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August 28, 2013
X
Procurar um X. Fácil falar, fácil falar.
Ele olha para mais um par de coxas, roliças, se abrem com gosto.
Os pelos negros, encrespados, parecem lhe encarar de volta.
A casa, na Avenida Xisto Ferreira, número 10, lhe parecia tão promissora quanto qualquer uma.
Mas Xeila? Tinha de ser ela, certo?
Ela termina de tirar a calcinha e seu pau amolece.
"Porra".
O amigo teve melhor sorte.
- Tudo bem?
- Tudo.
- Vocês fazem tatuagem, né?
- Aparentemente, é o que diz na minha vidraça, né?
- Bem, eu tenho uma coisa para pedir, mas não sei se vocês fazem, pode ser ilegal.
- Sim?
- Bem, queria saber se vocês fizeram alguma tatuagem específica...
- Específica como?
- Olha, não sou um tarado, é um caso de conhecimento.
- Sei...
- Bem, alguma cliente fez uma tatuagem na virilha, um X?
- 50 reais.
- Como?
- 50 reais e te respondo.
- Mas só pra dar a resposta?
- 50 reais.
O dinheiro muda de mãos e Fernando agradece que Márcio tenha ido procurar de outra forma.
- Tenho sim, na verdade três clientes. Tatuagem na xoxota, hoje em dia, é mais popular que tatoo no braço de marombeiro.
- Tem como me dizer o nome, endereço?
- Vocês são todos iguais.
- Ei, não sou nenhum tarado, cara, é só uma investigação, juro.
- Sei. Olha, por 250 te mostro até a foto da buceta dela, antes de depois.
- Só quero nome e endereço.
- Estão espera aí.
O homem alto, de tatuagem que cobrem os braços fortes, entra na loja que já estava fechando.
O homem baixo, com cicatrizes que marcam suas costas acompanhando toda a espinha, entra na loja fechando a porta atrás de si.
- Ei, eu disse para esperar lá fora.
- Eu não tenho 250.
- Então se foda, porra. Volte quando quiser, agora saia da minha loja. Que coisa escrota!
- Escroto mesmo.
O tatuador cai no chão, urrando, sentindo suas bolas se espremidas por dedos invisíveis.
- Onde está o livro de fotos e onde acho os endereços?
O homem aponta.
- Pega pra mim, por favor.
Ele se arrasta devagar.
Fernando esfrega o pedaço de couro com menos afinco, deixa o homem respirar.
- A-aqui.
Pega o álbum de fotografias, todas impressas em papel fotográfico, e o pequeno caderninho de endereço.
- Aprecio sua diligência e obrigado por não ter nada disso num maldito computador. Agora, os 50 de volta.
O homem espicha o braço e entrega a nota, sendo chutado no rosto, pescoço e peito.
- Valeu.
Diz Fernando, saindo da loja e entrando no carro velho.
O celular toca. Xuxa atende.
- E aí?
- Talvez, cara. E você?
- Na trilha, na trilha.
- Tá bom. Me ligue quanto tiver algo.
- Feito.
Xuxa guarda o aparelho no bolso da camisa e continua esperando.
A mulher sai. Seu rosto gordo, uma enorme lua branca, é palco de um delicado balé de lágrima, mas a poesia se quebra com o arreganhar da boca e o alto choro.
- Calma, filha, ele depois vai voltar.
Diz a mulher pequena, com o rosto magro, de pele seca e esticada, que se vê em grande contraste em relação aos vivos olhos de menina, de um cintilante azul escuro.
- Madame Xi?
Os olhos de xibiu se espalham pelo seu corpo. Ele se sente avaliado, pesado, e logo, preparado para o matadouro.
"Que profissional", ele pensa, em verdadeira e profunda admiração.
- Sim, querido?
O querido é pelo terno, pelo corte caro, pela fala macia? Xuxa não sabe, mas sabe se fingir de peixe.
- Eu quero saber se minha mulher está me traindo.
A gorda lhe lança um olhar enquanto sai pela porta.
"Não há santos nessa cidade", ele lembra e fica tentando a dar uma piscadela. Sempre gostou de sentir a carne cedendo entre seu dedos e estocadas, mas se contém. Aqui, é só mais um besta.
- Quer que eu leia sua mão, tire as cartas?
- Serviço completo. Eu posso pagar.
As pequenas e rápidas turquesas parecem ter seu próprio sorriso, mas os lábios ressequidos nada mostram.
"Assim eu lhe amo, moça!", pensa Xuxa, que entra pela cortina de contas para uma sala mais escura.
- Sente, não tenha medo.
Ele senta na cadeira que balança um pouco com seu peso. As pernas musculosas de Xuxa o apoiam melhor que a madeira e assim, se deixa sentir-se mais seguro.
- Qual o nome dela?
- Xerazade. Com X.
Os olhos quase que a traem.
- Xerazade?
- Isso.
- Que mais pode me dizer dela?
- O que a senhora precisa saber?
- Qual a idade dela?
Um tremular de xilofone se apresenta nos lábios dela. "É ela...", ele sabe.
- Mãe?
- Como?
- Mãe, sou eu.
- Como?
"Eu estou assustando ela, calma, Xuxa...", ele tira do paletó os papéis.
- Mãe, sou eu, Xerazade. Eu posso provar.
- NãO!
A velha corre para dentro da casa. Xuxa se levanta, cansado da farsa, retira as lentes de contato que escondem os olhos turquesa.
- Ela tá no Clube Xavante.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Você está bem? Como foi com sua mãe?
- Não foi bom.
- Ela resistiu?
Xuxa desliga e olha para o banco de passageiro, de onde olhos mortos, repousando em um lenço limpo, o acusam.
Os quatro homens se encontram na porta do loca. Chove, mas a água evita molhar qualquer um deles, esquivando-se com nojo.
O mais velho deles, tosse.
- Tomou seu xarope?
- Tomei, Márcio. É mesmo aqui, Xuxa?
- É sim, tenho certeza. Eu trouxe... Os olhos dela.
- Estão apontando pra cá? Tem certeza?
- Xerxes, seu filho fez tudo que devia ter feito.
A baba marrom que embeleza os lábios do homem, é menos desprezível que o olhar que lança para baixo.
- Xô, Fernando. Não pedi sua opinião.
- Mas vai ter. Ainda não acredito bem em sua história.
- Se quer ficar rico, melhor acreditar.
- Xuxa, você tá legal?
- Para de paparicar ele, Fernando. Ele tem um pau, lembra?
- Seu filho da puta!
Xuxa volta para o carro. Márcio pigarreira.
- Xuxa, fica aqui. Xerxes, então, que fazemos?
- Você trouxe o que pedi?
- Claro.
Márcio abre o saco, dentro, envelhecidas, balas xaxá.
- Pai?
- Que é, Xuxa?
- É ela?
Xerxes olha com cuidado. O cartaz de xerox não ajuda, mas ele ainda assim a reconhece.
- Sim, Xuxa, é sua irmã gêmea.
O homem de gosto refinado, fita o cartaz, encantado, ignorando os seios e vagina estrelados, e se perdendo no rosto espelhado.
- Bela adormecida.
A voz de Márcio espanta Xuxa, que sente algo sendo empurrado para dentro de sua mão. É uma bala com embalagem amarela.
- Mantém na mão esquerda e não abra.
E os quatro entram no Xavante, sem perceber os raios e trovões que atingem a cidade com fúria, como que abortados do céu.
Eles sentam, numa mesa próxima da porta. O local é escuro, quente, úmido.
Uma mulher se aproxima da mesa. Não há beleza em sua face, mas um desejo selvagem percorre todos os homens.
- São as balas.
Diz Xerxes, numa voz trêmula.
A mulher se inclina sobre a mesa, mostrando a carne, observando os fregueses.
- Olá. Os senhores querem beber alguma coisa?
- Xerez.
Márcio se adianta, evitando a confusão causada pela resposta de Xerxes.
- Qualquer vinho forte que vocês tenha, uma garrafa de cerveja, qualquer uma e se tiver vodka, eu quero uma dose, qualquer uma também.
Ela vai embora, rebolando, mas volta logo com a bebida e se senta na mesa com eles.
- Ximena trabalha aqui, né?
Ela olha para Xuxa.
- Você é irmão dela?
- Porra, Xuxa, é uma puta, não precisa ir como se estivesse de xaveco. Olha, qual teu nome? Aliás, não importa. Ximena trabalha aqui?
A mulher olha irritada, mas vê a nota de 50 deslizando pela mesa.
- Sim, mas você só pode falar com ela depois do show.
- A gente espera, pode ir.
- Vocês não querem mesmo nada?
Todos queriam. Xerxes, ligeiramente mais controlado que os demais, fez que não com a cabeça. Desapontada, ela se levantou e foi para outra mesa.
- Ximena não vai mesmo enxergar a gente?
- Não, não vai, Xuxa. Desapontado?
- Um pouco, pai.
Fernando segura o punho de Xerxes a poucos centímetros do rosto de Xuxa. O velho dá uma rabissaca e livra o braço. Seu olhar diz tudo e só reforça o quão desesperado está para ter que estar ali com com filho. O episódio lembra a eles o que está em jogo, com o peso de seus destinos sendo colocado na balança, se calam, nenhuma das mulheres que se despe, bonitas ou feias, arranca de nenhum deles, nem o mais breve comentário.
Ximena surge, vindo por trás da xilogravura.
O corpo aparece e começa a fazer seu strip tease.
Os longos cabelos, ainda molhados e cheirando a xampu barato, se enlaçam em espiraladas cruzes.
Fixos olhares acompanham seus dedos, quando elas desce a calcinha, mostrado os pelos, que eles percebem, escondem a marca.
Xerxes derruba o forte vinho na mesa, puxa do bolso a bisnaga de xilocaína e por debaixo da mesa, a inscreve com um X.
Os clientes e empregados do local, caem, entre balbucios e gritos abafados, dormem.
E os quatro homens se levantam e vão em direção a prostituta que não os vê, apenas escuta seus passos.
Ela grita e esperneia quando as mãos a tocam, seguram firme e a amarram nas borda do estreito palco.
Um chute acerta o óculos de Fernando, que deixa cair sua bala.
- Cale a boca, Puta!
- Não fale assim com minha filha!
- Pai?
Xerxe abre a mão e deixa também cair o confeito, o que só o ajuda a terminar de prender uma das pernas dela.
- Filha, lembra de mim?
- Claro, pai! Mas o que o senhor tá fazendo?
- O que eu preciso fazer. Quem te mandou fazer a tatuagem?
- Você mesmo! O senhor está maluco?
- Agora tudo faz sentido, não é pai?
Xuxa deixa cair a bala.
- Xerazade?
- Ela sempre foi seu xodó.
- Vocês querem parar com essa merda? A marca tá aqui!
É márcio que agora livra sua mãe esquerda e já traz do bolso uma navalha.
- NÂO! Pai, você não pode fazer isso!
- Porquê, Ximena? Porquê mandei você fazer isso tudo? Eu lhe disse?
- Pai, não olha!
Mas é tarde. A Navalha recorta os pentelhos sobre o estranho e imperfeito X. E os quatro homens, olham excitados para o objetivo de suas vidas.
O Xá ordenou a morte do X.
O símbolo que marca o local, o ponto fulcral.
Dos magos, um se recusa e guarda a marca em sua própria pele, carregando-a foge.
Só para quando duas estrelas cadentes se entrecruzam no céu, sob um oásis.
Começa a viver lá, se casa com a filha de um pastor, escreve livro na areia.
Passa para seu filho a marca.
O mesmo vórtice de sentido e poder que Hitler não entendeu, foi passado de mão em mão, de carne em carne.
Um eixo onde a consciência do futuro e passado de quem o olha, se torna um só.
Os quatro xeiques se olham em roupas estranhas.
Ximena, que se aproveitou do momento de confusão, correu dos homens.
Inflamado por uma xenofobia repentina, um deles atira a navalha na mulher nua, antes de escorrer para baixo.
Escorrendo no tempo.
Os quatro, como peças em um jogo de xadrez, trocam de lugarem, avançam, recuam, tentam ganhar, perdem, as vezes, viram rainhas, em poucos momentos, tornam-se reis, que acuados, procuram o símbolo.
O X que os perturba no tempo, do espaço, da vida, que não para, mas vai e retorna.
Alexandria. No livro, Xerxes tem seu nome inscrito.
Os quatro estão juntos de novo, em volta do jogo importado.
- Xeque!
Xuxa diz, em um barbárico latim.
- Temos de continuar subindo.
- Eu estou feliz aqui, sou jovem, posso ir para onde eu queira, Fernando.
- Fácil para você então, Xerxes, mas você nos deve. Lembra o que prometeu? Lembra da carta que jogou fora?
Agora ele lembra. Lembra de tudo. Lembra que tinha o futuro em mãos e o descartou, e quando o percebeu, velho, já tinha deixado o vigor lhe levar tudo, mas a fixação o marcara, a bruxaria tornara o mundo a sua volta obcecado, pertencente ao X, que o tornou louco, que o fez sacrificar tanto por tão pouco.
- Eu não sou xexeiro.
- Então, velho, vamos. Olhe a marca.
