The neon on her back reflects on the water left on the street. She moves over the puddles left by the rain, never leaving her mark, never leaving any traces. I open de car dor on my side, while the car opens the door for her.
The vodka smell still clings to me. I didn´t drink much. She won't let me. Narinha was always watchful. Vigilance apps, blinking just behind her beautiful eyes. She moved her glass around, never really touching it. We left when the smoke was so thick I could probably swim on it to leave the bar.
My permits expired yesterday. The fusion with the Cape Town company went even southern. I got shot, twice, still a few meters from the bar door. Not much damage, really, a few of the hundreds of flechettes crossed through my executive bodysuit, but barely scratched my skin. The neurotoxin wasn't enough to kill me, the nanos on my body kicked in and repaired it quickly, while drugging me, all this during my spinning descent to the ground shooting back.
Time is a commodity. We trade on it, we eat it, we shit it. I´m still in the bar, lamenting. Is all holos and smoke in a neon dream of past mistakes. I received a call from Sylvia. New documents, with a face that don´t match my own, an encrypted flight ticket to this face, a gun mesh for my old soon-to-be-bleeding hands.
His own executive bodysuit absorbs the hammer rounds, while he staggers. There is a flicker on Narinha and I shoot on her direction. They are a couple. I urge Narinha to get into the car. No word was given, just emotions on an electronic medium that somehow is read by her in mid-flight from the second assailant.
We are all jumping and shooting and praying, lighting up the streets with hammer bullets, flechette rounds and soon, holo light.
She worms in on the passenger seat while I move father from the car. The other ballerinas clad in black, block my passage. The car is dead, I can't ask for any favors. An alarm blinks on my left eye, a timer of sorts. I´m cooking. The sleek, black hovervan is pointing a microwave canon on my direction.
I call. Bets are off, lead is in. The old gun almost rips her whispery arms, while the powder booms. One of the dances is caught off-guard, the shot does nothing, just gives more of her time to me, surprise buying in from pellets on her back. The first, the one who shot me, only blinks, but that is enough. And they know it.
Half fried, half clawing on the ground, the hammer gun pops more bullets, this time on the cannon. I hear a loud ping, with something imploding in me while the timer goes off. Just in time.
They are back on their feet and I´m almost discharged. They have to know, and the girl goes to Narinha, now realizing she can be a threat, holo or not. Antiques can be bothersome when they explode behind you.
We are back on the pissing match. His flechette smg and my bulk hammer gun. Another timer caught my attention, between the horde of numbers on my eyes. The mesh is almost done.
"Come on! Spin me around like an old record! You look like a lot of fun!" I scream between bleeding, clenching teeth. My eyes on the woman, who jumps inside the car. Narinha screams in terror. The guy, with rainbow lipstick and bulk arms, jumps again. The adrenaline keeps me talking while I try to figure how to not fuck this up. "Come on! I want some! If I could trace your private number, baby..." I left it hanging on, while I spin right round, right round like a record, just a little bit closer. When he noticed my shouts are not from my mouth but on his head, I was too close already, with the meshed hacking gun on a hand and the hammer on the other. Too close indeed. It goes bang and no suit could support it. He crashes.
Narinha flicks and shocks and cries loudly. The car bounces wildly. She must know her partner is dead, but she also knows what the holo means to me. "No time to revenge! Leave and I won't kill you". She knows I´m lying, but I had to try before jumping in. A boot knife almost cuts into my windpipe the instant I went into the mess. Time is flowing. The hovervan is landing. fuckfuckfuck is the name of the new game. Nothing sexy when we wrapped around the other but must have been love since we get ourselves out by the back of the car glass frame, with small pieces of it lighting up with rain and neon lights.
I reach for the smeared flechette gun, unfireable if I hadn't a hacking pistol. We are embraced and I shoot her through my soon-to be-not-my-face-anymore-anyway. If it hurts? Only when I tried to laugh maniacally while I chased the non execs at the hovervan. Their end was near when they noticed I picked the pace after leaving the last dance on the wet asphalt. They were right.
Tired, bleeding, smelling of cheap vodka. The holo on my daughter supports me while we get into the car again. Just like any friday night in Recife downtown. I drive on the back seat, while my face is being rebuilt. Not sure how we really got back home, all got in confused thoughts and images and sounds and smells, after a certain amount on drugs drowns me in.
I woke up with the awful heat and the smell of urine and oranges. Sour, sweet, home.
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August 31, 2018
August 05, 2013
O
- Obrigado.
- Não por isso.
- Não?
- Não.
Ela sorri. Esperando que ele faça o próximo movimento. Nota seus cabelos brancos, o ganho de peso. "Ele é tão antiquado.... Mas é parte de seu charme", ela pensa.
- Então, como está sua vida?
- Ora, você devia saber. Está tudo lá.
- Eu não gosto de bisbilhotar as pessoas no REMwire.
- Eu não penso assim. Afinal, toda informação que está ali, eu mesma que coloquei para que as pessoas vejam.
- Sim, sim, eu entendo. Acho que é tabu mesmo. Como olhar um diário de alguém que alguém esqueceu em um parque...
- Hahaha! Você lembra disso? :)
- Lembro sim. Você deixou no chão, perto do pé de oiti.
- E você não leu...
- É, eu não li.
- Está bem, você venceu. Por onde quer que eu comece?
- O que fez depois que saiu do colégio.
- Uau. Vai ser uma LONGA história.
- É, eu sei.
Ele sorri, puxando algo da carteira. É uma música. Ela sabe qual é. Não gosta. Fala agora, em um tom mais sério.
- Você é um otário, sabia? Não precisava disso, não agora. Podia ter sido tudo cordial.
- Eu sei. Mas apesar da pele que vestimos, acho bom manter claro os motivos pelo qual viemos aqui.
Então... Que fez depois que saiu do colégio?
- Você não tem tudo aí?
- Talvez. Mas quero que você diga. Por favor.
- Eu fui fazer Comunicação na UFPE. Terminei em 2018. Trabalhei em redação, me tornei editora, quando tive oportunidade, preferi seguir a carreira como ombudsman.
- Quem fez o convite?
- Zeca Barros. Você conhece, também estudou com a gente.
- Sim, lembro sim. Tinha mania de dizer "omérico". Por um bom tempo me perguntei como chegou a um jornal.
- O pai dele.
- É, eu sei.
- E você?
Ele olha desconfiado. "De quem é o interrogatório então?", ela pensa se não é isso que ele pensa.
- Eu o quê?
- Como foi sua vida depois do colégio?
- Você é ótima.
- Era o que você dizia.
- Ainda magoada?
- Eu? Não. Todo relacionamento tem uma obsolescência programada, não?
- Sim, de acordo com o Omnimodo, tem sim.
O respeito com que ele diz o nome da IA lhe dá um pouco de nojo. Ela sabe, nunca irá se adaptar, e o interrogatório é uma farsa. Ela está morta desde que se sentou na mesa do restaurante.
- Afinal, você vai dizer?
- Sim. Não vejo um problema nisso. Temos todo o tempo do mundo. Quando eu saí do colégio... Bem, lembra de nosso papel no desaparecimento de Amarildo?
- Sim, claro, por isso eu saí do Rio.
- E do partido.
- Ops.
- É, um grande "ops", na visão de todos os seus amigos, Carina.
- Nem todo mundo sonha em ser um terrorista pro resto da vida.
Seu avatar se tensiona. Se estivesse ali, teria batido nela, mas é só mais um holo.
- Bem, eu, Ricardinho e Félix, levamos Amarildo para o Sul. A coisa no Rio só piorava e então, matamos ele, foi aí que a ABIN nos achou.
- Eu nunca soube do destino dele.
- Mas era claro, não? A polícia tinha seus próprios motivos para não dizer porque ele foi liberado, e nós tínhamos o nosso próprio. Você sabe disso.
- Sim, e eu concordei, mas ela uma criança. Valeu a pena?
- Para nós? Para o Omnimodo? Claro. Em retrospecto, você sabe que sim.
- É, é verdade. A AI começou como uma forma de substituir a PM, não foi?
- Exato. Em alguns estados, como em Pernambuco, a solução foi todo mundo andar armado. Mas não invejo vocês.
Ela bem que queria ter uma pistola agora. Mas o Om não permite.
- Como você chegou ao Omnimodo?
- Não lhe responder isso. Mas trabalhei fazendo serviços da ABIN enquanto eles me permitiram seguir uma vida em paralelo, com nova identidade. Fui fazer engenharia de software.
- E os meninos?
- Eles nos separaram. Nosso contato era pequeno. Mas eu sei que eles morreram.
- Obsolescência programada?
- Não tenho certeza.
- Você prefere ser um orgânico?
- As vezes. Envelhecer tem suas desvantagens. Mas não quero me tornar um holo. Você gosta, Beatriz?
- As vezes. Não foi uma decisão fácil. Correndo o risco de ser sentimental, você influenciou nisso.
- Eu?
- Sim. Sabe, Michel, relacionamentos e o amor, não tem uma obsolescência programada, por mais que o Omnimodo deseje isso.
- Isso é heresia.
- Talvez. Mas prefiro seguir o Om.
- Eu desconfiava. Qual motivo de seguir uma religião para digitais? Não é tolo, já que você vai viver pra sempre? O Om é um verdadeiro ornitorrinco de conceitos, Bia.
- Não tão falso quanto o Omnimodo.
- Eu me pergunto se você quer ganhar pontos comigo pela sua ousadia.
- Não acho que seja ousado ofender um ogro. Afinal, vocês logo vão morrer, quer sua IA continue ou não. Que será de você daqui a um século? Dois? Mas eu estarei aqui, Michel. Não sei se ainda estarei amando, possivelmente sim, mesmo que para provar que seu Deus-Máquina é falho, mas estarei aqui, com certeza.
- Haverão mais "ogros", como vocês chamam. Temos orgulho de sermos assim, feitos de carne, servindo o bem comum. Menos míticos que vocês. Você não passa de uma moda, Bia. E se tudo der certo, nosso orçamento vai permitir expandir o Omnimodo.
- O Om não vai permitir isso.
- Então que você comece a rezar mais forte. Eu não entendo você. Se ainda me ama, porque se tornou... isso.
- Chega um ponto que se deixa de querer esperar, que a carne não lhe dá mais chance de viver e eu tive câncer. Ovário. Eu podia morrer, não me faltavam motivos, estava cansada de tudo, ou podia ainda esperar.
- Então é por isso?
Ela olha para a música na mão dele. "Orora Analfabeta", de Jards Macalé.
- Sim. Foi por isso. Não sabia se você ia notar a modificação, ou se alguém ia conseguir decriptar, mas foi por isso.
- O Omnimodo não gostou.
- Imagino. E você não e pergunta sobre os motivos que levam uma IA a resguardar com tanto preciosismo a cultura de um momento que já morreu?
- Não vou discutir os planos do Omnimodo com você.
- Seria Heresia?
Seu sorriso congelado de quando tinha 30 anos, paira perto do rosto dele. O cinismo não se perdeu em seu holo. Ele será eterno.
- Eu vim pedir que você não me contate mais. Não quero ter de deletar você.
- Por um momento, pensei que era só isso que você queria, Michel. Eu te envergonho, não?
- Não, Bia. Eu tenho pena de você.
- E eu de você, meu amor.
- Você não sente mais isso. É só parte de sua programação. Só isso.
- Talvez. Mas é o que sinto. Amo o seu rosto arruinado como amei sua face adolescente. E não há religiões e IAs que me impeçam de sentir isso, até que a última estrela se apague.
- Eu também senti sua falta. Admito. Mas apenas falar com você sobre essas coisas...
- ... É heresia. Eu sei. Mas posso te pedir um favor?
- Sim.
- Saia do onírico. Eu quero te ver de verdade.
- Qual a diferença pra você?
- Você realmente não faz ideia. Ser um holo não é tão diferente, Michel. Eu quero ver você uma última vez.
- Está bem. Onde?
- Eu estou na frente de seu hotel. Aqui, na orla.
- Sempre o mar, não? Com você é sempre o mar.
- Sim, meu amor. Até fantasmas eletrônicos são saudosistas.
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June 14, 2012
Confissões
[INCOMPLETO, VOLTE DEPOIS!!!] :P
O padre vai pra sua casa. A igreja, com um número cada vez menor de fiéis, o deprime.
Como pregar o amor ao próximo, a compaixão, quando a sociedade fez uma escolha pela violência, pela exacerbação do ódio?
