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June 12, 2012
Eu não amo vocês
A cidade costeira amargava outro dia sujo.
A praia, servida de tubarões e esgoto, ainda era a maior beleza durante a noite recifense.
A rua era escura e desolada.
Perfeita.
Ele gosta de lugares assim, escuros. Isolados. Puxou ao pai, o mais taciturno dos mortais.
Até os amigos de seu pai brincavam, lhe chamavam de "corvo". Mais tarde, a brincadeira mudou..."corno". Mas as indiscrições de sua mãe não combinam com essa noite.
Dia dos namorados. Uma data tão fabricada quanto a ideia de felicidade.
Para ele, era claro: as pessoas confudem prazer com a idílica noção de felicidade. Esta, não existe. Se pode estar "contente", mas "feliz"? Tolice.
E ainda assim, aqui está ele, esperando por ela.
A mulher que lhe orienta. Seu referencial humano. Que lhe atormenta na busca por um campo comum, em que ele possa estar contente sem ganas de matá-la. O irônico, é que, de fato, lhe aprecia. Sua beleza, inteligência. Mas sua humanidade as vezes o frustra.
Isso lhe permite, ou exige, um tom de estranheza. Ela quer, pede, deseja um "eu" que não há. Então vagam juntos pela cidade, de braços dados, carinhosos, mas eles se pergunta até que ponto ele suporta isso, essa farsa de humanidade, essa identidade trocada, quando ele só quer estar metido nela ou em seus estudos, sem essa embalagem de "humano" que todos fazem tão absurdamente necessária.
Ela está atrasada. Ele acha estranho. Talita nunca se atrasa. É talvez a única coisa mecânica nela, sua necessidade, quase primal, de defender-se do mundo com os ponteiros do relógio, modelando seus horários de acordo com uma necessidade de estar e sair quando deseja, mas sabendo antes, programando, seus padrões.
Foi ela quem escolheu o restaurante, a rua.
Na sua tentativa de o "humanizar", Talita busca, com frequência, aplacar seus demônios internos. E sua aceitação, ou percepção da real natureza dele, só garante que ele queira, mas do que nunca, afastar-se dela.
Eles vivem nesse constante atrito de retalhos de seda.
Ela finalmente chega. Pela primeira vez, a vê em desalinho.
Ela olha nervosa para ele e segue para o restaurante, carregando uma caixa de madeira que ele nunca vira antes.
- Talita?
E ela o ignora, passando por ele com passos rápidos e curtos.
Irritado, olha para o carro e cogita se não deve simplemsente ir embora.
Balança a chave nos dedos. Olha para ela se afastando, e a ideia do sexo é o maior argumento para não decidir nada ainda.
E guarda a chave. Afinal, ele percebe, foi a primeira vez em mais de um ano que ela não o tratou com carinho. Ele está curioso, e ao mesmo tempo, admite para si, que desejava que ela tivesse sim, algum traço de personalidade mais forte.
Ele a segue para o restaurante.
O Dragão do Mar.
"Mais clichê impossível", ele pensa.
O restaurante parece chinês, mas é também japonês. Talvez até, malaio. De fato, ele não duvida quando pega no cardápio e nele há várias línguas, pelo menos três que ele não sequer reconhece.
Talita aparece, vinda de dentro da cozinha.
- Oi meu amor, desculpe.
Ele quer fuzilar a garota com o olhar, mas se contém. Sempre se contém.
- Não se preocupe.
Só agora nota, seu cabelo está molhado. Quando ela senta-se ao seu lado, sente o forte cheiro de mar.
- Você foi a praia?
- Fui, fui sim. Hoje é um dia especial. Muito especial.
Ele agora estava definitivamente intrigado. Ela não estava em seu normal.
- Porque é Dia dos Namorados?
- Não...não.
Ela sorri.
- Vai fazer mistério?
- Amor, tem haver com minha religião. Lembrei que você odeia falar em religião. Vamos deixar assim então, tá?
- Tá bom.
- Eu adoro esse restaurante. Se incomoda que peça por nós dois?
- Não, não.