Xerxes escreve a carta. Nela, os números de jogos de azar, informações sobre o futuro. A vida que ele, um menino então de apenas 10 anos, terá, será bem diferente. Talvez não case com Xênia, com quem terá duas filhas de olhos turquesa. Nem fará uma delas mudar tanto, sacrificando ela em nome do oculto. Nem abandonará todos quando perceber que tudo foi em vão. Talvez não conheça os homens que são sua presente companhia, guiados por corações sem escrúpulos, de certa forma, tão obcecados por ele.
Xerxes pode mudar o futuro. Pode mudar o mundo.
Não se surpreende com a escolha do Xá. Teria ele esse dilema? Matar-se para poder ter a vida de seus sonhos?
Tudo que o define é apenas um X em um mapa para uma criança achar um tesouro.
No local certo, ela poderá se tornar um monarca.
No local errado, está enterrado a vida que tem hoje, que só agora lhe percebe a importância.
Quem sabe, escreverá outra carta, dessa vez, para Ximena, onde lhe contará tudo e como garantir que sobreviva a ele, fazendo esquecer de sua família antes de maiores sacrifícios que, ele sabe, havia planejado.
Tudo se encaixa.
Os outros o olham apreensivos.
E tudo que ele precisa fazer é marcar um X.
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August 24, 2013
V
Não há vacina para esse vórtice. Me vejo escoando como a água da pia que pinga, pinga, pinga, sem parar.
- É só uma borracha.
- É, eu sei.
- Não vai trocar?
- Coloca os braços aí.
- Assim?
- Isso.
Quase escorrego no véu, mas lhe penetro a vulva.
Ela geme, geme, cubro a sua boca para evitar os gritos.
Que mulher gostosa.
- Isso, rebola.
O rabo gosto e a vontade de gozar e de fuder mais e o que fazer?
Aí me fixo na verruga. Aquela sua imperfeição que impugna a carne. O nojo que segura o jorro, apertado pela minha palma que lhe agarra o ombro. Mas querendo que me apresse, escuto uma palavrarfar, entre dedos mordidos:
- Volare!
E não nos resta muito, logo apoiados um no outro, numa visceral visão suarenta e exausta.
Eu me levanto.
- Vinho?
Ela faz que sim e dou a volta pelo parapeito que separa a sala da cozinha.
- Tinto?
- Hum hum.
Ainda há um tom de volúpia. Era isso que eu queria? Pego a garrafa, abro, mas não levo copos.
- Quero um copo.
- Tira o vestido.
A noiva desnuda se abre e chão e vinho se misturam, onde me esfrego.
Eu desperto antes. Ela, jogada no chão, escancara, vulgar, não ouve a porta.
- Victor!
A madeira berra, o vitral vibra.
- Victor!
Há duas maneiras de resolver isso. Eu escolho a pior e escancaro a porta.
O noivo olha a mulher no chão e não a reconhece. Negação.
- Victor, você viu...
Ficha cai, estômago sobe, vomita no meu tapete de boas-vindas. "Vou ter de limpar a bandeira argentina depois", escuto de uma distante parte de meu cérebro, mais longe que aquela que devo aos velociraptors. Essa outra, me afogando em gritos e LUTE, CORRA, LUTE, CORRA, como se o mundo fosse um binário entre FODA, MORRA, FODA, MORRA, que é o que sinto quando olho ele.
É uma viagem. Lenta, bruta, mas lenta. Lenta e dolorosa. A boca dói, o nariz incha, as lágrimas se cospem. Lento, não sinto o outro soco, só o rim que explode. O sapato, lento, voa com o chute. Lento bato, bato, bato, no taco que me oprime.
- Vaca! Vagabunda!
- Você ajava que ela erra firgem?
- Virgem como seu cu, né viado? É isso?
Ele me chuta de novo. Eu gosto. Ele lembra que eu gosto? E foi vingança? Fico vendo ele levantar ela, os olhos assustados, mendigos que não esmolo, mas jogo o vestido do ensaio de casamento como única paga.
- Seu filho da puta, eu te mato!
Eu olho duro. Puto. Não sabe que já morri? Porque viés ele enxerga tudo sem saber que morri?
- Então volta, Fictor! Folta e me bate mais, porra.
Ela olha espantada, não entende bem. Olhos de veado que se iluminam com a verdade.
- Ventimbora, porra!
O braço dela é elástico, como o corpo que se curvava quando lhe penetrava, um horror vertebral que me comia.
- É um vórtex.
A boca me escapa enquanto me levanto. Ele ainda me olha com ódio, que seja então, com sorte, volúvel como o amor, como onde escolhe onde meter o pau.
Me quebra o vitral quando bate a porta. O menor dos prejuízos.
A cozinha, agora, é muito, muito distante da vilania.
Me quebrou a venta. "Eu amo seu perfil", mentia ele. Escondido atrás no vinagrete, a garrafa.
Continuo sem precisar de copos. Beber irei, afinal, que vitória.
A pia me acusa. Ela enxerga meu vazio.
E pinga, pinga, pinga, como a vodka, que escorre, para esse vórtice, que não tem vacina.
August 13, 2013
T
- Tem alguma coisa a mais para dizer?
- Eu gostava muito de bichos quando era criança. Lembro de uma coleção, em fascículos, em que havia uma espécie de ficha do animal, com desenhos bem realistas deles. Acho que o que gosto mais, até hoje, era um último volume, que era todo de animais pré-históricos.
- Era legal?
- Era sim. Lembro de uma dessas gravuras, uma que achava particularmente interessante, de um Tiranosaurus Rex lutando com um Triceratops.
Havia uma violência primal de dois titãs lutando. Era difícil de parar de olhar.
- Você é mesmo o diabo?
- Ocasionalmente.
- É sempre tão cínico.
- A vodka ajuda.
- Está contratado.
- Eu já sabia.
- Sabe o que tem de fazer?
- Claro.
- Até logo então.
O homem se levanta, abotoa a camisa, fecha o zíper e sai pela porta sem olhar para trás.
A loira olha para ele, para onde não havia ele dois segundos atrás.
- Eres tan meta!
- E eu não sei? Olha, aqui é Tegucigalpa?
- Sí, sí. ¿Qué es lo que buscas?
- Encrenca, baby, encrenca.
- ¡Oh, qué tentación!
- Realmente, que tentação!
Ele beija a loira na boca, uma momento tórrido, e sai andando pela cidade, com o braço em sua cintura. Ele vê o orangotango pelo canto do olho, mas sinaliza que não é hora, nem lugar, e continua andando. Ele se despede da loira depois de chupado em um conversível vermelho, vai continuar com tesão, mas tem uma tarefa a cumprir.
Quando chega no zoológico já é tarde. O guarda barra sua entrada.
Ele olha para o guarda.
O guarda olha para ele.
Ele saca uma garrafa de tequila e começam a conversar.
Pablito não via muito mais onde seguir com a vida. Ainda jovem, mas sem educação, seguiu a carreira do pai: vigia de zoológico.
E no melodrama hondurenho, entre uma dose de bebida e outra, mas próximo do sol nascer, o diabo saca o revólver do segurança.
- No hay balas!
Grita Pablito, mas sem deixar de encolher-se, assim, por via das dúvidas.
Um transeunte se assusta e grita.
O diabo olha com raiva e se prepara para lhe sacudir a arma na testa, mas então, ouve o grito:
OOOOOoooohooooOOOOOhoooOOOOO!
Tarzan surge a seu lado e tenta lhe tirar a arma, mas ele o golpeia forte no peito.
Do cinto, de sua fivela dourada, o diabo tira duas balas.
- Eu sei onde está Jane.
Tarzan para. Seu olhar é raivoso, mas incerto.
- Ela não está comigo, mas sem quem a levou. Quer me ajudar?
Ele concorda com a cabeça.
O diabo segura no braço do Rei das Selvas, e tocando no seu mamilo direito, diz em voz alta.
- Beam me up!
Eles surgem, ponto de luz por ponto de luz, dentro de uma sala de exibição.
Tarzan dá de ombros.
- Estamos no Trianon. A sede da Sociedade de Thule.
Dois nazistas se levantam das cadeiras do fundo e apontar Walter PPKs para o Diabo e Tarzan.
O Diabo não entende alemão. Até ele tem padrões, pois não?
- Sua mãe também!
Ele responde em desaforo aos alemães, que por sua vez, gritam irritados.
- Eu quero o robô! Me tragam o robô que vocês não serão incomodados! Prefiro vocês escondidos na América Latina do que lá no inferno mesmo. Os nazistas começam a atirar.
- OOOOOoooohooooOOOOOhoooOOOOO!
Um deles cai no chão, após receber um violento soco.
O diabo olha para o teto e usa um chicote no candelabro para ir direto no peito do outro galego.
O soldado tenta se levantar, mas lhe golpeia.
- Nem tente!
- Espere.
A voz é doce e dourada, típica de flores que falam.
O diabos se volta para ela. Vestida em tule, como uma noiva, a mulher alta de cabelos dourados e feições doces o olha com medo.
- Como desejar.
O diabo de levanta, mas mantém um pé em cima do alemão caído. Tarzan está sentado sobre o peito do outro.
- Eu sei onde está o robô, mas você promete não nos fazer mal?
O diabo olha para ela, coloca uma das mãos para trás e cruza os dedos, e com toda a sinceridade possível, promete:
- Prometo.
Prometidas promessas a serem feitas e quebradas, ele e Tarzan acompanham a moça para a floresta que sai do da porta do cinema.
O caminho é ladeado por tiriricas é uma trilha longa. No fim, uma torre com um enorme olho flamejante. O calor do vulcão próximo deixa o diabo animado.
- É aqui. Por favor, senhor editor, nos deixe em paz.
O diabo sorri enquanto a moça vira um teteu e voa para longe.
- Vamos, Rei das Selvas, temos ainda trabalho a fazer.
Mas não há resposta.
O diabo se vira.
Tarzan está quebrado. O corpo de posições impossíveis, esfacelando-se nas mãos de um enorme troll.
- Não tente nada.
A voz, moldada para causar medo, ecoa pale floresta. O monstro é alto, magro, com a pele cinza. O diabo olha par o relógio e adianta seus ponteiros.
O monstro logo vira pedra, assim que atingido pelos primeiros raios de sol. O diabo então se vira e entra na torre, soltando pragas, com o nome de Tarzan entre uma cusparada e outra.
Mal ele entra, vê Bowie vindo em sua direção.
- Isso está virando uma tosqueira, sô.
- Eu sei. Alguma instrução do Hangar 18?
- Toma.
Ele recebe o papel enrolado e vai lendo enquanto Bowie caminha para fora da torre.
No roteiro pornográfico, ele entende o afinal o final de Lost. Se livrando desse trauma, se sente mais forte e preparado.
É com o tema de Rocky que ele entra no grande salão, e no escancarar dos portões, escuta o turbilhão vindo das paredes, onde soldados alimentam o olho, presos na realidade virtual que os escraviza. No centro da sala, T-1000. E sobre ele, no teto, uma curiosa luz vermelha.
- Hello, Dave.
- Eu sou o diabo. Vim pegar o robô.
- It can only be attributable to human error.
- Sim, claro. Mas preciso levar ele. Está agora sob a minha tutela.
- Affirmative, Dave. I read you.
- Então, você pode desativá-lo ou algo assim? Não quero ter de destruí-lo.
- I'm sorry, Dave. I'm afraid I can't do that.
- Vou ter de fazer isso do jeito difícil, né?
- I think you know what the problem is just as well as I do.
- No fanfic de onde ele fugiu, deram consciência a ele, né? malditos escritores.
- Dave, this conversation can serve no purpose anymore. Goodbye.
- É, foda-se você também.
O diabo, sem ver alternativa, se aproxima do robô. A máquina olha direito para ele, e sorri.
- Não sei porque você está sorrindo. Sabe quem eu sou?
O T-1000 não responde, apenas avança.
- Está bem, você pediu por isso.
Quando o robô está próximo de cortá-lo em tiras, se houve o zumbido:
Uummmzuzzuummuuummummmmzuummmm
A espada de luz atravessa o metal líquido sem que este lhe ofereça resistência nenhuma, evaporando parte do material no processo.
- Não, não!
- Agora, né? Pois bem, venha comigo. Vai voltar pra obra intelectual de onde fugiu e vê se aprende dessa vez. Ninguém foge do diabo.
Em casa, depois de um dia cheio, o diabo tira o vestido, recita o nome de anjos que odeia, coloca os chifres na mesa de cabeceira, deixa as calças do terno no chão ao lado da cama, senta na borda e bebe uma taça de vinho do qual ouve o sussurrar de três nomes de mulheres, e por fim, e com carinho, guarda na gaveta uma caneta com as iniciais LC.
E em algum lugar, em uma encruzilhada, alguém lhe promete algo, e nos sonhos em que vê isso, ele toca solos de guitarra para lhe conquistar.
August 11, 2013
S
- Como está a sopa?
- Está boa.
- Boa?
- É, boa.
- A sopa está ótima. Vai fazer bem pra essa sua sinusite.
- Se o senhor está dizendo...
- Qual seu problema, Murilo?
- Adianta se eu disser?
- Claro que adianta. Eu sempre te escuto.
- Sarcasmo.
- Não. Você sabe que não, ou estamos assim, tão fora de sintonia?
- Talvez seja isso, pai. Talvez seja isso...
- E você, Edgar, qual o motivo do silêncio?
- Não quis me meter, José.
- Agora você não quis se meter?
- Não, não quis. E não tene me tratar como um menino.