Ele sabe como, mas ele não acredita mais.
Seu apartamento é um convite.
No térreo, o padre deixa a porta aberta.
Apenas um cão, um holo, guarda a entrada contra animais e pestes.
Ele escuta os sons na rua.
Tiros.
A eterna sinfonia das noites do Recife.
Ele não tem uma arma.
Sua arma é a fé.
Mesmo alquebrada.
Faz seu jantar, come em silêncio.
Pelo canto do olho vê as notícias.
E vai deitar para dormir.
Enquanto o sono não chega, navega na rede.
Se mantém na rede local, observa a vida dos católicos da sua congregação e de outras próximas.
Mas não intefere. Só observa.
O sono chega, e ele vai.
Acorda de madrugada.
Aliás, é acordado.
Um homem está sentado em sua cama.
Ele tem uma arma.
Ele aponta para seu própriio coração.
O padre olha, com curiosidade e espanto.
O homem vê que ele acordou. Mas não diz nada.
Ele pode chamar a polícia. Pode chamar todo tipo de serviço, bastanto mover e piscar os olhos na sequência correta.
Mas faz sua escolha. E fala.
- Boa noite, meu filho.
- Olá, Padre.
- Posso ajudá-lo?
- Não acredito que possa, Padre.
- Por quê? O que lhe aflige, meu filho?
- O mundo, Padre.
- Mas o quê, meu filho?
- A violência, a destruição dos princípios, da família, do respeito ao próximo...
Isso ecoa em Francisco, como cordas de um instrumento familar, gravando em seu peito um som amargurado e agudo.
- Meu filho, sinto a mesma angústia.
- Então, Padre, o que faço?
- Em primeiro lugar, baixe a arma, meu filho.
- Não.
- Não?
- Não.
- Está bem, mas não sei como lhe aconselhar, sem que você me deixe menos angustiado.
- Não vim atrás de conselhos, Padre.
- Que posso então fazer por você?
- Quero me confessar.
- Está bem, meu filho. Se incomoda de formas a igreja?
- Não. Não me incomodo.
O Padre pede licença por alguns minutos. Usa o banheiro, lava o rosto, troca de roupas.
Quando sai, fecha a porta. O holo, concedido pela igreja para assistí-lo em seus ofícios, muda de aspecto. O coroinha segue então o padre e o homem.
Na igreja, e mais calmo, o padre reza em silêncio.
Ele teme.
Sente o desespero do homem e não deseja sentir a sua morte, não deseja a responsabilidade por outros.
Não dessa forma, tão real, concretamente dura, mortificante.
E ainda assim, não consegue escapar de seus deveres, de sua missão.
- Pronto, meu filho. Confesse.
- Não sei por onde começar, Padre.
- Quando foi a última vez que se confessou?
- Mais de dez anos atrás.
- Tem ido a missa?
- Não. Sinto vergonha.
- Meu filho, todos nós erramos. Isso não é motivo para e afastar de Deus.
- Não sei, Padre.
O Padre escuta sua insegurança, porém, seguro, o homem mantém a pistola encostada ao peito.
O padre vai pra sua casa. A igreja, com um número cada vez menor de fiéis, o deprime.
Como pregar o amor ao próximo, a compaixão, quando a sociedade fez uma escolha pela violência, pela exacerbação do ódio?
Ele sabe como, mas ele não acredita mais.
Seu apartamento é um convite.
No térreo, o padre deixa a porta aberta.
Apenas um cão, um holo, guarda a entrada contra animais e pestes.
Ele escuta os sons na rua.
Tiros.
A eterna sinfonia das noites do Recife.
Ele não tem uma arma.
Sua arma é a fé.
Mesmo alquebrada.
Faz seu jantar, come em silêncio.
Pelo canto do olho vê as notícias.
E vai deitar para dormir.
Enquanto o sono não chega, navega na rede.
Se mantém na rede local, observa a vida dos católicos da sua congregação e de outras próximas.
Mas não intefere. Só observa.
O sono chega, e ele vai.
Acorda de madrugada.
Aliás, é acordado.
Um homem está sentado em sua cama.
Ele tem uma arma.
Ele aponta para seu própriio coração.
O padre olha, com curiosidade e espanto.
O homem vê que ele acordou. Mas não diz nada.
Ele pode chamar a polícia. Pode chamar todo tipo de serviço, bastanto mover e piscar os olhos na sequência correta.
Mas faz sua escolha. E fala.
- Boa noite, meu filho.
- Olá, Padre.
- Posso ajudá-lo?
- Não acredito que possa, Padre.
- Por quê? O que lhe aflige, meu filho?
- O mundo, Padre.
- Mas o quê, meu filho?
- A violência, a destruição dos princípios, da família, do respeito ao próximo...
Isso ecoa em Francisco, como cordas de um instrumento familar, gravando em seu peito um som amargurado e agudo.
- Meu filho, sinto a mesma angústia.
- Então, Padre, o que faço?
- Em primeiro lugar, baixe a arma, meu filho.
- Não.
- Não?
- Não.
- Está bem, mas não sei como lhe aconselhar, sem que você me deixe menos angustiado.
- Não vim atrás de conselhos, Padre.
- Que posso então fazer por você?
- Quero me confessar.
- Está bem, meu filho. Se incomoda de formas a igreja?
- Não. Não me incomodo.
O Padre pede licença por alguns minutos. Usa o banheiro, lava o rosto, troca de roupas.
Quando sai, fecha a porta. O holo, concedido pela igreja para assistí-lo em seus ofícios, muda de aspecto. O coroinha segue então o padre e o homem.
Na igreja, e mais calmo, o padre reza em silêncio.
Ele teme.
Sente o desespero do homem e não deseja sentir a sua morte, não deseja a responsabilidade por outros.
Não dessa forma, tão real, concretamente dura, mortificante.
E ainda assim, não consegue escapar de seus deveres, de sua missão.
- Pronto, meu filho. Confesse.
- Não sei por onde começar, Padre.
- Quando foi a última vez que se confessou?
- Mais de dez anos atrás.
- Tem ido a missa?
- Não. Sinto vergonha.
- Meu filho, todos nós erramos. Isso não é motivo para e afastar de Deus.
- Não sei, Padre.
O Padre escuta sua insegurança, porém, seguro, o homem mantém a pistola encostada ao peito.
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June 11, 2012
Mepot Deropid
- O que foi isso???
- Ela mandou o povo calar a boca.
- Que exagero.
- Será? Eu acho que estavam fazendo muito barulho mesmo.
- Raquel, eu ainda acho um exagero.
- Tá. Deixa eles começarem de novo.
- São crianças...
- De bigode?
- Sim. Nem tudo é cronológico. Você devia saber disso.
- Daniel, tu é muito chato. Como a gente se tornou amigo mesmo?
A mulher agora se virou para eles e disse num bravo sussuro: "Vocês também? Podem calar a boca, por favor?".
- Desculpe.
- É, desculpe.
Os dois saem do debate, ainda em silêncio. Atravessam a rua e olham o prédio, da parada de ônibus onde esperam.
- Notou?
- Os slides, que foram horríveis?
- Não, não. As pessoas.
- Não, nem.
- Ninguém da turma.
- E isso é ruim porque...
- Você não se decepciona, não liga mesmo para eles?
- Eles ligam para a gente, Daniel?
- Está bem, não discutimos mais.
- Ótimo.
O ônibus deles chega. Pagam, sentam no fundo. Ela pega um aparelho e começa a escutar música. Ele olha para a rua, pela janela. Começa a cair uma chuva leve.
- Eu me sinto só. É isso.
- Eu não estou aqui com você?
- Quero dizer...sinto falta de outro tipo de companhia.
- Sexual? Não posso lhe ajudar com isso.
- Não, não...humana.
- Sei. Bem, também não posso lhe ajudar com isso.
Ele olha para as mãos durante o resto da viagem. Pode ler toda sua história nelas. Imagens de sua memória desfilam por sua palma, e pequenos indicadores e controles, movem-se ao movimento sutil de seus dedos.
Ele lembra desse ano. Ele era uma criança. Não muito mais novo que os que estavam conversando na platéia.
Seu pai deixou o debate e foi pra casa. Jantaram juntos, sem saber que era a última vez que se veriam. Seu pai viaja no dia seguinte para a Suiça.
Daniel fica tentado, mas anos de treino o impedem de fazer algo que vá se arrepender. Não é medo, é respeito. O mundo não muda quando se muda o passado, porque não há passado. Não existem viagens no tempo. O universo não guarda um registro de cada coisa que fizemos, como um garoto guarda um caderno, no qual pode apagar ou reescrever suas memórias. Ele está numa sombra apenas. O que ele fizer, pode sim, afetar profundamente esta realidade, mas não a sua.
O ônibus chega na parada e descem. A chuva, ele sabe, incomoda Raquel. Ela odeia umidade.
O apartamento é pequeno. Um dos vários espalhados na cidade, produto de uma rede de tráfego constante entre a realidade e este eco. Eco-92378-Viv. O quinto que ele visita, parte de seu programa de estudo. Ele espera que seja o último.
Ele deita na única cama do aposento e vê Raquel se desligar, as esferas, quase que invisíveis a olho nu, se aglomeram num cubo fissurado, de superfície irregular. Ela ainda pode ouvir Daniel, monitorar seus batimentos, mas não há o conforto de ver alguém, mesmo um holo, tão longe de casa.
Ele sente falta do seu Recife. O barulho de tiros na madrugada, a confusão incessante do trânsito, a tensão de ter seu apartamento invadido, a raiva feminina, vingativa e constante lembrança de seu poder. Essa paz o incomoda. Quase ninguém anda armado, as pessoas não se ofendem de forma constante e se o fazem, evitam o conflito. É tudo tão sorrateiramente contido. Há uma fúria logo abaixo da superfície, algo prester a estourar, mas a ação, ele notou, só se dá quando se faz em bando, de forma covarde. Não é um mundo de leões, mas de hienas. Será que um dia esse eco será como o seu mundo? Ele não sabe, mas duvida. Porém, a dúvida lhe gera curiosidade. Ele gostaria de saber, apesar de odiar essas viagens.
E, afinal, porque eles não começaram a desenvolver pesquisas sobre ecos. Essa é sua prova final. Entender a divergência nessa realidade, que impede que este mundo envie pessoas aos outros ecos de si mesmo. É uma preocupação acadêmica, claro. Esse mundo enviará gente para seu mundo, pois é um eco. Só poderá enviar gente para eus próprios ecos. Não há perigo, as realidades são sim, absolutamente inofensivas, para o mundo de onde o eco se origina.
Ele dorme pensando nisso, pensando em seu pai, com quem irá conversar amanhã.
O dia seguinte começa e, de acordo com suas memórias, termina com chuva.
Seu pai sai cedo para o aeroporto. Ele já tem passagem comprada. O plano é viajarem juntos e, no avião, entender o que deu errado.
Mas o voo atrasa. Seu pai não viaja. Ficam ambos no aeroporto, um em frente ao outro. Daniel desiste, levanta-se e vai sentar a seu lado.
- Olá.
- Sim?
- Só buscando um pouco de companhia. Notei que o senhor também vai pegar o mesmo voo.
- Sim, sim.
Ele olha para o documento em francês, olha para Daniel, olha novamente para Daniel e decide colocar a revista de lado.
- Você parece muito com meu filho. Desculpe dizer.
- Sério?
- Sério, você é da família Mepot?
- Não, não. Meu nome é Renato Deropid. Minha família é russa.
Ele odeia mentir e sabe que não nunca convenceu seu pai quando o fez.
Mas o deixou curioso.
- O que vai fazer na Suiça, Renato? Já esteve fora?
- Não. É a primeira vez. Estou procurando trabalho.
- Na Suiça?
Seu pai dá um franco sorriso de pura descrença.
- Sim, sim. Estou trabalhando com gravitons.
- Gravitons?
- Sim. E um de meus artigos chamou a atenção de outros pesquisadores. Talvez eu consiga trabalho por lá.
- Gravitons?
- Sim.
O sorriso de Daniel é cínico, um ataque indisfarcável.
- Você me conhece?
- Não.
- Meu nome é Hamilton Mepot. Acho que trabalhamos no mesmo campo?
- Verdade?
- Sim, sim...isso é tão estranho.
- Está se perguntando como não cruzamos antes um com o outro?
- Exato. E mais: como você tem produzido. Não tenho conseguido avançar com minhas próprias pesquisas.
