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June 17, 2021
Verde
A água fria cai do chuveiro e se esconde, rápida, no ralo. Um espiralar lento. Eu queria ir junto com ela. Deixar o mundo a minha volta e escoar para a escuridão. O momento é interrompido por uma ligação que prefiro ignorar. Não preciso olhar quem liga. Eu sei quem é. É tudo tão cansativo. Preciso descansar, me desligar. Não é fácil, mais nada é fácil.
Pego o sabonete verde e continuo com o banho. Me ensaboo, sentindo o cheiro estranho. Agradável, mas com o qual não estou familiarizado. Não é meu. Nunca conheci o dono. Um legado de quem morou antes aqui. Um resto. Algo sem importância, que foi deixado, perdido no caminho.
Pego a toalha nova, com saudades da antiga. Será que o antigo morador sente a mesma falta? Será que se perde na busca por uma nova familiaridade? Como um viciado, busca a experiência antiga no novo? No pisar desse chão que me é estranho, nos sons da vizinhança, nos cheiros, na luz que entra filtrada por janelas que agora são minhas. Na pressa, na pressão, perdemos coisas tão mínimas e tão essenciais. Mas eu finjo que o que me importa são as caixas. Espalhada no novo lar, cada qual com seu tamanho, peso, conteúdo. Não são muitas. Muito do que vejo é novo.
Quando o desastre aconteceu, não tive tempo. Quem tem tempo? Mas sobrevivi. E trouxe as caixas comigo. Nelas, pedaços de minha vida. Meu pai me ensinando a nadar. Minha primeira surra. Uma mordida. Um sorriso. Um brinquedo. Gente que morreu, gente que viveu e envelheceu, gente que pariu ou partiu.
Fora do apartamento, o corredor curto dá em uma escada e uma rampa. Existem poucos apartamentos por prédio e cada prédio tem pequenas instalações de primeiros socorros e emergência diversas. Muita luz entra pelas paredes, que são opacas apenas nos apartamentos individuais, permitindo uma certa privacidade. Mesmo neles, notei que essa pode ser regulada. Meu contato com o mundo exterior já se dá então no umbral de minha porta. Árvores que não são árvores, grama que não é grama.
Pelos meus novos olhos, vejo o céu esmeralda. O cheiro do mundo é diferente. E não consigo conter o sorriso.
E ele morre rápido na boca. O peso de tantos gritos silenciosos me achata. Séculos se passaram e ainda assim, nos alcançam. O enorme vão entre galáxias nos separa de bilhões, talvez trilhões de mortes, mas existem legados que não podemos esquecer, que agora fazem parte de nossa espécie. As estrelas são diferentes, mas nós somos os mesmos.
As roupas foram feitas sob medida para meu novo corpo. E assim como boa parte desse corpo, os materiais de sua composição foram criados sob medida para esse mundo. Ainda sou humano, ou assim me disseram. E não é como se tivéssemos muita escolha. Quando uma espécie alienígena capaz de dizimar toda a vida inteligente de uma galáxia começa a fazer seu trabalho, não é como se você tivesse tempo de escolher em que condições você vai viajar para outra galáxia.
Além das vidas perdidas, nada do que ficou para trás é insubstituível. É essa a propaganda que temos de engolir. Uma insensibilidade que, se está embutida nesse corpo, ainda não foi ativada.
Sinto outra ligação. É a terceira em menos de 30 minutos desde que despertei.
- Oi, mãe.
- Rogério! Por que você não atendeu logo? Olha, preciso de sua ajuda! Tem tanta coisa aqui para arrumar! Você acordou bem?
- Ainda estou me ajustando, mãe.
- Mas venha logo, tá? Lembre: minha casa fica na rua paralela a a sua! Beijos! Te amo, filho!
Além das ligações de minha mãe, existem outros alertas. Em sua maioria, alertas das autoridades coloniais. Informações sobre elementos específicos da fauna e flora do planeta, manuais sobre a implementação da burocracia e documentação do governo provisório e pedidos de voluntários para várias funções.