- O fato de você ter feito sexo com aquela vagabunda, não faz de você um homem, seu fedelho.
- Pai!
- Deixe estar, Murilo. Seu pai sempre foi assim, não é?
- Senta nessa porra!
- Você não pode falar assim comigo, Pai!
- Posso e vou!
- José, Murilo está certo. Você não pode, não deve. É isso que quer, ficar aqui, solitário?
- Isso é surreal. Não sei porque eu aceitei que você o trouxesse aqui...
- Nem eu, pai. Sei lá, vai ver você estava sóbrio, né?
O soco na mesa faz com que os pratos de levantem, alguns chegam a cair.
- Viu o que você fez?
- Não tenho haver com os seus destemperos, pai.
- Borges! Borges!
A criatura baixa, pele negra, chega correndo.
- Verme de Svartalfheimr! Porque demorou tanto?
- Você cortou a língua dele, Pai, lembra?
- Não sabia que ainda fazem dessas coisas, José. É assim que você cuida de todos os criados?
- Se...
- Se o que, José?
- Edgar, perdoe papai, ele está bêbado.
- Não, não é isso, é José? Nunca fomos amigos, mas acho que sei o que se passa.
José lambe os lábios antes de responder e com a mão esquerda, tateia para a faca de carne:
- Então, por favor, nos ilumine.
- Você não quer deixar que Sophia se vá.
Um gemido é escutado na casa, um profundo, longo lamento. Um súplica, uma jura, uma ofensa, tudo enrolado nesse longo e triste som.
- Ouviu isso, Edgar, e você filho?
Ambos concordam com a cabeça.
- Vocês acham mesmo que eu não quero me livrar do fantasma de sua mãe?
- Mas você parece relutar, José.
- Você não quer que ela encontre a paz, papai, é sua vingança, não? Não quer que ela ache uma salvação?
- Não estou relutando e não ligo para o fato dela estar sofrendo ou não. Já pensou em mim? Acho que gosto de ouvir esses sons ridículos?
Ela nem sabe assombrar direito! Eu devia ter prestado mais atenção a sua avó. As mulheres sempre acabam assim, iguais as sogras, não?
- Pai, por favor, deixa eu trazer o exorcista.
- Não.
- José, por favor.
- Parem. Não adianta essa súplica. Estou recebendo vocês como cortesia, hoje é dia dos pais, mas é só. Esquecem quem eu sou?
- Você nunca a perdoou, não é, Pai?
- Por ter me abandonado, levado você e ter ido viver com esse...
- Por favor, termine.
- Não seja tão sacal, Edgar. Precisa mesmo dos jogos de poder? Foi esse seu interesse em vir hoje? Para mim você não passa de um safado, não pior que esse meu filho. Essa idade e solteiro! Francamente! Ponha-se a fazer meninos!
- Me trate com respeito, Pai!
- Ou o quê? Edgar não vai lhe ajudar, filho. Acha que se ele pudesse, não teriam pendurado minha cabeça numa estaca? Se você fosse homem, teria casado com uma mulher de verdade, não aquele sapatão!
- Cale-se! Não fale assim de Lúcia!
- Falo como eu quiser, fedelho! AQUI É MINHA CASA! E a menos que você deixe suas bolas caírem e tenha um filho, ou que, por algum mudança brusca, adquira alguma coragem e venha tomar sua herança a força, terminamos aqui, hoje.
Edgar e Murilo se levantam.
- Borges, leve-os até a porta, mande guardas escoltá-los até os limites de minhas terras. Não quero eles morrendo e sujando o solo.
- Feliz dia dos pais.
- Sempre, filho. Agora vão.
Quando estão saindo, escutam ainda o lamento. Murilo estremece e se volta.
- Isso é sacanagem, pai. E baixa.
- Não foi ainda? Vá embora, cresça e talvez eu lhe escute novamente.
E saíram pela porta.
José terminou de comer, lambendo os beiços do sangue que vieram com a carne mal passada.
- O que acha, Borges, ele ainda vira homem?
- Acredito que sim, senhor. O senhor também foi assim, lembra quando seu Pa...
José pega a criatura pelo pescoço e o suspende com raiva.
- Se alguma vez você me lembrar dele novamente, elfo, é você que me será servido, entendeu?
Ele balança a cabeça e José o deixa novamente no chão.
- Mande que o resto da carne dada aos cães. Amanhã quero receber Kristoff com alguma coisa mais tenra.
- Sim, Senhor.
- Mas agora, me acompanha. Quero ver como estão os trabalhos lá embaixo.
Após lances de escada, em um local fechado, mas limpo, claro, José e Borges se vem a frente com um grupo de elfos que cerca uma mesa baixa, nela, uma mulher.
- Oi, Sophia.
- Seu monstro!
- Eu gosto de seu espírito. Quando quer, pode mesmo agir como uma suçuarana, não é? Pena ter sido tão covarde e fugido.
- Eu não ia deixar você estragar a sanidade de seu próprio filho, José!
- Estragar a sanidade? Sabe aquele serrote? Ele vai cortar sua outra perna e seu filho vai comer ela no dia das mães. Então conversamos sobre sanidade.
- Você é um monstro! Um monstro!
- E você puxou sua mãe! Tem sorte que ainda não tenha mandado cortar sua língua. Falando nisso, Casares, re-module o som. Não quero nada fantasmagórico, quero ouvir os gritos dela mais naturalmente.
- Sem, senhor.
- Minha mãe estava certa, eu fui uma idiota.
- Ela está certa até hoje, mas você é uma idiota por outros motivos.
- Mamãe está viva?
- Claro. Eu não poderia viver sem alguém que engraxasse tão bem meus sapatos.
- Seu monstro! José, por favor, me deixe falar com ela! Por favor!
- Eu queria lhe dar esse prazer, meu anjo. Juro. Mas tive de lhe cortar a língua. Sua mãe falava demais!
- MONSTRO! VERME!
E ele da a volta, caminhando até a superfície. Sorrindo, feliz por ser pai de um rapaz que, quem sabe um dia, possa continuar sua obra. E a ex-esposa, bem, ele acha que ela continua gostosa... A sua maneira.
R
Ela olha para o relógio pela centésima vez. Odeia admitir, mas está nervosa. Nunca esteve tão insegura desde que deixou Roraima. Ela olha para a caixa, confere novamente os mapas das estrelas e procura a ritalina. Nandara enxuga testa, coloca a caixa na mochila e sem muita cerimônia, prossegue para dentro da mata.
Ele sente o cheiro dela. Acha risível como ela tenta esconder seus passos. Para ele, é tudo óbvio, não diferente de ruas em uma cidade, a floresta lhe apresenta caminhos, passagens. Lá está ela, em um rotundo, tendo de fazer a volta até achar novamente a trilha. Não sabe ainda bem o que fazer, essa é a verdade, e poderia considerar que apenas o fato dela estar aí, é uma vitória, mas se irrita com a amadora. Ele esperava mais. E sai, pulando de galho em galho, com o corpo nu, exceto pela mochila que está amarrada a suas costas e dentro dela, uma segunda caixa.
O rato olha por entre as folhas. Não vê ninguém. Mas espera. Olha para a rua estreita, conta até dez e corre. Mal sai do esconderijo, um braço darteia em sua direção. As garras na mão escamosa o pressionam, mais e mais, quebrando seus ossos enquanto se debate. Morre. A criatura recolhe, do corpo do enorme rato, uma caixa. Amarra ela em volta de deu braço esquerdo. De um cinto de pano, pega uma espécie de bússola e compara sua informação com as estrelas. Ele sabe para onde vão ambos, a rameira e o covarde. E segue, agora um rato gigante, para dentro da mata, em direção a rotunda.
A caixa vai se tornando mais pesada a medida que ela se enterra entre as árvores. Os galhos arranhando seus braços e os insetos a picam constantemente. O suor, que não seca, só aumenta o desconforto. Ela podia ter ignorado a caixa, não podia? Que importa as tradições de sua família? Maldita terapeuta, praticamente a convenceu a seguir uma herança que ela não queria. Voltar a Roraima, entrar na mata, carregando uma caixa para levar pro mato. Que mais ela esqueceu na lista de besteiras? Um tambor? Gritos a plenos pulmões para se "reconectar a natureza"? Para ela, a natureza e ela estavam se contando muito bem, especialmente quando pensava nos litros de sangue que os insetos lhe estavam chupando. Mas era só a terapeuta a causa de tudo? Não foi movida pelo sentido de urgência? Pelas instruções, tão detalhadas, específicas? Podia voltar ainda, lhe dizia uma voz em sua cabeça. Ela para, olha em volta. Não vê nada, claro. Escuta a floresta, mas não vê nada. Pensa na segurança de seu laboratório, nas pesquisas que abandonou para ir nessa viagem e dá um passo para trás. Ela ainda pode voltar. Mas sente o peso da caixa, que quebra o momento de reflexão. Um peso que lhe foi carregado com um propósito que, em seu íntimo, sente que não pode ser ignorado, e continua andando, mesmo com tantas dúvidas quanto insetos lhe fustigando.
Ele chega antes dela. Mas acha que ainda a escuta, menos de um quilômetro de onde está. Olha para a cabana que parece guardar o círculo, assim como a abóbada de árvores sobre ele. O velho está do lado de fora, tendo um revertério. Conhece pelo menos duas plantas que dariam um jeito, mas sabe que, se ele sabe, também sabe o velho. Deve ter seus motivos para fazer o que faz. Prefere não dizer nada e em um ponto fora da clareira que rodeia a construção, tira algumas roupas da mochila, se veste e aguarda a mulher.
O rato olha a cabana e enquanto o velho está la fora, entra para o esperar. O local é simples, um prédio circular como a rotunda. Se desvencilha da caixa e fica em cima dela. O velho entra, faz um cumprimento com a cabeça e se senta em uma cadeira no lado oposto da sala. Ele se assusta um pouco com o barulho que chega no lado de fora e se apavora também com o cheiro que não tinha sentido antes. O homem alto e esguio entra sem fazer mais som que o necessário. Olha pro velho, pro rato e senta no chão, colocando a caixa que carrega, na sua frente. A mulher, o rato percebe de longe. Ela cumpriu sua romaria e entra na cabana, até sorridente. Olha pro velho, pro homem, mas nada há de risonho quando olha o rato. Ela se volta para correr dali, gritando, e apenas a rasteira do velho a impede. Ela cai sem muita cerimônia no chão da cabana, coberto por folhas.
Sem rodeios, o velho começa a falar e dar instruções:
- A exilada, o integrado e o transfumado estão aqui. Abram e me mostram o conteúdo de suas caixas.
- Eu queria uma explicação antes.
O velho sorri, mas sem graça. Há um ar de ameaça em todos aqueles dentes perfeitos.
Começa a rapsódia. Da boca do velho, a canção toma forma, dos esguichos do rato, ela recebe um hipnótico ritmo, e da voz do homem, ela ganha força. No retalho sonoro, Dandara entende, intimamente, o porque, no relato da música, enxerga os medos na batida do coração dos homens, lê os tratos escondidos no som das árvores da floresta, tateia no som reverberante o entendimento que precisa para se instruir.
É tudo tão rápido e precisa ser. Ela agora sabe que não tem tempo e precisam impedir uma outra melodia.
- É difícil de acreditar.
- Eu sei, menina. Eu já calcei os seus sapatos. Agora, mostre o que tem na sua caixa.
Ela abre, e surpresa, vê dentro da caixa, um aparelho de GPS, baterias, instruções.
- Bom, bom. Transfumado, você.
O rato abre a caixa e revela uma flauta, mas talhada. Dandara de pergunta como o animal a talhou e tem certeza que não tem a menor vontade de levar o instrumento a boca.
- Muito bem. Sua vez, Maíra.
O homem abre a caixa e revela um cocar. A penas são longas, coloridas, parece se iluminar um pouco a noite. E Dandara tem certeza, não é de nenhum pássaro que tenha visto. E isso lhe amedronta.
O velho produz uma caixa dele mesmo, abre na frente dos outros três. Dentro, um ranho.
- Agora, vão até a rotunda. Até lá eu ainda posso lhes guiar.
Os quatro caminham até sob as árvores, que entortadas como galhos e amarradas por estranhos cipós, se dobram fechando a luz da luz para enxergar a rotunda. O círculo tem um círculo dentro de outro, um maior que o outro, em escala cada vez menor. Com a lanterna, Dandara observa círculos cada vez menores no, vão ficando pequenos até que ela não distingue mais um de outro e como foi possível fazer eles com tanta precisão.
- Criança, venha aqui.
Ela olha um pouco irritada com o tom condescendente do velho. Não sabe o que vai acontecer, mas a memória da música permanece e acha melhor obedecer, voltando para o lado dele e de Maíra e os mantendo entre ela e o rato. Ele sente algo de ridículo no temor que sente, ela não acha que irá atacá-la mas... Afinal, é um rato gigante.
Quando se junta a ele, o homem pega o ranho e fere um dos círculos. Algo como água negra ou petróleo, começa a sair do chão, que agora, também treme. Ela percebe que os círculos v]ao ficando mais fundos.
- Vá, mergulhe.
- Mergulhar, nisso?
Enquanto ela fala, vê o rato e Maíra entrando no negro viscoso, uma noite dentro da noite.
- Eu tenho medo.
- Nandara, eles precisam de você. Só você vai poder lhes trazer de volta. Agora vá, antes que os perca.