E ele não se incomoda mesmo. Jantar fora é uma dessas convenções sociais que sempre lhe embaraçou. Só o faz porque é obrigado. Quer livrar-se logo de tudo e sair dali. Escuro ou não, algo o incomoda.
Agora, só agora, ele percebe, é o cheiro do mar.
O cheiro no cabelo dela, o cheiro que impregna o restaurante.
Nunca havia lhe incomodado antes.
Agora, o impulso é de levantar-se e sair logo dali.
O que é, ABSOLUTAMENTE ridículo. Controla-se e fica.
Ela pede Sushi. Ele não gosta nem desgosta.
Comeu poucas vezes, sempre com ela.
Ele esperava em silêncio. Ela não se incomodava, ou fingia bem.
Ou, só agora lhe ocorreu isso, ela também preferisse assim.
Tavez também preferisse não conversar sobre sua família.
Trabalho.
Religião.
Vida amorosa anterior.
Ele lembra dela iniciar os assuntos, mas ele sempre a cortou, e ela, obediente, aquiescia sem voltar a falar sobre isso.
Seria uma estratégia, ou ele, como quase sempre, tirava a coleira de sua paranóia bem criada e se deixava levar em devaneios?
Pelo sim, pelo não, abruptamenre, pergunta:
- Porque é um dia especial?
Ela olhou confusa. Ele quebrou, de uma única vez, duas barreiras.
Mas ela sorri. Olha para ele, pega suas mãos.
- Porque hoje, meu amor, as estrelas estão alinhadas. Sabe de quanto em quanto tempo isso acontece?
- Não...
- A cada um milhão de anos!
Ela sorri. Encantadora. Com o enjoado cheiro de mar.
E chega o sushi.
- Vamos, coma.
Ela diz, não esperando por ele.
Polvo. Ou algo como polvo. Algo verde.
- È bom?
- Hum hum.
Ele prova. E sim, e bom. O gosto é bom.
Mas a sensação de estranheza, de ALGOESTÁERRADOCORRADAÍAGORA, o fez levantar-se por impulso.
Ela olha para ele. Pela primeira vez, sente ela lhe olhando de forma reprovadora.
- Sente.
Ela diz, dura. Ele senta.
- Por favor.
Ela completa, doce.
E o beija.
Nunca sentiu tanta excitação antes.
A boca dela o inflama. Cheiro ou não, ele tem vontade de penetrar nela ali, na mesa do restaurante e, domina por uma vontade absurda, a segura com força e quase a empurra para mesa.
E sente algo em sua boca, além da língua.
Algo vicoso, ágil, que se move matreiro.
Ele tenta se soltar do beijo, ela o aferra.
Ele é duas vezes maior que ela. E ela o segura como feita de aço.
A coisa se enrrosca em sua língua.
Ele percebe, dentro de si, movendo-se.
Parece encontrar-se com outro pedaço seu, o outro sushi, dentro de si.
Sente as coisas mexendo-se, numa paródia do beijo que Talita não o deixa largar.
Ele a morde, tentando arrancar-lhe a língua.
Ela o empurra.
Algumas pessoas no restaurante se viram, olham para eles, ma sorriem.
Todos, todos, pediram o mesmo "sushi".
E ele se dobra de dor.
- O que você fez comigo???
- Cthulhu F´tagahn!
- Hã???
- Feliz dia dos namorados, amor!
E sente seu ventre se mexendo, e vê, pelo canto do olho, uma enorme sombra...
Erguendo-se do mar...
Cobrindo a lua...
Devorando a razão...
March 07, 2012
Promoção de Verão
Meu estômago queima. Eu não devia ter tomado tanto café, sempre fui sensível. Ainda duas da manhã? Droga. Maldita insônia. O que foi isso? Que barulho estranho. Parece...parece com quê? Água, acho. E um som meio oco, uma espécie de eco. Agora é que não durmo mesmo.