Leio os informes enquanto exploro o mundo. Tudo tão verde. Sei que é um efeito colateral da visão e que eventualmente vai passar, mas há uma estranheza em ver o mundo assim, em matizes de uma única cor, um monocromático relaxante que impede um desnorteamento causado pela vibração e pungencia da nova experiência. Isso foi pensado por alguém? Sempre imagino que todos os aspectos de uma tecnologia tenha sido averiguados, mas por experiência, sei que raramente não passam de subprodutos de uma sorte que permeia de forma circunvizinha a nossa inteligência.
Gente verde perambula pela cidade artificial, entre grama falsa e árvores de mentira. Não muito diferente do que nos tornamos para poder colonizar esse planeta. A estética das falsas plantas é talvez um um subproduto disso que circunvizinha a inteligência que as construiu, beneficiando os colonizadores com o conforto psicológico de saber que estamos em um lugar não tão diferente da terra. Apenas mais uma fabricação.
- Rogério!
A mulher verde grita em minha direção e corre com os braços estendidos. Assim como na ligação, só a "reconheço" pela informação jogada no meu campo de visão que a indentifica como tal. O seu corpo deve ter a mesma idade que o meu, sua voz poderia ser melódica se não fosse o ar estridente que minha mãe sempre imprimiu ao falar. Zélia não seria ninguém sem uma exclamação para pontuar o que diz.
- Meu filho! Que saudades!
- Também, mãe.
- Olha, que bom que você veio! Tenho muita coisa para desembalar! Tanta coisa pra fazer...
- Também, mãe.
- Você está bem? Tudo aqui é tão verde e nós estamos tão diferentes! Eu mal me reconheci, Rogério!
- Estou sim, mãe. Vamos, me mostre no que você precisa de ajuda.
Fomos andando juntos até o apartamento dela. As montanhas se moviam a distância. Não eram elas, mas nós é que estávamos caminhando sobre o planeta. Não há um análogo real para a categoria de seres que são nativos nesse mundo, mas todas as formas de vida encontradas, são de uma forma ou de outra nômades.
A plataforma onde estão nossas base, que é um conjunto de oito prédios baixos e feitos com os materiais mais levels que pudemos construir, está pousada sobre o que parece ser uma floresta de anêmonas que caminha lentamente pelas planícies do planeta. Uma colônia sobre uma colônia. Pelo que li, mesmo sendo muito parecidas, são também distintas a pontos de haverem colônias predadoras de outras e que apesar de serem feitas de animais distintos - tanto quanto os cientistas puderam avaliar - eles se interligam de tal forma que parecem compor uma única criatura.
Chegamos ao apartamento dela. Uma pilha de caixas ainda esperando serem desmontadas. Todas, devidamente etiquetadas. Muitas, são memórias. Algumas, são minhas.
- Eu não queria isso.
- Eu sei, meu filho. Mas acho que lhe fará bem.
- Duvido.
- Talvez, agora, você duvide. Mas a vida não é feita só de alegrias. É feita de dor. É o contraste que importa.
- Você não teria como ser mais clichê, mãe. Eu sei o que passamos, e são vocês, você, e tantos aqui, que ignoram o que deixamos para trás, que tratam tudo como um...
Ela o bate tão forte que ele só percebe depois que é ela mesma que já veio correndo para o ajudar a levantar. Mas ele quer? Quer levantar e encarar as decisões que deve tomar. Sentir a dor de novo. Repetir tudo. Lembrar? Ela o puxa, mas ele fica sentado no chão. Ela o olha como olhou a milhares de anos at´ras, quando ele não passava de uma criança birrenta.
- Não se pode fugir de quem você é!
É, ele não podia. E ele sabia muito bem quem era. Não tinha as memórias, mas tinha a informação. Ele escolheu esquecer as mortes que ordenou. Escolheu esquecer tantas batalhas fúteis. Escolheu esquecer os seus "grandes" feitos. Escolheu esquecer sua covardia. Quem deixou para trás. Escolheu esquecer que ordenou que a elite de sua espécie, fosse arremessda milhares de anos no espaço, para uma existência que não correspondia a sua cultura, vida, e memória como espécie.
