça enquanto caminha nas ruas, entenderá o que digo. Leve os vasos. É uma oportunidade, André! 

- Está bem, não se agite. Não quero ela lhe escapando e fazendo um escândalo aqui. Quem é essa, afinal?  

- Matava gatos na vizinhança.

- Entendo. E obrigado, Cavaleiro. Eu assumo que, nos vasos...?  

- Meus cavalos. Uma oportunidade, André. Por duas vezes, anulará o mal e fará o bem. Quem sabe, seu coração se torna mais leve? 

- Duvido. Ando comendo muito processado. E farei o possível, amigo. Tenho saudades deles. Até mais ver. 

- André! - disse a mulher, se virando pra ele - Não esqueça de levar uma espada! 

O cavaleiro continuou a comer a refeição pela boca da mulher, que havia sido interrompida pela visita de André. "Velho maluco", pensou André, "eu não tenho uma espada!". 

Ele seguiu até Boa Viagem, chegando ao prédio da construtora, quase ao meio dia. A demora não foi culpa do ônibus, do motorista, nem do engenheiro de trânsito, sequer do prefeito, e muito menos do absurdo número de carros por habitante da cidade, que uma dia teria de iniciar um financiamento coletivo para trazer o próprio Cerberus para Recife, afinal, as coisas ainda não pareciam ser claras o suficiente, né? 

O saguão do prédio era acolhedor, diferente do que André esperava. Em geral, esses prédios anti-sequestro têm o mesmo calor humano que tubarões. Não teve problemas em entrar e logo estava no último andar. E sequer esperou muito. 

Carolina o recepcionou e o apresentou a Paulo Miguel Netto. O empresário sorriu de forma sincera durante toda a reunião, mas para André, era claro que tinha vários esqueletos no armário. Bem, não necessariamente esqueletos, mas estava acompanhado de vários fantasmas. Isso não era comum, especialmente como se comportavam. Eles olhavam André com curiosidade, mas não falaram nada durante toda a reunião, o que era… Peculiar. Não pareciam também com raiva, mas André checou seus bolsos e só com o tato, percebeu a cabeça de alho que carregava contra mal olhado, ressequida. Depois disso, fez tudo para apressar sua saída dali. 

O caso, disse o empresário e a assistente, era simples: a construção de um novo shopping, O Recife Novo, fora interrompida. Máquinas pareciam quebrar sem motivo, os trabalhadores relataram pesadelos e visões, animais atacavam os engenheiros (um foi mordido por um timbu e um outro, açoitado por pombos até sair do local), e até o clima no local imediato, parecia pior que o do resto da cidade. O empresário sangrava dinheiro com essa demora e isso lhe era intolerável.   

Eles lhe deram um contato, o do médium que havia lhe indicado ao empresário, mas seu nome não era um que André recordava ter conhecido: Migueli Moura. Ele mandou mensagem para Moura e combinaram de se encontrar durante a noite, na construção. Queria ver o local com os próprios olhos e entender o que estava acontecendo. 

Saiu feliz e quase cantarolando um “Friday, I'm in love”, pois com o adiantamento do serviço, que ainda não era muito claro, talvez um exorcismo, o morto-vivo foi até outra padaria para jantar. Não iria esbanjar, nunca se sabe o dia de amanhã, mas saber que vários amanhãs estavam seguros lhe deixava mais tranquilo. Procurou um estabelecimento  mais adequado aos seus padrões do que a de um príncipe egípcio, e pediu um café com leite e um sanduíche. 

Antes de ir para o encontro, ainda com a pesada sacola, lembrou da recomendação do egípcio e finalmente entendeu o que ele quis dizer. Procurou pelas ruas e prédios, pediu licença a um porteiro e se armou. 

Mais tarde, quando desceu do uber (agora tinha algum dinheiro) na entrada para a área de construção, um caminho mal iluminado de barro, um declive, André logo foi cercado por vários gatos. E ele odiava o que tinha de fazer em seguida, pois iria arruinar a sua roupa, mas deitou no chão e deixou os gatos lhe cobrirem, comendo fios do seu cabelo, esfregando seus focinhos nas suas mãos e com suas garras, escrevendo instruções sobre ele, como quem amassa pão. Depois de comungarem com o fantasma, os gatos se esconderam nas trevas enquanto ele descia para a área onde estava a construção, com a sacola de compras e a roupa, agora, suja de terra e rasgada. Super na moda. 

Não havia seguranças na parte de baixo. André não gostou disso. A despeito das circunstâncias, havia maquinário, equipamento e materiais, que poderiam ser roubados. Foram instaladas câmeras, e eram evidentes - além de haverem placas lá fora indicando a vigilância do local, caso essas passassem despercebidas. Mas só as câmeras, de fato, não afasta ninguém sem pelo menos um segurança.  

E ele começou a ter companhia. Não eram muitos, mas eram velhos, mais do que isso, antigos. Ele gesticulou para que o pequeno grupo se aproximasse, mas falavam uma língua que não conhecia. “Indígenas?”, ele se perguntou. Era difícil enxergar eles, suas formas eram inconstantes e indefinidas. Haviam morrido a muito tempo. Tentou sinalizar que não iria lhes fazer mal, mas não sabia com certeza se entenderam. Haviam entre eles alguns mais fortes, mas estes estavam desconfiados apesar de serem, sim, amedrontadores. Sombras que exalavam uma força palpável e… Poltergáistica. 

André decidiu prosseguir, aparentemente eles não o viam como uma ameaça e Moura devia estar logo adiante. Um gerador fornecia luz e aqui e acolá havia lâmpadas acesas. Uma espécie de barracão estava acesso. Acendeu um cigarro de fumo e deu duas tragadas que o fizeram tossir e continuou a caminhar, agora naquela direção. 

Um homem alto, magro, lhe abriu a porta quando se aproximou do barracão. Olhou para ele espantado. 

- André? - perguntou o homem, com um tom de incredulidade.

- Sim, eu mesmo. Eu escorreguei, caí e rolei um pouco o caminho abaixo, mas estou bem, não se preocupe.

- Tem certeza? Mas entre, e puxe uma cadeira. 

André entrou e fez exatamente isso. O Barracão era bem iluminado por dentro e havia mais duas portas dentro dele. De uma delas, veio uma sensação que lhe lembrou Netto. Ele levou o cigarro novamente a boca e tragou novamente, tossindo. Ele realmente odiava fumar.   

- Obrigado. Imagino que você seja Moura? 

- Sim, sim! André, você não tem ideia do prazer que tenho em lhe conhecer! - disse o homem, sentado em outra cadeira, do outro lado da pequena mesa. O espaço não era grande, e havia ferramentas e material de construção por todo o lado, no chão, encostadas nas paredes ou em estantes improvisadas.

- Como assim? 

- Eu sou uma espécie de connoisseur a seu respeito. - O homem sorria. Parecia ser um fã genuíno. 

- Connoisseur? - André ainda estava tentando entender o que seria um especialista em si mesmo e não gostava da ideia. Sempre fora reservado e as atividades de seu grupo, assim pensava, secretas, mesmo que estas exigissem contato com pessoas fora dele e uma boca a boca em um submundo que lida com o oculto. 

- Sim, eu sou um especialista em se tratando de você!

- Eu sei o que é um connoisseur! - Disse André irritado. “Diabos, nem uso instagram, eu sei ler!”, pensou para si mesmo. 

- Perdão, André! Não quis ofender! - O homem chegou a se levantar por um momento, talvez com medo que André fizesse o mesmo ou fosse embora. 

- Não, está tudo bem. Pode me explicar o que está acontecendo aqui? 

- Claro, sem dúvida! 

Moura, entre explicações e um olhar para André que o fazia sentir-se como um peru de natal antes da ceia, detalhou o que sabia: haviam escavado um cemitério indígena. De fato, não um “cemitério”, mas um local de batalha entre duas tribos, em que os mortos foram tantos, que não sobrou quem recolhe-se os corpos e todos ficaram ali para serem comidos por animais e apodrecer. Coisa que não faz diferença para muitos mortos, mas estes ficaram furiosos! E o desrespeito de ter o que ainda restava deles sendo despojado, até pulverizado por máquinas, em nada melhorou a relação da empreiteira com eles.  

Enquanto Moura explicava, André pensava em toda a situação. Algumas coisas não faziam ainda sentido para ele. Esperava encontrar um grande perigo, mas Moura, ao contrário, era um “fã”, em suas próprias palavras. “Será que o egípcio, em sua ânsia por ver novamente seus cavalos, teria se precipitado?“, pensou. Não seria a primeira vez, mas havia algo errado. Ele sabia disso desde a visita ao escritório. Seria bom se o egípicio pudesse vir com ele, mas o ritual que iria realizar, atrairia a atenção sobrenatural a qual a velha múmia realmente não queria que estivesse sobre si. 

Ele não achava que pudesse culpar o velho sacerdote. Talvez, pensou, essa seja a nossa grande vulnerabilidade, quanto mais vivemos mais temos medo de morrer. Afinal, os jovens têm potencial, mas nós temos História. E quanto mais essa se acumula, sabemos que quando finalmente for nosso fim, teremos de encarar questões desagradáveis: “será que algo valeu a pena?”, “será que fez sentindo tanta luta e esforço para, como qualquer outro, virar pó ou ser dissolvido no ar, evaporado como ordinário líquido ou extinguir qual simples vela?”... 

E André sentiu, no limite do reconhecível, algo que percebeu antes. Tão tênue que teve dificuldade de reconhecer mesmo em memória recente. Um cheiro, um mal estar, nada excepcional, mas que lhe causava o sentimento de estranheza que teve no escritório da Netto Construtora. Sem pensar muito, enquanto Moura esperava que ele dissesse algo, tirou de seu bolso mais fumo e começou a enrolar em um cigarro. 

O outro homem não gostou disso. Ficou alerta e um pouco do verniz de civilidade esmaeceu.  

- O que você está tentando fazer, André? 

- O que você acha? Eu não sei quem você é, mas eu sei que não se trata apenas de tirar os fantasmas daqui, exorcizar eles ou ajudar eles a encontrarem seus caminhos. Tem algo mais e nisso tudo e está atrás daquela porta. 

Nisso, a porta abriu, e fantasmas saíram, cercando a assistente de Paulo do empresário. 

-  Carolina?

- Olá de novo, André. 

Ela faz um gesto rápido com a mão e André logo está cercado de fantasmas que o seguram pelos braços. 