- Alô, é da portaria? Sou o hóspede do quarto 1301. Isso. Não, não, é Yvarnosk, VARnosk. Miguel Yvarnosk. Sim, sim. Cheguei hoje. Minha senhora, não sei o que isso tem haver. Já fiz minha ficha. Eu estou ligando para reclamar de outro hóspede. Não, não está aqui comigo... Senhora, eles estao fazendo muito barulho e não consigo dormir. É posível a senhora ou alguém mais do hotel, tomar alguma providência? Está bem, fico agradecido.
Maldita cidade. Calor infernal, gente feia. E agora, esses idiotas não me deixam dormir. E que diabos de som é esse? Azia ou não, espero que mais uma cerveja me ajude a dormir.
***
- Não, não. Não quero! Ei! MINHA CARTEIRA! LADRÂO!!!!
Diabos de bicicleta. Merda, meu sapato...Droga. Fugiu o filho da puta. FILHO DE UMA PUTA! Porra, não tem policial nessa cidade? E que trânsito! Nunca mais reclamo de minha capital. O suor aqui gruda. Bem, voltar ao hotel e ver o que posso fazer. Maldita promoção de verão.
***
- Não, não. Não quero! Ei! Alô? Alô! Eu estou tentando remarcar uma passagem. Não, não quero saber de promoção nenhuma. Quero uma passagem só de ida para São Paulo. Quando? Você está falando sério? Minha filha, é VERÃO. As pessoas não saem daqui, elas chegam. Como não tem vaga? Tá bom, diabos, tá bom. Pra quando então? Você só pode estar de brincadeira. Não, desculpe. Está bem. Sim, quero a passagem. Meu código de cliente é 89451819. Isso. Está bem, eu aguardo. Obrigado.
Meu Deus, quanta gente burra. Todo lugar que viajo é assim. Tenho é de sair desse país, sabe? Cheio de lugares insuportáveis. E esse horror de som de novo! Não é possível! De dia, de noite, que diabos estão fazendo aí? É por isso que gosto de trazer trabalho quando viajo. Uma cervejinha e umas planilhas e tudo fica bem.
***
Que diabos de horas são? 10 da noite? É esse calor do inferno. O ar desse hotel é uma merda. E a dor no estômago só piora. Preciso sair daqui. Não acredito, esse barulho de novo? E quem é agora?
- Não, não. Não quero! Não pedi nada. Olha, não sei quem pediu, mas não fui eu. Eu estava dormindo. Está bem, ligue. Está desculpado.
Mas, o que é aquilo. Não, eu estou vendo coisas. Que diabos era aqui? Parecia um tentáculo tentando se esgueirar na bandeija de comida. Eu tenho bebido demais. Nem mesmo essa cidade é tão ridícula. Acho que preciso comer algo.
- Alô. Sim, sim. boa noite pra você também. 1301. Gostaria de fazer um pedido. O que vocês tem para jantar? Aqui no quarto? Não, não estou vendo cardápio nenhum. Como? Minha senhora, eu não sair daqui e pedir ao vizinho. Está bem. Sim, subiu sim. Não, não fui eu que pedi. Está bem, vou olhar.
É o fim, viu? Sair perseguindo garçom em andar de hotel atrás de um cardápio? Se eu não estivesse com tanta dor e fome, nem me lavantaria. Onde deixei a camisa. Ha, aqui. Chave antiga, parece coisa da década de 30 do século passado. Onde diabos está ele? As luzes piscam? Amanhã mudo de hotel.
- Ei, rapaz! Rá...
Não, não, não, não, não não.....respire, respire. Meu Deus. Não vi aquilo. Não vi. E esse maldito som de novo. O que era aquilo? Uma cobra? Aquilo tinha olhos e puxou o garçom. Não, não pode ser. Vou beber, dormir, ir pra outro hotel. Meu Deus, o som. Aquile som horrível...delícia, gelada. Respira.
***
O meu Deus, esse ba...Nâo!
- Não, Não, Não quero!!! Tira isso de mim! Tira, pelo amor de Deus!!! Minha barriga! Não, pára!!!! NÂÃÂO!!!
***
Eu não estou louco. Não estou. Eu vi aquilo, eu vi. Vi aquilo. Eu vi aquilo. Aquela coisa, o tubo, o som, o que tiraram de mim. A dor, a dor foi, foi, embora, embora foi. Eu não estou ficando louco. Eu não sou louco. Eu sou não, sou, não sou.