De que adiantaria sentir? Testemunhar novamente a ausência de seus filhos após os abandonar em campos de batalha que, em última instância, foram vitórias vazias? Sentir suas esposas definhando com o peso da perda espiritual causada pela dissolução de tudo que conheceçam a vida toda, enquanto ele, em vez de lhes apoiar, se debatia inutilmente contra um inimigo que varria inexoravelmente um universo?
É tudo tão novo. Tão verde. Tão vivo. Mas não teria como escapar de milhões de anos de remorsos. E pensando assim, deixou o corpo cair no que não era exatamente solo, para ser esmagado pelo que não eram exatamente anêmonas.
No dia seguinte, sua mãe estava novamente sentada em sua sala. Iria demorar alguns dias, e ela sabia que seu filho iria novamente sentir o estranho aroma do sabonete e olhar maravilhado por um instante, para esse novo mundo. Sabia que iriam discutir. Sabia que, como até agora, ele talvez escolhesse morrer a lembrar da sua vida. Ela tinha medo. Ela sofria. Mas ele herdou dela a teimosia que matou bilhões da sua espécie em desesperada resistência. Como toda boa mãe, ela não iria desistir de seu filho.
August 31, 2018
Coming Home From Cape Town (Like a Record) - RCL 4.4
The neon on her back reflects on the water left on the street. She moves over the puddles left by the rain, never leaving her mark, never leaving any traces. I open de car dor on my side, while the car opens the door for her.
The vodka smell still clings to me. I didn´t drink much. She won't let me. Narinha was always watchful. Vigilance apps, blinking just behind her beautiful eyes. She moved her glass around, never really touching it. We left when the smoke was so thick I could probably swim on it to leave the bar.
My permits expired yesterday. The fusion with the Cape Town company went even southern. I got shot, twice, still a few meters from the bar door. Not much damage, really, a few of the hundreds of flechettes crossed through my executive bodysuit, but barely scratched my skin. The neurotoxin wasn't enough to kill me, the nanos on my body kicked in and repaired it quickly, while drugging me, all this during my spinning descent to the ground shooting back.
Time is a commodity. We trade on it, we eat it, we shit it. I´m still in the bar, lamenting. Is all holos and smoke in a neon dream of past mistakes. I received a call from Sylvia. New documents, with a face that don´t match my own, an encrypted flight ticket to this face, a gun mesh for my old soon-to-be-bleeding hands.
His own executive bodysuit absorbs the hammer rounds, while he staggers. There is a flicker on Narinha and I shoot on her direction. They are a couple. I urge Narinha to get into the car. No word was given, just emotions on an electronic medium that somehow is read by her in mid-flight from the second assailant.
We are all jumping and shooting and praying, lighting up the streets with hammer bullets, flechette rounds and soon, holo light.
She worms in on the passenger seat while I move father from the car. The other ballerinas clad in black, block my passage. The car is dead, I can't ask for any favors. An alarm blinks on my left eye, a timer of sorts. I´m cooking. The sleek, black hovervan is pointing a microwave canon on my direction.
I call. Bets are off, lead is in. The old gun almost rips her whispery arms, while the powder booms. One of the dances is caught off-guard, the shot does nothing, just gives more of her time to me, surprise buying in from pellets on her back. The first, the one who shot me, only blinks, but that is enough. And they know it.
Half fried, half clawing on the ground, the hammer gun pops more bullets, this time on the cannon. I hear a loud ping, with something imploding in me while the timer goes off. Just in time.
They are back on their feet and I´m almost discharged. They have to know, and the girl goes to Narinha, now realizing she can be a threat, holo or not. Antiques can be bothersome when they explode behind you.
We are back on the pissing match. His flechette smg and my bulk hammer gun. Another timer caught my attention, between the horde of numbers on my eyes. The mesh is almost done.
"Come on! Spin me around like an old record! You look like a lot of fun!" I scream between bleeding, clenching teeth. My eyes on the woman, who jumps inside the car. Narinha screams in terror. The guy, with rainbow lipstick and bulk arms, jumps again. The adrenaline keeps me talking while I try to figure how to not fuck this up. "Come on! I want some! If I could trace your private number, baby..." I left it hanging on, while I spin right round, right round like a record, just a little bit closer. When he noticed my shouts are not from my mouth but on his head, I was too close already, with the meshed hacking gun on a hand and the hammer on the other. Too close indeed. It goes bang and no suit could support it. He crashes.