E Ela mergulha nas trevas.
O óleo pegajoso começa a cobrir, mas ela está agora resoluta. A mesma força de vontade estranha que a fez entrar no mato. Um ímpeto que quase se parte quando o negrume lhe cobre a boca, depois nariz e por fim os olhos. E tudo acaba, é como se estivesse morta um segundo.
E há uma sensação de ridículo quando percebe, enfim, que respira.
- Maíra?
O som volta, abafado e irreconhecível como sendo sua voz, num eco louco. Ela tenta acender a lanterna, mas não funciona.
Ela grita. É o rato, ela percebe. Está junto dela, enorme, com olhos que devem enxergar esse mundo com facilidade. Ela segura seu pelo, com nojo.
Ela lembra de usar o GPS e marca sua posição. Não sabe exatamente como isso pode lhe ajudar, mas sente que é necessário. Um impulso do próprio destino.
Na luz emitida pelo aparelho, vê outra mão junto da sua, a pele mais clara que a sua. É Maíra. Ele está com o dedo em riste, levantando a frente dos lábios. Ela desliga o GPS e, com a mão sobre o rato, eles vão para dentro do mundo.
O rato os guia até o princípio de uma escadaria, talhada na rocha. Os degraus são longos, fundos. Um local de gigantes. Nandara consegue enxergar o fundo, graças a uma luminosidade latente, mas que ela não consegue distinguir de onde surge. É como a escuridão fosse, em princípio, diminuída, mas ainda assim, não há luz. No fundo da escadaria, ela vê três arcos. Homem, mulher e rato, se ajudam a descer. No chão, ela percebe que cada arco tem um espelho. Mas não há metal ali. Ela toca em um, e percebe para maior espanto, que são espelhos d´água verticais.
- Eu estou mesmo aqui?
Sua voz aquece a câmara, que responde:
- Claro que sim, filha.
Assombrada com a voz familiar, Dandara de volta para um dos espelhos.
- Já fez suas tarefas?
- Qual delas, mãe?
- Da escola, Inha. Vem, vou te ajudar.
E sua mãe a leva para sala. O sol, lindo, ilumina o local. Na mesa, seu caderno, a borracha rosa, o lápis com desenhos doces.
- Olha aqui, linda.
A mãe aponta algo no livro.
Dandara vê enormes pássaros, sem asas. Eles parecem prestes a cantar para um globo.
- Temos de respeitar o mundo, Dandara. Não devemos interferir na natureza, meu bem. Deixe as coisas correrem seu curso. Vai fazer isso por sua mãe?
A menina olha para a mãe. Como negar, quando ainda tem memórias da mulher que a viu perder em um hospital frio, em uma terra distante. A voz da mãe, cálida em amor, sem esquentar o voz.
Então, ela escuta a música.
A mãe olha preocupada.
A menina escuta o som e procura de onde vem. Não está debaixo da meda, por detrás dos quadros. Ela vai par o banheiro em perseguição das notas. A Mãe, em seu encalço, começa a falar, mas a flauta suplanta a voz e não a deixa levantar-se e, segundo a segundo, momento a momento, guia Nandara, que se vê no banheiro. O som, ela percebe, vem do ralo. A mãe a segura pelo braço. Ela continuar a falar, mas a menina não a escuta, indo até o ralo e olhando para dentro.
E ela vê a si, mas bem mais velha, assim como Mairá e o rato.
E cai, sentada no chão, em frente ao espelho.
- Que foi isso?
E ela nota: Maíra também está confuso.
- Que houve?
- Pegaram vocês.
O rato respondeu. Mas não da boca de rato. Ela olha ele mudando, se transformando. Maíra reage com rapidez, puxando uma pequena faca e se lançando entre Dandara e a criatura-serpente.
A criatura sibila e sorri.
- Abaixe a arma, Maíra. Confia mais em ratos que em serpentes?
Dandara se mexe para o lado do homem. Toca em seu braço. Ele guarda a faca e conversa com a naja.
- O que houve com o rato?
- Ele está morto. Ele não representava o transfumado.
- E porque manteve o segredo até agora?
- O espelho conhecia o rato, mas não conhecia Nüwa.
O mundo treme. O chão parecia em falso por um momento e Dandara quase caiu.
- Dandara, se segure em mim e fique de olho no transfumado. Se ele virar mais alguma coisa, me avise.
- Eu sou eu e o mundo é mundo, mas respeito seu receio.
Maíra segue em frente, por dentro de um dos espelhos que se revelaram agora passagens. Dandara, segurando seu braço, segue entre ele Nüwa, como acolhe cada olhar seu com um longo, pontiagudo sorriso.
O túnel termina numa câmara. Nandara vê novamente os pássaros. Animais colossais, um parece uma arara, outro, um joão-de-barro. Nenhum deles tem asas. Do outro lado da rocha cavada, fumaça e animais. E para além da fumaça, homens. Ela olha atenta, tentando perceber o mundo além do véu de uma reacionalidade construída, buscando uma intersecção com o que vê e com o que é. Os homens passam pela névoa que surge do chão e se transformam em animais. Os transfumados. Olha trabalho realizado, como cada um deles, feras e gente, de mortificam em nome das feras. Caminhando por entre as penas e coletando parasitas, servindo para amortecer o chão sob suas garras, limpando e lustrando o local, acariciando suas cabeças.
Cada pássaro, maior que qualquer prédio que ela já tenha visto. E entre ele, o mundo. Um globo de fulgurante chama verde, que ilumina e aquece o local. Nele ela vê tudo, cada momento de sua vida, sob cada ângulo. E de todo mundo. De cada pessoa. De Maíra e de Nüwa, do velho, dos pássaros, de cada um dos escravos, de cada pessoa perdida no mundo sem saber que nunca irá se achar, pois lhe falta isso, o ponto crucial que lhes foi roubado e posto aqui, enterrado sob a floresta, para que cada um de nós possa um dia achar, fazendo para isso o sacrifício da jornada.
Dandara quer quebrar o globo e chora, pois sabe que não pode. Ela veio impedir isso. Ela está a serviço de quem impede que o sonho seja liberto, que cada um de nós veja através da bruma.
- Porquê?
Ela diz em voz alta. mas ela sabe. Ela percebe que a humanidade ainda não está pronta, e que assim, livres, sabe que quem enxerga é também enxergado, e há coisas além da cortina esperando esse banquete de atores ainda inaptos em seus papeis. Coisas como os pássaros, que cantam dentro da terra, e com sua voz, tentam apagar o fogo.
- Fiquem perto, mas atrás de mim.
Dizendo isso, Maíra veste o cocar. Ele é um pássaro. Tão grande quanto qualquer dos outros, belo, majestoso. Uma representação, ela sabe, e ignorado pelos monstros, que começam a sugar o ar da câmara, provocando os tremores que sentiram antes.
Nandara sente que quase quebra, os ossos quase racham e trinca os dentes em gesto defensivo.
No chão, Maíra ordena que as legiões parem de cuidar passam a maltratar. Com as poucas ferramentas que tem, cada um deles ataca os pássaros. No começo, ignoram. Mas então, começam a sangrar. Gritam um contra o outro, expulsando do outro animal, os serviçais transformados em assassino. Mas um dos pássaros se vira e com um grito agudo, torna um ar uma lança, que despedaça Maíra.
A confusão é imediata, assim como a reação. O reinado das bestas se aproxima, tentando cercar Nandara e Müwa.
Maíra se levanta. Não ele, um espectro. Ele ignora a criatura-serpente e olha para Nandara e então, para o cocar.
- Eu não sei o que fazer!
Ele não aceita a recusa, e seu olhar implora.
Os pássaros passam a buscar novamente o ar, ainda não derrotados. Nüwa olha para ela e se coloca entre Nandara e a multidão.
Pega no cocar, e sente, com a ponta dos dedos, um lento, carinhoso vibrar. E o coloca na cabeça.
Ela os escuta gritando. Cada um deles. Cada um dos que servem. Eles pedem, imploram instruções, e ela prossegue com o ataque.
Dessa vez, um dos pássaros tenta fazer o mesmo, mas simplesmente lhe falta fôlego. O fôlego acumulado, que demanda que alguém mergulhe até as profundezas e o gaste.
E desse alguém demanda vida.
Nandara cai gasta, exausta.
Desesperados, novamente libertos para cumprir a vontade dos demônios, a legião se ocupa em curar as feridas que abriu. Apenas um punhado se move para a mulher e a criatura.
Nüwa a ajuda a levantar-se e cospe veneno enquanto vocifera pragas. Os transfumados não se importam com as ofensas e continuam avançando. - Você precisa nos tirar daqui, mas temos também de levar Maíra.
- Nada resta dele!
- Faça o que eu digo, humana! Três entraram, três precisam sair!
E enojada, sentindo a proximidade de dezenas de olhos odiosos, Nandara ajuda Nüwa a recolher os pedaços do homem e colocar na mochila que ele carregava.
Os gritos, cada vez mais próximos, lhe forçavam e imprimiam ligeireza que não sabia que tinha, e logo estava escalando os degraus de novo. Por sobre o ombro ela ainda olhava a esfera. Ainda havia dúvida. Ainda queria, ela mesma, voltar e cantar até que ela de fragmentasse. Uma vontade irracional de liberdade.
E ela não esqueceu esse ímpeto, e se apegou ao sentimento até que chegaram de novo até onde, de acordo com o GPS, estava o ponto de partida.
- É aqui.
Ela diz para as sombras, que sibilam em resposta.
- Me ajude a montar ele.
- Montar?
- Sim, sim. o melhor que pudermos.
E a serpente e ela reconstroem o homem. Isso lhe parece inútil. Não há magia que o traga de volta. Maíra está morto e só.
- Isso é ridículo.
- É? O que você sabe? O que sabia? Não enxergou nada? Nada aprendeu, sobre limites e regras e deveres e até onde forçar a sua liberdade sem rebentar o mundo? Três entram, três saem. Sempre foi assim e sempre será, menina. O homem, a mulher e o animal entre eles. O que é uma maça, Nandara?
E os dois ficaram em silêncio, enquanto o mundo ia ficando mais claro, e os três, um deles, sem vida, viam o mundo de novo.
- Eu ainda estou velho e vivo. Vocês fizeram bem.
- Mas ele morreu.
- Todo mundo morre um dia, querida.
Na noite caótica, em que fora empurrada por tudo, inclusive por si mesma, ela sente o "querida" e seu carinho, com estranheza. - O senhor vai ficar bem?
- Vou, claro. Vá agora, Nandara.
- Pra onde? Onde vou depois disso?
- Viver. E quando quiser, retornar. Um dia, talvez, seja você nessa cabana, fazendo um esforço tremendo para parecer só um velho. Hoje, você salvou o mundo. Amanhça, quem sabe? Mas até lá, vá e viva.
E sem olhar para trás, para homens, mortos e serpentes, cansada, ainda surpresa e renovada, a heroína, foi.
August 08, 2013
Q
Q: Bem vindos ao Quiprocó! Estamos hoje com Ricardo Veronese Sakamoto, que vai nos falar sobre o seu novo livro: "O Cometa do Futuro". Sakamoto, o livro foi lançado faz uma semana e está sofrendo duras críticas, ao mesmo tempo que tornou-se um dos livros mais vendidos dos últimos 20 anos. Do que trata o livro?
R: Olá, Quenia. E pode me chamar de Ricardo. Meu livro trata, fundamentalmente, de liberdade.
Q: Então há uma mensagem filosófica nele? Seus opositores clamam que não passa de besteirol, extraído direito de cultos fatalistas do século 20, misturado com noções infantis de Sociologia e Economia.
R: É natural que digam isso. No próprio livro eu digo que diriam isso. O sistema vai sempre lutar contra algo que tente alterá-lo de forma fundamental, e é essa a proposta de meu livro. As pessoas precisam libertar-se do que são, de como vivem e abraçar o futuro antes que sejam exterminadas por ele.
Q: Você viu o futuro?
R: De fato, sim, vi. Inclusive essa entrevista. Tem um pedaço de papel e lápis?
Q: Quê?
R: Lápis e papel. Eu sei que alguém da produção pode trazer, pois eu vi isso também no futuro.
Q: Produção, alguém pode? Obrigada, Milton. Aqui, Ricardo. O que pretende fazer com isso?
R: Eu vou escrever no pedaço de papel as perguntas que você fará adiante. Me dê um momento.
Q: Não sabia que você era mágico além de escritor.
R: Não sou. Mas quando acabarmos a entrevista, você vai preferir que eu fosse sim, um mágico.
Q: Terminou? Estou curiosa.
R: Sim. Pode prosseguir.
Q: Você clama que sabe o futuro. Então, por qual motivo não adianta todas as respostas da entrevista já que sabe todas as perguntas?
R: Se eu o fizesse, não seria o futuro. As perguntas nunca seriam feitas.
Q: Esperto, Senhor Sakamoto. Bem, já que isso parece ser o ponto do seu livro, sendo o maior objeto das críticas, como você conseguir esse poder extraordinário?
R: Foi em um sonho. No sonho, eu andava por uma espécie de biblioteca. Mas era uma biblioteca como nenhuma outra. Nela havia o conhecimento, não só da nossa espécie, mas de todas as espécies, de todos os tempos, e de espécies além de nosso alcance hoje, anos-luz de onde estamos. E Deus era o bibliotecário.