- NÃO! Remédios não, não!! Não quero dormir! Não!!!!
Eles vão voltar, o sono...eles vão voltar...não..de novo, não...maldito verão...
July 10, 2010
Iximitas
Esse foi um dos contos da cadeira de Oficina de Textos de Marconi, professor de Comunicação Social da UFPE. Toda semana tínhamos de produzir um texto de ficção, seguindo um determinado tema ou limite. Nesse caso, era criar uma ficção em relação a uma notícia de jornal.
Essa foi à notícia...
“Ponte desaba e mata 9”
Uma ponte na província de Hubei (Sul da China), desabou matando nove pessoas e deixando dezenas de feridos no último dia 19 de Julho...
Iximitas
17 de Julho de 2002
Yu Shiang Shi, morador de Hubei, sai à noite às escondidas. Não era a primeira escapada de Yu, e sua esposa, que nada tinha de idiota, dessa vez preparou-se com antecedência para segui-lo.
Yu Xin Yobao, Filha de Kan Juso Tzen, não aparentava mais que vinte e cinco anos. Como Shiang, trabalhava nos arrozais ou fábricas da região quente e fértil. Sem o jeito delicado tão comum as atletas e modelos chinesas, a imagem bem vendida para o ocidente, Xin podia carregar um saco de arroz por sobre o ombro com a mesma facilidade que seu marido, e permanecia até por mais tempo afundando seus pés na lama dos arrozais.
Ela não acreditava que seu marido estivesse sendo infiel. Shiang a traindo? Ridículo. Não apenas se conheciam desde crianças, como sempre estavam por perto um do outro por tempo demais. Isso tornava suas escapas noturnas ainda mais bizarras. Já havia um mês que ela notara a ausência de seu esposo em sua cama, sempre na alta madrugada. A quanto tempo ele fazia isso? Ela não sabia, mas julgava ter uma pista, e isso a arrepiava.
Três meses atrás, ela acordara de madrugada. Uma forte luz azul-esverdeada invadia seu quarto vindo do lado de fora. O vulto de Shiang bloqueando parte da janela e da luz, se recortava naquele clarão. Xin ficara paralisada, assustada, e de sua boca não conseguia emitir o grito que ficou congelado por horas em sua garganta. Ela desmaiou, acordando horas depois com uma gritaria que percebeu ser sua, mas só após os vizinhos virem ver o que era. Foi no médico, este lhe receitou calmantes, lhe convenceu que foram apenas um sonho, e Xin voltou para casa tranqüila não pensando mais no caso.
Então, Shiang começou a sair de madrugada. No último mês ela pensou seriamente se devia ou não falar com ele abertamente, mas temia ofendê-lo, ou mesmo descobrir que este tinha uma amante. Mas notou que suas roupas não traziam o cheiro de sexo ou de outra mulher. Ela então decidiu segui-lo, e fez preparativos.
17, 3:15
Xin entrou em pequena abertura no solo, escondido por trás de um arbusto, logo abaixo da ponte que cruzava por sobre o rio que corta Hubei. Ela teve trabalho para achar onde Shiang desaparecera, mas estava determinada. O caminho era difícil, o túnel, estreito e baixo, mal podendo ela manter-se em pé. O ar dentro da fenda ficava cada vez mais quente, e após alguns minutos de caminhada e as vezes, de arrastar, ouviu o som de Shiang caindo no solo, caindo de um pequeno salto. Logo Xin chegou a abertura que ficava a meio metro do chão, e viu uma pequena claridade adiante.
17, 3:28
Andando rente a parede do amplo salão subterrâneo, Xin tentava fazer qualquer sentindo do que via. Seu marido, junto a outros homens e mulheres (alguns ela reconhecia de outras vilas próximas, ou mesmo de Hubei), pareciam formar um círculo em volta de uma figura esculpida em rocha, no centro do salão.
Com lábios e joelhos trêmulos, a agora pequena Xin, ouvia seu marido, dentre tantos, entoar um cântico assombroso, em uma língua que lhe trazia repulsa ao menor som...