"Então, chegamos ao ponto.", pensa Daniel. - Qual motivo, professor?
- Esse mesmo. Sou professor. Professor demais para pesquisar, aparentemente, e minha pesquisa é ainda tão teórica que não consegui fundos para ela. Ela é, e me envergonho disso, incipiente.
Agora Daniel entende. Em 2012 a pesquisa de seu pai já estava em pleno avanço. Não só mapearam os gravitons, como já utilizavam de forma prática.
Tudo, por ridículo que lhe parecia, se resumia ao ócio.
- Se tivesse trabalhado menos o senhor chegaria a um resultado melhor na sua pesquisa? É isso que está me dizendo?
- Sim. Pode rir, mas é isso mesmo.
- Obrigado.
- Pelas risadas?
- Nâo. Por me fazer entender tantas coisas em tão pouco tempo.
- De nada, acho.
- Posso lhe dar um abraço?
- Um abraço?
- Sim. O senhor, por estranho que possa lhe parecer, me lembra meu pai.
Eles se abraçam. Daniel finge ir ao banheiro e vai embora. Abandonando seu pai a própria sorte.
Afinal, nada mudaria.
Mas vai lembrar do abraço.
E olha para a tempestade que vem chegando.
Raquel se aproxima e lhe dá o braço.
- Vamos?
- Sim.
- Está bem, Daniel?
- Não.
- Adianta ficar assim?
- É minha terapeuta agora?
- Não. Não ganho tanto assim.
Ele sorri.
- Obrigado, Raquel.
- Pelo quê, exatamente?
- Por você. Vamos.
Eles entram no banheiro e o holo perde a coesão.
Raquel lhe abraça.
Diferente do abraço que recebeu de seu falso pai, este lhe formiga a pele.
As esferas que a formam flutuam a sua volta.
Logo, ele flutua.
As esferas o cercam totalmente.
Mas ele ainda tem tempo de ouvir a chamada para o voo.
De imaginar o avião sofrendo danos com a tempestade.
Seu pai, morrendo na queda.
Ele pode avisá-lo.
Não iria mudar sua realidade. Mas podia avisá-lo.
Mas ele nunca faz isso.
Ele nunca diz que o ama.
Ele só expressa assim, a vingança absurda pelo abandono.
Deixando que o homem que não é seu pai, morra, punido por algo que não teve controle, nem no real, nem em nenhum dos ecos.
Mas é assim no mundo onde ele veio. No Recife onde a menor ofensa é responda com força pelo menos igual, onde alguém sempre tem de pagar.
E sua ferida é profunda e a dívida, que não pode cobrar da tempestade, também.
E ele some. Deixando a si esperando a notícia, orfão de uma realidade que o fizesse entender. Não é respostas para as vítimas do destino. Resta sempre uma questão, vazia, inconsolável. Sempre.
Por quê?
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April 23, 2012
Ain't No Sunshine
Uma vez eu comi uma salada...
o dia estava quente, chovia lá fora e se ouviam tiros.
Quando Ricardo ligou, pulei para atender ao telefone.
Sem dinheiro já fazia 30 dias, estava me alimentando de livros e revistas.
(Desconfio que a tarja com o valor nutritivo delas é falaciosa)
No mês anterior ainda tinha conseguido me sustentar.
Por algum motivo, minhas cuecas atingem um valor alto no mercado negro de Bangkok.
(Não, não vou lhes revelar meu contato)
Ele queria fazer dinheiro e queria que eu o ajudasse.
Fazer dinheiro não é bem o termo técnico para "rouba a bancos", mas serve.
Mas, com Ricardo, sempre tinha "epa!". Nessa caso, o o "epa!" era duplo:
O dinheiro pertencia a Fukujama Udson-Demian Eletric Urbs,
maior fabricante de Holos da América Biônica (includindo a AL, exceto Argentina, claro),
e existia na forma de 3 protótipos de novos Holos na sua estação no L1.
Limpei Álvarez de Azevedo e Playboy da boca com um resto de Stephen King e fui pegar o próximo ônibus.
Ele partia para a Lua em 4 horas.
Ricardo havia pago a passagem e entre no circular em uma cabine de luxo.
Tínhamos mesmo a opção de escolher entre vários alimentos e cozinharmos nós mesmos.
Escolho uns empanados de frango e apertei os botões certo na máquina.
Como com vodka (que descobri que é um homônimo de "Deus" em russo).
A viagem não demora mais de meia-hora.
Daí o apelido de "cozinha lunar", mal temos temos de cozinhar e comer e já chegamos.
A Lua é um lugar estranho.
Especialmente sem ela. Lunara.
Lembro da última vez que nos falamos.
- Estou com insônia.
- Porque não me ligou?
- Vou te ligar as duas pra gente sair?
- Eu acho sexy.
E nunca mais tive notícias dela. Claro, eu tive notícias sobre a cidade dela.
Mas odeio pensar sobre acidentes geotérmicos pela manhã. Vulcões artificiais...
Vou andando nos corredores apertados e pensando no que fazer em relação a segurança.
Os dados que Ricardo me passou tem pelo menos dois meses.
Antigamente isso não ser nada, mas hoje? Com IA recursivas guardando tudo?
Como entrar no porto da FUDEU para ir ao L1 se os dados estiverem errados?
Eu paro de pensar quando chega na porta do complexo multinacional de sedes das multiplanetárias.
O Scan, bem, me escaneia e não acha nada.
Talvez algo de um desprazer por ler um dostoiévski mal traduzido, mas só.
E eu entro.
O lugar é bem guardado. Há holos e humanos.
Eu pego o chiclete e começo a mascar.
Devo ficar invisível por uns 5 minutos, mais ou menos.
Saio até uma área de maior nuvem e tento fritar alguma coisa.
Doi holos apagam. Os outros se armam.
Os humanos percebem tarde demais e já estou mascando outro chiclete.
Sem alarme for you, babe.
Os nanis transformam meu braço esquerdo em um monofilamento e meus últimos segundos de invisibilidade eu gasto cortando tudo a minha volta com dois rápidos rodopios.
Os humanos só sabem que morreram quando tentam respirar.
Os holos restantes avançam.
Eu corro. Desatacho o monofilamento no caminho e eles entra em rápida reação, causando um EMP.
Meu backup funciona dois segundos depois. Meu córtex principal, frito, como os holos.
Merda de blindagem que você me vendeu, Dayvidson, seu bosta.
As IAs já estão reagindo e meu sistema mostra alertas em toda a estação.
Entro por um tudo de acesso, e me preparo para ser disparado para a superfície da Lua.
Tenho 3 minutos.
Espaço, a última fronteira.
Yahoo!
Olho o outro tubo de acesso e vou bailando até ele.
Bem 2001.
O caminhar, dançar, saltos tronchos, é patético.
2 minutos.
Chego ao tubo de acesso.
Ricardo me garantiu que estaria aberto.
Está.
Entro.
Dois Holos. Ainda não há ar.
Ar.
Um Holo tenta me eletrocutar.
Encurtar.
Ar.
Essa bindagem funciona, valeu Gregiz.
Eu inverto eles. Os nanis caem e os sugo, posso precisar deles depois.
Ar.
Fecho tudo, mando ar entrar.
Por pouco. A IA reage.
Tenta despressurizar, mas entro mais na estação.
Ele me dispara para L1.
Eu acoplo. E não há nada de sexual nisso.
Só dois objetos no espaço.
Infelizmente.
Os protótipos estão logo a frente.
A sala limpa, eu sujo.
São verdadeiros cofre fortes.
Eu deixo cair outro seguimento do braço e os nanitas cruzam o espaço.
A fórmula se combina ao material dos cofres.
Muita fumaça. Fica difícil de ver.
Assim que os cofres se dissolvem, a cápsula explode.
Meu olho esquerdo para de transmitir, assim como parte de meu corpo.
Eu entro em modo de hibernação e me movo em direção a Lua novamente.
Nunca chego lá.
Sou pego.
Por um táxi lunar.
O piloto, de cabeleira vermelha, me rende fácil.
Pois é, Ricardo, pense numa "epa!"
Eles me capturam e me me obrigam a fazer essa recaptulação de tudo.
A primeira coisa que lembro, é da salada.
No fim das contas, podia ser bem pior.
Podiam ter me torrado.
Ou me fazer comer livros e revistas de novo.
Pelo menos a comida é boa.
Cansei mesmo do Dostoiévski.
Azedava a salada brincando.
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April 21, 2012
Usar ou não o Recife?
Definitivamente estou usando Recife em meus contos. O que não é lá grande novidade. Seu futuro Cyberpunk está em Recife-Cyber-Lama, além de várias referências em outros contos meus, inclusive no primeiro conto desse grupo/cenário/universo, "Valsa para Sofia" e em seguida em "Imortais" e "Baile de Máscaras" ("O Bartender da Meia-Noite" está em pausa, se eu resolver os problemas dele, publico amanhã). E porque estou dando essa informação nada valiosa? Porque me inquietaram. A ideia é que os contos teriam mais valor se lhe fossem retiradas as referências locais. Mas eu amo Recife. Amo até o cheiro e mijo no centro da cidade. Amo a lama que piso no bairro da Várzea. Amo os assaltos que sempre vi na Madalena. Amo seus bares e suas igrejas. E tudo isso está em mim, como que gravado a ferro e fogo em meu córtex, riscado na alma. Eu amo Recife. E acho que a "cor local", as vezes se faz necessária. Não imagino o conto "Dezoito" sem Lisboa, ou "Sete" em outro local que não no Sahara. O local é muitas vezes uma outra personagem, participante do texto. Vai ver, em fim (pois estou velho), me torno, enfim, um Urbanomancer, que necessita de cidades como razão de viver. E se me torno menor do que já sou, paciência.
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March 08, 2012
É Virose!
Liberdade?
Pior que apodrecer na cadeia, é saber que ao sair, não há lugar para onde ir.
Quatro anos e meio e me deixam sair. O holo me olha estranho, parecendo desconfiar de minhas intenções.
Mas me deixa passar sem mais questionamentos, me dando por fim uma arma.
Ninguém me recebe do lado de fora. Estou novamente, sozinho no mundo.
Família, amigos, amores, que me contavam entre os seus, agora ignoram minha existência.
É fácil ignorar alguém. Sempre foi. Hoje, em que o contato pessoal é um elemento as vezes de intimidade, mais ainda.
Eu volto andando para a cidade, deixando para trás a prisão.
O prédio de três andares não comporta quase ninguém.
E o local onde eu era mantido prisioneiro, não deverá ser ocupado tão cedo.
Crime?
Chego ao hospital pontualmente, na hora marcada pelo holo da recepção.
Não há filas. Essas, só nos cemitérios e crematórios.
Meus olhos ardem de febre. Mal consigo preencher a ficha, que o holo exige que seja feito de próprio punho.
O médico chega 3 horas depois. Já vomitei várias vezes.
Para cada vez que vomitei ou precisei ir ao banheiro, meus créditos foram reduzidos pelo holo.
O médico sorri, me pede para esperar e entra no consultório.
Sou atendido duas horas depois. O médico relaxa em sua poltrona e relutante, larga o telemóvel.
Ele me olha por dois segundos, diz algo, e volta ao celular.
- O quê?
- Peraí, Sandra, um segundo.
- É virose.
- Estou doente assim faz 5 dias!
- É virose. Vá pra casa, descanse, se não melhorar, me procure em 3 dias. Me desculpe, mas estou no telefone.
- É virose? É virose?? E isso aqui, que porra é, doutor? Virose também?
Ele tenta mudar a função do telemóvel e atirar em mim, mas dou dois tiros em seu peito.
- Filho da puta.
E dou um tiro na sua cabeça.
Cadeia?
Fui preso e processado por "uso de arma em estabelecimento médico". Eu estava em meu direito, concluíram os holos.
A mãe do médico, porém, me processou pelo "filho da puta".
Fui enviado para a cadeia, pena de 10 anos.
O pior, é a solidão. Duas pessoas dividiam a cela, mas suas penas eram de outra natureza e só apareciam para dormir.
Passava o tempo então, lendo e escrevendo. O estado tem os direitos do que produzo, mas soube que vendia bem.
Alguns holos simulavam companhias, mas eram modelos antigos, instáveis. Apareciam e desapareciam sem aviso.
Não é difícil escapar da cadeia. Muitos se suicidam assim.