- O que é isso? O que querem comigo? - Enquanto grita e se debate, André chama pelos espíritos que passou a invocar na última hora, espíritos de vício, sedentos, espíritos confusos e furiosos. A sua volta começa a se criar um pandemônio. 

André não sabe como Carolina controlou os espíritos e o que quer com ele. Mas pra ele, está claro quem são os vilões que o Cavalo lhe alertou a respeito. Assim que consegue se desvencilhar, ele se atira no chão e tenta empurrar a mesa contra Carolina e Moura. A luta entre os fantasmas se intensifica, e ele se vê desviando de objetos voando pela salva e fora dela, atingindo a ele e também a Carolina e Moura. 

-  Você é louco, você vai nos matar!

- Talvez, mas o que vocês queriam comigo não parecia ser melhor, Moura!

- Moura, vamos embora daqui! - gritou Carolina, tentando empurrar a mesa, que André agora usava para manter eles presos no barracão.    

O pandemônio começou a diminuir. Os fantasmas que ele chamou queimaram rapidamente a sua raiva nos gestos de fúria que trouxe caos ao barracão. Mas Carolina também perdeu fantasmas, talvez ele conseguisse resistir a ponto de saber o que estava acontecendo. 

- Afinal, o que queriam comigo, Moura? 

- Não é óbvio, André? Você. Não queríamos, ainda queremos. E seus fantasmas se foram, não? Não tenho suas habilidades, mas sinto que a presença se foi, quase que completa. Vamos comer você e nos tornar imortais como você! 

“Necromancia, canibalismo? Acho que foi bingo.” - Pensou André começando a recitar um canto egípcio e tirando da bolsa a espada de são jorge. Os fantasmas logo se afastaram dele ao ver as folhas, o que também lhe custou algo. Afinal, ele não era apenas de carne e ossos, mas também de ectoplasma. 

- Pare ele agora, Moura, antes que seja tarde dem… - A boca de Carolina permaneceu aberta, mas o som foi instantaneamente interrompido, enquanto André finalmente se levantava e continuava a cantar na língua que os gatos lhe implantaram na mente.

Os fantasmas ficaram confusos sem Carolina para lhes guiar, mas ficaram no local até André, quando pode pausar o canto, os espantou com a folha de espada de são jorge, a jogando no chão assim que eles se foram. 

Posicionou então Moura e Carolina no chão, que não lhe resistiram e colocou os vasos canópicos próximos a eles. Retirou enquanto pronunciava encantamentos, os fígados, pulmões, estômagos e intestinos dos cavalos, Manoel e Natália, ao lado que seriam seus novos recipientes.   

André sentia suas próprias forças sendo usadas no ritual e sua própria foma fluir, perdendo um pouco de sua qualidade humana, se indefinindo. Não era à toa que o egípcio temia o ritual. Ele sentia a fome do local onde os cavalos estavam e a resistência em lhes deixar partir, para voltar para o mundo material. Ele sentia que lutava contra bestas de lendas que muito precediam até mesmo os homens, mas não podia fraquejar ou seria, ele mesmo, sugado para esse reino de morte, onde todo dia seria devorado. 

Quase ao amanhecer, terminou o ritual. Moura e Carolina agora se levantavam como Natália e Manoel, mortos anos atrás pelo Papa Figo. Confusos, mas agradecidos, levantaram sem esforço o corpo de André, que parecia querer de liquefazer e escapar pelas suas mãos. 

- Obrigado, André - Disse Manoel. Natália, chorava em silêncio, ainda mal acreditando que fora chamada de volta do inferno, mas lhe tomava as mãos e deixava a carne, quase líquida, com carinho.  - Ainda mora no mesmo lugar? - Perguntou Manoel, que teve com resposta de André um débil balançar de cabeça. - Entendi que sim - disse Manoel, sorrindo com a boca de Moura, que a cada segundo, passa a se assemelhar a sua. 

Saindo do barracão, dois gatos passaram a acompanhar de perto o grupo. E André nesse momento, parecia não notar, mas os fantasmas de antes, já não estavam lá. Quem sabe, ele teria outro dia a oportunidade de os ajudar a achar seus próprios caminhos, e com sorte, fazendo isso, poderia garantir um ou dois meses de aluguel.

July 22, 2013

C


- Trouxe o Cilantro?
- Cilantro? Tá dando o cu agora, é? Tá feito, deixa eu fazer as aspas com os dedos pra aviadar mais: "Chef"? Tá falando de quê, porra?
- Coentro... Você trouxe o coentro?
- Trouxe, porra. Pergunta idiota da porra.
- Tá bom. Coloca ali, olha. Eu gosto de manter a cozinha organizada.
- Por que você não coloca tudo na mesa? É enorme.
- E se ela derrubar os ingredientes? Não. Não quero correr o risco.
- Sim, peguei as barras de prata com seu amigo.
- Crômio.
- Crômio, prata... É tudo metal prateado.
- Confie em mim, são bem diferentes. Você pode ir ver se ela acordou?
- Ela tá gritando? Calígula tá latindo? Então não acordou.
- Coriander, vai ver, vai. Eu preciso me concentrar e começar a rodar o filme.
- Então por que não disse logo que era isso, porra? Você tá ficando cada vez pior, hein? Ei, tu vai comer isso?
- As bolachas? Não, pode levar. Se ela tiver acordado, tem comida pra ela, preparei e guardei na geladeira. Não dê bolacha pra ela.
- Tá bom.

O homem que fica na sala, imita gestos que vê na televisão. Imita a si mesmo, filmado em chroma key pela câmera, alguns minutos antes do seu parceiro chegar. Ele sorri, sabe que vai dar tudo certo. Tira logo o sorriso do rosto, com medo de errar algo, tão perfeccionista que é.
Respira fundo, se concentra na receita. Tem vários livros a sua frente, abertos sobre uma segunda mesa, onde também separou com grande cuidado os ingredientes.
Ele sente muita fome. Fica tentado a beliscar alguma coisa, mas sabe da importância do jejum. Divaga, lendo os livros que já estão marcados pelos seus dedos e mais uma dúzia de gerações de digitais. Quem começou tudo? Seu avô fez a mesma indagação em seu diário pessoal, o mesmo onde ele tentava aprimorar a receita, achar ingredientes tropicais que substituíssem os europeus, assim como um antepassado substituíra os ingredientes da África, e outro do Oriente Médio, e mais outro das estepes, e onde começou tudo? Ele não sabia. Mas sabia que devia seguir passo-a-passo, com um esmero de fazer inveja a um chef de Le Cordon Bleu.

Na cozinha, verificou os camarões, o capeletti. O molho, que tinha de ser agridoce. Ele já estava com água na boca. Girando a colher e a comida, ficava entre pensamentos e o relógio. Ia servir logo, só mais um pouco de paciência. Pensou na menina, um doce. Como um caleidoscópio, se viu lembrando da vigília, do rapto na saída do hospital, do choro, de como a amordaçaram e prenderam na casa afastada do centro da cidade, dos cinco dias seguintes, em que preparou ela para hoje. Ela vai sofrer muito, ele sabe disso. Ele tem experiência com isso. Não é a primeira, e ele espera, não será a última.

- Não sei como, mas ela comeu aquilo que você preparou.
- Fred, sua gentileza é impressionante.
- De nada. Você ligou pro pessoal?
- Não posso. Você sabe disso.
- Está bem, vou ligar.

As pessoas chegam meia hora depois. Já estavam esperando. Há gente de todo o tipo, mas o grupo é pequeno. Eles se acomodam em um quarto lateral que se abre para a sala, com a porta aberta. Ocupam cadeiras que Fred dispôs de maneira a verem a mesa e a televisão. Fred sai de novo da casa, e de dentro, se ouve sua voz falando com Calígula, acalmando o cão. Não demora e sua voz pode ser ouvida novamente, dessa vez, tentando acalmar a menina e logo depois, grita:
- Nicolau! To chegando!

Nicolau deixa os livros de lado e pega o giz. Espera que Fred entre na sala com o saco onde carrega a garota. O saco é feito de palha, como mandam os livros. Ele coloca a menina na mesa, retirando o saco como uma casca e amarrando seus braços e pernas. Nicolau não está esperando, mas ativo, riscando as estradas da sala com giz branco, tanto portas como janelas, isolando também com uma fina camada de giz, também os visitantes, meros e ansiosos espectadores.

Nicolau lava as mãos em uma bacia, olha para menina, pega uma faca e começa a cortar. Ela desmaia após os primeiros gritos, com a parte aberta, acima de seu peito. O sangue escorre pela madeira e Fred apara com bacias de metal, indo então para a cozinha conjugada e pegando as panelas ainda quentes. O cheiro do camarão se mistura ao ferro quando Fred derrama o sangue e a comida em um velho prato fundo, feito de crômio, que eles vão substituir em breve por um novo.

- Você está bem?
- Estou, Fred, é só cansaço.

Nicolau sua, abrindo ainda caminho pelo corpo da menina, expondo o osso da clavícula. Com cuidado, extrai um pedaço e o coloca no prato. A câmera filma tudo. Seu coração bate como um também de maracatu, um forte e grave som, que ele sente ecoando na sala. O jantar começa. Ele pega talheres e sente junto a mesa, onde a menina ainda agoniza. Na televisão, começa a surgir uma sombra.

- Cuma?
- É, é ela. Vamos, me ajude aqui.

Fred vai para o laptop e começa a aplicar na imagem uma outra. Nicolau pega o prato e oferece para o ar. Na televisão, a sombra segura o prato, os talheres, senta e começa a comer. Os espectadores cochicham, alguns gemem. Na justaposição, uma animação se comunica com a sombra, lhe ajuda a comer. O prato, a frente de Nicolau, vai se esvaziando. Quando termina, a sombra faz menção de levantar-se, mas Nicolau aponta para a menina. Cuma balança a cabeça. Ele insiste. A sombra se levanta. Nicolau mostra a televisão e a sombra vê a si mesmo, presa. Ela solta um grito, um choro estridente. Nicolau aponta novamente para a menina e Cuma se deita sobre ela. No quarto ao lado, os espectadores param de respirar em uníssono, aguardando. O corpo da menina se refaz, lento, a carne é reposta como um tecido que se costura, ela respira, seu coração bate. A sombra se levanta e aponta para a tela. Fred faz sumir as grades e Cuma vai com elas.