Izhva Kan Mata Yat! Izhva Kan Atu Kama! Izhva Kan Mata Kilan!
...Pronunciavam com cada vez mais força, cada voz unindo-se as outras como um coro vindo do próprio Yomi. Xin não mais se escorava a parede. Derreteram-se suas pernas, e encontrava-se no chão, olhando para seu marido enquanto a urina quente escorria por suas coxas...
Kan Mata Yat! Kan Mata Yat! Izhva Taram Cthulhu! Izhva Taram Yhlee!
...A lágrimas escorriam dos olhos de Xin. A figura feita de rocha parecia agora fulgurar, voltava a vida algo naquela caverna que nunca deveria ter vivido. Seus vários olhos seguiam de cantor em cantor, de seguidora em seguidora. Suas bocas esguichavam ruídos contrários a concepção do que Xin conhecia como som. Seus membros pareciam ter vida própria e aparte do tronco tosco e em parafuso, ora parecendo uma profusão de braços e pernas em desalinho, ora parecendo tentáculos e mesmo línguas que provavam o mundo que lhe parecia ter sido negado desde o início dos tempos.
18, 1:14
O gosto de lágrimas, urina e lama, encontram-se e dançam nos últimos fragmentos de sanidade de Xin. A jovem levanta-se com dificuldade. Cai. Seu joelha abre-se em uma ferida, mas isso lhe serve como foco, e sua mente emerge vitoriosa, pelo menos por algum tempo, da experiência da noite passada. Assustada, Xin levanta-se novamente e procura pela saída.
18, 9:46
Xin deixa o trabalho no fábrica. Passou a manhã vomitando, tremendo. Sua menstruação chegou vários dias mais cedo. Cambaleando, volta para casa, onde achou seu marido dormindo, em uma cadeira da sala. Ele acordou assim que ela se aproximou dele, mas seu olhar era mais de preocupação que de espanto. Não conversaram. Ela a ajudou a tomar banho, e a colocou na cama onde dormiram. Pelo menos ele dormiu.
Shiang permaneceu na fábrica, e não conversaram nada durante a refeição matinal. Xin não pode tocar na comida. Não pode nem olhar para ela. Às vezes caia no choro e balbuciava coisas sem sentido. Queria falar tudo para Shiang, mas não conseguia. Seu marido a acolhia num abraço forte, mas também nada falava.
Ela voltou só para casa. Suas pernas não pareciam às pernas daquela mulher forte, trabalhadora incansável. Xin deitou-se na cama, e logo adormeceu.
18, 10:29
Xin sonhou com o Yomi. O Yomi começava em Hubei. Mais precisamente, em uma pequena caverna, escavada por mãos humanas quando o homem mal aprendera a andar sobre duas patas.
Sonhou com aquela coisa. Aquilo que vivia em forma de rocha e em carne se tornava quando desencantada por seu marido e outros...
18, 19:34
Determinada, recomposta, e meio alucinada, Xin saiu de sua casa para um das fábricas. Quebrou o cadeado de um dos galpões, pegou explosivos, e seguiu para a caverna. Se metade do que vira em seu sonho se realizasse, melhor seria morrer ali, agora.
Lógico, ela não contava com Shiang. Desta vez ele a seguia na semi-escuridão do início da noite, e mais tarde, no negrume das passagens do solo. Não contava com Shiang, que apesar de torcer seu tornozelo ao seguí-la, a apunhalara e batera sua cabeça contra a rocha.
19, 15:20
Louca, meio morta, Xin rezou para seus ancestrais, pediu forças a eles, chorou, e buscou em um pequeno alforge que trouxera, por fósforos para que iluminasse a sua volta.
Ela ainda não estava perdida. Na verdade ela estava, mas não seu mundo. Não o sorriso das crianças, se não de Hubei, de vilas próximas. Mas estava perdido seu sorriso e de Shiang, juntos, no trabalho, em casa, nos afazeres. Lembrava do arfar forte do marido quando faziam armor, e chorava.