Narinha flicks and shocks and cries loudly. The car bounces wildly. She must know her partner is dead, but she also knows what the holo means to me. "No time to revenge! Leave and I won't kill you". She knows I´m lying, but I had to try before jumping in. A boot knife almost cuts into my windpipe the instant I went into the mess. Time is flowing. The hovervan is landing. fuckfuckfuck is the name of the new game. Nothing sexy when we wrapped around the other but must have been love since we get ourselves out by the back of the car glass frame, with small pieces of it lighting up with rain and neon lights.
I reach for the smeared flechette gun, unfireable if I hadn't a hacking pistol. We are embraced and I shoot her through my soon-to be-not-my-face-anymore-anyway. If it hurts? Only when I tried to laugh maniacally while I chased the non execs at the hovervan. Their end was near when they noticed I picked the pace after leaving the last dance on the wet asphalt. They were right.
Tired, bleeding, smelling of cheap vodka. The holo on my daughter supports me while we get into the car again. Just like any friday night in Recife downtown. I drive on the back seat, while my face is being rebuilt. Not sure how we really got back home, all got in confused thoughts and images and sounds and smells, after a certain amount on drugs drowns me in.
I woke up with the awful heat and the smell of urine and oranges. Sour, sweet, home.
The vodka smell still clings to me. I didn´t drink much. She won't let me. Narinha was always watchful. Vigilance apps, blinking just behind her beautiful eyes. She moved her glass around, never really touching it. We left when the smoke was so thick I could probably swim on it to leave the bar.
My permits expired yesterday. The fusion with the Cape Town company went even southern. I got shot, twice, still a few meters from the bar door. Not much damage, really, a few of the hundreds of flechettes crossed through my executive bodysuit, but barely scratched my skin. The neurotoxin wasn't enough to kill me, the nanos on my body kicked in and repaired it quickly, while drugging me, all this during my spinning descent to the ground shooting back.
Time is a commodity. We trade on it, we eat it, we shit it. I´m still in the bar, lamenting. Is all holos and smoke in a neon dream of past mistakes. I received a call from Sylvia. New documents, with a face that don´t match my own, an encrypted flight ticket to this face, a gun mesh for my old soon-to-be-bleeding hands.
His own executive bodysuit absorbs the hammer rounds, while he staggers. There is a flicker on Narinha and I shoot on her direction. They are a couple. I urge Narinha to get into the car. No word was given, just emotions on an electronic medium that somehow is read by her in mid-flight from the second assailant.
We are all jumping and shooting and praying, lighting up the streets with hammer bullets, flechette rounds and soon, holo light.
She worms in on the passenger seat while I move father from the car. The other ballerinas clad in black, block my passage. The car is dead, I can't ask for any favors. An alarm blinks on my left eye, a timer of sorts. I´m cooking. The sleek, black hovervan is pointing a microwave canon on my direction.
I call. Bets are off, lead is in. The old gun almost rips her whispery arms, while the powder booms. One of the dances is caught off-guard, the shot does nothing, just gives more of her time to me, surprise buying in from pellets on her back. The first, the one who shot me, only blinks, but that is enough. And they know it.
Half fried, half clawing on the ground, the hammer gun pops more bullets, this time on the cannon. I hear a loud ping, with something imploding in me while the timer goes off. Just in time.
They are back on their feet and I´m almost discharged. They have to know, and the girl goes to Narinha, now realizing she can be a threat, holo or not. Antiques can be bothersome when they explode behind you.
We are back on the pissing match. His flechette smg and my bulk hammer gun. Another timer caught my attention, between the horde of numbers on my eyes. The mesh is almost done.
"Come on! Spin me around like an old record! You look like a lot of fun!" I scream between bleeding, clenching teeth. My eyes on the woman, who jumps inside the car. Narinha screams in terror. The guy, with rainbow lipstick and bulk arms, jumps again. The adrenaline keeps me talking while I try to figure how to not fuck this up. "Come on! I want some! If I could trace your private number, baby..." I left it hanging on, while I spin right round, right round like a record, just a little bit closer. When he noticed my shouts are not from my mouth but on his head, I was too close already, with the meshed hacking gun on a hand and the hammer on the other. Too close indeed. It goes bang and no suit could support it. He crashes.