A menina olha assustada, apavorada, sangue ainda suja seu corpo, rosto, a cabeça sem cabelos. Mas há um reconhecimento ao lado do medo, um entendimento e ela não grita quando Fred a retira da mesa e a leva com cuidado para fora da casa. Nicolau chora, de exaustão e alegria e se volta para os espectadores. Eles também choram, alguns, ainda com medo.

- Foi isso que vocês fizeram ao meu menino?
Um deles pergunta, ainda sem saber o que sentir.
- Foi. Funciona.
- Eu sei.
E o pai abraça Nicolau, chorando.
- Os médicos não sabem o que dizer, ele está como novo, como se nunca tivesse adoecido.
- Fico feliz por isso. Me desculpem, mas preciso descansar.

Alguns ainda conversam um pouco e Fred os ajuda a ir embora. A experiência é brutal para ambos, sempre é. Assim como é para as crianças. Um dano colateral, mas que ambos julgam necessário no cumprimento de suas tradições. Nicolau sempre sente mais que Fred. Apesar da insistência de seu pai, ele foi teimoso. Demorou demais. De Débora, só lhe restam as fotos, e a lembrança do calor de seu sorriso.

December 05, 2012

Faces da Cidade


Recife, 2012
Isso é raro.
A casa, ainda ardendo, não parece mais quente que a noite da cidade.
É a máscara que a torna cínica?
As vezes.
Ela espera por algumas horas.
A polícia e bombeiros, deixaram barreiras e avisos.
Nada disso importa.
A máscara de ratazana se ajusta com perfeição.
Ela percorre os escombros ainda quentes, com pequenos e curiosos olhos negros.
É a primeira máscara que fez só.
Poderia estar orgulhosa agora, mas é uma rata.
Não demora e acha o que procura: escamas.
Ela o havia seguido, espiado, farejado, e algumas vezes, escutado suas conversas.
O conhecia bem, por quaisquer de seus nomes...
O homem-dragão, o lagarto, a serpente de fogo... Mas seu nome mais conhecido, Boi Tá-Tá, foi dado pelos índios.
Se fosse humana, teria chorado.
Tinha acreditado na mudança.
No monstro que parecia ser homem.
O corpo carbonizado, do pequeno bebê, diz outra coisa.
A mulher, ela não vê.
Sai dos restos e segue pela rua, tentando achar seu rastro.
Mas há gatos.
E ela a volta a ser mulher.
Que teme.
Pensa em ligar para André, mas desiste.
"Algumas covas, temos de cavar sozinhos", pensa e se move entre as casas e prédios velhos da Rua Velha.

De máscara em máscara, ela se ajusta a cidade.
E assim, com tantas mudanças, percebe uma lacuna.
Uma máscara que falta. Uma máscara de mulher.
Aline olha sua bolsa de novo. Não esta lá.
Pensa. Caminha. Camila.
Sim, Camila. É o nome da máscara. Mas onde está?
Rápida, muda de máscaras no Cais de Santa Rita, em meio aos escombros ao lado do rio, tenta recompor a memória.
Ela entende. De lábios do cão que se torna, um gemido humano.
No cheiro que ainda carrega na bolsa de máscaras, nas cinzas, da morte, horror, nadaque sobra e vêopequeno, nada, ela, confusatreme, treme, cai, fica.
O que ela fez? Ela se desespera e tenta organizar as ideias. Se torna gata.
Volta ao prédio incendiado.
Era seu filho.
Dela e daquilo.
Como? Como?
Camila.
Que ela criou para espiar o Boitatá.
E que se encontrou com ele. E, mesmo com medo, se envolveu.
E viveu junto.
E amou. E teve com ele, teve um filho.
Mas o que houve?
Precisava da máscara.
Precisava entender.
O gato vira sombra, que vira fio, que vira vento, que vira mosca, que vira homem, que vira morcego, que vira mosquito, que vira Aline, no traçar de um desejo de reaprender o que fora, ela cai em si...
Camila era máscara.
E friamente, a usou e é só isso.
Onde ela estava com a cabeça?
Ela se indaga e se afoba, triste, com os caminhos que trilha.
Teve a criança. A máscara teve. Aline, não.
E em sua rejeição, ao sentimento, escondeu-se de si.
E destruiu Camila.

Que fez o monstro então? Matou o menino? O encontrou abandonado e morto?
Quem é o monstro? O que abandona? O que finge? O que não perdoa?
Aline desiste de procurar a serpente que se fez homem.
Ela não tem respostas e as que parece ter, a enojam.
Quanto deu de si em nome de uma vingança?
O que deu de si, se não o tempo de uma farsa?
Camila era ela?
Ela não quer pensar.

Vai pra Várzea.
Ela sabe, hoje, ele está no cemitério.
Tão próprio a um homem morto, como discutir com ele a respeito?
Mas não é dos hábitos de André que ela tem de falar hoje.
Sim, dos seus. Ela confia nele, sabe que a vai ouvir.
Ela o ama. Ele, a ela.
Com ele, ela não precisa usar máscaras.

September 16, 2012

Com uma perna fincada no passado

Recife, antes de Recife ser

Ele lavou a boca com a água do olho d´água.
E o olho d´água olhou para ele, sedento. Mas sabia, não era a hora. E deixava o homem tirar o gosto de homem da boca, sem o atrapalhar, apenas bebendo o gosto de sangue.

O homem não sabia da fome da água.
Não via os animais mortos no fundo, nem nos que aprodreciam a margem.
Desse momento, desse encontro de predadores, o homem não sabia.
Mas sabia sim, da fome saciada. Sabia sim: homem é bom.

Recife, 2012

André continuava morto. Fazia 30 anos que havia morrido, aos 8 anos, e ainda não tinha achado um bom motivo para viver.
Aparentemente diferente de outros, que insistiam em ficar vivos, mesmo quando deviam ter partido...
No jornal em sua mão, molhado pela chuva, já tornara manchete: quatro corpos achados em quatro semanas, mortos a pancadas, canibalizados., faltando um souvenier, a perna direta, arrancada a dentadas.
Joga o jornal junto a onde foi achado o último corpo e ao tomar o café frio, manda o copo de plástico para o mesmo destino.
O local é como os outros. Uma ponto, ou melhor, nos pés de uma ponte. Fáceis de serem achados. E mais próximo do local que aluga. Isso o intranquiliza.
Como sempre, ninguém havia visto as vítimas no local e nada elas tem em comum, exceto a grosseira mensagem: chamam-se André ou Andréia, tinham 38 anos no dia de suas mortes.
Ele olha para o fantasma da última vítima e começam a conversar.

Recife, antes de Recife ser.

Cuidadoso, quebra a lança. Sua ponta, fincada na refeição, é tudo que precisa.
Só volta para a vila pela manhã. Lá, já contam os vivos.
O medo deles é uma sobremesa.
Escuta o burburinho enquanto leva as pelas e as vende pelo mercado sujo.
"São os índios", ouve clientes e mercadores dizerem. "É o diabo", falam alguns poucos outros. "Nem um, nem outro", ele gostaria de dizer, se vangloriando de sua fome. Mas segue calado. Entrega as peles, pega o dinheiro. E sai sorrindo.
Que morre quando ele vê o turco.
O sorriso escorre devagar, contrastando com o quão rápido surge a lembrança.
A filha do turco entre seus dentes. Seu grande erro. E a jura de morte do único homem que sabe como lhe matar. O homem que fechou seu corpo com cantigas e rezas e tatuagens de tinta negra, em cada dobra de braço e perna e por sob suas pálpebras.
Mas ele não vê o turco.
Vê sua chinela. Assustado, o assassino corre da chinela turca.
Corre para onde veio da Espanha morrar, para o mangue, onde caça homens e animais.

Recife, 2012


É ele quem agora caça sob as pontes.
Faz frio, chove. Mas ele não liga. Está morto.
Os fantasmas das vítimas da Perna estão com ele.
Ela chega atachada ao corpo de homem. Não maior que André. E sorri.
Os dois lutam na lama.
Uma luta inútil, ambos sabem disso. André nem a perna podem ser mortos assim, de maneira mundana.
Mas não importa. A fúria de ambos é enorme.
Fúria que a perna aproveitou bem.
André descobre isso quando os policiais dão voz de prisão e o corpo em que ela estava, a Perna, a solta no rio e cai sem vida.
Os policiais atiram nele quando tenta pegar a perna água e ele desiste por enquanto. Já havia morrido uma vez. Para quê mais uma?
E sempre há o dia seguinte...

Recife, antes de Recife ser.

As mortes continuam. Logo, índios são mortos ao redor das vilas, acusados de um canibalismo que não praticam.
É um verdadeiro festim. O espanhol se banquetei de carne européia e brasileira e gargalha entre as árvores quando ouve tiros ou gritos dos índios.
Os índios o caçam, mas já o caçaram antes e o resultado foi o mesmo: ele não pode ser morto. O turco cuidou disso.
O turco...
Não o viu mais desde o dia do mercado, mas agora, sabendo que estava próximo, sentia uma pressão na nuca o tempo todo. Uma tensão. Se era sua proximidade ou só o medo, não sabia. Mas tentava se manter longe da vila.
E duvidando que o turco, que crusou meio mundo para lhe caçar. se aventurasse para a mata, se descuidou e foi pego pelos índios mais uma vez.
No meio do sorriso de certa vitória, reconheceu o ex-sogro e esperneou.

Recife, 2012

O delegado olha para André e balança a cabeça. Já se conhecem, desde que André trabalhou em jornal e depois se viram em circunstâncias menos agradáveis.
- Oi André.
- Doutor Paulo, tudo bem?
- Comigo...sim.
Ele olha para André e nem acredita no estado do morto. A lama mal esconde os hematomas.
- Eu vou estar bem depois de um banho.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Pode me explicar o que houve.
- Você quer mesmo saber?
- Infelizmente, preciso...
André passou a hora seguinte explicando ao delegado o que havia ocorrido.
Quando saiu da delegacia, voltou ao local em que brigou com a Perna.
Até na água, as vezes, principalmente na água, se deixam rastros.
E um morto foi caçar o outro.

Recife, antes de Recife ser.