Basta passar pelo portão e ir andando. Mas todos os holos do estado podem usar força letal.
Claro, ultrapassou a fronteira e torna-se é um homem livre. Porém nenhum carro irá funcionar para você, nenhuma arma, nada.
Eu fiquei. Eu tinha negócios inacabados.
O pior era adoecer. O holos não entram no prédio. E ninguém se atreve e falar com o outro.
Alguns prisioneiros morrem assim. Incapazes de cuidar de si mesmo.
Nem sempre os medicamentos que pedimos chegam, e nem sempre sabemos do que estamos doentes.
As vezes as pessoas que dividem a cela, nos rouba para vender fora.
O pior era adoecer. Quando nos falta, definitivamente, as pessoas que nos cercam.
Amados?
Chego a cidade durante a noite. Meu corpo todo dói.
Não há como repor os anos. Mas queria falar com eles.
Falar com cada um que me ignorou.
Os holos que não respondiam, a visitas nunca recebidas.
Quem está fora pode entrar e sair da cadeia quando quer.
Mas eu não tinha nada para as oferecer, aparentemente.
Eu entro no apartamento que sustentei por tanto tempo.
Eles me ignoram, como meus companheiros de cela. Meus filhos, um deles um holo do menino que perdemos anos trás, me ignora.
A mulher que amava insiste que eu saia.
Ligo para meu irmão. Este me oferece uma carona, mas só isso.
Uma última viagem.
Subo na Torre de Eutanásia e salto.
Livre, afinal.
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November 19, 2011
Stormy Monday
Esse conto é baseado em fragmentos que usei na resenha de SLA Industries (um RPG). Resolvi tornar um conto e tirar referências do universo original, e em vez disso, incluir elementos do Recife-Ciber-Lama, mas obviamente, com outro protagonista.
Era até poético. O rosto da slholoa no asfalto, 4 finos cortes que percorriam sua linda face. A chuva que caia em seu rosto formava um caminho perfeito e curto até o chão, uma rota de lágrimas. Um dos olhos fora estourado por um dos cortes, o outro permanecia aberto. Um azul tempestade e a pele de um dourado brilhante, tão bela. Ela era muito bonita. Pedi a um holo para pegar um saco menor para a cabeça. Tinhamos de achar o corpo, podia haver pistas. Lembro de, naquele momento, ter verificado a arma. Tudo bem com ela, então tudo bem comigo, é o que eu sempre digo. Levantei o capuz e continuei no meio da chuva fina e fria e suja. A pergunta que girava em minha cabeça era: Qual dos assassinos seriais daquela semana teria matado uma prostituta fina, na periferia da cidade? Nenhum se encaixava, de acordo com as rotas, horário e modus operandi. Podia ser um assassino serial com defeito? Se fosse isso, era o que eu tinha de descobrir, e logo.
O meu parceiro estava no hospital, problemas com a esposa, sabe? Sendo assim, fiz todo o trabalho, e acabei em um maldito pulgueiro. O nome do suspeito era Enkidu, um canalha dos mais baixos. Eu francamente não acreditava que ele tivesse a competência para ter cometido aquele crime, ou até para comer sozinho, mas cada contato que eu tinha apontava para ele, e os exames de DNA confirmavam que o assassino era um akadiano, o que também batia com o Enkidu.
Logo que cheguei ao andar onde ele devia estar, um jato flamejante deixou minhas sobrancelhas mais curtas. Atirei as cegas na direção das chamas e gritei por holos. Corri em direção ao quarto dele, esperando mais surpresas, mas ele já havia desistido, e fugiu pela janela. Os holos não o encontraram nas redondezas, mas como confiar neles em relação a um akadian? A tecnologia era deles afinal.
Admito, sou preconceituoso. Os caras chegam aqui, vindo sei lá de onde, e em troca de um local para ficar, nos oferecem uma tecnologia que muda toda a sociedade. Não, não gosto mesmo deles e acho que quem confia neles é um idiota.
No apartamento dele achei algumas drogas e coloquei no meu bolso antes que os holos entrassem. E uma mono, possivelmente a faca que ele usou no rosto da slholoa. Ele devia ter bons contatos no mercado negro para conseguir esse material. Só agentes do Sistema podem portar mono-lâminas. Achei também uma espécie de agenda criptografada, e retratos de algumas prostitutas slholoa, inclusive de Seda, morta na semana anterior. Eu não tinha mais dúvidas.
Uma semana depois de ter invadindo o apartamento do filho da puta e eu ainda estava na mesma merda. Enkidu tinha melhores contatos e apoio do que eu havia imaginado. Tudo parecia uma grande bosta. Mesmo com a ajuda de Kiriu, recuperado da tentativa de envenenamento, não havia mais sinal do assassino. Eu e Kiriu estávamos tentando vigiar da melhor forma possível as prostitutas slholoa, e até requisitamos que fossem vigiadas por holos, mas desde a invasão do esconderijo de Enkidu, ele havia degolado mais duas piranhas e demonstrado uma competência que não batia com o bandido de quinta que as pessoas diziam que ele era. Nada batia. Ele morava num ninho de baratas, mas tinhas equipamento de primeira, fora preso por bebedeira, venda de drogas leves, mas conseguia matar as slholoa com precisão e quando menos esperávamos. E isso sem falar na quantidade ridícula de burocracia que envolvia esse caso. Eu achava que era por conta das slholoa, mas agora começava a ter dúvidas.
Então, só sobravam mais duas daquelas que estavam nas fotos que achei no pulgueiro. Kiriu foi vigiar uma delas, Diamante, uma bela slholoa, e assim como as outras, uma prostituta de luxo. Eu fiquei encarregado de olhar outra, Estrela Brilhante (em que merda de lugar os técnicos arranjam esses nomes para as slholoa?), e esta parecia mais promissora. Só dava por um monte de dinheiro, e a altos executivos do Sistema. Infelizmente, a próxima vítima não foi essa, e o Kiriu teve que cuidar do Enkidu. Kiriu é muito, mas muito burro mesmo, mas é também bi-campeão recifense de tiro. Eu soube que não sobrou muito do Enkidu, e mesmo tendo quase torrado o Kiriu, ele foi morto antes de pegar outra vítima. Ponto para os caras bonzinhos.
Bem, tudo parecia okay, inclusive o bônus "paralelo" pela cabeça do canalha. Mas logo percebi que estava sendo seguido. Não, eu não via ninguém, mas sabe quando você tem essa sensação? Pois é, e ela estava me acompanhando sempre. Então, Kiriu, e mais dois outros civis do Sistema, fomos fazer uma ronda noturna e uma batida em Camaragibe. Lugarzinho infernal, mas nada comparável ao Alto do Mandu.
O lugar não parecia representar mais perigo que o normal e ninguém se mete com a civil. Estávamos despreocupados. Iamos entrar, apagar os caras, sair, ligar para a PM que viria recolher os corpos junto com o pessoa do IML. Rotina. Até que um slholoa saiu atirando e levou de cara Jorginho e Koto, os dois outros caras da civil...
Kiriu e eu sobrevivemos ao tiroteio, mas mal, muito mal. E o slholoa estava limpo. Nunca vi um deles tão limpo assim. Sem código de fabricação, marcações de modelo, nada. Meu braço temia de dor, mas Kiriu estava pior. Tentamos voltar para o distrito, mas tivemos de sobreviver a um ataque de gangues e não conseguimos sequer sair de Camaragibe sem que antes estourassem o carro.
Mas por sorte do que por habilidade, chegamos a um apartamento que o Sistema mantém como refúgio. Kiriu morreu poucas horas depois de termos chegado lá. Nenhuma ambulância do sistema veio, nenhum médico, nenhum auxílio. Não tenho mais dúvidas, eu estou tão morto quanto ele. Após ele morrer, passei as últimas horas decifrando a agenda que retirei do quarto de Enkidu.
Posso ouvir seus passos. Vai ser como naquela antiga música, "bang, bang", e estarei morto. O segredo dos slholoa morre comigo. E todos pensando que os akadianos vieram de algum outro planeta, em vez de nosso futuro, que os slholoa não são mais que.bang.bang...bang.
Era até poético. O rosto da slholoa no asfalto, 4 finos cortes que percorriam sua linda face. A chuva que caia em seu rosto formava um caminho perfeito e curto até o chão, uma rota de lágrimas. Um dos olhos fora estourado por um dos cortes, o outro permanecia aberto. Um azul tempestade e a pele de um dourado brilhante, tão bela. Ela era muito bonita. Pedi a um holo para pegar um saco menor para a cabeça. Tinhamos de achar o corpo, podia haver pistas. Lembro de, naquele momento, ter verificado a arma. Tudo bem com ela, então tudo bem comigo, é o que eu sempre digo. Levantei o capuz e continuei no meio da chuva fina e fria e suja. A pergunta que girava em minha cabeça era: Qual dos assassinos seriais daquela semana teria matado uma prostituta fina, na periferia da cidade? Nenhum se encaixava, de acordo com as rotas, horário e modus operandi. Podia ser um assassino serial com defeito? Se fosse isso, era o que eu tinha de descobrir, e logo.
O meu parceiro estava no hospital, problemas com a esposa, sabe? Sendo assim, fiz todo o trabalho, e acabei em um maldito pulgueiro. O nome do suspeito era Enkidu, um canalha dos mais baixos. Eu francamente não acreditava que ele tivesse a competência para ter cometido aquele crime, ou até para comer sozinho, mas cada contato que eu tinha apontava para ele, e os exames de DNA confirmavam que o assassino era um akadiano, o que também batia com o Enkidu.
Logo que cheguei ao andar onde ele devia estar, um jato flamejante deixou minhas sobrancelhas mais curtas. Atirei as cegas na direção das chamas e gritei por holos. Corri em direção ao quarto dele, esperando mais surpresas, mas ele já havia desistido, e fugiu pela janela. Os holos não o encontraram nas redondezas, mas como confiar neles em relação a um akadian? A tecnologia era deles afinal.
Admito, sou preconceituoso. Os caras chegam aqui, vindo sei lá de onde, e em troca de um local para ficar, nos oferecem uma tecnologia que muda toda a sociedade. Não, não gosto mesmo deles e acho que quem confia neles é um idiota.
No apartamento dele achei algumas drogas e coloquei no meu bolso antes que os holos entrassem. E uma mono, possivelmente a faca que ele usou no rosto da slholoa. Ele devia ter bons contatos no mercado negro para conseguir esse material. Só agentes do Sistema podem portar mono-lâminas. Achei também uma espécie de agenda criptografada, e retratos de algumas prostitutas slholoa, inclusive de Seda, morta na semana anterior. Eu não tinha mais dúvidas.
Uma semana depois de ter invadindo o apartamento do filho da puta e eu ainda estava na mesma merda. Enkidu tinha melhores contatos e apoio do que eu havia imaginado. Tudo parecia uma grande bosta. Mesmo com a ajuda de Kiriu, recuperado da tentativa de envenenamento, não havia mais sinal do assassino. Eu e Kiriu estávamos tentando vigiar da melhor forma possível as prostitutas slholoa, e até requisitamos que fossem vigiadas por holos, mas desde a invasão do esconderijo de Enkidu, ele havia degolado mais duas piranhas e demonstrado uma competência que não batia com o bandido de quinta que as pessoas diziam que ele era. Nada batia. Ele morava num ninho de baratas, mas tinhas equipamento de primeira, fora preso por bebedeira, venda de drogas leves, mas conseguia matar as slholoa com precisão e quando menos esperávamos. E isso sem falar na quantidade ridícula de burocracia que envolvia esse caso. Eu achava que era por conta das slholoa, mas agora começava a ter dúvidas.
Então, só sobravam mais duas daquelas que estavam nas fotos que achei no pulgueiro. Kiriu foi vigiar uma delas, Diamante, uma bela slholoa, e assim como as outras, uma prostituta de luxo. Eu fiquei encarregado de olhar outra, Estrela Brilhante (em que merda de lugar os técnicos arranjam esses nomes para as slholoa?), e esta parecia mais promissora. Só dava por um monte de dinheiro, e a altos executivos do Sistema. Infelizmente, a próxima vítima não foi essa, e o Kiriu teve que cuidar do Enkidu. Kiriu é muito, mas muito burro mesmo, mas é também bi-campeão recifense de tiro. Eu soube que não sobrou muito do Enkidu, e mesmo tendo quase torrado o Kiriu, ele foi morto antes de pegar outra vítima. Ponto para os caras bonzinhos.