Arrastando-se, chorando, Xin conseguiu pegar a caixa de explosivos que Shiang não fora capaz de levar com sua perna machucada. O rastro de sangue fazia o cheiro de ferro juntar-se ao de pólvora. O ascender do fósforo e do pavio pareciam sons imensos naquela escuridão. E a caverna então se preencheu de luz e som.
Essa foi à notícia...
“Ponte desaba e mata 9”
Uma ponte na província de Hubei (Sul da China), desabou matando nove pessoas e deixando dezenas de feridos no último dia 19 de Julho...
Iximitas
17 de Julho de 2002
Yu Shiang Shi, morador de Hubei, sai à noite às escondidas. Não era a primeira escapada de Yu, e sua esposa, que nada tinha de idiota, dessa vez preparou-se com antecedência para segui-lo.
Yu Xin Yobao, Filha de Kan Juso Tzen, não aparentava mais que vinte e cinco anos. Como Shiang, trabalhava nos arrozais ou fábricas da região quente e fértil. Sem o jeito delicado tão comum as atletas e modelos chinesas, a imagem bem vendida para o ocidente, Xin podia carregar um saco de arroz por sobre o ombro com a mesma facilidade que seu marido, e permanecia até por mais tempo afundando seus pés na lama dos arrozais.
Ela não acreditava que seu marido estivesse sendo infiel. Shiang a traindo? Ridículo. Não apenas se conheciam desde crianças, como sempre estavam por perto um do outro por tempo demais. Isso tornava suas escapas noturnas ainda mais bizarras. Já havia um mês que ela notara a ausência de seu esposo em sua cama, sempre na alta madrugada. A quanto tempo ele fazia isso? Ela não sabia, mas julgava ter uma pista, e isso a arrepiava.
Três meses atrás, ela acordara de madrugada. Uma forte luz azul-esverdeada invadia seu quarto vindo do lado de fora. O vulto de Shiang bloqueando parte da janela e da luz, se recortava naquele clarão. Xin ficara paralisada, assustada, e de sua boca não conseguia emitir o grito que ficou congelado por horas em sua garganta. Ela desmaiou, acordando horas depois com uma gritaria que percebeu ser sua, mas só após os vizinhos virem ver o que era. Foi no médico, este lhe receitou calmantes, lhe convenceu que foram apenas um sonho, e Xin voltou para casa tranqüila não pensando mais no caso.
Então, Shiang começou a sair de madrugada. No último mês ela pensou seriamente se devia ou não falar com ele abertamente, mas temia ofendê-lo, ou mesmo descobrir que este tinha uma amante. Mas notou que suas roupas não traziam o cheiro de sexo ou de outra mulher. Ela então decidiu segui-lo, e fez preparativos.
17, 3:15
Xin entrou em pequena abertura no solo, escondido por trás de um arbusto, logo abaixo da ponte que cruzava por sobre o rio que corta Hubei. Ela teve trabalho para achar onde Shiang desaparecera, mas estava determinada. O caminho era difícil, o túnel, estreito e baixo, mal podendo ela manter-se em pé. O ar dentro da fenda ficava cada vez mais quente, e após alguns minutos de caminhada e as vezes, de arrastar, ouviu o som de Shiang caindo no solo, caindo de um pequeno salto. Logo Xin chegou a abertura que ficava a meio metro do chão, e viu uma pequena claridade adiante.
17, 3:28
Andando rente a parede do amplo salão subterrâneo, Xin tentava fazer qualquer sentindo do que via. Seu marido, junto a outros homens e mulheres (alguns ela reconhecia de outras vilas próximas, ou mesmo de Hubei), pareciam formar um círculo em volta de uma figura esculpida em rocha, no centro do salão.
Com lábios e joelhos trêmulos, a agora pequena Xin, ouvia seu marido, dentre tantos, entoar um cântico assombroso, em uma língua que lhe trazia repulsa ao menor som...
Izhva Kan Mata Yat! Izhva Kan Atu Kama! Izhva Kan Mata Kilan!