Q: Você falou com Deus?
R: Em termos. E sua mensagem é meu livro.
Q: Então, o senhor não apenas deseja remodelar nossa sociedade, que muitos chamam de uma utopia, em nome de uma mensagem em um sonho no qual falou com... Pausa dramática... Deus. É isso?
R: Sim. E a mensagem é tão real, significante para nossa vida hoje, causou tanto incômodo aos poderosos, que serei assassinado após o show.
Q: Que fatalismo divino, Ricardo! E um complexo de messias! Estou louca para ler seu livro! Vai vender mais quando for relançado postumamente?
R: Não. Ele será censurado, cópias serão confiscadas, e apenas algumas pessoas irão carregar a mensagem. Não sei se será o suficiente, o futuro, e esse é um ponto importante, tem uma certa incerteza.
Q: Então todo o seu trabalho e seu (risos), desculpe, sacrifício, pode ter sido em vão?
R: Sim. Mas é necessário. Quenia, nosso sistema não é auto-sustentável. Pior que isso, nosso sistema não promove uma evolução. É importante que nossa sociedade evolua, que a humanidade se torne transhumana nos próximos anos. Ou enfrentaremos o extermínio em 2062.
Q: O que o senhor está propondo é ilegal. Há motivos claros para que o uso de certas tecnologias, se bem entendendo o que chama de transhumanismo, não caia nas mãos de todos. Como evitar que as pessoas façam mal uso de clonagem, implantes, replicadores, nanotecnologia, entre outros?
R: As pessoas devem fazer mal uso. É através do erro que nasce a evolução, Quenia. Todo o conceito utópico de uma sociedade ordeira, nos impede de ir além. Não foi para isso que fomos criados. Não somos um "quase", não evoluímos como bípedes em vez de quirópodes para permanecermos aqui, negando nosso legado. Nem nós, nem outras espécies.
Q: Que nossa sociedade preserva. O senhor prega o extermínio de espécies que não podem suportar a ânsia de progresso do homem?
R: Não, eu não prego. Eu vi. Em alguns casos, sim, espécies e etnias deixarão de existir. Seja o quati ou os quirquizes, mas elas serão exterminadas de toda forma pois nós corremos o risco de não evoluírmos a tempo.
Q: A tempo de quê?
R: Da vinda de Deus.
Q: Bem, nosso tempo acabou, Ricardo.
R: Espere. Veja o que escrevi.
Q: Que saco! Produção, isso é alguma brincadeira? O papel já estava escrito? Como assim, não tinha nada no papel?
R: Quenia, obrigado. Eu sei que você lembrará de mim. Agora, eu tenho um último encontro.
Q: Então, você não é louco?
R: Agora você sabe que não.
É hoje.
O que vai restar de mim quando chegar a manhã, eu não sei.
Não amarrei todos os fios soltos da narrativa de minha vida.
Quem pôde fazer isso?
Até que nível isso importa?
Como isso satisfaria Deus?
Hoje é 3 de Abril de 2062 e a raça humana como eu conheço vai morrer.
Ainda lembro do corpo de Ricardo. Dois tiros no peito, um na cabeça. Eu estava apenas dois metros de distância onde ele foi alvejado. O homem usava um capuz e saiu correndo. Eu ainda estava tremendo depois da entrevista. Era tudo tão absurdo. Eu corri na direção oposta a do assassino e lembrando do que ele disse, tirei dinheiro em um caixa eletrônico e comprei várias cópias de seus livros, tendo cuidado para não ser filmada na loja. Comprei também dois livros com dinheiro eletrônico. Fugi para casa.
Comecei a ler. Meus dedos mal conseguiam virar as páginas. Ainda tremia e não conseguia me controlar. O livro, porém, fluiu. Fluiu para dentro de mim, como um encanto. Nem parecia estar mais consciente. Vi a nossa sociedade como nunca havia visto antes, toda sua imperfeição, um moedor de carne que nos condena a ter triturado de nossas vidas toda a vontade, o desejo de mudança, o ímpeto de querer mais. E vi o sonho, antes de dormir. Um sonho de uma sociedade em que o indivíduo trabalha para o todo, sem ser acorrentado pelo todo. Um sonho. E adormeci.
Meus olhos se enchiam de luz. Uma luz pulsante, perdida em um mar de escuridão e ao mesmo tempo, cegante. Um Quasar. Perto dele, despertando enquanto eu vagava no sono, um objeto. Ele começou a se mover. Ele refletia e consumia a luz, ele navegava nos ventos solares e se deixava puxar pela gravidade de astros distantes. Quando se aproximava de meus olhos, vi o quanto era magnífico, uma estrutura gigante de quartzo, um templo no espaço. Deus.
Eu acordei assustada. Ele gritou comigo.
Os anos seguintes foram horríveis, pelos menos os cinco primeiros. Eu poderia voltar. Eu poderia ser re-adaptada. Eu poderia ter meu emprego, consumir o que todos consomem, dizer as mesmas coisas, respirar o mesmo ar, comer a mesma comida, frequentar a mesma Igreja. Mas não podia. Eu decidi me matar. O suicídio foi, sem dúvida, a melhor saída.
Deixei para trás minhas amizades, vivia nas poucas bibliotecas restantes, na porta de livrarias, fazia cópias dos exemplares que tinha e os distribuía, até mesmo nas sarjetas.
Mas é difícil vencer o sistema quando se está nas sombras, pois nas sombras é onde ele sempre atuou. Nos acordos escusos, nos meandros dos contratos, um quasímodo que se move sem ser notado, mas que comanda dentro de seu universo grotesco, o princípio, o meio e os fins da catedral.
Por mais inútil que tenha parecido minha luta, me tornei inimiga do estado. Me caçavam, tive de correr, me esconder. Percebi que os locais onde ia eram vigiados. Passei a viajar mais, ir mais longe. Estava cansada.
Um dia, em uma cidade que mal conhecia, fui cercada. Homens e mulheres encapuzados. Tive medo. Lembrei de Ricardo. Corri. Corri. Corri. Mas eram 5 anos de exaustão, em que eu me via só contra tudo. E cai. Então vi a mão estendida.
Eles não eram sequer os primeiros, apenas os mais próximos. Os querubins. Era assim que se chamavam, anjos, mensageiros, sem que eu soubesse, faziam o mesmo que eu, seguiam meu exemplo, sonhavam comigo. Tinham visto Deus.
Me levaram para um quarto, um local tão fora do sistema quanto possível. Passei alguns dias lá. O primeiro tempo de descanso em anos. Tive comida de qualidade. Era irreal. Lembro de ter comido queijo fresco. E voltei a ter sonhos. E voltei preparada.
Nos anos seguintes, nossa religião cresceu. Nem todos eram bons, alguns queriam apenas a liberdade que prometíamos. Nem todos queriam uma igualdade pela individualidade. Afinal, como fazer eles entenderem? Empatia não esborra do silício ou brota em árvores. Nem todos sonhavam os mesmos sonhos.
Crescemos, vivendo nossa quaresma, crescemos. Os governos passaram a ser mais brutos, os irmãos cristãos mais verdadeiros com sua herança histórica, os empresários se tornaram mais temerosos. Mas todos estavam, em algum nível quociente, certos de que algo iria acontecer em 2062 após a passagem do cometa.
Nessa querela, quanto mais próximo do momento da chegada de Deus, o governo mais nos temia. Fomos colocados em "quarentena". Fomos, diziam eles, envenenados por um vírus alienígena. Éramos espiões.
Mas nada, nada do que vaziam, pode impedir que vissem Deus no primeiro de Abril de 2062. Ele chegava magistralmente em seu carro celeste. Seu brilho, uma luz clara e fria, iluminava a noite. O seu espiral acompanha nossa órbita, como que usando a terra como escudo contra o sol. Ou protegendo o nosso sol de sua onipotência.
Em 2 de Abril, chegou a lua e de lá, deixou que partes de si se implantassem na superfície do satélite. Estendeu então sua quintessência até nós. Mas não só. Sua mensagem foi sentida por todos. Cada um podia ouvir a voz de Deus.
Hoje, 3 de Abril de 2062, quatro minutos antes da aurora, quando Deus e o Sol serão um.
Ele vai nos queimar, provocar um dilúvio, nos elevar a um novo estado, nos carregar para encontrar nossos irmãos nas estrelas?
Não sei. Mas todos os profetas estavam certos. Haverá um julgamento, e cada um, individualmente, será um réu e só poderá temer pelos seus atos.
August 06, 2013
P
- PUTA-QUE-PARIUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!
- Que É?
- Deixa dessa punheta, eu preciso sair, porra!
- Você é grosso, hein? Peraí que tô saindo.
- Sempre essa putaria, hein?
- Porque você não se muda, pombas?
- E eu vou deixar minha irmã morando só num mundo escroto desses?
- Você é um charme mesmo. Vai, usa esse banheiro.
- Podexar.
Certíssimo e agora?
- Pat, vem cá.
- Que foi, Mau?
Ele olha pra ela, ela olha pra ele.
- Fala, pitomba!
- Tá, seguinte. Vou sair pra jantar hoje com essa menina. Ela é bonita, inteligente...
- ... Se vai sair com você, já sei que não é.
- Pô, sério, sem onda.
- O que você quer saber?
- Sei lá, Pat, tô inseguro.
- Sério? Você? Tem espaço pra isso tudo na caixa de ossos?
- Olha, não quer me ajudar, beleza, mas não sacaneia.
- Tá, o que você quer saber?
- Bem, além do que eu disse, ela é advogada e vamos jantar num restaurante.
- Não fale mal de advogados.
- Claro.
- Mau, to falando sério.
- Pô, eu sei, Pat! Quando falei mal de advogados.
Ela começa a mostrar os dedos, como que contando.
- Tá bom, tá bom. Não falar mal de advogados.
- Não seja pedante.
- EU?
- Mau, preciso te lembrar.
- Tá bom, tá bom.
- Sério, você se acha, irmãozinho. E consegue ser um saco, muitas vezes.
- Okay. E que mais?
- Ha, sei lá... Esse teu cabelo de playmobil a gente não tem como consertar. Vai vestido como?
- Calça jeans, camisa de malha, acho. Como me visto sempre.
- Humm... Tenho certeza que ela não vai gostar.
- Porquê?
- Olha, ela deve viver cercada de um monte de homem bonitão, cheiroso, de terno e gravata, que parecem prontos para ganhar um oscar. Taí, realmente não vejo um bom motivo para ela sair contigo.
- Você é perfídia.
- Pedante.
- Tá bom, tá bom. Mas eu não vou mesmo com outra roupa, tá? Eu prefiro que a pessoa me veja como sou.
- Tudo bem. Já acho um pecado ela se dar ao trabalho de te ver mesmo.
- Você é meu perfeito super ego, viu?
- Alguém tinha de ser, não é, mister Id?
Ela pisca o olho e sai. Ele fecha a porta e faz a barba. Nada exagerado, uma aparadinha. Se olha no espelho, alisa a barba e fala em voz alta, "My precious". veste a calça, escolhe uma sem remendos. Pega uma camisa qualquer, sem marca, sem dizeres, veste. Se olha de novo no espelho. Pensa em desistir. "Podia inventar uma história, sei lá, meio heroica, mas crível. Uma velhinha tropeçou num paralelepípedo, saltei do ônibus para ajudar ela, a polícia achou que eu estava tentando assaltar ela, quase me prende, e nesse pandemônio, depois de quase levar paulada, não pude ir, podia até emendar, né? Fiquei preso a noite, naquela gaiola sem poleiro", pensa ele, suando, com o celular na mão, e verificando, sem prestar muita atenção, nas mensagens.
"Não vou amarelar, sabe, mas vou de táxi", ele diz, pegando o elevador. Conta o dinheiro na carteira, tenta, em um cálculo rápido, fazer as conta do mês. Acha que está dentro do orçamento o gasto de hoje (nota do autor: Nope, tá não).
Sua rua não é movimentada, mas anda até uma avenida. Dá com as mão duas vezes, mas nenhum carro para. Começa a fica ansioso. E é fisgado pela lua. Está imensa. O táxi para na sua frente. Espera.
- É um plenilúnio.
Ele olha assustado, percebe que o taxista se esticou para lhe dizer isso e entra no carro.
- Desculpe, fiquei distraído.
- Não tem problema, rapaz, já fiquei assim antes. Não é todo dia que você vê isso. A lua encanta, sabe? Bem, deve saber. Vai pra onde?
- É pra perto, o senhor pega a Avenida de Ontem, dobra na Rua da Língua e pega a rua do antigo bondinho. Vou pro Chatô.
- Restaurante chique, né?
- Não, na verdade não. Mas a comida é boa, o local é...
- Entendi, entendi. Você é um desses sujeitos promíscuos, né?
- Como?
- Não me entenda não, também tive minha época. Pegava todas. Como motorista de táxi, ainda dou um jeito de pegar muitas. Vida boa, né?
- É, eu suponho.
- Eu até escrevi minhas desventuras em um livro, rapaz. Abra aí o porta luvas.
Abre, e é assaltado por uma enxurrada de livros finos, um punhado deles desliza pelas suas pernas e cai no chão do táxi.
- Mas rapaz, olha o que você fez!
- Desculpe, desculpe.
- Ainda tem aquele ali. Isso. Obrigado. Bem, rapaz, em suas mãos está minha obra prima. O Pirilampo Perdulário!