Narinha flicks and shocks and cries loudly. The car bounces wildly. She must know her partner is dead, but she also knows what the holo means to me. "No time to revenge! Leave and I won't kill you". She knows I´m lying, but I had to try before jumping in. A boot knife almost cuts into my windpipe the instant I went into the mess. Time is flowing. The hovervan is landing. fuckfuckfuck is the name of the new game. Nothing sexy when we wrapped around the other but must have been love since we get ourselves out by the back of the car glass frame, with small pieces of it lighting up with rain and neon lights.
I reach for the smeared flechette gun, unfireable if I hadn't a hacking pistol. We are embraced and I shoot her through my soon-to be-not-my-face-anymore-anyway. If it hurts? Only when I tried to laugh maniacally while I chased the non execs at the hovervan. Their end was near when they noticed I picked the pace after leaving the last dance on the wet asphalt. They were right.
Tired, bleeding, smelling of cheap vodka. The holo on my daughter supports me while we get into the car again. Just like any friday night in Recife downtown. I drive on the back seat, while my face is being rebuilt. Not sure how we really got back home, all got in confused thoughts and images and sounds and smells, after a certain amount on drugs drowns me in.
I woke up with the awful heat and the smell of urine and oranges. Sour, sweet, home.
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August 21, 2015
G.2
Nosso último beijo ficou numa fotografia. Foi um amor gentrificado. Saia um para dar espaço a outro. Não me importa. Não nos importávamos mais. Não houve traição, mas uma troca acertada: ambos sabíamos que o fim já havia chegado. Apenas nos recusávamos a fechar a narrativa. Fechamos apenas as ruas. Gejú, escondido em sua janela, nos acompanhava pela televisão. Desocupados, olhavam a ocupação.
O ódio, com sua gula, nos beliscava com discursos vazios. Nos pedia currículo, acusava sem medo, a nossa delinquência. Dos novos ágoras, cuspiam com ódio nos seus monitores, telas. Demos gelo. Não se respondem aos cães, apenas se respeita seus dentes. E a polícia não ia tardar a aparecer. Que instituição deixa de abusar do poder quando se sonha gigante. E pequeno, o gárgula, com o ricto permanente, pensava nas mentiras que iria contar no amanhã.
Nosso último beijo ficou numa fotografia. Nem a memória o guardou. Nada ficou. O local virou escombros, que virou prédio, que virou túmulo. Nem a memória o guardou. A cidade involui. Girafas buscam o céu e topam na escuridão proposta, como se górgonas tivessem descoberto seus olhares para o mundo e tudo tornado pedra, escuridão e calor. Recifede, mais os gases agora são outros. Com o riso permanente de galhofa no rosto, o vilão que empesteia a cidade está bem empacotado, não se assemelha, em estética, o resto de comida podre e dejetos inumeráveis, largados no centro da cidade.
A motoserra ceifa mais uma vida. Talvez da floresta, logo também reste o nada, o papel estéril de uma fotografia. Logo, a própria serra, será mais obsoleta que um gramofone. Ninguém mais se importa com legados, não há nada para quem deixar, pois não haverá ninguém. O homem que conduz a máquina não é nada mais que outra peça. Dois anos para viver, se tivermos sorte, escreveu com giz o pesquisador, pó ante pó. Lá embaixo, distante de onde estou, continuam cortando árvores, e eles mesmo sabem: é inútil. A madeira não servira para nada, para ninguém, todos nós estaremos mortos. Seu gesto sequer irá, a esse ponto, apressar nossa extinção.
Não há ginecologista para curar a gonorreia que somos. Não há cura para a infertilidade do mundo. Os rios secaram como o gosto de seu beijo, a sombra de um prédio, vinte e cinco anos atrás, quando ainda viva era a cidade. E de prefeito em prefeito, as górgonas transformaram até o amor em pedra.