Os índios pegam o espanhol e o amarram no mato onde o acharam.
O turco o olha com desprezo. Não ouve suas súplicas, nem lhe dá, verbalmente, seu ódio.
Com vagarosidade, vai invertendo o ritual que fechou seu corpo.
Sua cabeça.
Braços.
Uma das pernas.
E escutam a onça.
O animal, parece faminto, enorme.
Os índios correm.
O turco puxa uma faca.
Ele não tenta se defender da fera. Apenas enfia a faca no peito do espanhol e, após gritar uma última maldição, corre na direção da vila.
Ele fica só com a onça, que não se faz de rogada e salta sobre ele e o mata.
Só que não é bem assim.
Seu corpo morre, mas não a perna.
A perna continua viva enquanto o resto lhe apodrece e enfim, solta-se.
Livre. E com fome, que não merecia ter.

Recife, 2012

A perna se esconde num dos buracos da cidade.
Cabeluda e suja, não se mexe quando pressente o morto.
André sente o que parece ser um sorriso.
Ambos são fantasma. Cada um com sua fome. ELe precisa ajudar os outros. Ela, deles se alimenta.
Cada um com seu grilhão.
Ele senta ao lado do buraco.
Acende um cigarro, já que ele não pode mesmo morrer de câncer e olha para o céu.
A Perna, dessa vez, não resiste.
André a prende de novo.
Mas ambos sabem.
O tempo...bem, ele está sempre a favor dos mortos.

June 05, 2012

Interlúdio, Noite dos Defuntos


O zumbi olha a lista de compras, incrédulo.
"Quatro dúzias de coca? Esse cara acha que o mundo vai acabar?", pensa ele, mas obedece.
Ele odeia filas.
"E pensar que fui desenterrado pra isso..."
Ele reclama em pensamento o que não consegue dizer em voz alta e, diligente, obedece a menina gorda.
Como Camila fez isso? Ele não sabe.
Mas ela e o irmão, Pedro, tem ele e vários outros zumbis em seu serviço.
"Será que vou ter de comer cérebros?"
Felipe não sabe. Ele era só mais um jovem como qualquer outro.
E um dia acordou morto, num caixão.
Ele não sente muita fome. Mas sente.
Olha com curiosidade para a cabeça da mulher a sua frente.
O cacelo dela começa a rarear no topo da cabeça.
Os cabelos, pintados de um vermelho alaranjado, dão um aspecto doentio ao branco coro cabeludo.
"Eca."
Mas ele continua olhando.
"Será que meus dentes abrem a cabeça dela?"
Ele passa os dedos pelos dentes. E estica o braço, tocando na cabeça dela.
A mulher se vira irritada. Olha para ele de maneira que ele se recorda de professoras que teve. De todas as que tiveram aquele olhar.
Felipe sempre foi um sujeito calmo.
Mas se ele um dia quiser comer o cérebro de alguém, essa mulher vai estar no topo da lista.
Sua vez no caixa chega, afinal.
Ele paga com o cartão de Pedro e leva as compras para o carro.
Márcio espera no volante.
Ele é também um zumbi.
No caso dele, é mais evidente. Ou isso, ou ele toma drogas.
Ele olha vidrado para fora. Felipe acha que nunca o viu piscar.
- Podemos ir.
E Márcio obedece. Dirigindo perfeitamente a brasília. Por si só, outro tipo de zumbi.
Quando chegam a casa a menina gorda abre a porta.
Camila é mais baixa que Felipe e deve pesar cinco vezes mais.
Ela se move jogando o corpo para um lado e para o outro, para um lado e para o outro...
Seu caminhar é hipnótico.
Felipe coloca os refrigerantes na geladeira e vai para a frente da lavanderia, atender os últimos clientes.
Os últimos, são sempre clientes noturnos.
Gente estranha que só chega a noite, nunca ficam até o raiar do dia, e eles tem as mais estranhas manchas.
"Será que eles comem cérebros?"
Felipe não consegue parar de pensar nisso e examina atentamente a cabeça de cada cliente.
Um deles não gosta e vai falar com Camila.
Depois dele sair, ela se volta para Felipe e aponta para dentro do prédio.
Karlos o substitui. Outro zumbi morto demais.
- Você é esperto.
A voz de Pedro lhe dá medo.
Camila faz os feitiços, mas é Pedro quem comanda os zumbis.
Os irmãos se complementam em suas diferenças.
- Você virá comigo essa noite. Mas pare de olhar para a cabeça das pessoas. Você não come cérebros.
O coração de Felipe se afunda no peito. Teria parado se já não estivesse morto.
"Até essa satisfação eles me roubam", pensa o pobre zumbi.
- Vá tomar um banho e procure se vestir bem. Pegue roupas minhas emprestadas.
Felipe obedece. Todos obedecem.
Algo neles tem de obedecer, já que nenhum de seus órgãos funciona.
E ele bem que tentou, mas sem coração, não há ereção.
E ele toma o banho sem muito interesse. Não sua mais, não tem cheiros.
Curiosamente, não apodrece.
Sua não-vida é um mistério, mas ele sente a cada dia, um esvair de sua curiosidade. Talvez em um momento do futuro ele se torne como Márcio.
Incapaz de, sequer, piscar.
Enxuto, vestido, se encontra com Pedro do lado de fora.
- Hoje, você dirige.
E eles vão.
A reunião é em um prédio antigo, no centro do Recife.
Ele desce, abre a porta para Pedro.
Ajuda ele a sair do carro e o vê entrar pela porta antiga de madeira.
Ele não sabe o que há no prédio, quem ou o que está lá.
E agradece por esperar no carro.
Pois hoje, ele sabe, que há coisas que até os mortos temem.
E ele sente vontade de abraçar um cérebro com os dentes, na busca de algum conforto, enquanto passa essa noite fria e vazia, a história de sua não-vida.

June 03, 2012

Interlúdio, Noite de Discórdia


Recife, 2012
- In nomine Éris, magna veritas, morituri et salutant!
E ela vira o copo de vodka.
O drink, ela dita para a noite, para ninguém. Ninguém vivo.
O homem olha para ela com ar de estudado desinteresse.
Ela sorri.
Observa sua face redonda e fria.
- Quem te enviou?
Ele finge que não escuta.
Ela escreve a pergunta com vodka.
- Seu irmão.
Ela volta a escrever: "Quando?"
- Ontem.
Ela sorri.
Ele corresponde.
E ela beija a boca do morto.
Com vodka.

Ela se levanta, pegando o morto pela mão e o guiando.
Gira sobre seus calcanhares e bate no cotovelo de um homem, sentado no balcão do bar.
A bebida se derrama sobre cabeça e costas de outro.
Ela continua andando.
Não escuta a discussão.
A ameaça.
O soco.
O homem caindo no chão e levantando-se com raiva.
A cadeira quebrando.

Ela beija um homem na mesa a sua frente.
O beijo queima.
O gosto da morte recente, emoldurado com a vodka quente.
As línguas se tocam ligeiras e ele quer lhe penetrar pela boca.
Ela o afasta com uma mão, o morto com outra e seguem.
Ela não escuta o tapa na cara do homem.
A esposa gritando.
Os pedidos de desculpa.
O segundo tapa.
A reação do homem. O soco.

Ela olha para as mulheres na mesa.
Chega próximo e fala:
- Eu pago a conta da mais bondosa de vocês.
Ela olham para ela, confusas. E começam a discutir.
Cada uma com sua razão.
Cada uma se dizendo melhor.
Nem percebem quando Cíntia se afasta.
E ela não vê o apontar de dedos próximo aos rostos.
Não escuta as raivas, os gritos.
Não sente os cabelos sendo arrancados.
Nem ouve a mesa virando.

Ela paga sua conta e vai segurando com mãos trêmulas a garrafa de vodka.
Em uma rua escura, abraça o morto.
Deixa a garrafa no chão, e com dificuldade, lhe abre a calça, baixa sua calcinha e se deixa ser penetrada.
O morto se despeja nela.
Ela pega a garrafa e escreve com vodka na barriga do cadâver:
"Venha você, não mande seus lacaios"
E com os punhos marcados ainda pelos cortes, coloca moedas nos olhos do homem, que vai finalmente embora.
Ela bebe e continua andando.

Ela pega um táxi,lhe diz a rota a seguir.
Ela podia ir a pé.
Mas a noite é uma criança.
E ela viu uma blitz.
Onde pode se divertir.

May 27, 2012

Domingo


Recife, 2011

A igreja. Seu silêncio de oração perturbava o sono dos mortos.
Pelo menos dos outros.
Ele...ele gostava de lá.
André costumava andar a noite.
Um hábito de assombrações, ele dizia.
Em especial, em dias mergulhados no tédio, como todo domingo, que é o morto-vivo da semana, ele passeava nos cemitérios.
Não durante o dia, nunca. Muita gente, muito barulho. Os mortos, que não costumavam ir para lá, eram carregados pelo pranto dos vivos.
E as igrejas, para os que não pranteavam, ficavam, a noite, após as missas, envolta em um silêncio perturbador.
E de noite, aos domingos, o cemitério estava cheio das aulas que nunca se preocupavam em visitá-los durante a semana.
No ocioso caminhar de quem não vive, André visita pelo menos dois: O Cemitério da Várzea e o de Santo Amaro.
Na Várzea, para ao vigia e entra, sem fazer muito barulho.
E observa, as vezes sorrindo, as brincadeiras dos mortos, sua ciranda. As vezes, um forró.
Não há pompa nessa terra fofa, lugar de ervas daninhas e musgo.
Alguns fantasmas mais antigos balançam a cabeça ou acenam quando me veem.
Ninguém fala comigo.
São desconfiados, os mortos.
Um bom hábito. Quem sabe, carrego uma palíndrome. O captura, lhe descubre seus segredos, por menores que seja, e o escraviza. Quem deseja tal destino, ainda mais depois de morto?
De lá, vai para Santo Amaro.
André pega o último ônibus. Os vivos, ele nota, se distinguem dos mortos por muito pouco.
Um respirar aqui, outro ali.
Um coração que bate ou repica.
Em Santo Amaro se houve de tudo. Valsa, rock, MPB.
Poetas em saraus intermináveis.
É uma cacofonia que, muitas vezes, espantam os gatos do local.
O vigia também o ignora.
Trabalhe um pouco em um cemitério e logo torna-se claro quem está vivo ou não.
André pertence mais a esses muros que fora deles.
Mas ele deixa a preguiça se escorrer, esse lento engano de domingo, e vai falar com um dos mortos.
- Passos?
- Fantasma. O que queres?
- Vim atrás da Perna.
- Aquilo se foi.
- Entendo...
- Desculpe.
- Não se preocupe, eu entendo.
O morto sai do cemitério cabisbaixo e sem pressa algum.
Afinal, é domingo.
Dia de coisas mortas.
E de coisas que ele sabe, precisa matar melhor da próxima vez.