- Nome muito... Peculiar.
- Peculiaríssimo. Ríssimo!
- Do que se trata? A capa é meio estranha, borrada.
- É, foi uma foto erótica que fiz. É um romance erótico, rapaz. Um livro... Pernicioso.
- Legal.
- Não vai levar um?
- Não, não. Eu só tenho mesmo dinheiro pro jantar e para a corrida.
- Pena. Mas leve um assim mesmo. Cortesia pelo papo agradável. Não é todo dia que acho alguém tão interessante para conversar, passar o tempo, sabe? Nós somos muito solitários.
- Taxistas?
- Escritores.
- Sim, sim, claro. Olha, é aqui.
- O valor está no taxímetro.
- Sim, aqui, ó. Tudo trocadinho.
- Obrigado e... Vá fundo!
Mauro não consegue achar a melhor palavra para descrever a piscadela do homem, preferindo simplesmente esquecer que a viu.
Ele chegou cedo. O restaurante tinha um ar de certa parcimônia, minimalista até. Procurou por uma mesa no canto, de costas para a janela.
Ele sabia que ela logo ia chegar, mas tentava ficar em paz por algum momento, tentando não suar.
Ele odeia essa passividade...
Ele, ele, ele, ele. Um trapézio. "Talvez, se pensar mais nela, e menos em mim, quem sabe...", mas é interrompido. É o celular.
O SMS é curto: Estou chegando.
Ele não sabe se corre ou se fica. Ainda dá tempo. Como era mesmo a história da velhinha?
E ele vê o carro dela.
E os óculos dela.
Ele não sabe de onde veio a fixação, um resquício de mente primitiva e sapiosexual que nos impulsionou para uma evolução na escolha por parceiros e parceiras mais inteligentes?
No fundo de sua mente, sua irmã racha de rir.
Ela vem chegando perto.
Já pode sentir seu perfume.
- Olá.
- Olá.
E a coisa menos estranha da noite, começa a acontecer.
August 05, 2013
O
- Obrigado.
- Não por isso.
- Não?
- Não.
Ela sorri. Esperando que ele faça o próximo movimento. Nota seus cabelos brancos, o ganho de peso. "Ele é tão antiquado.... Mas é parte de seu charme", ela pensa.
- Então, como está sua vida?
- Ora, você devia saber. Está tudo lá.
- Eu não gosto de bisbilhotar as pessoas no REMwire.
- Eu não penso assim. Afinal, toda informação que está ali, eu mesma que coloquei para que as pessoas vejam.
- Sim, sim, eu entendo. Acho que é tabu mesmo. Como olhar um diário de alguém que alguém esqueceu em um parque...
- Hahaha! Você lembra disso? :)
- Lembro sim. Você deixou no chão, perto do pé de oiti.
- E você não leu...
- É, eu não li.
- Está bem, você venceu. Por onde quer que eu comece?
- O que fez depois que saiu do colégio.
- Uau. Vai ser uma LONGA história.
- É, eu sei.
Ele sorri, puxando algo da carteira. É uma música. Ela sabe qual é. Não gosta. Fala agora, em um tom mais sério.
- Você é um otário, sabia? Não precisava disso, não agora. Podia ter sido tudo cordial.
- Eu sei. Mas apesar da pele que vestimos, acho bom manter claro os motivos pelo qual viemos aqui.
Então... Que fez depois que saiu do colégio?
- Você não tem tudo aí?
- Talvez. Mas quero que você diga. Por favor.
- Eu fui fazer Comunicação na UFPE. Terminei em 2018. Trabalhei em redação, me tornei editora, quando tive oportunidade, preferi seguir a carreira como ombudsman.
- Quem fez o convite?
- Zeca Barros. Você conhece, também estudou com a gente.
- Sim, lembro sim. Tinha mania de dizer "omérico". Por um bom tempo me perguntei como chegou a um jornal.
- O pai dele.
- É, eu sei.
- E você?
Ele olha desconfiado. "De quem é o interrogatório então?", ela pensa se não é isso que ele pensa.
- Eu o quê?
- Como foi sua vida depois do colégio?
- Você é ótima.
- Era o que você dizia.
- Ainda magoada?
- Eu? Não. Todo relacionamento tem uma obsolescência programada, não?
- Sim, de acordo com o Omnimodo, tem sim.
O respeito com que ele diz o nome da IA lhe dá um pouco de nojo. Ela sabe, nunca irá se adaptar, e o interrogatório é uma farsa. Ela está morta desde que se sentou na mesa do restaurante.
- Afinal, você vai dizer?
- Sim. Não vejo um problema nisso. Temos todo o tempo do mundo. Quando eu saí do colégio... Bem, lembra de nosso papel no desaparecimento de Amarildo?
- Sim, claro, por isso eu saí do Rio.
- E do partido.
- Ops.
- É, um grande "ops", na visão de todos os seus amigos, Carina.
- Nem todo mundo sonha em ser um terrorista pro resto da vida.
Seu avatar se tensiona. Se estivesse ali, teria batido nela, mas é só mais um holo.
- Bem, eu, Ricardinho e Félix, levamos Amarildo para o Sul. A coisa no Rio só piorava e então, matamos ele, foi aí que a ABIN nos achou.
- Eu nunca soube do destino dele.
- Mas era claro, não? A polícia tinha seus próprios motivos para não dizer porque ele foi liberado, e nós tínhamos o nosso próprio. Você sabe disso.
- Sim, e eu concordei, mas ela uma criança. Valeu a pena?
- Para nós? Para o Omnimodo? Claro. Em retrospecto, você sabe que sim.
- É, é verdade. A AI começou como uma forma de substituir a PM, não foi?
- Exato. Em alguns estados, como em Pernambuco, a solução foi todo mundo andar armado. Mas não invejo vocês.
Ela bem que queria ter uma pistola agora. Mas o Om não permite.
- Como você chegou ao Omnimodo?
- Não lhe responder isso. Mas trabalhei fazendo serviços da ABIN enquanto eles me permitiram seguir uma vida em paralelo, com nova identidade. Fui fazer engenharia de software.
- E os meninos?
- Eles nos separaram. Nosso contato era pequeno. Mas eu sei que eles morreram.
- Obsolescência programada?
- Não tenho certeza.
- Você prefere ser um orgânico?
- As vezes. Envelhecer tem suas desvantagens. Mas não quero me tornar um holo. Você gosta, Beatriz?
- As vezes. Não foi uma decisão fácil. Correndo o risco de ser sentimental, você influenciou nisso.
- Eu?
- Sim. Sabe, Michel, relacionamentos e o amor, não tem uma obsolescência programada, por mais que o Omnimodo deseje isso.
- Isso é heresia.
- Talvez. Mas prefiro seguir o Om.
- Eu desconfiava. Qual motivo de seguir uma religião para digitais? Não é tolo, já que você vai viver pra sempre? O Om é um verdadeiro ornitorrinco de conceitos, Bia.
- Não tão falso quanto o Omnimodo.
- Eu me pergunto se você quer ganhar pontos comigo pela sua ousadia.
- Não acho que seja ousado ofender um ogro. Afinal, vocês logo vão morrer, quer sua IA continue ou não. Que será de você daqui a um século? Dois? Mas eu estarei aqui, Michel. Não sei se ainda estarei amando, possivelmente sim, mesmo que para provar que seu Deus-Máquina é falho, mas estarei aqui, com certeza.
- Haverão mais "ogros", como vocês chamam. Temos orgulho de sermos assim, feitos de carne, servindo o bem comum. Menos míticos que vocês. Você não passa de uma moda, Bia. E se tudo der certo, nosso orçamento vai permitir expandir o Omnimodo.
- O Om não vai permitir isso.
- Então que você comece a rezar mais forte. Eu não entendo você. Se ainda me ama, porque se tornou... isso.
- Chega um ponto que se deixa de querer esperar, que a carne não lhe dá mais chance de viver e eu tive câncer. Ovário. Eu podia morrer, não me faltavam motivos, estava cansada de tudo, ou podia ainda esperar.
- Então é por isso?
Ela olha para a música na mão dele. "Orora Analfabeta", de Jards Macalé.
- Sim. Foi por isso. Não sabia se você ia notar a modificação, ou se alguém ia conseguir decriptar, mas foi por isso.
- O Omnimodo não gostou.
- Imagino. E você não e pergunta sobre os motivos que levam uma IA a resguardar com tanto preciosismo a cultura de um momento que já morreu?
- Não vou discutir os planos do Omnimodo com você.
- Seria Heresia?
Seu sorriso congelado de quando tinha 30 anos, paira perto do rosto dele. O cinismo não se perdeu em seu holo. Ele será eterno.
- Eu vim pedir que você não me contate mais. Não quero ter de deletar você.
- Por um momento, pensei que era só isso que você queria, Michel. Eu te envergonho, não?
- Não, Bia. Eu tenho pena de você.
- E eu de você, meu amor.
- Você não sente mais isso. É só parte de sua programação. Só isso.
- Talvez. Mas é o que sinto. Amo o seu rosto arruinado como amei sua face adolescente. E não há religiões e IAs que me impeçam de sentir isso, até que a última estrela se apague.
- Eu também senti sua falta. Admito. Mas apenas falar com você sobre essas coisas...
- ... É heresia. Eu sei. Mas posso te pedir um favor?
- Sim.
- Saia do onírico. Eu quero te ver de verdade.
- Qual a diferença pra você?
- Você realmente não faz ideia. Ser um holo não é tão diferente, Michel. Eu quero ver você uma última vez.
- Está bem. Onde?
- Eu estou na frente de seu hotel. Aqui, na orla.
- Sempre o mar, não? Com você é sempre o mar.
- Sim, meu amor. Até fantasmas eletrônicos são saudosistas.
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August 04, 2013
N
Ela me pediu em namoro. Foi uma coisa meio... Desmasculinizante. Essa palavra existe? Bem, FIAT PALAVRUX, ou algo assim. Agora foi. E enfim, sabe do que mais? Gostei. Eu nunca ia tomar a iniciativa. Burned fingers and all that, right?
Ela me chamou para sair hoje. Mas como neandertal, vou ficar por aqui, pintando nas paredes da casa. O meu rupestre pós-moderno, com animais que brotam da rocha. Seguir o conselho de Duda: Se há vontade de arte ou sexo, esqueça o resto e se ponha a trabalhar com finco (tinha um ar aqui, né? Cadê Ana quando preciso dela para revisar meus pensamentos?).
O dia lindo e eu aqui, praticando o assassínio de litros de cerveja e de indefesas azeitonas. Espere, pausa.
Talvez eu devesse jogar uma azeitona no vaso, fotografar. Uma ode transfigurada do desperdício da ebriedade. A urina é o princípio da sobriedade.
Volto a minha parede, aos meus pasteis. Lembro de Naboo enquanto pinto. Aquela cidade chupada de Gondor. Ou é o inverso? É um horror de fractais em que tudo significada nada e nada faz sempre muito sentido.
Niiiiii! Niiii!
Os cavaleiros gritam as minhas costas. Isso é tão nostálgico. Eu era um grande nerd. Agora sou apenas um nerd grande. E porque diabos ela quer namorar comigo?
Pouso o pincel um momento. Respiro no narguilé. Nada narcótico. Nada que me desequilibre. Só vodka. Respiro vodka, bebo cerveja. Melhor dieta ever. Quem nunca? Okay, okay... Eu sei que ela nunca.
O celular toca. Deve ser minha mãe. Olho o celular com desconfiança. Um produto noiado dessa era, um neurótico nonsense. Já disse pra mama: never ligue pra mim domingo de manhã. Eu adoro trabalhar domingo de manhã. Pelo menos quando não estou ressacado. Trabalhar com ressaca? Nunca.
Cansei de Monty Python. O que está rolando no Superplayer.fm? Vamos lá... "Para acordar". Caixas no máximo, pq vizinho que escuta brega não é de Deus e eu sei que eles querem nana e estão de ressaca. Ha!
Diabos, essa música?
I'm up all night to get lucky
We're up all night 'til the sun
So... DAFT!
Devia escutar algo dos anos 80. Sabe? Quando eu ainda não parecia um navio russo da guerra fria, ainda em uso. E ela me pediu em namoro.
Peraí, que essa ninfa ta troncha. Vamos lá, mais folhas. Um crisântemo, um nenúfar. Isso. Uma parede florida. Mas eu quero mar também. Me enxaguar. Noelia grudava em mim nisso, no meu senso de culpa interminável, na minha timidez incomensurável. Que dia crônico. Tome mais Netuno. Com ou sem tridente? Como pinto o moço? Com ou sem pinto? Bem, é minha parede. basta meu pinto por aqui.
Ei, é isso! Não, não, pinto não. Núpcias! Essa indistinta barreira que se mescla, o verde e o azul, Netuno e a Ninfa. Diabos, essa parede vai ficar bonita.
Bonita é a boca dela. Foco. Foco. Vai dizer que não sabe mais namorar? Err... Acho que não. Essa coisa com Camila me entortou um pouco. Peraí, vou ouvir Tribalistas. Tem uma letra tão Dandy Warhols, não sou de ninguém, bababá. Mas sou muito old fashion. Monogamicus Sapiens, a seu dispor.
E relaxo. É sempre bom, quando nesse ponto, se chega, sabe? Os músculos relaxam, o pincel desliza mais fácil na parede. As cores ficam mais difusas e me permite experimentar mais.