No maior deserto em linha reta, após um oceano abandonado, de verde barrento e sujo, que se pontua com o que restam das torres da avareza. Lá, jaz um ex-pântano, ex-cidade. Dizem que do que ficou, levantam gases que corrompem a memória, fazendo jus a sua história. O gato, que trouxe de lá, me arranha a perna pedindo comida. Penso quando vou ter de comer o gato, enquanto derramo o resto da garapa garganta adentro.
Nós deixamos que os gandulas conduzissem o jogo. Não é uma sensação gostosa. O sabor da derrota. Derrota de um povo, de um país, de uma espécie. É um vazio quase tão grande quanto a sua falta, de quem ficou pra trás, escolhendo um diferente inimigo, uma outra falsa esperança. Você plantando no sertão, uma tarefa inútil. Eu aqui, podando os que devoram as árvores. Temos menos de dois anos para viver. É galhofa. Temos bem menos. E cada um, perdido em seu ato mecânico. Você planta. Eu levanto o fuzil e miro, com cuidado, em quem ordena o uso das serras.
O ódio, com sua gula, nos beliscava com discursos vazios. Nos pedia currículo, acusava sem medo, a nossa delinquência. Dos novos ágoras, cuspiam com ódio nos seus monitores, telas. Demos gelo. Não se respondem aos cães, apenas se respeita seus dentes. E a polícia não ia tardar a aparecer. Que instituição deixa de abusar do poder quando se sonha gigante. E pequeno, o gárgula, com o ricto permanente, pensava nas mentiras que iria contar no amanhã.
Nosso último beijo ficou numa fotografia. Nem a memória o guardou. Nada ficou. O local virou escombros, que virou prédio, que virou túmulo. Nem a memória o guardou. A cidade involui. Girafas buscam o céu e topam na escuridão proposta, como se górgonas tivessem descoberto seus olhares para o mundo e tudo tornado pedra, escuridão e calor. Recifede, mais os gases agora são outros. Com o riso permanente de galhofa no rosto, o vilão que empesteia a cidade está bem empacotado, não se assemelha, em estética, o resto de comida podre e dejetos inumeráveis, largados no centro da cidade.
A motoserra ceifa mais uma vida. Talvez da floresta, logo também reste o nada, o papel estéril de uma fotografia. Logo, a própria serra, será mais obsoleta que um gramofone. Ninguém mais se importa com legados, não há nada para quem deixar, pois não haverá ninguém. O homem que conduz a máquina não é nada mais que outra peça. Dois anos para viver, se tivermos sorte, escreveu com giz o pesquisador, pó ante pó. Lá embaixo, distante de onde estou, continuam cortando árvores, e eles mesmo sabem: é inútil. A madeira não servira para nada, para ninguém, todos nós estaremos mortos. Seu gesto sequer irá, a esse ponto, apressar nossa extinção.
Não há ginecologista para curar a gonorreia que somos. Não há cura para a infertilidade do mundo. Os rios secaram como o gosto de seu beijo, a sombra de um prédio, vinte e cinco anos atrás, quando ainda viva era a cidade. E de prefeito em prefeito, as górgonas transformaram até o amor em pedra.
No maior deserto em linha reta, após um oceano abandonado, de verde barrento e sujo, que se pontua com o que restam das torres da avareza. Lá, jaz um ex-pântano, ex-cidade. Dizem que do que ficou, levantam gases que corrompem a memória, fazendo jus a sua história. O gato, que trouxe de lá, me arranha a perna pedindo comida. Penso quando vou ter de comer o gato, enquanto derramo o resto da garapa garganta adentro.
Nós deixamos que os gandulas conduzissem o jogo. Não é uma sensação gostosa. O sabor da derrota. Derrota de um povo, de um país, de uma espécie. É um vazio quase tão grande quanto a sua falta, de quem ficou pra trás, escolhendo um diferente inimigo, uma outra falsa esperança. Você plantando no sertão, uma tarefa inútil. Eu aqui, podando os que devoram as árvores. Temos menos de dois anos para viver. É galhofa. Temos bem menos. E cada um, perdido em seu ato mecânico. Você planta. Eu levanto o fuzil e miro, com cuidado, em quem ordena o uso das serras.