Bem, tudo parecia okay, inclusive o bônus "paralelo" pela cabeça do canalha. Mas logo percebi que estava sendo seguido. Não, eu não via ninguém, mas sabe quando você tem essa sensação? Pois é, e ela estava me acompanhando sempre. Então, Kiriu, e mais dois outros civis do Sistema, fomos fazer uma ronda noturna e uma batida em Camaragibe. Lugarzinho infernal, mas nada comparável ao Alto do Mandu.
O lugar não parecia representar mais perigo que o normal e ninguém se mete com a civil. Estávamos despreocupados. Iamos entrar, apagar os caras, sair, ligar para a PM que viria recolher os corpos junto com o pessoa do IML. Rotina. Até que um slholoa saiu atirando e levou de cara Jorginho e Koto, os dois outros caras da civil...
Kiriu e eu sobrevivemos ao tiroteio, mas mal, muito mal. E o slholoa estava limpo. Nunca vi um deles tão limpo assim. Sem código de fabricação, marcações de modelo, nada. Meu braço temia de dor, mas Kiriu estava pior. Tentamos voltar para o distrito, mas tivemos de sobreviver a um ataque de gangues e não conseguimos sequer sair de Camaragibe sem que antes estourassem o carro.
Mas por sorte do que por habilidade, chegamos a um apartamento que o Sistema mantém como refúgio. Kiriu morreu poucas horas depois de termos chegado lá. Nenhuma ambulância do sistema veio, nenhum médico, nenhum auxílio. Não tenho mais dúvidas, eu estou tão morto quanto ele. Após ele morrer, passei as últimas horas decifrando a agenda que retirei do quarto de Enkidu.
Posso ouvir seus passos. Vai ser como naquela antiga música, "bang, bang", e estarei morto. O segredo dos slholoa morre comigo. E todos pensando que os akadianos vieram de algum outro planeta, em vez de nosso futuro, que os slholoa não são mais que.bang.bang...bang.
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July 09, 2010
Burn
Esse é o último conto do ciclo de R-C-L. Achei na época que tinha fugido totalmente o clima do primeiro conto e simplesmente resolvi parar. O texto não foi revisado ou modificado desde publicado na Hiperbórea em 2003.
O telefone toca...pela quarta ou quinta vez, nem sei...foda-se, penso e me levanto... Tomo um ducha gelada. Vou ver Narinha, ainda dormindo. Beijo seu rosto lindo e vou preparar minha comida. No caminho pego o jornal e leio sobre uma nova e ridícula lei sobre liberação de drogas alucinógenas não-viciantes para motoristas. Se o congresso aprovar vou morar na Argentina. O dia está um pouco quente, e desisto de vestir um perlet.
Na saída um vizinho reclama comigo sobre um assaltante que deixei fugir e me chama de covarde, eu o ignoro, mas não contenho um sorriso quando vejo seus novos pulmões artificiais, pelo movimento leve e constante no lado esquerdo de seu peito. O idiota nunca devia ter deixado seu carro na minha vaga, teve até muita sorte.
O trânsito esta maravilhoso como sempre. Dois cruzamentos de distância do meu apartamento, um imbecil tenta me assaltar. Deve ser novato na coisa, e não nota o aviso de vidros-lâmina que coloquei na porta. Bem, logo tenho mais duas mãos dentro do carro. Seus gritos são horríveis e coloco-os no "ignore sound list". A chuva atrapalha um pouco e seu cheiro é muito desagradável. Eu devia ter prestado atenção na previsão do tempo.Chuva ácida...e eu ri disso quando li um artigo fazem alguns poucos anos. E Recife é hoje uma das cidades mais atingidas. Quem diria...
Vou chegando para o trabalho e peço ao segurança do estacionamento para arranjar alguém que limpe o banco de passageiros. Minha calça ficou limpa sozinha, é, a nonatecnologia serve para alguma coisa afinal. Pego o elevador e em segundos estou na minha sala. Recebo os e-mail com cuidado, verifico os trabalhos pendentes, e passo uma hora tentando resolver tudo. Por volta das 10:00, sou informado de uma reunião de emergência, parece que as coisas não andam nada bem com um de meus clientes.
A reunião é tumultuada, e foram feitos dois atentados contra mim antes que eu chegasse a sala, uma logo na porta de minha sala, e outra no elevador, quando as coisas estão ruins para um exec, outros acham o momento perfeitamente propício para um assassinato. Uma faca no pescoço do primeiro e uma bem recolocado terceiro servical no segundo (o qual vejo deslizando pela parede com seu corpo retorcido) asseguram que chego a sala de reuniões com segurança. Logo que cheguei um outro exec da minha divisão tentou me acertar com uma pistola, e o presidente da empresa deve de intervir, fuzilando-o. A sala fica suja, e logo dois robôs vêm fazer a limpeza. Pena que Carlos estava no caminho, era um ótimo exec, e um dos poucos com os quais eu podia contar na empresa.
Resultado da reunião: estou indo para a Áfrika Branca (A antiga África do Sul), num salto trans-orbital de 15min. É um país complicado desde a contra revolução de 2004 e a imposição de um novo governo racista. A CELA tenta romper com seu governo e freqüentes atentados a bomba tem sido sentidos por todo país já fazem dois anos. Um segurança e outros dois execs vão comigo nesta viagem. Eles são clientes importantes graças ao baixo preço e alta qualidade de sua matéria prima. Lá as leis são diferentes, lógico, e estou proibido assim como os outros execs, de usar qualquer arma. Sinto-me nu e desprotegido, mas o segurança é melhor que todos nos juntos. Parece ser um estado que optou pelo lado estatal da navalha.
Logo que descemos somos "extremamente" revistados, o que é incômodo, mais sou bem pago para isso também. Os Afrikans são educados e frios, o que é um bom sinal. As ruas parecem ordenadas e sem violência (uma ou outra pichação, olhares acusadores quando enxergam a tarja da bandeira brasileira, mas nada além disso). Os poucos negros que vemos são muito mal tratados, e os brancos nos olham com desconfiança, e logo começo a amaldiçoar o banho de sol que tomei fim de semana passado (Ele já bastou para deixar minha pele bem escura, e bem mais do que o desejável quando se visita esse país).
A reunião é longa e muito intensa, em alguns momentos eu teria fuzilado pelo menos quatro deles se estivéssemos em Recife, mas aqui as coisas funcionam de maneira diferente. Mas, apesar de tudo, eles parecem querer um acordo, afinal, não é todo lugar que parece interessado em negociar com o novo apartheid.
Em quatro horas terminamos a reunião e vamos para o carro que nos conduzirá ao aeroporto. Consegui manter o cliente, o que é bom, assim fortaleço minha posição na companhia. Talvez receba um aumento. Bem, é bom não sonhar muito. O salto é rápido e confortável. E logo estamos novamente em Recife. Compro um H&K-45-bencher (uma pistola cal. 14mm, quase sem recuo, com capacidade para 34 balas no pente e uma na agulha...é, os alemães ainda sabem fazer brinquedos maravilhosos) numa livraria e vamos a um carro da co-operante que esta nos esperando.
Um grupo de militantes do DHI (Direitos Humanos Internacionais), começa a atirar em nós, e entre eles, pelo menos dois empregados de uma companhia rival. O segurança abre fogo rapidamente e com uma precisão alcançada apenas com os melhores implantes e nanotecnologia. Existem poucos seguranças aqui em Recife. Com as leis que permitem os cidadãos se defenderem da maneira que desejam, eles perderam cada vez mais espaço. Hoje, acho que em toda a cidade, devem existem apenas uns 20 ou 30, e seus serviços são sempre muito caros, mas vale a pena graças a certeza quanto a sua eficiência. Lógico, é contra a lei contratá-los com o propósito de assassinar alguém.
Quando Chegamos na firma, todos sorriem para nos. Eu me sinto exausto mas feliz. Foi um dia muito estressante. Tomo um arlequim e me sinto melhor, mas leve, exatamente como no comercial. Logo começo a suar um pouco, mas sei que é apenas o efeito do arlequim. As pessoas me cumprimentam, e as agradeço. Alguns olhares são furiosos, alguns sorrisos amarelos, mas isso já corre todo dia.
O presidente da firma chega a nos convidar para jantar, mas hoje a noite não posso deixar Narinha sozinha, e acabo por recusar. No caminho de volta, compro um holo-urso-panda para ela, e fico pensando que amanhã ela terá para viver...
O telefone toca...pela quarta ou quinta vez, nem sei...foda-se, penso e me levanto... Tomo um ducha gelada. Vou ver Narinha, ainda dormindo. Beijo seu rosto lindo e vou preparar minha comida. No caminho pego o jornal e leio sobre uma nova e ridícula lei sobre liberação de drogas alucinógenas não-viciantes para motoristas. Se o congresso aprovar vou morar na Argentina. O dia está um pouco quente, e desisto de vestir um perlet.
Na saída um vizinho reclama comigo sobre um assaltante que deixei fugir e me chama de covarde, eu o ignoro, mas não contenho um sorriso quando vejo seus novos pulmões artificiais, pelo movimento leve e constante no lado esquerdo de seu peito. O idiota nunca devia ter deixado seu carro na minha vaga, teve até muita sorte.
O trânsito esta maravilhoso como sempre. Dois cruzamentos de distância do meu apartamento, um imbecil tenta me assaltar. Deve ser novato na coisa, e não nota o aviso de vidros-lâmina que coloquei na porta. Bem, logo tenho mais duas mãos dentro do carro. Seus gritos são horríveis e coloco-os no "ignore sound list". A chuva atrapalha um pouco e seu cheiro é muito desagradável. Eu devia ter prestado atenção na previsão do tempo.Chuva ácida...e eu ri disso quando li um artigo fazem alguns poucos anos. E Recife é hoje uma das cidades mais atingidas. Quem diria...
Vou chegando para o trabalho e peço ao segurança do estacionamento para arranjar alguém que limpe o banco de passageiros. Minha calça ficou limpa sozinha, é, a nonatecnologia serve para alguma coisa afinal. Pego o elevador e em segundos estou na minha sala. Recebo os e-mail com cuidado, verifico os trabalhos pendentes, e passo uma hora tentando resolver tudo. Por volta das 10:00, sou informado de uma reunião de emergência, parece que as coisas não andam nada bem com um de meus clientes.
A reunião é tumultuada, e foram feitos dois atentados contra mim antes que eu chegasse a sala, uma logo na porta de minha sala, e outra no elevador, quando as coisas estão ruins para um exec, outros acham o momento perfeitamente propício para um assassinato. Uma faca no pescoço do primeiro e uma bem recolocado terceiro servical no segundo (o qual vejo deslizando pela parede com seu corpo retorcido) asseguram que chego a sala de reuniões com segurança. Logo que cheguei um outro exec da minha divisão tentou me acertar com uma pistola, e o presidente da empresa deve de intervir, fuzilando-o. A sala fica suja, e logo dois robôs vêm fazer a limpeza. Pena que Carlos estava no caminho, era um ótimo exec, e um dos poucos com os quais eu podia contar na empresa.
Resultado da reunião: estou indo para a Áfrika Branca (A antiga África do Sul), num salto trans-orbital de 15min. É um país complicado desde a contra revolução de 2004 e a imposição de um novo governo racista. A CELA tenta romper com seu governo e freqüentes atentados a bomba tem sido sentidos por todo país já fazem dois anos. Um segurança e outros dois execs vão comigo nesta viagem. Eles são clientes importantes graças ao baixo preço e alta qualidade de sua matéria prima. Lá as leis são diferentes, lógico, e estou proibido assim como os outros execs, de usar qualquer arma. Sinto-me nu e desprotegido, mas o segurança é melhor que todos nos juntos. Parece ser um estado que optou pelo lado estatal da navalha.
Logo que descemos somos "extremamente" revistados, o que é incômodo, mais sou bem pago para isso também. Os Afrikans são educados e frios, o que é um bom sinal. As ruas parecem ordenadas e sem violência (uma ou outra pichação, olhares acusadores quando enxergam a tarja da bandeira brasileira, mas nada além disso). Os poucos negros que vemos são muito mal tratados, e os brancos nos olham com desconfiança, e logo começo a amaldiçoar o banho de sol que tomei fim de semana passado (Ele já bastou para deixar minha pele bem escura, e bem mais do que o desejável quando se visita esse país).