Já fui tão experimentado. Nunca sofri com críticas, mas a constante mudança de freguesia, que muitos homens louvam, me entristece um pouco. Vai ver é que meus temas são tão gregos. Ainda não expurguei de mim um ideal romântico.
Falando em expurgo, tenho de maneirar na naftalina. E esse cheiro misturado com a vodka, dá um barato, viu?
Come on now sugar
Bring it on bring it on yeah
Os hipster é que estão certos. O mundo acabou, só restam eles contra os zumbis. Se bem que, dependendo deles, procriar que é bom, nada, né?
To muito emo, cadê o coldplay?
Juro, escuto, mas não sou gay.
Ei! Yellow! Esses caras são uns gênios mesmo. Muito verde, muito azul, precisava deixar quebrar mais mesmo. Ela está loira. Pense em mulheres que sempre me deram trabalho, essas loiras. Mais do que as ruiva, admito. E torce pelo náutico. É muito nhandu pra pouca mosca.
Não sinto mais meus dedos. Ummm, campainha.
- Ooolá?
- Guto?
- Oi?
- Guto, é você, tá me ouvindo?
- Amélia?
- É, eu, Amélia. Posso subir?
...
- Guto?
- Pode, pode! Claro que pode! Venha!
Okay, sem pânico. Sala, sala. Recolher garrafas, jogar roupas sujas na sexta. Banheiro? Tem papel?
Rápido! Garrafas demais aqui.
Noc Noc.
Holy fuck jesus in a donkey!
- Um minuto!
Visto a camisa ou não visto a camisa? Camisa, camisa, relaxe. 4, 5,7. 7? Que é isso? Não pense, RESPIRE.
- Oi, Amélia! Que surpresa.
- É, eu sou assim. tava passando por aqui e resolvi passar por aqui.
Me sinto como um navio a deriva. E a tempestade loira entra sim, me invade.
Definitivamente, desmasculinizante. Mas, sendo sério comigo mesmo, depois de tudo, eu saberia como chegar nela?
- Que coisa linda!
Claro, ela está falando do mural.
- O que é?
- Eu não sei bem, pra ser sincero.
- Tem mais?
- Humm... Tem, ainda estou terminando.
- Não. Cerveja.
E ela pisca. Em outros tempos, outros mundos (Valeu, Silverberg!), eu teria beijado ela ali, na agora, na lata, sem átmos entre nós, só o abraço, o correr dos dedos, o toque dos lábios, um agarrar firme.
Mas estou tremendo, parecendo quando namorei com Cláudia. She was awesome, btw.
- Sim, sim. Cerveja, vodka. Licor também.
- Domingo. Prefiro cerveja. Posso pegar?
- Claro, a geladeira é ali.
Minha cozinha está um CAOS. Sério. Éris foi quem fez a faxina.
E ela gira nos calcanhares, Bud em punho.
- Você abre?
- Claro.
Ela bebe um pouco. A cerveja é um glitter. Não consigo tirar os olhos dos lábios mais perfeitos que já vi.
Sim, "mais perfeitos". Ela quebrou meus padrões. Pode isso, Arnaldo?
Ela chega mais perto. Meu coração, só tum tum tum.
- E aí, pensou a respeito?
Sabe? É nesses momentos em que se separa os homens dos meninos. Ou pelo menos é o que me digo para me redimir. E aí me visto de Noturno e respondo bem Vin Diesel:
- Não. Mas me dá um beijo assim mesmo.
Enfim, domingo legal.
August 03, 2013
August 01, 2013
L
Não há lucidez em seus olhos. Lindaci já está muito além disso. Ela pisa com cuidado. A perna ainda não está pronta. As fitas negras circulam sobre e sob a pele, próximas ao pé direito. O curto vestido negro a deixa observá-las. São lindas. E causam terror em seu reino. Ela se senta no trono e aguarda. Não nota o tempo passando, ou se o nota, o ignora. Vidrada, observa as fitas realizando sua mágica, sem nunca sequer piscar os olhos.
Laísa era a única que se aproximava. Pingava colírio em seus olhos. Sentia e cuidava de seu estado letárgico. Alguns, diriam em quase que absoluto silêncio, lunático.
Lindaci só volta a mover-se quando surge a Lua, brilhando sobre si e seu fortim. Uma coluna de luz que pairava sobre a torre, como um holofote, um farol celeste que anunciava a todos que ela era o que restava do velho mundo. Ela era a palavra, o poder, a ordem. E estava louca.
Laísa não ficava durante a noite. De que adiantaria? A tirana do castelo não lhe reconhecia mais. Foram amigas, irmãs, amantes, um amor lésbico que provocou escândalos. Isso, antes do mundo acabar. Tudo era tão complicado antes do mundo acabar, tudo era tão ridiculamente simples e fácil.
Ela se move pela cidade sem pressa, sem medo. Ela sabe que murmuram também a seu respeito. Não se importam mais com quem ela dorme, não se importam mais com seus talentos para o teatro, importam-se apenas com suas passadas e o medo que sentem quando se aproxima. O demônio, o monstro. Lhe tratam como se um leproso nos séculos passados estivesse caminhando pelas ruas. E tudo que ela fez errado foi amar.
Victor termina de comer o pão meio azedo e segue para o fortim. Quer ver a rainha com os próprios olhos. Rainha. Ele conheceu Lindaci antes, jovem, promissora, uma cientista de carreira que tentava aperfeiçoar remédios com base em levonorgestrel. Quem poderia dizer que ela ia experimentar em si mesma? Nela, na amante e mais três amigas? Quem imaginaria o resultado. Ele ainda se sente usado. E o larápio é ele.
Lindaci caminha pelo castelo sem que ninguém fale com ela. O silêncio é tudo que ela quer, durante boa parte do tempo. Todos, eventualmente, aprenderam a respeitar seus desejos. Deixam sobre uma ou outra mesa os dados que precisa ver, leis que pode assinar, e toda a burocracia que uma governante tem de lidar. Ela não se importa tanto. Não mais. Sente falta de Laísa, mas de que adianta? Tudo que restou é uma lembrança. "Lindaci, Eu quero ser livre junto. Não tornar duas pessoas prisioneiras entre si. Esse não é o caminho pra se amar". Uma filosofia tão simples, que reverberava com seu espírito e ainda assim, ela a traiu. Ela precisava mesmo de Victor? Que sentia por ele? A pontada na perna a desperta das divagações. A fita negra flutua, correndo junto a seu corpo, subindo pela perna, passeando pelo tronco e esperando, paciente, que ela abra a boca. A fita negra entra e desce pela sua garganta, e como sempre, a sensação é como se vomitasse para dentro de si. Ela odeia. E deve o que restou do mundo a cada uma delas.
Laísa chega a sua casa. Ninguém vai até esse ponto, todos temem os animais que foram soltos do zoológico. Animais que ela entende e que aprenderam a reagir próximos a ele. As pessoas tem o que temer. Ela sobe a grande pula lá dentro do local dos bichos. O primata vem logo em sua direção. Um gorila divide espaço com ela, seu pequeno animal de estimação. Ela afaga sua cabeça e se deita, cansada, ignorando o cheiro e a lama. Sente tanta dor. É um elemento constante em seu viver. Lembra do dia em que cresceu, quando o pólo magnético se inverteu e por uma fração de segundo, houve uma nova gama de radiações cobrindo o planeta. Todas as cinco foram transformadas. Lindaci pareceu não se alterar, mas isso era só o que podia ser percebido por fora. Laísa? Ela explodiu em músculo. Massa muscular que precisava ser reposta, ossos que se quebravam com facilidade, força que mal podia controlar. Dor, tanta dor. O que os aparelhos de geoengenharia não destruíram, enlouquecidos que foram pela mudança magnética, ela e as outras fizeram em pedaços. Lindaci quase a matou. Lembra dos olhos chorosos, enquanto faixas negras eram expelidas de sua boca, algumas cortando, outras a segurando, envenenando... Uma nova injúria. E ainda a amava a despeito disso. E o bicho-papão vai de novo dormir, chorando, enquanto escuta dentro de si, músculos e ossos, movendo sob a carne, quebrando e regenerando, quebrando e regenerando, quebrando e regenerando.
O bandido sorri. Tinha certeza que seria recebido no castelo, mas não tão bem. Lhe oferecem até mesmo um banho. Um banho! O fortim é, como dizem, um paraíso. A terra devastada a sua volta, onde as pessoas tentam sobreviver em uma cidade que parece teu sido cortada no talo. Nada que tivesse mais de um andar sobreviveu aos desastres naturais, exceto o fortim. Ele lembra das fitas negras no chão. Ele as pisou sem medo, sentindo elas quentes sob seus pés. Vivas. Uma parte de Lindaci, sempre prontas a se levantar no ar e proteger o fortim do que quer que fosse. Salvadora, tirana, tomada por loucura, dizem seus "súditos". Sua tarefa aqui é tão simples: reconquistá-la. Exatamente como os conspiradores suspiraram em seu ouvido bom. Ele só vê justiça nisso, em tomar para si o que é seu, se tornar o Rei do que restou desse mundo, o único prédio que restou em quilômetros de distância, talvez o único que ainda reste no mundo. E poder, enfim, voltar a tomar banho, com água quente e limpa, todos os dias.
A mulher desce as escadas. Os guardas a olham, sem saber bem o que fazer. Não há segredo entre eles. São todos conspiradores. Todos esperavam que alguém pudesse controlar a bruxa. E ela sai, caminhando, sem que ninguém a impeça. Quem se atreveria? A Rainha acabou de sobreviver a uma batalha com a última das fúrias. Esta lhe arrancou a perna. A Rainha sobreviveu, e apenas dois dias depois, desce as escadas como se nada houvesse acontecido. Os guardas sobem as escadas com pressa. Desde que o mundo morreu, é a primeira vez que ela sai do fortim.
Quando chega nas ruas, antes de pisar na lama, algumas das fitas que cercam o fortim deslizam e a mantém milímetros do chão. Outras, formam um abóbada sobre sua cabeça, um guarda-chuva que a protege da fina chuva que cai. Há algo de lúdico na maneira como ela anda pelas ruas, cercada de olhares desconfiados, tristes, alguns francamente raivosos. Eles sabem: é a Rainha. E ela entende que eles não entendem. Para eles, ela sabe, pode até mesmo ser um símbolo do legado ruidoso e moribundo de uma ciência que não deu certo, e ainda assim uma tirana que guarda a si e tesouros do passado em seu palacete. Alguém se atreve a lhe atirar uma pedra, que é coletada no ar por uma das fitas e depositada com delicadeza, na lama. E Lindaci percorre a cidade sem mais incidentes, caminhando sobre as águas, que cobrem o Recife permanentemente, uma lâmina fria, marrom e talvez, eterna.
Victor espera numa sala pequena. Ele nota como tudo é limpo. Como há um misto de novo e velho, e escuta, vindo dos andares no subsolo, a fábricas, os matadouros, as plantações hidropônicas. Protegidos pelas fitas, o fortim se estende para baixo do que foi a cidade, duplicando ou até quadruplicando o tamanho do prédio de quase vinte andares. Ele já se imagina andando por esses corredores secos, checando suas riquezas, pensando em como restringir a distribuição dos bens aqueles que lhe humilharam. Com raiva, desenha em sua mente o nome de cada um dos que pretende punir, letra por letra, em fogo e sangue.
O guarda, vestido em uma armadura de sucata, pedaços de metal, plástico e madeira pintados de negro, o toca no ombro, o despertando para uma realidade que, para ele, é tão boa quanto o sonho. Ele pede para que o acompanhe e o leva até os conspiradores. Os ministros da Rainha.
- Senhores ministros! Que prazer!
- O que você fez?
- O que eu fiz?
- Sim, o que você fez! A Rainha deixou o fortim! Você quer nos matar a todos?
- Eu não tive nada haver com isso!
- Calicanti, o que o ladrão fez ou não, não importa.
- O senhor está certo, Barbos. Guardas!
- Senhores, eu repito, eu não fiz nada!
- Exatamente.
E os guardas levam Victor. E em meio ao som das riquezas sendo construídas, cercadas de um grande vazio de mundo, o som cheio que escapa em um grito do ladrão se abafa em um quarto pequeno, escuro e sujo.
Os conspiradores debatem. Perderam seu coringa. Seria possível prender Lindaci e a obrigar a manter a segurança do fortim? A maior parte acredita que não. Decidem matá-la. Apostam na esperança de que o fortim resista por si só, mas temem que era erga um novo com ela como tirana.
Os guardas saem em busca da Rainha, sabendo que os sobreviventes, serão os senhores do amanhã.
O vento se torna mais forte a cada momento. Lindacy vê timbus, longos como lontras, correndo amedrontados a sua frente. Ela se pergunta se seria levada pelos ventos. Se valeria a pela. Carregada como os lírios destruídos pelo ciclone. Vento e chuva parecem seguir seus passos. Os pombos restantes, levam lapadas de vento que quase os derrubam do ar no qual se agarram com as asas sujas. O antigo zoológico esconde por debaixo da lama as pegadas da donzela. O Monstro se levanta de seu fosso, sentido o cheiro da Bruna. Pensa se não é chegado seu momento, enquanto seus ossos se partem no que deveria ser o mais corriqueiro dos movimentos. Alguns, diante da força de seu movimento, ultrapassam a superfície de sua pele, um afundar ao contrário. A dor não a impede de, com um salto, erguer a glória titânica de seu corpo fora do covil dos leões.