May 19, 2012

Crepitar


"Existe fome no mundo.
Uma fome que ameaça devorar cada um de nós.
Fome, não de comida. De vida humana.
Se há céu e inferno, já não sei.
Mas me deparei, um dia, com a Fome."
Pe. Pôncio Cinares

Recife, 2010.

Chovia. Nada se via nessa cidade que não a chuva que vinha, se não em torrente, em pancada bruta e desleal.
Encharcado, corria entre poças de lama para chegar logo a casa da menina. Um padre.
A mãe. Encamada e quase morta, ou assim me disseram a criança, queimava e falava com língua estranha.
Pensou a criança em, antes de chamar o SAMU, procurar um padre, e assim ele foi. Exorcista.

Pôncio. Em tempos de tanta discussão sobre a fé e o sentido da igreja, da luta por fiéis e dízimos, ele despontava como uma esperança renovada. Quantos dentre os jovens ainda bucavam tornar-se um padre? Poucos.

Amarela. A porta de cor incomum, parecia roubada de algum outro lugar, destacando-se do mundo barroso, marrom chuvoso. Quando abriu, sentiu o cheiro, não de enxofre, mas de leite de rosas, incensando a casa pequena e pobre. Escura.

Grito. Feminino, estridente, triste, que cortava que ungia que ligava, um som oco e puro e horroroso. Entro, já exausto, casa adentro, mal descansei na porta, já me vi correndo para o quarto, impulsionado e estremecendo, em punho, a bíblia e cruz. Fé.

Fogo. Enchia o quarto, vindo da boca e olhos da mulher, que lambia o mundo em labaredas,consagrando a lama e pobreza para um novo deus. A dor do queimar vinha antes chama, da pele de lagarto que se fazia na cama, tal qual uma salamandra que se erguia em fúria. Medo.

Cantiga. Que vinha do meio daquela boca descarnada, que trocava pele por escamas, que enchia o lugar de fumaça, mas de seu espírito imundo que do queimar. Uma história de dor e de ódio, uma cobranças de dívidas plenas, que remontam traições índias, antes das naus e extermínios, aqui o pecado da inveja já morava. Vingança.

Serpente. Se erguia da cama e da boca e do corpo, da mulher que jazia morta e queimada, em cinzas. A criança chorava na sala e eu, paralisado e morto só olhava, hipnotizado pela cobra imensa e bela e horrível em sua fome e desejo devorante que cobiçava mundo como a mim em sua insasiável ganância de ser a chama que tudo encobre. Majestosa.

Explosão. De raiva, quebrando as paredees enfraquecidas da casa e fugindo, na chuva que evaporava em seu toque vermelho. A lama secava no seu correr, um rastejar voador, de dor que causava na terra, do ar que lhe dava passagem, daquilo que pecava contra a realidade, de um exorcismo oco de algo antes moldado, antes talvez, até mesmo do que o mundo. Imortal.

Ajoelhado. Chorei e vi a criança, correndo para o corpo de sua mãe que lhe queimou as mãos e lhe provou o grito. Salvou-me do torpor de vida, e carreguei-a nos braços para chuva, na busca de limpar a mim e ela de horrores, tentar afogar minhas dúvidas, resgatar a fé, purificar meus olhos. Em vão.

Recife, ainda 2010.

- A criança diz a verdade.
Fala o homem, cercado de gatos.
- Três de quatro.
- Quatro o quê?
Pergunto eu, vestindo batina que descreio.
- Não sei lhe dizer, padre. Mas agradeço sua ajuda e confiança.
Quem fala agora é o rapaz. "Ele está morto", me cochichou a menina.
Eu não confio neles. Em ninguém.
Abro a porta e os deixo ir.
A criança fica comigo.
Amanhã viajamos para outra cidade, onde moram seus tios.
Para longe da chuva.
Para longe do fogo.

May 13, 2012

Reparando Ausências


Recife, 2010


Ele recolhe as lágrimas em um copo e as bebe.
O gosto não é de raiva, não saboreia frustração, o sal não é vingança.
São lágrimas de perda e saudades.
Ele realiza o encantamento.
Se encanta, então assim, em conjunto com o tempo.
Da memória, que o devora, a deixa, tomando a forma.
E a vê, outra vez. Onde sempre esteve.
Em Sacrifício.
Um lugar, um espaço, fora de tudo, dentro de nós.
O acolher dos orfãos, o amor de mãe, as negações da vida.
O carinho de cama repartida, pela criança amada, em sonho, concebida.
Os cabelos que se amarram, o calor que se aninha.
As palavras doces, a saudade eterna.
No seu encanto, ele vê o que encanta.
A mulher de óculos e pele portuguesa.
De força e raivas e preconceitos, tão humanos.
E um coração celestial, que abraça e abriga mais que o ventre.
Ele a vê forte, fraca, feliz e triste.
Tantas lágrimas e sorrisos, conselhos e exemplos.
E as lágrimas, as suas, vão secando.
Por mais que some ao copo, iguais irmãs da saudade, o encanto se vai.
A imagem some, a vida volta.
Com ausência de vida.

Ele olha olha para o chão de pedra e desce da torre.
E não há nada que lhe conceda descanso ou reparo.
O dia passa rápido.
A saudade, não.
Crônicamente, escreve, sobre um ato sem perdão, a memória.
Pois tudo é o que resta do que foi.
Nada há no presente, se não, reflexos.
De imagens concedidas nas lágrimas.
De feitiço tolo, de reza incapaz, de promessas estúpidas.
Nada paga uma ausência.

Ele, em seus sonhos, devaneia.
O povo grita, como gritou anos atrás.
Ele, escutando o mundo, se faz surdo.
Mataram a única pessoa que ele amou e ele refez o mundo a imagem de seu ódio.
E eles o odeiam.
Ele, que surgiu para curar, criado do sangue e cinzas de santos.
Nas montanhas viu o povo sofrer e cavalgou com fúria em sua defesa.
E nada, do dia, se guarda, a não ser as sombras.
Quando morre sua mãe.
Obssessão pela vida, da morte surgida.
O sangue dos empalados, um dia a ser imitado, nada, dessa feita o faz.
E o ódio o encarna junto a eternidade, assim como sua não vida, é sem fim.
Até seu término, ou impasse, anos atrás.

Ele olha para o grupo e só acha desdém.
Mas sorri.
Os olhos negros e vazios, sorriem.
Eles o despertaram como não pôde.
Deixando. Lá. Na terra fria.
O sangue lhe dá vida. A carne lhe empresta vigor.
O vampiro sorri para o grupo.
E lhes devora.

Em outra parte da cidade, André, o fantasma, desperta.
Ao seu lado, uma máscara.
Na janela, dois gatos.
Na noite, ele sente uma promessa, escuta uma reza, vislumbra um feitiço.
Morto, não teme.
Mas sabe.
O Papa Figo voltou.

April 30, 2012

Prata


Recife, 2009.
- Boa noite, o que deseja?
- O senhor tem um copo d´água, pode ser de torneira mesmo, e aqueles pães que parecem uns canudos?
- A senhora deseja uma entrada? E como prato principal?
- A conta, por favor.
Cintia deixa o restaurante após comer a entrada.
Pensando em quando está penando, lembra de passar na casa de Michel, mas está cansada.
Afinal, sono é uma doença crônica e hereditária.
Ela entra no carro, liga e não sabe para onde vai.
É sono demais.
André. Claro.

- Cíntia, tudo bem?
- Oi André. Tudo bem?
- Sim, sim. Entra. O ap tá uma zona. Você podia ter ligado.
- Eu sei. Mas preferi fazer surpresa.
- Cíntia, tá encrencada ou algo assim?
- Ai, André, você sempre vê através de mim, né? Sempre sabe o que acontece comigo...
- Ei, ei. Que foi? Olha, senta aí. Quer beber algo? Quer uma água?
- Você tem cerveja?
- Cerveja, Cíntia?
- É, André. Preciso relaxar.
- Tá bom...
- Você ainda curte essas coisas, né?
- Fala da decoração?
- É.
- É, ainda curto.
- Eu gosto das cruzes. Esse preto todo é que acho estranho.
- Bebe skol?
- Bebo.
- Tome. Sente aí. Deixa eu puxar essa cadeira. E aí, me conta.
- Sabe o londrino?
- O galego? Michael?
- Isso. Ele é metido com umas coisas que...vou te contar, viu...
- E você se meteu com as mesmas coisas?
- Claro que não, né André? Sou doidinha as vezes, mas nem tanto!
- Então, que houve? Ele te meteu em alguma?
- Sabe aquele padre que tentou despertar a Senhora do Prata alguns anos atrás?
- Tentou, não, despertou, né? Sim, mas o que é que tem?
- Michael pretende realizar o ritual de novo hoje, mas ele pretende circunscrever ele numa palíndrome.
- Numa palínd...não.
- Sim.
- Porque você não me disse antes?
- Éris.
- Droga, Cíntia.
- Bem, eu assumo que devia estar agradecido por você ter me avisado.
- Isso. Você me deve.
- Bem, não estou agradecido.
- Ainda me deve.
- Está bem, devo. Agora vai, preciso preparar umas coisas.
- Eu quero cobrar meu favor...
- No que você está...ei! Não, não e não, Cíntia.
- Não posso dormir aqui?
- Dormir. Você pensava que era mais alguma coisa?
- Se você tirar o sorriso cínico do rosto, eu talvez pense que era só dormir. Bem, dormir, pode.
- Tá. Beijos e boa sorte.
- Não destrua meu apartamento. Tchau.

- Michel, você sabe de Cíntia?
- Que minha irmã fez agora?
- Me atrasou, só isso. Mas ela te falou de Michael?
- Eu sei que estão namorando ou algo assim, né?
- Isso eu não sei, mas estou indo agora para o Açude do Prata.
- Eles fizeram?
- Fala do ritual? Ela disse que ele fez...
- Ele não podia fazer sem ela. André, você já ligou para os outros?
- Não, estava antes querendo falar com você. Olha, pega sua irmã no meu apartamento.
- No seu apartamento?
- Ela que apareceu lá, sem ser convidada, Michel.
- Está bom. Obrigado, acho.
- De nada, até.
André liga para os outros. O Cavalo, a Mascarada, mas o Golem ele chama usando um pequeno talismã.
Eles se encontram já em Dois Irmãos.
- O ritual já foi feito.
Diz o Cavalo, suando mais do que o normal.
- Tem algo errado aqui. Estavam nos esperando.
Ele cai no chão. De árvores, das sombras, surgem gatos que o cercam. Ele parece melhor.
- Não vou poder acompanhar vocês.
- Uma inversão? - Pergunta o Golem.
- Sim. Procurem sinais de sacrifício, gatos, talvez.
Eles entram no zoológico.