A reunião é longa e muito intensa, em alguns momentos eu teria fuzilado pelo menos quatro deles se estivéssemos em Recife, mas aqui as coisas funcionam de maneira diferente. Mas, apesar de tudo, eles parecem querer um acordo, afinal, não é todo lugar que parece interessado em negociar com o novo apartheid.
Em quatro horas terminamos a reunião e vamos para o carro que nos conduzirá ao aeroporto. Consegui manter o cliente, o que é bom, assim fortaleço minha posição na companhia. Talvez receba um aumento. Bem, é bom não sonhar muito. O salto é rápido e confortável. E logo estamos novamente em Recife. Compro um H&K-45-bencher (uma pistola cal. 14mm, quase sem recuo, com capacidade para 34 balas no pente e uma na agulha...é, os alemães ainda sabem fazer brinquedos maravilhosos) numa livraria e vamos a um carro da co-operante que esta nos esperando.
Um grupo de militantes do DHI (Direitos Humanos Internacionais), começa a atirar em nós, e entre eles, pelo menos dois empregados de uma companhia rival. O segurança abre fogo rapidamente e com uma precisão alcançada apenas com os melhores implantes e nanotecnologia. Existem poucos seguranças aqui em Recife. Com as leis que permitem os cidadãos se defenderem da maneira que desejam, eles perderam cada vez mais espaço. Hoje, acho que em toda a cidade, devem existem apenas uns 20 ou 30, e seus serviços são sempre muito caros, mas vale a pena graças a certeza quanto a sua eficiência. Lógico, é contra a lei contratá-los com o propósito de assassinar alguém.
Quando Chegamos na firma, todos sorriem para nos. Eu me sinto exausto mas feliz. Foi um dia muito estressante. Tomo um arlequim e me sinto melhor, mas leve, exatamente como no comercial. Logo começo a suar um pouco, mas sei que é apenas o efeito do arlequim. As pessoas me cumprimentam, e as agradeço. Alguns olhares são furiosos, alguns sorrisos amarelos, mas isso já corre todo dia.
O presidente da firma chega a nos convidar para jantar, mas hoje a noite não posso deixar Narinha sozinha, e acabo por recusar. No caminho de volta, compro um holo-urso-panda para ela, e fico pensando que amanhã ela terá para viver...
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July 08, 2010
Enter Sandman
Mais um conto do R-C-L. Sinto que "Enter Sandman" já não tinha a mesma raiva dos primeiros contos, apesar de ainda ter sido feito com uma certa espontâneidade. No caso de "Enter Sandman", decidi não fazer nenhuma alteração no texto, anterior a 2003.
WOHHHOOAaaaaaa..
Espreguiço-me...
Olho para os lados e vejo algo piscando...Uma luzinha...
Levanto-me rápido e pego a pistola, vou correndo agachado até o quarto de Narinha.
O quarto fica ao lado do meu, e a porta está encostada com a luz acesa, abro de leve e olho para dentro...
Narinha está bem, linda, dormindo. Continuo fazendo a busca na casa. Um discreto Holo azul escuro começa a gesticular em direção a janela da sala quando me percebe. Aproximo-me devagar e olho apontando a arma.
Um escalador está agarrado a janela. A tela pega-ladrão, que armo toda noite, finalmente pegou alguém, ótimo. Vou novamente olhar Narinha, e ela continua dormindo.
Tiro o imbecil da minha janela, os sons da madrugada são os mesmos de sempre, ninguém notou um ladrão subindo até meu apartamento, ou ninguém quis notar, o que é exatamente a mesma coisa.
Ele ainda está paralisado com o choque que levou, e tiro sua máscara. É um garoto, deve ter seus quinze, ou dezesseis anos. Uma pena. Mantenho a janela aberta para diminuir o calor do apartamento.
Bato na cara dele após desarmá-lo, ele suspira e tosse, a cor voltando ao rosto. Pergunto a ele se quer beber algo, ao que ele responde com confusão que quer um copo d'água. Eu explico a ele que de acordo com a lei posso fazer o que quiser com qualquer pessoa que entre no meu apartamento, coisa que ele deve com certeza saber. Ele faz que sim com a cabeça.
Falo com um holo da policia (um holo com cores amarelas e vermelhas, que parecem implorar para o incomodarmos o menor tempo possível)e aviso que prendi um escalador que estava invadindo minha casa. Os cretinos perguntam o que quero que eles façam...
A viatura vai chegar em vinte minutos. Eu e Narinha poderíamos ser mortos milhares de vezes em vinte minutos.
Eu fico MUITO puto com isso. Muito mesmo. E pensar que eu sou um trabalhador, que sua seu sustento todo o dia, pago os impostos, e taxas de proteção, tanto individual quanto do edifício.
A incompetência do ser humano é incrível. O estado é a síncope desta incompetência.
Trinta e cinco minutos depois os policiais chegam. Cretinos.
Eles entram no apartamento e atiro contra eles, são rápidos, mas pareciam com sono. Bem treinados, mas minha fúria e meu cotidiano como executivo me mantêm preparado para levar tiros por todo lado e escapar deles. Um está vivo, e treme enquanto urina no meu tapete. Puto.
Deixo o garoto ir, mas antes faço ele assinar um contrato que nunca irá levantar uma arma contra mim ou Narinha. Ele assina e parte de cabeça baixa.
Como um último gesto de maldade, lembro a ele que meu vizinho deixou o alarme dele desligado hoje, como eu havia notado mais cedo. Ele sorri, e percebe que a noite ainda não está perdida.
Volto ao policial e pego seu caderninho com holos graváveis de feedback do cliente (aqueles em que o cidadão pode dizer o que quiser da policia).
Levo o idiota hemorrágico até a porta do apartamento e chamo uma ambulância.
Reporto tudo o que ocorreu ao holo da policia, que fica irritado, mas sabe que legalmente eu estou protegido.
Volto a minha cama e tento dormir. Tenho de acordar cedo para trabalhar.
Passo no quarto de Narinha e confirmo que ela continua dormindo. Perfeita, minha vida, minha Narinha.
Volto a meu quarto e me deito, pensando ainda na inocência e beleza do rosto de minha filha.
E fico sorrindo quando escuto um som de tiros no apartamento do vizinho. Sonhar com anjos não poderia ser melhor.
WOHHHOOAaaaaaa..
Espreguiço-me...
Olho para os lados e vejo algo piscando...Uma luzinha...
Levanto-me rápido e pego a pistola, vou correndo agachado até o quarto de Narinha.
O quarto fica ao lado do meu, e a porta está encostada com a luz acesa, abro de leve e olho para dentro...
Narinha está bem, linda, dormindo. Continuo fazendo a busca na casa. Um discreto Holo azul escuro começa a gesticular em direção a janela da sala quando me percebe. Aproximo-me devagar e olho apontando a arma.
Um escalador está agarrado a janela. A tela pega-ladrão, que armo toda noite, finalmente pegou alguém, ótimo. Vou novamente olhar Narinha, e ela continua dormindo.
Tiro o imbecil da minha janela, os sons da madrugada são os mesmos de sempre, ninguém notou um ladrão subindo até meu apartamento, ou ninguém quis notar, o que é exatamente a mesma coisa.
Ele ainda está paralisado com o choque que levou, e tiro sua máscara. É um garoto, deve ter seus quinze, ou dezesseis anos. Uma pena. Mantenho a janela aberta para diminuir o calor do apartamento.
Bato na cara dele após desarmá-lo, ele suspira e tosse, a cor voltando ao rosto. Pergunto a ele se quer beber algo, ao que ele responde com confusão que quer um copo d'água. Eu explico a ele que de acordo com a lei posso fazer o que quiser com qualquer pessoa que entre no meu apartamento, coisa que ele deve com certeza saber. Ele faz que sim com a cabeça.
Falo com um holo da policia (um holo com cores amarelas e vermelhas, que parecem implorar para o incomodarmos o menor tempo possível)e aviso que prendi um escalador que estava invadindo minha casa. Os cretinos perguntam o que quero que eles façam...
A viatura vai chegar em vinte minutos. Eu e Narinha poderíamos ser mortos milhares de vezes em vinte minutos.
Eu fico MUITO puto com isso. Muito mesmo. E pensar que eu sou um trabalhador, que sua seu sustento todo o dia, pago os impostos, e taxas de proteção, tanto individual quanto do edifício.
A incompetência do ser humano é incrível. O estado é a síncope desta incompetência.
Trinta e cinco minutos depois os policiais chegam. Cretinos.
Eles entram no apartamento e atiro contra eles, são rápidos, mas pareciam com sono. Bem treinados, mas minha fúria e meu cotidiano como executivo me mantêm preparado para levar tiros por todo lado e escapar deles. Um está vivo, e treme enquanto urina no meu tapete. Puto.
Deixo o garoto ir, mas antes faço ele assinar um contrato que nunca irá levantar uma arma contra mim ou Narinha. Ele assina e parte de cabeça baixa.
Como um último gesto de maldade, lembro a ele que meu vizinho deixou o alarme dele desligado hoje, como eu havia notado mais cedo. Ele sorri, e percebe que a noite ainda não está perdida.
Volto ao policial e pego seu caderninho com holos graváveis de feedback do cliente (aqueles em que o cidadão pode dizer o que quiser da policia).
Levo o idiota hemorrágico até a porta do apartamento e chamo uma ambulância.
Reporto tudo o que ocorreu ao holo da policia, que fica irritado, mas sabe que legalmente eu estou protegido.
Volto a minha cama e tento dormir. Tenho de acordar cedo para trabalhar.
Passo no quarto de Narinha e confirmo que ela continua dormindo. Perfeita, minha vida, minha Narinha.
Volto a meu quarto e me deito, pensando ainda na inocência e beleza do rosto de minha filha.
E fico sorrindo quando escuto um som de tiros no apartamento do vizinho. Sonhar com anjos não poderia ser melhor.
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March 14, 2010
And the Night Has Come (2010)
And the Night has Come é uma abertura maior para a vida do protagonista, que foi casado e vive com a filha, Narinha.
Me levanto de madrugada e pego um cigarro.
A sensação é gostosa como sempre, uma espécie de alívio, relaxamento... me levanto após fumar, com sede, para pegar um pouco de água na cozinha. Passo pelo quarto de Narinha e vejo que ela dorme como um anjinho, inocente e quieta.
Ouço um helicóptero passando por sobre o prédio, algumas metralhadoras soam ao longe. É uma madrugada tranqüila. Poucos carros passam e um lua bonita ilumina céu.Mas continuo inquieto.
Sento ao lado de um holo e me pergunto se vale a pena ligar para Márcia. Ouvir a voz macia e gostosa dela de madrugada é bem tentador, mas acabo por desistir, tanto eu quanto ela, trabalhamos pela manhã. E também sinto medo da maneira como ela pode receber meu holo. Conversamos pouco sobre Narinha, mas sei o quanto ela não quer crianças, e levar novamente esse assunto a tona, não é algo bom a essa hora, com ambos cansados, já tendo sofrido com a discussão de ontem...
Volto a olhar para a rua e vejo um casal andando apressado, quase com medo. É melhor se apressarem, filhos da puta não faltam nesta vizinha, a essa hora. Parecem jovens, mas é difícil de ver a essa distância, com a chuva fina e constante, comum a cidade nesta época do ano.
Pego o cartão do carro, mas acabo desistindo de sair a essa hora, Narinha não ficaria segura, tenho de pensar nela. E a vontade ainda assim persiste. Penso de novo na segurança dela e isso basta.
Tento ligar um livro e fico no sofá, mas continuo inquieto. Peço a casa para fazer alguma comida, e espero até que esteja pronta, afinal, pode apenas ser fome. O sanduíche de peru defumado é gostoso, pego também um pouco de café (descafeinado), e como de maneira vagarosa e paciente.
Fico assim a noite toda, pensando, remoendo coisas do passado. Como foi bom ter me mudado, assegurando minha sobrevivência e a de Narinha. Mas é péssimo ter abandonado uma vizinhança, se não boa, pelo menos conhecida. Fico pensando nas alternativas, e só de imaginar o meu corpo e o de Narinha estendidos na calçada, ambos alvejados por Camila...Não, não seria algo agradável.
Tive de sair as pressas de casa após requerer o divórcio. Apesar de atirar melhor que Camila,eu temo por Narinha.
Afinal, pq as mulheres são tão temperamentais quanto a uma separação?
Me levanto de madrugada e pego um cigarro.