May 07, 2014
Repolhocracia
Para Adriana:
Dria, te desejo todos os repolhos do mundo. :)
Repolhocracia
João achava que tinha mudado. "Como assim?", ele se perguntava diante da dúvida que via estampada no rosto de 45 anos que via pela primeira vez. Ele, definitivamente, não era ele. Sentiu sim, uma ponta de ansiedade. Mas só uma pontinha. "Eu estou feliz", ele disse para o espelho do banheiro. A palavra, que designava um estado tão sublime, lhe parecia também uma novidade. Ele sorriu, lidando com seus pensamentos duplos, de um antigo e novo João.
Ele não estava só. Longe dali, alguns anos atrás, Li Wei foi o primeiro a se notar diferente. Não foi em um espelho, mas bem que podia ter sido. O chinês trabalhava numa fábrica, uma galpão gigantesco e havia dias que Li Wei não se sentia bem. Algo dentro dele não funcionava do jeito que devia. Do jeito antigo, de sempre. Do jeito que o levou a fábrica pela primeira vez, um galpão de homens e mulheres iguais, vestidos iguais, com ações iguais, responsáveis por montar um mundo de quem deseja ser diferente. E era só mais uma fábrica, como qualquer outra. Igual a tantas outras.
Li Wei constatou que suas mãos não eram mais as suas. Elas eram, mas não eram. "Ora, eu é que não sou mais Li Wei", ele se percebeu pensando. Terminou seu trabalho e foi para casa. Lá, Li Wei se encontrou com quem, até ontem, eram seus iguais. A família triste, que trabalha além do suportável. Não passavam fome, mas não tinham alcançado a riqueza que outros tinham. No jantar, os rostos dos iguais olhavam para Li Wei de forma diferente. Ele sorria, apreciando por uma primeira vez segunda, coisas que já fizera antes. Tomava, com gosto, a sopa de repolho.
Foi uma noite muito flatulenta. E em meio aos gases, microorganismos de Li Wei eram respiradas pelos irmãos que dividiam com ele o pequeno quarto. Entravam em seu corpos, multiplicando-se, devorando o que era o passado de cada um. Das vias respiratórias seguiam para o sangue, e logo estavam também nos nervos, e multiplicavam-se em seus intestinos. No cérebro, a nova colônia ia tomando conta das antigas ligações, reformando e substituindo o tecido, se integrando e mudando a si mesma no processo...
Wei, no dia seguinte, acordou ainda mais resoluto: sabia que não era quem sempre fora. Via as coisas de maneira diferente. Foi lendo, rumo ao trabalho. Queria entender seu novo eu, o que estava fazendo, quem era em relação ao mundo. Mas não estava apreensivo. Sorria. Estava feliz. Via melhor o mundo, percebia que algo havia de mudar, mas isso lhe dava satisfação.
Durante a semana, Li Wei fez o que sempre fazia. Mas de forma diferente. Continuava um bom operária, mas lia mais, percebia mais os outros, se preocupava mais com o mundo. E, toda noite, tomava a sopa de repolho ao jantar com a família e continuava a polinizar seus irmãos.
Ao fim da semana, eles também se estranharam, cada um percebendo que já não era o mesmo. E tiveram uma conversa estranha, mas nítida: sabiam, em seus íntimos, que eram uma nova família. Procuraram estudar o que havia ocorrido consigo. Descartaram mudanças mil, buscaram o insólito, mas desse, nada podiam provar e seguiram adiante, a solução estava na ciência, tinham certeza. Além de mudanças no ânimo, porém, a única mudança que notaram, era a apreciação maior por repolhos. Comiam no café da manhã, almoço e jantar. Carregavam nas marmitas para seus empregos, e as crianças da família, na escola, lanchavam repolhos.
Em menos de um mês, toda casa pertencia a novos habitantes. Não havia tristeza, apesar de sua realidade não haver mudado. Percebiam o mundo melhor e se percebiam também. Cada qual, vestia o sapato do outro melhor e lhes sentia o calo alheio. Olhavam o mundo de outra forma. E, sem perceber foram, lentamente, se espalhando.