O guarda na entrada não tinha ferimentos visíveis, mas estava morto.
André o vê apontando para dentro do zoológico e mostrando que o seu corpo agora se encontra desarmado.
Logo acham também os sinais de sacrifício: uma pantera morta e eviscerada. O Golem destrói os vasos com os orgãos do animais e recita algumas palavras.
O grupo está tenso.
Ainda assim caminham para o Prata.
O Golem na frente, justamente por já ter sido derrotado pela Senhora do Prata, é a melhor forma de demonstrar que o grupo está confiante. Por mais poderosa que seja, ela é um fantasma, e de acordo com André, eles se alimentam tanto de medo quanto da percepção de medo.
Há luz na casa abandonada. Ela bruxuleia, num azul esverdeado, com fortes raios de prata.
A luz se move dentro da casa. Há outra luz também, que parece competir com a primeira.
Sons de uma discussão. A segunda luz se apaga.
O Golem se aproxima e vê Michael saindo da casa.
- Para trás!
Ele grita segundos antes de Michael esbarrar violentamente contra ele.
O corpo não é mais do feiticeiro londrinho. Suas órbitas estão vazias e dela jorra uma luz prateada.
Ele bate furioso contra o corpo de barro e rocha, suas mãos quebram e sangram, mas furioso, o cadáver ignora tudo o mais.
- Vão, eu seguro ele. Destruam ela!

Eu corro para a casa, passando pelos dois.
André corre atrás de mim. Eu ponho a máscara da raposa.
"Aline, espere!", eu ouço André gritar num sonho de humano.
Mas é tarde. Sou uma raposa cinza, rápida, em corpo de mulher.
Minha mente pertence a pequena e astuta besta.
Eu entro na casa e rosno de mesa e raiva.
O cheiro dela é forte, assim como de Michael.
Ela surge do andar de cima.
A Senhora do Prata brilha.
Quando me vê, sorri. Devora meu medo, mas não o extingue.
Eu salto sobre ela, e atravesso a água, que me suga a perna como a pata de um animal, um pequeno e indefeso mamífero.
Cada fibra de mim é necessária agora.
- Eu sou aline...- eu sussuro enquanto troco de máscara.
Eu sou calor. Eu devoro tudo. Eu destruo tudo.
Água me fere, mas torna-se vapor.
André chega na casa. Ele tenta me tocar, mas pulo, longe dele.
A parede da casa cede onde toco, engolida por calor e chamas.
Ouço ainda os gritos da Senhora do Prata. Ela luta com André.
Eu queimo a grama, a grama com água que faz arder o corpo de uma mulher em chamas.
E desmaio.

- Vá e não vamo mais ferí-la. Vá e deixe essa casa. Deixe tudo. Leve seu mal consigo!
Ela me ignora. Ela sorve meu medo como um aspirador.
É inútil. Ela não pode matar os mortos, nunca poderá me matar, mas sente meu medo mesmo assim.
Medo pelos meus amigos. Medo pelas pessoas de minha cidade.
Então vejo o palíndrome e por um momento, um segundo, me perco.
Não sou André. Sou só um Fantasma. O Fantasma.
Não o homem moreno, queimado pelo sol do Recife.
Sou velho como o primeiro homem.
Talvez o primeiro fantasma a vagar na Terra, a primeira vítima de um assassino.
Agora é a Senhora do Prata que teme.
Mas ela não pode recolher-se nas águas.
Não enquanto nossas mãos se aferrolham e seu brilho torna-se mais intenso, enquanto a absorvo.
Ela grita. Um grito doloroso. Um dor tão humana.
E André volta.

- Não!
Grita o Golem.
Ele vê a Senhora do Prata megulhar na lagoa e deixa seus braços caírem.
- Perdemos uma oportunidade aqui.
- Eu sei. Mas me assustei, não sei o que aconteceu comigo quando vi o palíndrome em seu bracelete, mas aconteceu algo comigo.
- Paciência. Sabemos que ela voltou e que podemos lidar com ela.
- Aline!
- Oi André.
- Vocês dois se abracem outra hora, vamos.
E os três vão embora, deixando o corpo de Michael, perdido agora na escuridão.

Michel fica sentado ao lado da irmã que dorme na casa de André.
Ambos, vendidos pelos pais, muito tempo atrás.
Longe de serem imortais, são, no entanto, veículos.
Ele estremece e sua, cada vez que escuta sua irmã sussurando seus sonhos.
Ele não entende muito, exceto uma palavra, que ela repete muitas vezes:
Éris.
E ele sabe.
Essa noite foi apenas um interlúdio.

April 27, 2012

O Bartender da Meia-Noite


Recife, 2006

23:45
O outro bartender foi embora me olhando esquisito. Todos eventualmente me olham esquisito.
Um cliente se aproxima. Branco, 57 anos, rico, mal vestido.
- Eu quero uma bebida forte e ao mesmo tempo suave algo com...
- Um Kyr?
- Isso! Como vc sabe?
- Experiência.
Eu sorrio. "Não lhe conto meu segredo e você fica sem saber o meu", penso. Simples assim.
O nome dele é Luiz Carlos. Assassinou a esposa 20 anos antes, tomou boa parte de sua fortuna.
Matou mais mulheres desde então. Mas o fez por prazer. Anoto discretamente seu nome, endereço, onde o corpo da esposa está escondido.
Surgem clientes habituais, clientes novos, alguns vem me ver pois eu sei exatamente o que querem beber e a história se espalha, como todas as história, se espalha.
Atrocidades desfilam diante de meus olhos, imundando minha mente com horror, prazer, culpa. E eu anoto.
Eu já fazia isso bem antes.
O problema, no entanto, é agir.
Saber que alguém comete um crime, em todos os pormenores, é uma coisa. Agir contra, é outro.
As dificuldades são imensas.
Poderia eu simplesmente matar quem acho que merece?
E como faria isso?
E a polícia?
A culpa me consumiu e eu tentei me livrar dela assim, anotando tudo, em pilhas de cadernos.
Pilhas sem fim.
Seria toda essa cidade amaldiçoada com esses horrores? E eu, sempre, incapaz de agir?

Então eles vieram ao bar.
Um homem branco. Não, não um homem. E eu me recolhi. Minha mente fugiu de seu olhar. Dois olhos negros.
Uma escuridão sem fim, um vazio capaz de sugar a alma.
Com ele estavam os outros monstros. Não é possível definí-los de outra forma.
A mulher era de uma beleza incomum. Sua pele desafia uma descrição, branca, sim, mas só isso e além disso. Vestia-se com um longo vestido azul claro. Os clientes a olhavam famintos, mas paravam quando olhavam suas companhias.
Os outros dois não eram menos interessantes.
Um travesti que abertamente mostrava suas pernas cabeludas. Uma peruca que não se fixava bem a cabeça. Batom meiio borrado, alto e forte.
E por fim, o homem de ôculos escuros. Talvez funcione em filmes, mas óculos escuros em um bar, mesmo durante o dia, me parece estúpido. Ele lambia os lábios o tempo todo e se movia de forma hipnótica. Havia um caráter estranho em como andava que até hoje não consigo definir.
Eles sentaram perto do bar.
Os garçons brigavam para que não ter de ir servi-los e os repreendi com o olhar, mas admito, também não iria naquela mesa se pudesse evitar.
E o homem de olhos negros levantou-se e veio ao bar.
Ele sorriu.
Eu desmaiei.
Não foi o medo, foi o choque.
Centenas de anos de escuridão, morte, devassidão.
Como acontece com todos, eu sabia o que ele queria beber.
Uma alma imortal e cansada, que buscavam sentir prazer com um mundo que lhe entediava.
E o faria bebendo sangue. Sangue de todos, sangue do mundo.
Sorveria almas como um draga.

Acordei num hospital.
Percebi que estava vivo ao ver a luz das estrelas pela janela.
Tive alta, mas fiquei no apartamento.
Quando voltei ao bar, não era a mesma coisa.
Checava o que acontecia, mas tinha medo.
Sempre me perguntei se outras pessoas tinham talentos como o meu.
Nunca imaginei, porém, que coisas como aquela existiam.
Tinha muito, muito medo.
E ao mesmo tempo, precisava do bar. Não conseguia mais dormir.
Não sem o sol. Sol alto. E dormia de janelas abertas, a pele, mas não o medo, queimava.

Então eles vieram ao bar.
Um homem branco. Não, não um homem. E eu me recolhi. Minha mente fugiu de seu olhar. Dois olhos castanhos.
O medo do nada, o pavor da lembrança. Mas não havia nada.
Ele aproximou-se do bar e não pediu nada. Ficou olhando, gigante, a minha frente.
Virou-se para outros que estavam atraás e que não havia percebido.
A mulher beberia todo o bar. O dos homens queria um cerveja e outra coisa que não tinha no bar, nem saberia o que é.
O fantasma não bebia. Mas pediu uma vodka.
O homem continuava me olhando. Ele sabia.
Conversamos depois.

Passei a dar informações a eles, informações sobre os clientes do bar.
E sobre os quatro horrores.
Eles não vieram mais. Mas havia quem os conhecesse, quem tivesse feito trocas com eles.
Os quatro vigilantes contra os quatro horrores.
A luta entre eles era indireta. NEnhum dos dois estava preparado para eliminar o outro.
Mas os vigilantes tinha um ponto fraco, um problema.
Alguém a quem recorriam. Alguém público, visível.
Alguém que já tinha sido tocado pelos horrores.
Eu.

Eles vieram de novo.
Era meia-noite.
O bar se esvaziou logo.
O medo se derramava lento e palpável como um gel.
Frio. O bar tornou-se terrivelmente frio.
Ficamos apenas nós.
Eu tinha medo. Mas não podia fugir.
Não havia recolhido tantos pecados para nada.
Não havia redenção para um covarde.
E seus pecados se abateram sobre mim como o mar que devora uma rocha.
Lenta, mas incansável.
O homem sorriu. Vi suas presas. Suas belas presas.
E ele queria beber a mim.