A sensação é gostosa como sempre, uma espécie de alívio, relaxamento... me levanto após fumar, com sede, para pegar um pouco de água na cozinha. Passo pelo quarto de Narinha e vejo que ela dorme como um anjinho, inocente e quieta.
Ouço um helicóptero passando por sobre o prédio, algumas metralhadoras soam ao longe. É uma madrugada tranqüila. Poucos carros passam e um lua bonita ilumina céu.Mas continuo inquieto.
Sento ao lado de um holo e me pergunto se vale a pena ligar para Márcia. Ouvir a voz macia e gostosa dela de madrugada é bem tentador, mas acabo por desistir, tanto eu quanto ela, trabalhamos pela manhã. E também sinto medo da maneira como ela pode receber meu holo. Conversamos pouco sobre Narinha, mas sei o quanto ela não quer crianças, e levar novamente esse assunto a tona, não é algo bom a essa hora, com ambos cansados, já tendo sofrido com a discussão de ontem...
Volto a olhar para a rua e vejo um casal andando apressado, quase com medo. É melhor se apressarem, filhos da puta não faltam nesta vizinha, a essa hora. Parecem jovens, mas é difícil de ver a essa distância, com a chuva fina e constante, comum a cidade nesta época do ano.
Pego o cartão do carro, mas acabo desistindo de sair a essa hora, Narinha não ficaria segura, tenho de pensar nela. E a vontade ainda assim persiste. Penso de novo na segurança dela e isso basta.
Tento ligar um livro e fico no sofá, mas continuo inquieto. Peço a casa para fazer alguma comida, e espero até que esteja pronta, afinal, pode apenas ser fome. O sanduíche de peru defumado é gostoso, pego também um pouco de café (descafeinado), e como de maneira vagarosa e paciente.
Fico assim a noite toda, pensando, remoendo coisas do passado. Como foi bom ter me mudado, assegurando minha sobrevivência e a de Narinha. Mas é péssimo ter abandonado uma vizinhança, se não boa, pelo menos conhecida. Fico pensando nas alternativas, e só de imaginar o meu corpo e o de Narinha estendidos na calçada, ambos alvejados por Camila...Não, não seria algo agradável.
Tive de sair as pressas de casa após requerer o divórcio. Apesar de atirar melhor que Camila,eu temo por Narinha.
Afinal, pq as mulheres são tão temperamentais quanto a uma separação?
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March 13, 2010
Sunday Morning (2010)
Meu segundo texto do Recife-Cyber-Lama (RCL). Depois de Happy Day, decidi optar por um formato de crônica mesmo, que não manteve, no fim das contas. Mas aqui está essa pequena crônica e continuação em espírito de Happy Day.
Domingo...
Cerveja, praia e futebol.
Narinha ainda dormia quando visto meu calção e pego as chaves do carro.
Deixo um holo para a empregada não sair até voltar, colando a cláusula do contrato genado por ela, em que isto está de acordo com as normas de seu horário.
Em meia hora consigo sair do edifício, trânsito ainda tranqüilo das primeiras horas da manhã ensolarada (8:00). O túnel que vai para a praia esta apinhado, e quente, com certeza.
A cidade está sempre quente. Os meses de chuva são mais curtos, e o ar tremula de calor. Mas nada desértica é a paisagem. Filas infinitas vão em direção a praia.
Passa um menino vendendo cerveja, pago e bebo uma, gostosa e gelada.
Parece a galega do carro ao lado, mas o holo de um cão serve de aviso aos mais apressados, e para mim, basta o cão da minha ex.
Olho para ela uma segunda vez, e o holo rosna, eu sei que não passa de um holo, mas é um holo MUITO feio.
Ligo o jornal. O presidente continua sendo um imbecil e desisto de ler algo além da manchete principal.
Ouço uma buzina e lembro que esqueci de colocar buzinas na lista de ignorância do carro, logo, só as vozes das pessoas passam pelo filtro sonoro.
Vejo que houve uma batida mais trás, e ambos os motoristas saltam de seus carros: armados e perigosos. O motorista do Leviak é mais rápido, mas suja o carro da frente, com um dono que é mais rápido que ele. Dois bots de limpeza carregam logo os corpos para que as crianças não os vejam. Os carros não ficam na fila por muito mais tempo, sendo apanhados pelos auto-guinchos que patrulham a fila.
Mas a violência me perturba um pouco, para ela não há filtro.
Não gosto de trazer Narinha nestas viagens a praia, são muito arriscadas. Há pouco respeito às crianças hoje em dia. Apesar de Recife ser uma das 5 cidades com maior grau de qualidade de vida no país, nem sempre as estatísticas condizem com a realidade.
Quando a fila entra pelo túnel, olho novamente ao redor.
Vejo a galega conversando com um holo, deve ser o marido dela. Cara de idiota, mas vejo que não difere muita da média do pessoal que trabalha comigo no escritório. Trabalho...Tenho pensar é em Sol, Praia, Cerveja e Futebol.
Saio do túnel e vejo a praia, muitas pessoas na frente, com suas toalhas estendidas na calçada tentando pegar um pouco de sol.
Chego a um dos portões de entrada e estaciono na areia. Um segurança vem me revistar, o que é incomodo mais necessário.
Coloco de novo minha sunga e vou pagar pelo uso da Praia, depois, é Sol, Cerveja e Futebol.
Domingo...
Cerveja, praia e futebol.
Narinha ainda dormia quando visto meu calção e pego as chaves do carro.
Deixo um holo para a empregada não sair até voltar, colando a cláusula do contrato genado por ela, em que isto está de acordo com as normas de seu horário.
Em meia hora consigo sair do edifício, trânsito ainda tranqüilo das primeiras horas da manhã ensolarada (8:00). O túnel que vai para a praia esta apinhado, e quente, com certeza.
A cidade está sempre quente. Os meses de chuva são mais curtos, e o ar tremula de calor. Mas nada desértica é a paisagem. Filas infinitas vão em direção a praia.
Passa um menino vendendo cerveja, pago e bebo uma, gostosa e gelada.
Parece a galega do carro ao lado, mas o holo de um cão serve de aviso aos mais apressados, e para mim, basta o cão da minha ex.
Olho para ela uma segunda vez, e o holo rosna, eu sei que não passa de um holo, mas é um holo MUITO feio.
Ligo o jornal. O presidente continua sendo um imbecil e desisto de ler algo além da manchete principal.
Ouço uma buzina e lembro que esqueci de colocar buzinas na lista de ignorância do carro, logo, só as vozes das pessoas passam pelo filtro sonoro.
Vejo que houve uma batida mais trás, e ambos os motoristas saltam de seus carros: armados e perigosos. O motorista do Leviak é mais rápido, mas suja o carro da frente, com um dono que é mais rápido que ele. Dois bots de limpeza carregam logo os corpos para que as crianças não os vejam. Os carros não ficam na fila por muito mais tempo, sendo apanhados pelos auto-guinchos que patrulham a fila.
Mas a violência me perturba um pouco, para ela não há filtro.
Não gosto de trazer Narinha nestas viagens a praia, são muito arriscadas. Há pouco respeito às crianças hoje em dia. Apesar de Recife ser uma das 5 cidades com maior grau de qualidade de vida no país, nem sempre as estatísticas condizem com a realidade.
Quando a fila entra pelo túnel, olho novamente ao redor.
Vejo a galega conversando com um holo, deve ser o marido dela. Cara de idiota, mas vejo que não difere muita da média do pessoal que trabalha comigo no escritório. Trabalho...Tenho pensar é em Sol, Praia, Cerveja e Futebol.
Saio do túnel e vejo a praia, muitas pessoas na frente, com suas toalhas estendidas na calçada tentando pegar um pouco de sol.
Chego a um dos portões de entrada e estaciono na areia. Um segurança vem me revistar, o que é incomodo mais necessário.
Coloco de novo minha sunga e vou pagar pelo uso da Praia, depois, é Sol, Cerveja e Futebol.
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May 20, 2007
Happy Day (2007)
Esse é o primeiro de antigos contos que estou revisitando e atualizando. Escrevi Happy Day originalmente em 96. Tentei re-escrever ele hoje sem fugir do sentimento original, mas dando mais coerência ao universo retratado. Happy Day foi o primeiro de uma série de contos retratando uma distopia, o Recife-Cyber-Lama (RCL). Na época, o RCL versava sobre a desumanização, violência, ausência de identidade social. Esse novo texto não deixa de tratar desses pontos, afinal, no Recife de hoje e de ontem, o que mudou de fato?
Happy Day (2007)
Acordei pela manhã com o alarme tocando, eram 6:34. O holo brilhava, vermelho e estéril sobre minha cabeça. Tateei tentando pelo controle. Não me atrevia a falar e espantar o resto o sono. Nâo o achei e tentei voltar a dormir. Esperei por dois minutos e nada, então resolvi tomar banho e me preparar para o trabalho.
O ar húmido da madrugada já chegava quente na sala. As chuvas contantes a noite eo calor forte de dia havia se tornado rotina há anos. Vi notícias sem sentido por meia hora. Dá para levara sério o noticiário? Desligo o jornal e o deixo pousado sobre o sofá. Fico deitado aproveitando um facho de luz vindo pela janela, pensando na vida, por fim me canso disto e me levanto. Tomo um banho rápido e frio, meu último recurso contra o sono esbravejante e mau agrilhonado, insistente em me carregar de volta para a cama.
Antes de sair, passo na porta do outro quarto. Narinha ainda dorme, minha filha querida, meu amor. A única força capaz de me erguer toda manhã. Pego o paletó, ajeito a gravata e vou ao trabalho.
Meu carro ronca suave, também sendo acordado de forma brusca, mas certamente em melhor forma que o dono. Rolo com ele para fora do edifício, sem falar com vizinhos ou o porteiro, gente chata, implicante e barulhenta. A rua está apinhada de carros, mas com um pouco de paciência, desço a rampa do prédio e me encaixo com precisão na fila-engarrafamento-piadadiáriadetrânsito.
Demoro, mas chego a avenida que me leva a empresa em que trabalho. Não se passam dez minutos e um vendedor de tamarindo irrompe a janela de um carro oferecendo seus frutos, o motorista, um tremendo imbecil, demonstrar a sua estupidez, parando o trânsito sem o mínimo respeito para comigo e os outros atrás dele. Ouço buzinas atrás de mim, holos arreganham bocas furiosas, sinais de alerta começam a piscar no carro do sujeito. Eu não buzino, sei que em Recife isso é puro desperdício. O vendedor também parece não se incomodar. Continua com sua venda e, sem pressa, zigue-zagueia pelos carros. Penso em avançar sobre ele quando passa a frente de meu carro, mas lembro que não há lava-a-jato deste ponto até o trabalho.
Quando passo ao lado dele, que já está pulando para a calçada, puxo minha escopeta de segurança e disparo em sua perna. Os projéteis de boracha e gelatina explodem ao contato e o impacto seguido pela queimação na perna vão deixar o filho da puta longe da rua por um bom tempo. Alguns buzinam concordando, outros olham assustados ou irritados com meu comportamento. Eu apenas continuo guiando, sei que este não vai mais atrapalhar o trânsito por horas.
Incrivelmente percorro mais 4km sem ninguém trancando o carro ou cortando pelo meio do trânsito.
Chego a Companhia, o holo verifica o carro e minha identidade e me deixa passar.
Eu pego minha pasta e entro no edifício, a recepcionista olha para mim e abaixa seu rosto logo em seguida, provavelmente lembrando o que lhe disse quinta passada. Pego o elevador vazio e vou ao quarto andar. O som de teclas não se ouvem no escritório. É uma pena, eu o achava reconfortante, um som que fazia o mundo girar. Pelo menos assim que eu pensava. Talvez meus pais e avós pensassem o mesmo sobre o som de máquinas elétricas ou o telégrafo.
O silêncio é opressivo, mas isso era de se esperar. Eu o contemplo todo dia. Agudo, longo. Cumprimento algumas pessoas com um menear da cabeça e entro em minha sala.
Meu holo pisca, verificando minha presença, pisca por alguns segundos e me entrega relatórios.
Perdi uma conta, pena. Vou preparar um e-bomb para eles. Minha ex-esposa me mandou outro mail, quer ainda saber como encontra a mim e minha filha. Como diabos ela burla meus filtros? Mando um e-bomb simples para ela e vejo o que há de novo na empresa...