O ciclone chega em seu encalço. Parece medir forças com as duas mulheres. Três forças da natureza, liberadas por erros da racionalidade.
Os guardas, covardes por natureza, se veem pressionados a prosseguir e só param na entrada do zoológico, onde buscam abrigo nos poucos e baixos prédios que restam. Por frestas e escombros, observam as mulheres que são agora fustigadas pelo ar cortadiço. Uma delas abre a boca para o ar, uma boca que se estende, que pede mais do que grita. A outra, facilmente confundida com um prédio, é abrigo para os animais restantes, é guarida, mãe, que os nutre com calor e barra deles a tempestade, mas por vontade que por força física. Logo, o ciclone é cercado por outro, parecido com enorme cabo que se estende do único e último dos grandes monumentos a uma civilização morta, uma enorme, negra fita. Girando dentro do ciclone em sentido oposto, a fita vai sendo acrescida de mais e mais parte de si, que desesperadas, correm do fortim.
No que resta da noite, o ar se acalma. As fitas então deitam sob o zoológico, circundando sua dona. O colosso, segurando em seus braços alguns de seus filhos mortos, a olha com tristeza. A pequena e negra figura, envolta em sua própria atmosfera de um cintilante e rodopiante cetim, se aproxima e lhe estende a mão. A massa de carne se move, ferida. Apenas um toque. Apenas um. Toque.
Os guardas saem de seus buracos e avançam. Os animais sobrevivente, de imediato, cercam as mulheres. Sob os pés dos homens armados, as fitas se erguem. Alguns largam suas espadas e cajados e correm. Outro, em ganância e arrogância, esperam, formando um grupo mais compacto e planejando, sem dar-se conta do que enxergam por trás das fitas, além dos animais.
Seus braços mergulham na carne. A boca de Lindaci perfura delicadamente a carne de Laísa. Parecem-se fundir-se em carne que se ama e que tinha saudade de si. Só lhe resta, fora da pele courácea, os cabelos longos e negros. Os soldados restantes, avançam. Cortam fitas, matam animais. Chegam mesmo a desafiar a carne, até que o mundo se revolta contra eles. Serpentes lhe sobem pelas pernas, fitas se atiram como navalhas e por mais que seu metal abra caminho pelo corpo do monstro, seu coração está sempre fora de seu alcance e logo, logo, o sangue dos soldados se mistura a chuva e seus corpos são esquecidos na lama.
As duas permanecem uma na outra por horas. O sol, em seu ponto mais alto, parece as trazer de volta. Lindaci abandona o beijo, mas agarrada as suas mãos, traz a amante. Laísa, coberta pelas fitas, é Afrodite renascida.
As duas sorriem, sentido o luminoso lânguido dia.
E ouvindo, longe, o cair da torre.
Marcas de um novo dia.
July 29, 2013
J
Jacarta. Ele olha pela janela de enjoo (quantos marinheiros de primeira viagem não vomitaram logo ali, pela primeira vez?) e verifica o relógio.
Logo, logo.
Sobe para o convés. Estão quase todos ali, brincando, felizes com o porto a vista. O amor pelo mar só se contradiz pela paixão pela terra firme.
- Estamos quase chegando.
Diz o Capitão, batendo de leve em seu ombro. Sempre atento, consciente das distâncias, físicas e psicológicas, Samuel se tornou amigo e não um simples passageiro. Dois homens que respeitam as distâncias.
- Vai haver jogatina hoje?
- Sim. Ainda não estamos tão próximos. Preparado para perder os cadarços?
- Aquele que me resta? Claro.
Eles sorriem. Sorrisos cansados e francos. Sabem que é a última noite juntos, cada qual vivendo em seu exílio.
A noite chega logo, com ela, uma chuva fina. Samuel pensa no tempo. Pensa em quanto não vai mais precisar pensar.
Mas hoje, com seus ponteiros lentos, ainda importam as horas. E espera ansioso pela hora do jogo.
Ele não espera muito. A ansiedade é compartilhada. Todos são chamados para a sala de cartografia.
O Capitão é quem comanda o jogo. Além dele, Eduardo, João e Bruno aparecem. Todos se sentam ao redor de da mesa, forrada por uma toalha pesada.
No centro, um maço de cartas. Do lado do Capitão, alguns livros. Cada um dos jogadores desenrola ou desdobra folhas de papel. Apesar de não estarem perfeitas, cada um o faz com um cuidado especial, um verdadeiro carinho. Depois, cada um pega 5 cartas do maço.
- Onde estávamos no fim da sessão passada?
Pergunta o Capitão, colocando os óculos. Samuel imediatamente vasculha suas notas.
- Estávamos perto da casa onde Jesus falava, no momento da última ceia.
- Obrigado, Samuel.
- Eu quero usar um jetom e me esgueirar para uma das janelas, quero saber quantos são.
- O que você vai usar?
- Dois cadarços.
- Okay, cubro os dois cadarços e adiciono dois cigarros para uma carta extra.
Eles revelam suas cartas e João vence com um par contra a mão do Capitão, que não tem nada.
- Okay, Mineiro de Jequitibá, você olha pra dentro e vê Jesus e uns 20 apóstolos, homens e mulheres. Eles estão em volta de um jirau.
- Que trem é esse?
- É uma espécie de mesa, João.
Quem responde é Eduardo, antes do mestre, ainda com um dedo sobre o verbete de "jirau", no Manual de Interessantíces. Samuel e Bruno olham um para o outro. Eles se comunicam em silêncio, mostrando ao colega a lista de equipamentos que tem suas personagens.
- Você fala, Bruno?
- Tá. Olha, capitão, eu e Samuel vamos entrar na casa.
- Não vão não.
- Porque não, Eduardo?
- Samuel, nós recebemos ordens de prender Jesus, só isso. E todos eles devem estar armados.
- Mas meu personagem sabe jiu-jitsu.
- Teu personagem o quê, João?
- Sabe jiu-jitsu.
- Não existia Jiu-Jitsu na época de Jesus.
- Como você sabe?
- Olha aqui, página 4978, do tomo VII.
- Você decorou essa porra toda, Eduardo?
- Não, Bruno, não... Ainda.
- Olha, vocês todos estão vendo os discípulos saírem.
- capitão, eu vou encostar em Judas.
- Agora? Eles estão todos juntos ainda.
- Olha, vocês veem chegando uns soldados.
- Eu jogo minha iniciativa!
- Calma, João.
- Eu jogo a minha.
- Samuel, ninguém joga nada!
- Vou pegar alguma coisa pra comer. Você ainda tem jambre, capitão?
- Jambo? Não. Os últimos ficaram ruins faz umas duas semanas. O cozinheiro vai trazer comida daqui a pouco. Senta aí.
- Um dos guardas do templo está chegando perto de você.
- Eu rolo iniciativa!
- NINGUÉM ROLA PORRA NENHUMA DE INICIATIVA! Diabos, parece vendedor de Jiquiti! Baixa o facho! Bruno, você que é o personagem mais social, vai falar com ele?
- Joinha, vou sim. Ei, vocês vieram fazer o que aqui?
- Nos viemos prender Jesus. Os sacerdotes do templo fizeram um acordo com Judas.
- Capitão, eu acho que as coisas não aconteceram exatamente assim. Sabe, de acordo com a página 3275 do volume IV do Manual de Interessantíces...
- Eduardo, sabe onde você envia esse manual?
- João e Eduardo, vamos parar, gente? Vocês tão sendo juvenis.
- Acho que você quis dizer "infantis", capitão.
- Você entendeu. Estou usando de licença poética aqui, está bem? Bruno, voltando, o que você quer fazer?
- Vou continuar falando com ele. Ei, nós também viemos prender Jesus. Podíamos fazer isso juntos. Vocês são quantos?
- 42.
- Joinha. Olha, nos somos guerreiros de elite do Império Romano. Um de nós até sabe Jiu-Jitsu.
- Jiu-Jitsu?
- É, um negócio que nem foi inventado ainda.
- Humm... Está bem. Vou avisar nosso comandante.
- Aaa... Tu é só jagunço, é? Eu mesmo falo com teu capitão. capitão, eu vou me aproximar e falar com o capitão deles.
- Espere. Isso quem fala é o guarda, tá? Espere. Nosso Capitão não quer falar com vocês. Você não é um judeu.
- Eu ignoro ele e vou indo na direção do Capitão. Quero conversa com esse besta não.
- Ele lhe segura o braço.
- Jogo iniciativa!
- Você vai mesmo fazer isso, Bruno?
- Vai iniciar um Jihad!
- Vai não, Samuel. De acordo o Manual de...
- Cara, assim não dá pra jogar nem porrinha.
- Não tenho culpa se ele é um jumento.
- Gente, presta atenção, tá? Vocês vem o grupo de mulheres se afastar dos outros discípulos. Estão indo pra cidade e...
- A ruiva taí?
- Quem, Bruno?
- Maria Madalena.
- Jácomi.
- Vai se fuder, João.
- Mas já sim. Não foi, capitão?
- Foi, João jogou isso sessão retrasada. Você não pode jogar, lembra?
- Porra, mas ela era o interesse amoroso de minha personagem! Como vou fazer roleplay?
- Gente, se liga. Judas tá indo falar com o comandante.
- Porra, muita sacanagem. Pensei que tu só fudia com as personagens de Eduardo!
- Bruno, João, bora atacar eles!
- Calma, Samuel. capitão, que armadura eles estão usando? Eu quero usar a arma que cause mais dado.
- Quem? Jesus e os discípulos? Só roupas comuns, mantos.
- Eu to rolando iniciativa!
- Eu também!
Eles jogam dados de metal sobre uma superfície levemente magnetizada. Ideia do Capitão para evitar que os dados caíssem no chão da cabine.
- Okay, primeiro João.
- Dou um golpe de jiu-jitsu em Judas! Nunca gostei desse sujeito!
- Olha, fazendo justiça, Judas não foi tão mal assim, João.
- Se eu perguntei eu estouro, Dudu.
- Eduardo, e você?
- Eu vou correndo pra nave!
- Que nave?!?
- Samuel, na outra sessão que você perdeu, eles se encontraram com um viajante do futuro, mataram ele e ficaram com a nave.
- Por isso João tem jiu-jitsu?
Todo mundo começa a rir, menos João.
- Fica sendo. Beleza, João e Eduardo fizeram suas ações. Vocês vão fazer o que?
- Eu ataco o discípulo mais próximo.
- Peraí, deixa eu rolar na tabela... Pedro.
- Porra, logo ele? Tá bem.
- E tu, Bruno?
- Vou dar uma voadora em Jesus.
- Tá bom. Todo mundo rola os dados aí que vou anotando os resultados. Vou jogando aqui pelos NPCs.
Eles rolam os dados e o Capitão vai anotando, como disse. Ele puxa fichas de personagens que não são dos jogadores e faz também testes com os dados.
- João, você derrubou o discípulo no chão e está lá agarrado com ele. Vai dar mata-leão?
- Vou.
- Tá bom.
- Eduardo, a nave respondeu seu pedido mental e já está chegando aí.
- Me avisa quando ela estiver aqui. Você tá com a ficha com os ataques dela? Não tá comigo.
- Aqui, pega. Samuel, Pedro acionou o poder dele e virou pedra, sua espada quebra nele.
- Eu uso o anel do poder.
- Anel do poder?
- É, João, na sessão que você faltou, Samuel achou um dos anéis de Salomão.
- Poxa, só eu que não tenho nada legal?
- Você tem Jiu-Jitsu!
- Hilário, Bruno.
- Bruno, você deu uma voadora em Jesus, né?
- Foi. E aí?
- Ele ativou um campo de força e está atirando laser pelos olhos, matando os guardas do templo.
- Porra, capitão, quer forçar, diga.
- João, você consegue dar o mata-leão.
- Bruno, tu faz o que?
- Nem ferrando que esse cara é Jesus. Eu saio correndo para dentro da casa!
- Eduardo, a nave chegou.
- Eu mando ela atirar em Jesus!
- Samuel, Pedro tá crescendo de tamanho, é quase um colosso agora.
- Eu ativo o anel! Ativo o anel!
- Um monte de gênios se materializa no ar e atacam o gigante. Joga 30 dados e me diz quantos resultados deram acima de 16.
- Eduardo, a nave e Jesus estão brigando feio. Dá pra ver agora que Jesus é um robô, mas a nave também recebeu muito dano.
Nessa hora, batem na porta. É o cozinheiro, trazendo uma jambalaia.
- Gente, vamos parar a sessão, tá? Vou só dizer mais uma coisa: Bruno, você encontra Jesus dentro da casa, ele está em estase, mas você desativa o campo e ele salva vocês essa noite.
- Eu preferia ter jogado isso.
- Eu sei, mas estamos nos despedindo, né?
- Está bem, Capitão.
- Samuel, foi bom ter você conosco.
- Eu gostei muito de conhecer todos vocês, gente.
E eles comem, conversam, falam sobre a vida, seus prováveis destinos.
No dia seguinte, Samuel vai embora.
Todos seguem em frente. Cada um com seu caminho.
Uns, indo para países distantes, outros, navegando os mares.
Todos discípulos da imaginação e mestres de si mesmos.
Cada qual com sua história.
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