Foi tudo muito rápido.
A isca nem sabia bem o que estava acontecendo.
O monstro (qual deles?) estava beijando ou mordendo o fantasma.
Uma mulher de perna cabeluda foi puxada para debaixo do bar por braços imensos.
A garota de máscara saltou um momento para dentro do bar e logo se enroscou com a serpente.
A mulher me soltou um olhar gelado. Mas ao avançar, parou.
Gatos a cercavam e um homem, saído do nada, lhe enlaçou com fios brilhantes.
Os horrores lutaram, mas os vigilantes, a sua moda, venceram.

Eu?
Eu ainda sirvo bebidas.
E não, não sei o mal que está no coração dos homens.
A menos que eles me peçam uma bebida.

April 21, 2012

O Cavalo do Cavaleiro


Ele tem 11 gatos. Dois dormem ao leste, dois ao sul, dois ao norte, dois ao oeste. Dois dormem sobre ele. Um sobre seu peito.
Outro, sobre sua cabeça. Ele não sufoca.
Mas ele não respira.
O outro gato, corre o mundo.
Ele não sabe se tem os gatos ou se os gatos o tem. Mas sempre fora assim, ele e os gatos. Desde Alexandria.
E sempre onze.
E ele nunca fora assim. Ele nasceu em Recife. Foi criado em Recife. Nunca saiu de Recife. Ele envelhece e não morre, e renasce, como bebê, todo dia.
A placenta que brota do ar é devorada pelos gatos. Seu único alimento.
Mas eles mesmos envelhecem e morrem. E ele então busca outro gato.
Seus gatos eram diferentes. Esguios, velozes, ferozes. Seus gatos hoje são matreiros, espertos, mas igualmente capazes de matar.
Tantos gatos. Seus espíritos guardados muitas vezes em ânforas. A gordura de corpo que usara, usada para tapar os recipientes.
Guardiões de si mesmo fora desse mundo.
Escravos do Cavaleiro. Escravos dele, como é hoje, o homem que nasceu, foi criado, nunca saiu e foi, enfim, tomado em Recife. O Cavalo.
Cavalo que hoje sai com o cavaleiro. Mesmo estando seu corpo lá, morto, esperando o amanhecer para renascer.
Cavalo, Cavaleiro e Gato, os três em um só.
O Gato entra na casa dela.
Uma sombra que gira e corre entre os móveis.
Ela acabou de deitar. O Gato sabe disso e sabe que tem pouco tempo.
Seu corpo leve sobre na cama.
Ele deita-se a seu lado.
Respira o seu sono de dentro de sua boca e nariz.
Desce e foge.
Ladrão de sonos.
Ela acorda.
Sua olheiras já se tornaram parte de sua feição.
Ela chora de sono que não tem.
Deita-se, revira.
Liga o computador e espera os incautos que ainda vão dormir (que inveja!) e os que já acordaram (que inveja!).
E se revira. Sem sono. Sem. Sono.
Natália pensa até em ir no vizinho. O homem dos gatos.
Sujeito estranho, mas atraente. "Gostosinho", como disse Guga, quando a amiga da faculdade veio visitá-la anteontem.
Ela tem pensado muito nele. Será que ele tem a ver? Será que os gatos a assustam? Ela nunca teve problema com gatos. Já até criou duas.
Mas desde que ele se mudou, insônias são constantes.
E ele é meio estranho. Simpático, mas estranho. "Nem estou pensando nos gatos", ela pensa.
Ela só dorme quando o sol se levanta.
Quando ele acorda, após renascer, o ladrão de sonos.
Ele saúda o sol e devora os animais deixados a seus pés.
Olha o celular enquanto os gatos desfazem o círculo, permitindo as ligações chegarem e partirem.
Com o círculo partido, dorme o Cavaleiro. Sou apenas o Cavalo.
Acordo. Manoel é meu nome. Lembrar. Lembrar sempre meu nome que tatuei nos dedos. Nome, nascimento, nome dos pais.
Tomo um banho, me limpo dos pelos e cheiro dos gatos, do sangue do meu renascimento.
Que fome. O que os gatos matam alimentam apenas o Cavaleiro.
Vou ao mercado, compro comida, uma revista, jornal.
De onde vem o dinheiro? Qual seu limite? Não sei.
Enquanto ele dorme, pouco lembro. Ele me tem, mas não tenho seus segredos.
Sou apenas o Cavalo. Não. Sou Manoel. MANOEL.
Paro um pouco. Respiro com as sacolas de compras nos braços.
O suor pinga.
É tão fácil deslizar para o esquecimento.
As vezes é isso que queria, esquecer.
Então, ela o empurra.
- Eiii! Peraí, você é...
- Natália, seu idiota! NATÁLIA!
- Minha vizinha. Calma. Não!
Ela lhe dá um soco no olho. A dor é aguda, é como se o osso vibrasse e um monte de agulhas entrasse cabeça adentro. Seu impulso é bater de volta, mas ele não pode.
No íntimo, ele lhe dá razão.
- Seu filha da puta! Quero meu sono, porra!
- Calma, a gente conversa! Ei ei! Calma!
Ela olha para ele com raiva, percebeu, quando acordou do maldito cochilo, o que tem acontecido. Teve certeza quando o viu na rua.
Bem disposto, renovado, carregando as compras. Ela soube. Ela teve certeza. Como? Não importa. Há coisas que desafiam a razão.
Alguém roubar seu sono desafia a razão, mas ela soube e foi, com fúria feminina, nos pijamas que pouco escondem, bater nele até que tivesse seu sono de volta.
Não lhe deu satisfação esmurrá-lo. Ela gosta dele, de alguma forma. Não sente nele um predador, não sente nele alguém mau. Ela o vê como vítima. Sabe que podia bater nela e ele não o faz. Ela está agindo de forma irracional e o escuta e se acalma.
- Está bem. Mas eu SEI! Eu sei o que você está fazendo! Não sei como, mas eu SEI!
As pessoas param na rua para olhar. Um carro para. Os bêbados do bar que mal abriu, olham com curiosidade. A discussão, diferente de todos os outros dias, não é no espaço sagrado do bar, é fora da bolha, é na rua que os observa observada.
- Venha, vamos sair da rua.
Seus cabelos se mexem agitados, olhando um lado e outro, mas sua raiva não permite a vergonha, apenas o acompanha.
Vão para a casa dele. Os gatos não chegam perto. Olham ela, mas sem dar grande importância.
- Sente. Quer comer alguma coisa? Beber?
- Não.
Sua voz ainda sai seca, raivosa. Ela queria se controlar mais.
- Bem, eu preciso comer.
Eu vou até a cozinha e preparo um sanduíche. Bacon, ovos, hambuguer de frango, verduras. Ela sente o cheiro.
- Eu quero um também, se você não se incomodar.
- Não, claro que não. Estou em dívida.
Ela sabe, mas não diz nada. Está sim, morrendo de fome.
Agora, depois da discussão, durante a calma, sente-se ridícula.
Eles comem em silêncio. Bebem suco de laranja.
Quando terminam, ele recolhe os pratos e copos. Volta para a sala.
- Então...
- Você roubou meu sono.
- Não.
- Roubou. Roubou sim. Eu sei que roubou!
- Calma. Eu sei. Você está certa.
Agora, incerta, pois a realidade se torna ainda mais estranha com sua admissão, ela se cala e olha, confusa.
- Veja, eu sei que isso pode parecer maluco e soa ridículo, eu sei, mas meu corpo foi tomado. Não se levante. Me deixe continuar, por favor. As vezes...as vezes nem lembro quem sou. Por favor, me escuta. Me deixe respirar. Quem rouba seu sono é quem ocupa meu corpo quando durmo, precisa, para sobreviver, roubar o sono de outros. Mas prometo, ele não fará mais isso, não com você.
Quando ele termina de falar, percebe os olhos dela. Não sobre ele. Mas sobre os gatos. Eles formam um círculo a sua volta.
Despreocupados, pelo menos em aparência, vieram junto com a conversa.
- Eles são sempre tão estranhos?
- Não. Mas eles obedecem ao Cavaleiro.
- Cavaleiro?
- Sim, é como eu o chamo.
- E você...você é um cavalo? Ele pode ir para outros corpos?
- Não, não mais. Não se assuste. Eu..eu fui punido. Por isso ele tomou o meu. Mas alguém o enfeitiçou e ele agora está preso. Estamos presos.
- Que horrível.
- Não sei. Ele não é mau.
- Não é mau? Você... Ele não me deixa dormir bem faz dias! Eu posso morrer, acho.
- Ele não vai mais roubar seu sono, prometo.
- Promete?
- Prometo. Mas ele vai querer algo em troca.
- Como assim?
- Não sei ainda. Mas vai. Eu o conheço um pouco.
- Eu não acho que vocês possam exigir nada de mim.
- Não, não temos o direito, mas ele tem o poder. Me desculpe. Estou sendo sincero com você.
Ela olha para o chão. E depois olha para ele. Vê bem seu rosto e sente um pouco de pena.
- Está bem. E desculpe pelo soco.
- Não se preocupe, estarei bom amanhã. Olhe, preciso também dormir um pouco. Mas venha aqui quando quiser, está bem? Eu te procuro depois.
- Está bem. Meu nome é...
- ...Natália. Eu sei. Sonhei com você. É outra coisa difícil de explicar, mas sonhei com você. Meu nome é Manoel.
E ele a acompanha até a porta e ela vai.
Dormirá, finalmente, bem, depois de tantos dias.
Ele sonhou com ela.
Seu nome, tatuado em seu dedo.
Natália.
O Cavalo não tem o poder do Cavaleiro, mas ele corre.
Corre pelo futuro incerto, mas de estradas sulcadas.
Corre e vê além.
Corre além de quem o monta.
O futuro talvez pertença a Deus, mas é visto por ele.
E ele a conhece. Natália.
E sabe que partilharão, um dia, do mesmo círculo.
Não hoje, não amanhã, mas um dia.
A cidade irá ser devorada pelas águas.
Governos e então reinos, irão ruir.
Mas o homem de Alexandria, e o casal do Recife irão estar, um dia, juntos.
Vendo as estrelas se apagarem.
Os gatos lambem sua pele e sobre suas pálpebras.
Guardiões de homens e deuses, por tantos séculos.
Devotados.
Aos imortais.