Durante o resto da manhã as coisas ocorrem de maneira calma, trabalho em duas das contas e converso com 4 holos, todos muito prestativos e cuidadosos...
Hipócritas, uma chance e tentariam me matar, mandando um e-bomb ou assassino, o que quer que a moda da estação esteja ditando.
Um holo da explosão do e-bomb enviado interrompe meus afazeres por um momento. O som é belo mas miúdo. A empresa tem regras rígidas em relação ao som alto, alguns memos e foram enviados semana passada e já soube do desligamento permanente de alguns funcionários. Holos de sua terminação foram incluídos nos relatórios matinais. Vejo novamente o e-bomb e me acalmo um pouco, compensando o ex-vendedor de tamarindo.
Almoço no restaurante da companhia, onde os pratos são satisfatórios e o preço é quase justo. Sento com outros Demiurgos e conversamos um pouco sobre o que cada um anda fazendo.
Canso-me da conversa e deixo o prato pela metade. Lentamente vou ao caixa, pago e faço ao holo uma reclamação sobre a qualidade e preço do alto do almoço. Sei que isso vai me dar pontos com a divisão de RH, sempre insistentes em "maior partipação dos funcionários no sócio-ambiente da companhia".
O holo não gostou da minha desistência a meia distância de terminar o prato, eu o mando a merda. Ele se irrita, e aumentan o preço de meus almoços em 200%. Quebro o holobloco e saio de volta a minha sala, sob uma chuva de vaias, gritos e pedaços de comida. O elevador limpa minha roupa quando aperto a tecla do andar.
Um tiro abala o escritório por alguns segundos após a porta do elevador abrir, me deixando desnorteado por alguns segundos. Verifico que o tiro não se dirigiu a mim, nem me atingiu e sigo para minha sala. A garota que atirou chora um pouco e limpa o sangue que respingou em sua roupa com delicadeza cuidadosa. O rapaz e ela estavam namorando a alguns dias, mas quem sabe o que se passa na cabeça dos jovens de hoje? Logo funcionários vêm limpar a bagunça, recolher o corpo, enviar a carta de demissão a família (com data-horário prévio a sua morte e assinatura digital do rapaz devidamente forjada).
Falo com mais uns dois holos quando chego a minha sala, um deles me comunica o débito da destruição do holo dos restaurante. Eu nem quero pensar o quanto é, não importa, eles sempre descontam algo, pelo menos desta vez existe alguma razão.
Termino o trabalho e vou novamente pegar o elevador. Um casal conversando, bloqueia a porta e peço para saírem do caminho. Um dos rapazes me olha com raiva e me manda ir para aonde não quero. Dependendo de quem ouça, essa bravata pode lhe dar pontos com a diretoria. Pela cor da gravata noto que é um funcionário recém-contratado. Não me comovo. Puxo uma lámina de vidro e corto sua garganta com a precisão de um costume diário. Seu namorado reage puxando um lança-agulhas, uso minha pasta para bloquear e desarmá-lo empurrando ele para o chão. Em segundos ele sangra ao lado do amigo. Ótimo, é advertido que não se deve trazer não-funcionários para dentro da empresa.
Pego o carro e vou tentando achar um lugar no trânsito.
Um carro me tranca e bato nele, ouço a maquina interna se refazendo, o que não ocorre com o carro de segunda de meu algoz, que para no acostamento. Menos um idiota, eu penso, desejando uma folga de pelo menos alguns minutos.
Chegando em casa, vejo um vizinho me esperando na porta. Eu o convido para entrar e tomarmos café enquanto conversamos sobre o uso de minha vaga no estacionamento. Ele me ofende, usa um verificador de venenos em sua bebida. Irritado, transpasso sua garganta com a lâmina do trabalho. Droga, penso. Tenho que limpar a sala antes de Narinha voltar da aula.
Chamo o zelador. Ele manda o corpo para a reciclagem e envia um holo de condolências. Sei que o holo irá também questionar a família se poderá permanecer no apartamento com seus vencimentos atuais.
Narinha chega, linda e inocente, jantamos e ela me conta o seu dia na escola. Eu amo minha filha. Leio para ela até que durma. Vou para minha cama. Leio um pouco, mas me canso logo e desligo o livro.
É, mas um dia na Veneza brasileira chega ao fim.
Boa noite.
(escrito por Haroudo Xavier em 20 de maio de 2007)
Happy Day (2007)
Acordei pela manhã com o alarme tocando, eram 6:34. O holo brilhava, vermelho e estéril sobre minha cabeça. Tateei tentando pelo controle. Não me atrevia a falar e espantar o resto o sono. Nâo o achei e tentei voltar a dormir. Esperei por dois minutos e nada, então resolvi tomar banho e me preparar para o trabalho.
O ar húmido da madrugada já chegava quente na sala. As chuvas contantes a noite eo calor forte de dia havia se tornado rotina há anos. Vi notícias sem sentido por meia hora. Dá para levara sério o noticiário? Desligo o jornal e o deixo pousado sobre o sofá. Fico deitado aproveitando um facho de luz vindo pela janela, pensando na vida, por fim me canso disto e me levanto. Tomo um banho rápido e frio, meu último recurso contra o sono esbravejante e mau agrilhonado, insistente em me carregar de volta para a cama.
Antes de sair, passo na porta do outro quarto. Narinha ainda dorme, minha filha querida, meu amor. A única força capaz de me erguer toda manhã. Pego o paletó, ajeito a gravata e vou ao trabalho.
Meu carro ronca suave, também sendo acordado de forma brusca, mas certamente em melhor forma que o dono. Rolo com ele para fora do edifício, sem falar com vizinhos ou o porteiro, gente chata, implicante e barulhenta. A rua está apinhada de carros, mas com um pouco de paciência, desço a rampa do prédio e me encaixo com precisão na fila-engarrafamento-piadadiáriadetrânsito.
Demoro, mas chego a avenida que me leva a empresa em que trabalho. Não se passam dez minutos e um vendedor de tamarindo irrompe a janela de um carro oferecendo seus frutos, o motorista, um tremendo imbecil, demonstrar a sua estupidez, parando o trânsito sem o mínimo respeito para comigo e os outros atrás dele. Ouço buzinas atrás de mim, holos arreganham bocas furiosas, sinais de alerta começam a piscar no carro do sujeito. Eu não buzino, sei que em Recife isso é puro desperdício. O vendedor também parece não se incomodar. Continua com sua venda e, sem pressa, zigue-zagueia pelos carros. Penso em avançar sobre ele quando passa a frente de meu carro, mas lembro que não há lava-a-jato deste ponto até o trabalho.
Quando passo ao lado dele, que já está pulando para a calçada, puxo minha escopeta de segurança e disparo em sua perna. Os projéteis de boracha e gelatina explodem ao contato e o impacto seguido pela queimação na perna vão deixar o filho da puta longe da rua por um bom tempo. Alguns buzinam concordando, outros olham assustados ou irritados com meu comportamento. Eu apenas continuo guiando, sei que este não vai mais atrapalhar o trânsito por horas.
Incrivelmente percorro mais 4km sem ninguém trancando o carro ou cortando pelo meio do trânsito.
Chego a Companhia, o holo verifica o carro e minha identidade e me deixa passar.
Eu pego minha pasta e entro no edifício, a recepcionista olha para mim e abaixa seu rosto logo em seguida, provavelmente lembrando o que lhe disse quinta passada. Pego o elevador vazio e vou ao quarto andar. O som de teclas não se ouvem no escritório. É uma pena, eu o achava reconfortante, um som que fazia o mundo girar. Pelo menos assim que eu pensava. Talvez meus pais e avós pensassem o mesmo sobre o som de máquinas elétricas ou o telégrafo.
O silêncio é opressivo, mas isso era de se esperar. Eu o contemplo todo dia. Agudo, longo. Cumprimento algumas pessoas com um menear da cabeça e entro em minha sala.
Meu holo pisca, verificando minha presença, pisca por alguns segundos e me entrega relatórios.
Perdi uma conta, pena. Vou preparar um e-bomb para eles. Minha ex-esposa me mandou outro mail, quer ainda saber como encontra a mim e minha filha. Como diabos ela burla meus filtros? Mando um e-bomb simples para ela e vejo o que há de novo na empresa...
Durante o resto da manhã as coisas ocorrem de maneira calma, trabalho em duas das contas e converso com 4 holos, todos muito prestativos e cuidadosos...
Hipócritas, uma chance e tentariam me matar, mandando um e-bomb ou assassino, o que quer que a moda da estação esteja ditando.
Um holo da explosão do e-bomb enviado interrompe meus afazeres por um momento. O som é belo mas miúdo. A empresa tem regras rígidas em relação ao som alto, alguns memos e foram enviados semana passada e já soube do desligamento permanente de alguns funcionários. Holos de sua terminação foram incluídos nos relatórios matinais. Vejo novamente o e-bomb e me acalmo um pouco, compensando o ex-vendedor de tamarindo.
Almoço no restaurante da companhia, onde os pratos são satisfatórios e o preço é quase justo. Sento com outros Demiurgos e conversamos um pouco sobre o que cada um anda fazendo.
Canso-me da conversa e deixo o prato pela metade. Lentamente vou ao caixa, pago e faço ao holo uma reclamação sobre a qualidade e preço do alto do almoço. Sei que isso vai me dar pontos com a divisão de RH, sempre insistentes em "maior partipação dos funcionários no sócio-ambiente da companhia".
O holo não gostou da minha desistência a meia distância de terminar o prato, eu o mando a merda. Ele se irrita, e aumentan o preço de meus almoços em 200%. Quebro o holobloco e saio de volta a minha sala, sob uma chuva de vaias, gritos e pedaços de comida. O elevador limpa minha roupa quando aperto a tecla do andar.
Um tiro abala o escritório por alguns segundos após a porta do elevador abrir, me deixando desnorteado por alguns segundos. Verifico que o tiro não se dirigiu a mim, nem me atingiu e sigo para minha sala. A garota que atirou chora um pouco e limpa o sangue que respingou em sua roupa com delicadeza cuidadosa. O rapaz e ela estavam namorando a alguns dias, mas quem sabe o que se passa na cabeça dos jovens de hoje? Logo funcionários vêm limpar a bagunça, recolher o corpo, enviar a carta de demissão a família (com data-horário prévio a sua morte e assinatura digital do rapaz devidamente forjada).
Falo com mais uns dois holos quando chego a minha sala, um deles me comunica o débito da destruição do holo dos restaurante. Eu nem quero pensar o quanto é, não importa, eles sempre descontam algo, pelo menos desta vez existe alguma razão.
Termino o trabalho e vou novamente pegar o elevador. Um casal conversando, bloqueia a porta e peço para saírem do caminho. Um dos rapazes me olha com raiva e me manda ir para aonde não quero. Dependendo de quem ouça, essa bravata pode lhe dar pontos com a diretoria. Pela cor da gravata noto que é um funcionário recém-contratado. Não me comovo. Puxo uma lámina de vidro e corto sua garganta com a precisão de um costume diário. Seu namorado reage puxando um lança-agulhas, uso minha pasta para bloquear e desarmá-lo empurrando ele para o chão. Em segundos ele sangra ao lado do amigo. Ótimo, é advertido que não se deve trazer não-funcionários para dentro da empresa.
Pego o carro e vou tentando achar um lugar no trânsito.
Um carro me tranca e bato nele, ouço a maquina interna se refazendo, o que não ocorre com o carro de segunda de meu algoz, que para no acostamento. Menos um idiota, eu penso, desejando uma folga de pelo menos alguns minutos.
Chegando em casa, vejo um vizinho me esperando na porta. Eu o convido para entrar e tomarmos café enquanto conversamos sobre o uso de minha vaga no estacionamento. Ele me ofende, usa um verificador de venenos em sua bebida. Irritado, transpasso sua garganta com a lâmina do trabalho. Droga, penso. Tenho que limpar a sala antes de Narinha voltar da aula.
Chamo o zelador. Ele manda o corpo para a reciclagem e envia um holo de condolências. Sei que o holo irá também questionar a família se poderá permanecer no apartamento com seus vencimentos atuais.
Narinha chega, linda e inocente, jantamos e ela me conta o seu dia na escola. Eu amo minha filha. Leio para ela até que durma. Vou para minha cama. Leio um pouco, mas me canso logo e desligo o livro.
É, mas um dia na Veneza brasileira chega ao fim.
Boa noite.
(escrito por Haroudo Xavier em 20 de maio de 2007)
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