Li Wei transferiu para os colegas da fábrica os microorganismos. O local era isolado, feito para a confecção de peças de informática. Mas a despeito de todos os filtros, os gases que entravam lá, eram fabricados pelo próprio Li Wei. Em menos de um ano, todos da fábrica eram uma nova família e se tratavam repolhosamente, sem distinção.
A pequena cidade na China foi tomada em menos de dois anos. Lá, não havia mais crime ou fome, todos trabalhavam igualmente e faziam mutirões para alimentar, educar e vestir a todos. O lazer era igualmente apreciado, sempre havendo companhia para os que escolhiam não estar só. A privacidade existia, mas poucos faziam uso dela. Não havia vergonha entre os seres da mesma espécie. Nem ciúme, inveja, ganância.
Logo o governo central mandou investigadores. Afinal, alguém devia estar falsificando os dados. Mas os fiscais voltavam sem nada contra a cidade. Felizes, contavam as boas novas entre mordiscadas em repolhos: a pequena cidade devia seguir como um modelo para toda a China, lá não havia violência ou desigualdade! Os fiscais foram presos e novos fiscais foram enviados. Mas já era tarde. A repolhoação do país já andava em vento e popa.
No ocidente, começaram a vazar notícias, logo desmentidas, sobre o hábito novo, que os jovens chineses adquiriram. No início, se falava em solidão como motivo dos jovens andarem com repolhos. Havia brincadeiras maldosas, que diziam que chineses haviam comido todos os cães e só sobraram as hortaliças. Não sabiam eles que era uma forma do novo grupo de identificar em público sem chamar atenção do governo.
E logo, toda a China se tornou diferente. primeiro, tentaram mudar o mercado mundial para melhor. Logo depois, houve uma abertura política. Menos de quatro anos após Li Wei perceber que havia mudado, a China dissolveu as instituições de poder. Houve caos. Não havia mais China. Com quem o presidente de outras nações, iriam negociar, pedir, brigar? Forças da ONU foram enviadas temendo algum golpe. Não havia nada disso. Havia paz. A única coisa que os soldados trouxeram de volta para seus países, foram repolhos.
A Repolho-Mania estava em alta. logo, se tornou difícil reconhecer os repolhanos dos demais: humanos também andavam com repolhos, sonhando, imaginando, um mundo sem países, sem divisões, em que todos se respeitavam.
Nem sempre a transição foi pacífica. Nem todos os governos, empresas, classes, categorias e ideologias, aceitavam que, em algum lugar do mundo, mais de um quinto da população mundial vivesse em paz. "Que horror!", eles diziam, "eles voltaram a ser comunistas!", bradavam. Estudiosos apontavam que não era bem o caso, mas a xenofobia, quase que incipiente nas culturas humanas, vociferava diante do extermínio. No entanto, a condição transhumana que se apresentava era irredutível em seu avanço. Em menos de 10 anos, atravessou o mundo.
João, no Recife, com barba por fazer, no dia de seu aniversário, olhou para si no espelho, mais uma vez. Se achou lindo. Se achou lindo como pessoa. Achou lindo o mundo que o cercava. Pensou nos amigos, e decidiu que no seu aniversário, ele daria presentes também. Foi pra sala, desligou a televisão pela última vez, pegou um livro para ler e o colocou no bolso. Decidiu não ir de carro e nunca mais o ligou. Seu vizinho, que torcia para outro time, lhe jogou uma dessas ofensas corriqueiras, que ele respondeu apenas com um sorriso desinteressado. Sabia que não veria mais o futebol com os mesmos olhos. E no caminho para o trabalho, comprou um repolho para lanchar e sentiu-se um pouco triste com tudo, apesar de feliz. Afinal, ele olhava para os outros e via, entre tantas faces bonitas, um animal em extinção, incapaz de evoluir, um prisioneiro do tempo e de ideologias mortas. E depois, sorriu de novo enquanto pagava o ônibus, cedia lugar, agradecia ao motorista, dava bom dia ao zelador e desejava uma ótima semana aos colegas de trabalho. Era um novo dia e ele não era mais ele. Então, se desejou feliz aniversário e continuou, para todo sempre, repolhosamente, feliz.
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