Usar ou não o Recife?

Definitivamente estou usando Recife em meus contos. O que não é lá grande novidade. Seu futuro Cyberpunk está em Recife-Cyber-Lama, além de várias referências em outros contos meus, inclusive no primeiro conto desse grupo/cenário/universo, "Valsa para Sofia" e em seguida em "Imortais" e "Baile de Máscaras" ("O Bartender da Meia-Noite" está em pausa, se eu resolver os problemas dele, publico amanhã). E porque estou dando essa informação nada valiosa? Porque me inquietaram. A ideia é que os contos teriam mais valor se lhe fossem retiradas as referências locais. Mas eu amo Recife. Amo até o cheiro e mijo no centro da cidade. Amo a lama que piso no bairro da Várzea. Amo os assaltos que sempre vi na Madalena. Amo seus bares e suas igrejas. E tudo isso está em mim, como que gravado a ferro e fogo em meu córtex, riscado na alma. Eu amo Recife. E acho que a "cor local", as vezes se faz necessária. Não imagino o conto "Dezoito" sem Lisboa, ou "Sete" em outro local que não no Sahara. O local é muitas vezes uma outra personagem, participante do texto. Vai ver, em fim (pois estou velho), me torno, enfim, um Urbanomancer, que necessita de cidades como razão de viver. E se me torno menor do que já sou, paciência.

April 19, 2012

Baile de Máscaras


Recife, 1998

O laboratório está vazio. Ainda é manhã, a noite que cala o mundo, não chegou ainda.
Mas está escuro. O sol, com medo, esconde-se por trás das nuvens negras.
O laboratório está vazio. Levaram os livros, as notas, nossos experimentos.
E ainda assim, algo, há. Um traço, tênue, um indício.
O laboratório está vazio. Quem esteve aqui se levou consigo, todos os traços, não há cheiro, não há rastro.
Porém, tenho a máscara. Uma delas. Os seus olhos são meus, minha pele, é tua. Vejo seus passos. Torno minhas suas pegadas e te sigo.

Eu paro em frente do prédio. Ele é baixo e antigo. Não é velho. É antigo. Há miasma, que nem todos percebem, mas os humanos evitam o local. Eu o evitaria, mas tenho a máscara. Não só as pessoas, mas a cidade sabe disso, o mundo. Sentem que algo mau habita o local.
Árvores tentam devorar as paredes, com raízes que se fincam aos muros, lentos dardos que se aprofundam na carne do prédio, a pedra.
Não há outras pessoas na rua e percebo que muitas casas foram abandonadas.
Entro em uma delas. Retiro a máscara. Coloco outra.
O sangue me assalta. Sangue velho, seco. Mas tanto sangue. Sangue derramado, salpicado, bebido, salgado, gostoso, roubado, excitado. Eu lambo meus beijos e me masturbo e só após satisfeito consigo tirar a máscara. Há perigo aqui.
Tiro da sacola uma outra máscara. Trouxe menos máscaras na sacola do que deveria ter trazido e não sei se tenho tempo de voltar em casa e pegar mais.
Ele amendronta o humano em mim.
O que quer que seja, é velho, bruto, feroz e ainda assim, sagaz.
Ponho a máscara. Me visto de pedra.

Tenho de pensar e deixar o tempo passar.
Aguardar, a noite chegar.
Como o prédio, estarei a esperar.
O monstro que lá vive, acordar.

E passar o tempo vai e foi.
Com pesar, retiro a máscara.
A calma, cai.
Como veio a noite.

Sem máscaras, vou até a esquina. Tenho fome. Há uma lanchonete próxima e apesar do óbvio estado terminal do local, peço comida.
Volto a tempo de ver um carro saindo do prédio. Quando o passa por mim, vejo os brilhantes olhos negros.
Perco o fôlego.
Quase caio no chão.
É ele.
Eu corro, corro por 3 quarteirões inteiros e finalmente, paro.
Não acredito ainda. É o Papa Figo.
O monstro que matou meu avô...

Recife, 1985.

- Não. Deixe a sacola aí.
- Mas eu quero ela! Tem umas máscaras legais!
- Não, já disse.
O gigante olha para o menino e tem pena. Tçao jovem e morto para a vida. Quando aperta os olhos, ainda vê as marcas de marimbondos, as vezes, até mesmo todo o enxame. Mas é um menino, e André, imortal ou nao, pode morrer de novo.
- Porque?
- Já disse. As máscaras são da menina, dá neta de meu amigo.
- Você é muito chato.
- Talvez. Mas isso não muda nada. E vamos logo, não quero que seus pais nos vejam junto.
Levo ele para a esquina de casa, olho ele entrando no prédio na curva do internacional e vou embora.
O caroto tem muito talento, mais que o outro fantasma, acho. Mas é um menino, precioso cuidar dele...e agora, dela.
O Fantasma morreu rápido. O boitatá estava riscado de palíndromes. O fantasma não resistiu, atirou-se na serpente, sugado. Não menos frágil quanto mortos que não estão em carne e osso e sua carne e ossos, gritaram em conjunto por segundos, sendo então devorado pela chamas da serpente.
O avô da menina, o mascarado, teve menos sorte. O Papa Figo cuidou dele pessoalmente. Transformado em fera pela máscara do cão, foi comandado pelo vampiro e não passou sim, de um cão, humilhado física e sexualmente. O Papa Figo assegurou que sua face fosse vista através da máscara e senti sua dor e profunda repugnância em cada ato.
Eu nada pude fazer. Foi assaltado pela Senhora do Prata, e só pude assistir enquanto água destruia a rocha de que era formado.
Sua tortura durou noites, meses. Escravo que enfim, foi descartado.

O que espera essas crianças?
Porque o destino não destruiu essas máscaras?
Lembro quando foram levadas pelo Perna Cabeluda, que logo depois, voltou e me chutou até cansar.
Pedaços decartasdos de inimigos que nada significaram.
Mas eu estou de volta. Fui criado para a vingança. E essa máscara de homem que sou, o destino também não destruiu.

Recife, 2005

Um homem que veio de um enterro.
Uma mulher que veio de uma festa.
Um gigante que sempre esteve a esperar.
O cavalo, que sem cavaleiro, vive no estar.
Entre o Bar da Fossa e o Beco da Piriquita eles se encontram de novo.
Sobreviventes.
Imortais.

April 12, 2012

Imortais


Recife, 1934

É um começo.
Eles chegaram. Pelo menos dois deles.
Eu desço da árvore com cuidado, e ao tocar o chão, percebo que o terceiro deles também está aqui.
Ele larga sua máscara e se aproxima da casa comigo, andando ao meu lado.
Até chegar na porta, sua pele já caiu.
A casa é grande e propositalmente mal iluminada. É melhor assim.
O fantasma abre a porta. Ele parece vivo. Se não fôssemos tão parecidos, não notaria que está morto.
É estranho ver ele assim, tão vivo. Para mim, é evidente que ele está morto.
Quando entramos, sinto o calor do cavalo.
O cheiro forte de cachaça domina a casa.
Conversamos por horas.
Desde o incidente, é a primeira vez que nos vemos.
Quatro vigilantes, tão diferentes. E um inimigo em comum.
O Papa Figo.

Lembro. Criado de uma poça de lama. Barro, se você preferir, como foram todos os homens em tempos passados.
Erguido da terra dois anos atrás, já homem feito.
Mas certamente, nada como a imagem de meu criador.
O homem era velho, pequeno, magro. Ele me esculpiu como um colosso.
Suas primeiras palavras foram uma ordem.
"Mate-o". E eu sabia quem. Eu queria matá-lo.
O homem havia arruinado a sua família.
A sua filha.
Eu já sabia disso. Parte do velho, sua herança, um baú de memórias boas e sujas, veio para mim.
Assim, sentia eu mesmo o ódio e sabia como encontrar meu algoz.

O apartamento dele ficava em um prédio antigo.
Meu impulso era matá-lo o quanto antes, pensar nele só me enchia de fúria.
Quebrei portões e portas assim que o vi na varanda.
O peguei entre meus dedos e parti sua garganta.
Então, ele riu.

O papa figo me atirou da sacada.
No chão, me parti em pedaços, me dobrei, ou fiquei amassado.
A imitação de carne, ossos, sangue, não passa disso.
Sou feito de barro, da terra.
E esta me recompôs.
Lentamente, meu corpo era o mesmo de antes e pude ver, por uma das janelas da casa, a figura do monstro.
Ele sorria.

Saí de lá sem pressa. Havia um impasse. Ambos, imortais.
Comuniquei o caso a meu criador. Ele faleceu poucos dias depois.
Mas sua ordem ardendo, imperiosa e odiosa, em minha testa.
A vingança queimava por dias e noites e logo tentei matar o Papa Figo novamente.
Falhei como da primeira vez.
Mas desta vez, não falhei só.
Os outros estavam lá.
O homem das máscaras.
O morto-vivo.
O cavalo.

Nossa derrota marcou nossa união.
Juntos, decidiremos como destruir o Papa Figo.
Ou assim pensávamos quando nos reunimos na casa afastada e escura.
Discutimos nossas capacidades, dons, uns com os outros.
Eu certamente era o mais forte fisicamente.
O mascarado porém, tinha uma ferocidade instintiva inigualável.
O Cavaleiro tinha um conhecimento místico que rivalizava meu criador.
Aquele que havia morrido, o fantasma, era o único de nós que podia se passar perfeitamente por um humano.
Fizemos planos, vários, mas nada parecia acertado.
Terminamos nossa reunião marcando outra.
E a casa foi atacada.

Chamas, explosões.
O Papa Figo, Boitatá, a Senhora do Prata, a Perna Cabeluda...
Imortais, todos, talvez em sua primeira reunião,
Talvez depois de fazerem planos inconclusos,
Atacaram. E imortais ou não, fomos destruídos...

Recife, 1984

Eu volto a pensar. Da lama, do caos, meus pensamentos se formam novamente.
Uma cabeça, ainda com a marca de ódio. Um braço, com a pele negra, como de tantos outros que foram escravizados nessa terra.
E meus olhos, ainda sujos de lama, viram uma mão amiga.
O Fantasma. Ele está diferente.
Porém, é o mesmo.
Ainda é um homem comum, morto por dentro.
O vejo como uma ele é nessa nova encarnação, apenas uma criança.
Mas ainda um aliado.
Uma esperança.
Um começo.