...Pronunciavam com cada vez mais força, cada voz unindo-se as outras como um coro vindo do próprio Yomi. Xin não mais se escorava a parede. Derreteram-se suas pernas, e encontrava-se no chão, olhando para seu marido enquanto a urina quente escorria por suas coxas...
Kan Mata Yat! Kan Mata Yat! Izhva Taram Cthulhu! Izhva Taram Yhlee!
...A lágrimas escorriam dos olhos de Xin. A figura feita de rocha parecia agora fulgurar, voltava a vida algo naquela caverna que nunca deveria ter vivido. Seus vários olhos seguiam de cantor em cantor, de seguidora em seguidora. Suas bocas esguichavam ruídos contrários a concepção do que Xin conhecia como som. Seus membros pareciam ter vida própria e aparte do tronco tosco e em parafuso, ora parecendo uma profusão de braços e pernas em desalinho, ora parecendo tentáculos e mesmo línguas que provavam o mundo que lhe parecia ter sido negado desde o início dos tempos.
18, 1:14
O gosto de lágrimas, urina e lama, encontram-se e dançam nos últimos fragmentos de sanidade de Xin. A jovem levanta-se com dificuldade. Cai. Seu joelha abre-se em uma ferida, mas isso lhe serve como foco, e sua mente emerge vitoriosa, pelo menos por algum tempo, da experiência da noite passada. Assustada, Xin levanta-se novamente e procura pela saída.
18, 9:46
Xin deixa o trabalho no fábrica. Passou a manhã vomitando, tremendo. Sua menstruação chegou vários dias mais cedo. Cambaleando, volta para casa, onde achou seu marido dormindo, em uma cadeira da sala. Ele acordou assim que ela se aproximou dele, mas seu olhar era mais de preocupação que de espanto. Não conversaram. Ela a ajudou a tomar banho, e a colocou na cama onde dormiram. Pelo menos ele dormiu.
Shiang permaneceu na fábrica, e não conversaram nada durante a refeição matinal. Xin não pode tocar na comida. Não pode nem olhar para ela. Às vezes caia no choro e balbuciava coisas sem sentido. Queria falar tudo para Shiang, mas não conseguia. Seu marido a acolhia num abraço forte, mas também nada falava.
Ela voltou só para casa. Suas pernas não pareciam às pernas daquela mulher forte, trabalhadora incansável. Xin deitou-se na cama, e logo adormeceu.
18, 10:29
Xin sonhou com o Yomi. O Yomi começava em Hubei. Mais precisamente, em uma pequena caverna, escavada por mãos humanas quando o homem mal aprendera a andar sobre duas patas.
Sonhou com aquela coisa. Aquilo que vivia em forma de rocha e em carne se tornava quando desencantada por seu marido e outros...
18, 19:34
Determinada, recomposta, e meio alucinada, Xin saiu de sua casa para um das fábricas. Quebrou o cadeado de um dos galpões, pegou explosivos, e seguiu para a caverna. Se metade do que vira em seu sonho se realizasse, melhor seria morrer ali, agora.
Lógico, ela não contava com Shiang. Desta vez ele a seguia na semi-escuridão do início da noite, e mais tarde, no negrume das passagens do solo. Não contava com Shiang, que apesar de torcer seu tornozelo ao seguí-la, a apunhalara e batera sua cabeça contra a rocha.
19, 15:20
Louca, meio morta, Xin rezou para seus ancestrais, pediu forças a eles, chorou, e buscou em um pequeno alforge que trouxera, por fósforos para que iluminasse a sua volta.
Ela ainda não estava perdida. Na verdade ela estava, mas não seu mundo. Não o sorriso das crianças, se não de Hubei, de vilas próximas. Mas estava perdido seu sorriso e de Shiang, juntos, no trabalho, em casa, nos afazeres. Lembrava do arfar forte do marido quando faziam armor, e chorava.
Arrastando-se, chorando, Xin conseguiu pegar a caixa de explosivos que Shiang não fora capaz de levar com sua perna machucada. O rastro de sangue fazia o cheiro de ferro juntar-se ao de pólvora. O ascender do fósforo e do pavio pareciam sons imensos naquela escuridão. E a caverna então se preencheu de luz e som.
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